quarta-feira, 11 de março de 2026

11 DE MARÇO DE 2026 – CELEBRAMOS OS 204 ANOS DO NASCIMENTO DE MARIA FIRMINA DOS REIS - EFEMÉRIDES – FOCUS PORTAL CULTURAL



No dia 11 de março de 1822, nascia em São Luís do Maranhão uma mulher destinada a marcar profundamente a história da literatura e da educação brasileira: Maria Firmina dos Reis. Professora, escritora, compositora e pioneira, ela se tornou a primeira romancista negra da América Latina e uma das vozes mais ousadas contra a escravidão em pleno século XIX. Hoje, celebramos os 204 anos de seu nascimento, lembrando sua trajetória de resistência, inovação e legado cultural. 

Maria Firmina cresceu em um Brasil ainda marcado pela escravidão e pelas desigualdades sociais. Filha de Leonor Felipa, uma escrava liberta, e de pai não reconhecido em seus registros de batismo, enfrentou desde cedo os estigmas da origem e da cor. Apesar das dificuldades, destacou-se como autodidata e, em 1847, conquistou a cadeira de primeiras letras na vila de São José de Guimarães, iniciando uma carreira de mais de três décadas como professora. Sua atuação no magistério foi marcada pela dedicação e pela ousadia: em 1870, fundou uma escola mista e gratuita para filhos de lavradores, iniciativa considerada revolucionária para a época, pois defendia a igualdade de acesso à educação entre meninos e meninas. 

Em 1859, Maria Firmina publicou Úrsula, obra que se tornaria um marco da literatura brasileira. Considerado o primeiro romance abolicionista do país, o livro rompeu com os padrões vigentes ao dar protagonismo a personagens negros que denunciavam a crueldade da escravidão e reivindicavam sua humanidade. Mais do que uma narrativa romântica, Úrsula foi um gesto político e literário de resistência, escrito por uma mulher negra em um tempo em que a voz feminina era sistematicamente silenciada. A obra inscreveu Maria Firmina na história como a primeira romancista do Brasil e como pioneira na luta contra a escravidão pela via da literatura.

Sua produção, no entanto, não se limitou a Úrsula. Em 1861, publicou o romance Gupeva, além de poemas e contos em diversos periódicos maranhenses. Em 1887, lançou o conto A Escrava, reafirmando sua posição abolicionista. Também compôs o Hino da Abolição dos Escravos, em 1888, celebrando o fim oficial da escravidão no Brasil. Sua escrita, marcada pela solidariedade e pela identificação com os cativos, antecipou o conceito de escrevivência, mais tarde formulado por Conceição Evaristo, ao transformar sua experiência negra em literatura e resistência. 

Maria Firmina foi descrita como uma mulher de compleição frágil, tímida e melancólica, mas também como uma professora enérgica, respeitada e querida por seus alunos. Nunca se casou, mas dedicou-se à maternidade adotiva, acolhendo e criando diversas crianças. Viveu discretamente, mas sua presença era reverenciada pela comunidade de Guimarães, onde cada passeata popular parava diante de sua casa para saudá-la. Morreu em 11 de novembro de 1917, aos 95 anos, cega e pobre, na casa de uma ex-escrava, Mariazinha, mãe de um de seus filhos de criação. Sua memória, no entanto, permaneceu viva: é a única mulher homenageada com busto na Praça do Pantheon, em São Luís, ao lado de grandes escritores maranhenses. 

O reconhecimento de Maria Firmina dos Reis cresceu ao longo do século XX e XXI. Em 2019, recebeu um doodle do Google em homenagem ao seu 194º aniversário. Em 2022, foi celebrada como grande homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), consolidando seu lugar no cânone literário brasileiro. Mais recentemente, em 2024, a Prefeitura do Rio de Janeiro nomeou uma biblioteca pública em sua memória, reafirmando sua importância como símbolo de resistência, cultura e educação.

Celebrar os 204 anos de Maria Firmina dos Reis é reconhecer a força de uma mulher que, em tempos de escravidão e exclusão, ousou escrever, ensinar e compor em favor da liberdade e da igualdade. Sua obra permanece como testemunho de que a literatura pode ser instrumento de transformação social e de que a voz das mulheres negras é essencial para compreender a história e construir o futuro. 

Hoje, o Focus Portal Cultural reverencia Maria Firmina dos Reis, lembrando que sua vida e obra continuam a inspirar gerações e a iluminar os caminhos da cultura brasileira. 

