segunda-feira, 8 de julho de 2013

UMA ABORDAGEM DE LEITURA DO CONTO DESENREDO DE GUIMARÃES ROSA POR MARCIA...

 
 
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PALESTRA DE MÁRCIA PESSANHA
 
NA ACADEMIA NITEROIENSE DE LETRAS
 
 
(BASTA CLICAR AQUI NA IMAGEM)
 

 
 
A partir da leitura do conto “Desenredo“, que está no último livro publicado em vida por João Guimarães Rosa, “Tutaméia: Terceiras Estórias“, Márcia Pessanha.  Apresenta a análise dos elementos da narrativa apresentados nos seguintes  tópicos: Contador–Narrador: Oralidade e Escrita, em que discute a existência de  dois tipos de narradores, bem como aspectos da narrativa oral e escrita; Intertextos  e sentidos dos nomes dos personagens. Em enfoque a análise dos nomes das figuras principais, fazendo uma intertextualidade com personagens de outras estórias literárias, especialmente: Ulisses da Odisseia de Homero, a Bíblia (Adão, Eva, Jó), comparando as máximas desconstruídas de João Guimarães Rosa em relação a ditos populares e por fim, bem como focalizado o tópico funcionalidade espaço–temporal.
 

DESENREDO


João Guimarães Rosa
 

Do narrador a seus ouvintes:- Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irvília, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.
Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jô Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas muito tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Não se via quando e como se viam. Jô Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que veio o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro... Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o Diz-se, também, que de leve a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela - longe – sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a aguentar-se, nas defeituosas emoções. Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou – ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam. Deu-se a entrada dos demônios. Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou fugida a mulher, a desconhecido destino. Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade – idéia inata. Entrego-se e remir, redimir a mulher, à conta inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar.de sofrer e amar, a gente não se desafaz. ele queria apenas os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como refritar almôndegas. Sem malícia, compaciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda,conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial operava o passado – plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa.
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar – e qualquer causa se irrefuta. Pois, produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retornaram-se, e, conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida. E pôs-se a fábula em ata.

 
 
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Um comentário:

SHIRLEY ARAÚJO disse...

Parabéns, aplausos para a nossa querida palestrante Márcia Pessanha que nos enriqueceu muito com sua exuberante palestra sobre Uma Abordagem de Leitura do Conto Desenredo de Guimarães Rosa. Na oportunidade quero expressar aqui a minha admiração por sua erudição maravilhosa.

Abraços,


Shirley Araújo