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Bastam
os primeiros acordes para que o tempo recue quase quatro décadas. Sobre a
colina de Montjuïc, entre as muralhas de um castelo carregado de história e as
luzes de Barcelona, duas vozes se uniram para transformar uma canção em
eternidade: Freddie Mercury e Montserrat Caballé interpretando How Can I Go On.
Sempre
que Shirley assiste a essa apresentação, algo especial acontece. Não é apenas a
lembrança de uma obra extraordinária. É a sensação de retornar a um instante
raro, quando a música falou diretamente à alma e dissolveu as fronteiras entre
o popular e o erudito, entre a força e a delicadeza, entre a dor e a esperança.
Na
noite de 8 de outubro de 1988, Barcelona vivia um momento de celebração e
expectativa. O festival La Nit marcava a chegada da bandeira olímpica vinda de
Seul, um símbolo da jornada que conduziria a cidade aos Jogos Olímpicos de
1992. Tendo como cenário o histórico Castelo de Montjuïc, a celebração ganhou
contornos de acontecimento cultural quando Freddie Mercury e a soprano catalã
Montserrat Caballé subiram ao palco para apresentar canções do álbum Barcelona,
um encontro artístico que redefiniu os limites entre a música popular e a
lírica.
Lançado
naquele mesmo ano, Barcelona foi mais do que um álbum. Foi a materialização de
um sonho compartilhado por Freddie Mercury, apaixonado pela música clássica e
admirador declarado de Montserrat Caballé. O projeto reuniu nove composições
que mesclavam a força do rock, a sofisticação da música sinfônica e a
grandiosidade da tradição operística. Entre todas elas, How Can I Go On ocupa um
lugar especial por sua profunda carga emocional e por revelar um Freddie
Mercury mais introspectivo, vulnerável e humano.
Composta
por Freddie Mercury e Mike Moran, a canção se afasta do brilho exuberante
associado à imagem pública do cantor e mergulha em questões universais que
atravessam a existência humana. A letra fala sobre a fragilidade que surge
quando perdemos aquilo que julgávamos indispensável.
Logo
nos primeiros versos, a metáfora do sal retirado do mar sugere a ausência do
que sustenta a própria essência da vida. O eu lírico sente-se destronado,
exposto e ferido, como alguém que enfrenta não apenas a dor da perda, mas
também o peso do julgamento e da incompreensão.
A
pergunta que dá título à música transforma-se no fio condutor de toda a
narrativa emocional:
"How
can I go on?
From day to day?
Who can make me strong in every way?"
Não
são apenas versos. São questionamentos que ecoam nas inquietações de qualquer
ser humano diante das adversidades. Como seguir em frente quando os sonhos se
desfazem? Como encontrar forças quando a esperança parece distante? Onde
encontrar abrigo em um mundo marcado pela tristeza e pela incerteza?
Ao
longo da canção, essas perguntas assumem a forma de uma súplica. Há um desejo
profundo de acolhimento, conforto e compreensão. A voz de Freddie conduz esse
sentimento com uma intensidade quase confessional, como se cada palavra
carregasse experiências pessoais, medos ocultos e cicatrizes invisíveis. Quando
Montserrat Caballé se junta a ele, a música ganha uma dimensão ainda mais
ampla. Sua voz parece elevar a dor individual a uma esfera universal, onde
sofrimento e esperança coexistem em delicado equilíbrio.
É
justamente nesse encontro vocal que reside uma das maiores belezas da obra.
Freddie não abandona sua identidade artística; pelo contrário, reafirma sua
expressividade característica. Montserrat, por sua vez, oferece a elegância e a
potência de uma das maiores vozes da ópera contemporânea. Juntos, eles criam
uma interpretação que suplanta gêneros musicais e alcança algo raramente
conquistado pela arte: a capacidade de emocionar públicos completamente
distintos por meio de uma mesma linguagem emocional.
Talvez
seja justamente isso que torne essa apresentação tão fascinante para Shirley.
Ao assistir ao vídeo, não se contempla apenas um registro histórico.
Presencia-se um diálogo entre sensibilidades distintas que se unem para
expressar sentimentos universais. Cada nota parece carregar uma verdade difícil
de traduzir em palavras. Cada olhar entre os intérpretes revela respeito mútuo,
admiração artística e entrega absoluta à música.
Shirley
se encanta especialmente com a presença de Montserrat Caballé. Os olhos expressivos,
os gestos delicados das mãos, a naturalidade com que cada frase musical ganha
vida e, sobretudo, a sublime interpretação da soprano exercem sobre ela um
fascínio quase hipnótico. A emoção renasce a cada nova exibição.
