domingo, 11 de outubro de 2026

FICAS TÃO BONITO A DORMIR! - SOPHIA DE MELLO BREYNER

 


FICAS TÃO BONITO A DORMIR! - SOPHIA DE MELLO BREYNER

 

Quero nos teus quartos forrados de luar

onde nenhum dos meus gestos faz barulho a voltar.

 

E sentar-me um instante

na beira da janela contra os astros

e olhando para dentro, contemplar-te,

tu dormindo, antes de jamais teres acordado,

tu como um rio adormecido e doce

seguindo a voz do vento e a voz do mar

subindo as escadas que sobem pelo ar.

 

PARAFRASEANDO O POEMA

FICAS TÃO BONITO A DORMIR! - SOPHIA DE MELLO BREYNER.

 

TU DORMINDO, ANTES DE JAMAIS TERES ACORDADO

 

Quero avançar pelo teu quarto velado de luar,

onde cada movimento meu é um silêncio

que regressa sem quebrar a noite.

 

E deter-me um instante no limiar da luz,

na fronteira exata entre os astros e o infinito,

para, do lado de fora, olhar para dentro

e contemplar o teu repouso intacto:

tu, suspensa no tempo,

antes de qualquer sobressalto ou alvorada,

tu, como um curso de água calmo e límpido

que cede sem resistência à voz do vento

e ao rumor distante do oceano.

 

Minha musa, você é uma presença que se eleva sem ruído,

subindo os degraus invisíveis do ar.

 

© Alberto Araújo

 

 

BIOGRAFIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Sophia de Mello Breyner nasceu a 6 de novembro de 1919, no Porto. Passou a infância e a adolescência entre o Porto e Lisboa, cidade onde frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras.

A sua poesia acompanhou este compromisso cívico, erguendo-se como uma voz de liberdade (com especial destaque para a obra O Livro Sexto).

Contemporânea de autores como Jorge de Sena, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill e David Mourão-Ferreira, integrou a geração de Cadernos de Poesia (1940-42) e colaborou nas revistas Távola Redonda e Árvore.

Modernidade Clássica: Equilíbrio entre a busca pelo mistério poético e uma rigorosa depuração formal.

Distanciamento do Neo-realismo e Surrealismo: A sua técnica serve a celebração poética, sem se limitar à mera representação do real (neo-realismo) nem ao jogo estrito de intuições imediatas (surrealismo).

Tonalidade Mediterrânica: Presença constante da cultura grega, da luminosidade, da transparência, da luz, da verticalidade e de uma forte ligação ao mar.

Literatura Infantil: Inicialmente escritas para os seus cinco filhos, as suas histórias tornaram-se clássicos da literatura para crianças em Portugal, marcando gerações de leitores com obras como O Rapaz de Bronze, A Fada Oriana e A Menina do Mar.

Traduções: Traduziu para português obras de autores como Claudel (Anunciação a Maria), Dante (Purgatório), Shakespeare (Hamlet e Muito Barulho por Nada) e Eurípedes (Medeia). Traduziu também para francês poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen faleceu a 2 de julho de 2004, em Lisboa. Exatamente dez anos após o seu falecimento, a 2 de julho de 2014, o seu corpo foi trasladado para o Panteão Nacional. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 




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