LISTA DE OBRAS 

Seleção obtida a partir do livro Escritoras brasileiras do século XIX: Antologia.

LIVROS 

Úrsula: romance original brasileiro. São Luiz: Typographia do Progresso, 1859.

Gupeva. Romance, 1861/1862 (O jardim dos Maranhenses) e 1863 (Porto Livre e Eco da Juventude).

Poemas em: Parnaso maranhense, 1861.

A escrava. Conto, 1887 (A Revista Maranhense n° 3)

Cantos à beira-mar. Poesias, 1871.

Hino da libertação dos escravos. 1888.

POEMAS 

Publicados em: A Imprensa, Publicador Maranhense; A Verdadeira Marmota; Almanaque de Lembranças Brasileiras; Eco da Juventude; Semanário Maranhense; O Jardim dos Maranhenses; Porto Livre; O Domingo; O País; A Revista Maranhense; Diário do Maranhão; Pacotilha; Federalista. 

COMPOSIÇÕES MUSICAIS 

As composições que atualmente temos acesso foram copiadas pelo maestro Zequita, como era conhecido o saxofonista José Soeiro, que transcreveu as composições para a linguagem musical.

Boi Caramba (música) (copista Zequita)

Valsa (letra de Gonçalves Dias e música de Maria Firmina dos Reis) (cop. Zequita)

Auto de bumba-meu-boi (letra e música);

Hino à Mocidade (letra e música) (cop. Zequita)

Hino à liberdade dos escravos - fragmento composto por ocasião do 13 de maio (letra e música) (cop. Zequita)

Rosinha (letra e música)

Chamada dos Pastores (música)

Valsa (música)

Pastor estrela do oriente (letra e música);

Canto de recordação (“à Praia de Cumã”; letra e música).

Canção à Praia do Cumã – letra e música de Maria Firmina dos Reis (cop. Zequita)


O MEU DESEJO

 A UM JOVEM POETA GUIMARAENSE

 

Na hora em que vibrou a mais sensível

Corda de tu'alma - a da saudade,

Deus mandou-te, poeta, um alaúde,

E disse: Canta amor na soledade.

Escuta a voz do céu, - eia, cantor,

Desfere um canto de infinito amor.

 

Canta os extremos duma mãe querida,

Que te idolatra, que te adora tanto!

Canta das meigas, das gentis irmãs,

O ledo riso de celeste encanto;

E ao velho pai, que tanto amor te deu,

Grato oferece-lhe o alaúde teu.

 

E a liberdade, - oh! poeta, - canta,

Que fora o mundo a continuar nas trevas?

Sem ela as letras não teriam vida,

menos seriam que no chão as relvas:

Toma por timbre liberdade, e glória,

Teu nome um dia viverá na história.

 

Canta, poeta, no alaúde teu,

Ternos suspiros da chorosa amante;

Canta teu berço de saudade infinda,

Funda lembrança de quem está distante:

Afina as cordas de gentis primores,

Dá-nos teus cantos trescalando odores.

 

Canta do exílio com melífluo acento,

Como Davi a recordar saudade;

Embora ao riso se misture o pranto;

Embora gemas em cruel soidade...

Canta, poeta, - teu cantar assim,

Há de ser belo enlevador enfim.

 

Nos teus harpejos juvenil poeta,

Canta as grandezas que se encerram em Deus,

Do sol o disco, - a merencória lua,

Mimosos astros a fulgir nos céus;

Canta o Cordeiro, que gemeu na Cruz,

Raio infinito de esplendente luz.

 

Canta, poeta, teu cantar singelo,

meigo, sereno com um riso d'anjos;

Canta a natura, a primavera, as flores,

Canta a mulher a semelhar arcanjos.

Que Deus envia à desolada terra,

Bálsamo santo, que em seu seio encerra.

 

Canta, poeta, a liberdade, - canta.

Que fora o mundo sem fanal tão grato...

Anjo baixado da celeste altura,

Que espanca as trevas deste mundo ingrato.

Oh! sim, poeta, liberdade, e glória

Toma por timbre, e viverás na história.

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Eu não te ordeno, te peço,

Não é querer, é desejo;

São estes meus votos - sim.

Nem outra cousa eu almejo.

E que mais posso eu querer?

Ver-te Camões, Dante ou Milton,

Ver-te poeta - e morrer.

- Maria Firmina dos Reis, no livro "Cantos à beira mar". São Luís do Maranhão, 1871, p. 33-35.


© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 














 

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