A Leon Hansen Portugal - Neto de Dalma Nascimento
Houve um tempo em que os homens acreditavam que o mundo terminava onde a vista alcançava. Olhando para esta captura de Leon Hansen Portugal, é difícil não lhes dar razão. Do alto, a Praia de Icaraí se curva como um abraço de areia branca, protegendo a cidade que assiste, em silêncio reverente, ao espetáculo diário da luz que se esvai.
Niterói tem essa nuance elegante: ela não precisa gritar para ser notada. Enquanto o Rio de Janeiro, logo ali do outro lado da Baía de Guanabara, ostenta seus contornos naturais, o Pão de Açúcar, o Corcovado, as serras que recortam o céu como dentes de um gigante, Niterói se coloca como a plateia de ouro. É a cidade que possui a melhor vista do mundo, justamente porque o mundo, para ser belo, precisa ser visto de certa distância.
A luz que Hansen capturou não é uma luz comum. É aquele âmbar líquido que só ocorre quando o ar está carregado de promessas e o dia decide que não quer ir embora sem antes deixar uma cicatriz de beleza na retina de quem observa. A trilha de fogo que corta o centro da baía parece um caminho pavimentado para divindades. No espelho das águas, a agitação urbana se dissolve. Os prédios, enfileirados como sentinelas de concreto, parecem pequenos diante da magnitude do que acontece no horizonte.
Observe as embarcações que riscam o mar. Pequenos pontos que cortam a seda líquida, deixando rastros que desaparecem segundos depois. É uma metáfora da nossa própria passagem: fazemos barulho, deixamos sulcos, mas a imensidão logo se fecha, impassível e eterna.
A fotografia de Leon Hansen nos força a uma pausa metafísica. À direita, a densidade urbana de Niterói, com seus bairros pulsantes e a vida que corre em cada janela iluminada. À esquerda, a natureza bruta, as montanhas que são monumentos naturais, testemunhas de séculos de navegações, batalhas e poesias.
Neste ângulo, a Ponte Rio-Niterói aparece ao fundo, uma linha tênue que tenta costurar dois mundos. Mas a luz do entardecer ignora as construções humanas. Ela prefere se demorar nas nuvens, transformando o céu em uma pintura impressionista onde o azul, o rosa e o dourado duelam em uma harmonia impossível.
Viver em Niterói é saber que, ao final de cada jornada de trabalho, existe o consolo do horizonte. É descer para o calçadão de Icaraí e ver que a luz nivela a todos. O executivo, o pescador, o turista e o morador antigo, todos ficam com o rosto tingido pela mesma cor.
A crônica de uma cidade não se escreve apenas com fatos históricos ou estatísticas econômicas. Ela se escreve com o ângulo de visão. E o ângulo que Leon Hansen nos oferece é o da esperança. É o lembrete visual de que, apesar do caos das metrópoles e da pressa dos dias, o sol ainda sabe como se pôr com dignidade. Ele ainda sabe como transformar o mar em um altar.
Ao olharmos para esta imagem, somos convidados a ser mais do que apenas observadores. Somos convidados a ser herdeiros dessa beleza. Niterói, sob o olhar sensível de Leon, deixa de ser um ponto no mapa para se tornar um estado de espírito. É o lugar onde a alma descansa enquanto os olhos se perdem no brilho do poente.
Que sorte a nossa, que temos a fotografia para congelar o que o tempo, em sua crueldade, insiste em levar. O sol já se pôs desde que este clique foi feito, mas aqui, nesta crônica e nesta imagem, ele continua a brilhar para sempre.
Créditos Fotográficos: Leon Hansen
©
Alberto Araújo
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