FICAS
TÃO BONITO A DORMIR! - SOPHIA DE MELLO BREYNER
Quero
nos teus quartos forrados de luar
onde
nenhum dos meus gestos faz barulho a voltar.
E
sentar-me um instante
na
beira da janela contra os astros
e
olhando para dentro, contemplar-te,
tu
dormindo, antes de jamais teres acordado,
tu
como um rio adormecido e doce
seguindo
a voz do vento e a voz do mar
subindo
as escadas que sobem pelo ar.
PARAFRASEANDO
O POEMA
FICAS
TÃO BONITO A DORMIR! - SOPHIA DE MELLO BREYNER.
TU DORMINDO, ANTES DE
JAMAIS TERES ACORDADO
Quero avançar pelo teu quarto velado
de luar,
onde cada
movimento meu é um silêncio
que regressa
sem quebrar a noite.
E deter-me
um instante no limiar da luz,
na fronteira
exata entre os astros e o infinito,
para, do
lado de fora, olhar para dentro
e contemplar
o teu repouso intacto:
tu,
suspensa no tempo,
antes de
qualquer sobressalto ou alvorada,
tu, como um
curso de água calmo e límpido
que cede
sem resistência à voz do vento
e ao rumor
distante do oceano.
Minha musa,
você é uma presença que se eleva sem ruído,
subindo os
degraus invisíveis do ar.
©
Alberto Araújo
BIOGRAFIA
DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
Sophia de Mello Breyner nasceu a 6 de novembro
de 1919, no Porto. Passou a infância e a adolescência entre o Porto e
Lisboa, cidade onde frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de
Letras.
A sua poesia acompanhou este compromisso cívico,
erguendo-se como uma voz de liberdade (com especial destaque para a obra O
Livro Sexto).
Contemporânea de autores como Jorge de Sena,
Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill e David Mourão-Ferreira, integrou a
geração de Cadernos de Poesia (1940-42) e colaborou nas revistas Távola
Redonda e Árvore.
Modernidade Clássica: Equilíbrio entre a busca pelo
mistério poético e uma rigorosa depuração formal.
Distanciamento do Neo-realismo e Surrealismo: A sua técnica serve a celebração
poética, sem se limitar à mera representação do real (neo-realismo) nem ao jogo
estrito de intuições imediatas (surrealismo).
Tonalidade Mediterrânica: Presença constante da cultura
grega, da luminosidade, da transparência, da luz, da verticalidade e de uma
forte ligação ao mar.
Literatura Infantil: Inicialmente escritas para os
seus cinco filhos, as suas histórias tornaram-se clássicos da literatura para
crianças em Portugal, marcando gerações de leitores com obras como O Rapaz
de Bronze, A Fada Oriana e A Menina do Mar.
Traduções: Traduziu para português obras de autores como
Claudel (Anunciação a Maria), Dante (Purgatório), Shakespeare (Hamlet
e Muito Barulho por Nada) e Eurípedes (Medeia). Traduziu também
para francês poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando
Pessoa.
Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. Exatamente dez anos após o seu falecimento, a 2 de julho de 2014, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional.
© Alberto
Araújo
Focus
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