Já
perdi a conta de quantas vezes ela assistiu a esse vídeo no YouTube. Às vezes,
estou no escritório e ouço os primeiros acordes da canção. Imediatamente penso:
"Shirley deve estar emocionada mais uma vez". Quando vou até onde ela
está, encontro-a radiante, completamente envolvida pela magia daquele encontro
inesquecível entre Freddie Mercury e Montserrat Caballé.
O
cenário contribui para essa atmosfera quase mágica. As muralhas centenárias de
Montjuïc parecem testemunhar o encontro entre passado e futuro. Enquanto
Barcelona se preparava para assumir seu protagonismo olímpico diante do mundo,
aquela apresentação demonstrava que sua vocação cultural era igualmente
grandiosa. A cidade tornava-se palco de uma celebração da diversidade
artística, unindo tradição e modernidade, erudição e popularidade em perfeita
sintonia.
Décadas
se passaram desde aquela noite memorável, mas a emoção permanece intacta. O
vídeo continua a encantar novas gerações e a despertar nos admiradores a mesma
sensação de deslumbramento. Talvez porque a música fale diretamente das
fragilidades que todos compartilhamos. Talvez porque Freddie Mercury e
Montserrat Caballé tenham conseguido transformar sentimentos íntimos em arte
universal. Ou talvez porque certas interpretações possuam a rara capacidade de
resistir ao tempo e continuar tocando corações muito depois de seu primeiro
aplauso.
Para
Shirley, assistir a How Can I Go On é voltar a um desses instantes que a
história preservou com carinho. Um momento em que duas vozes extraordinárias
encontraram a medida exata entre a dor e a esperança, entre a vulnerabilidade e
a força. Um momento em que a música deixou de ser apenas entretenimento para se
tornar emoção em estado puro.
E,
enquanto as últimas notas ecoam sobre a antiga colina de Montjuïc, permanece a
certeza de que algumas canções não terminam quando o silêncio chega. Elas
continuam vivendo na memória, na sensibilidade e no coração daqueles que, como
Shirley, descobriram nelas uma beleza capaz de atravessar os anos e renovar, a
cada audição, o encanto diante da arte verdadeira.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
How Can
I Go On
When all the salt is taken from the sea
I stand dethroned, I'm naked and I bleed
But when your finger points so savagely
Is anybody there to believe in me
To hear my plea and take care of me
How can I go on
From day to day
Who can make me strong in every way
Where can I be safe
Where can I belong
In this great big world of sadness
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared
They're lost and are nowhere to be found
How can I go on
Sometimes I start to tremble in the dark
I cannot see when people frighten me
I try to hide myself so far from the crowd
Is anybody there to comfort me?
(on and on, and on, and on, precious Lord, hear my plea, yeah)
Lord take care of me
How can I go on (how can I go on)
From day to day (from day to day)
Who can make me strong (who can make me strong)
In every way (in every way)
Where can I be safe (where can I be safe)
Where can I belong (where can I belong)
In this great big world (in this great big world of sadness)
How can I forget (how can I forget)
Those beautiful dreams that we shared (those beautiful dreams that we shared)
They're lost and are nowhere to be found
How can I go on
Composição: Freddie
Mercury, Mike Moran, Mont Serrat Caballe.
"How Can I Go
On":
Como Posso Continuar
Quando todo o sal for
retirado do mar
Eu fico destronado, estou nu e sangro
Mas quando o seu dedo aponta tão cruelmente
Há alguém aí para acreditar em mim?
Para ouvir meu apelo e cuidar de mim?
Como posso continuar
Dia após dia?
Quem pode me dar forças de todas as maneiras?
Onde posso estar seguro?
Onde posso pertencer?
Neste imenso mundo de tristeza
Como posso esquecer
Aqueles lindos sonhos que compartilhamos?
Eles se perderam e não podem mais ser encontrados
Como posso continuar?
Às vezes começo a tremer na
escuridão
Não consigo enxergar quando as pessoas me assustam
Tento me esconder bem longe da multidão
Há alguém aí para me confortar?
(sem parar, sem parar, sem parar, sem parar, precioso Senhor, ouça meu apelo,
sim)
Senhor, cuide de mim
Como posso continuar (como posso continuar)
Dia após dia (dia após dia)
Quem pode me dar forças (quem pode me dar forças)
De todas as maneiras (de todas as maneiras)
Onde posso estar seguro? (onde posso estar seguro?)
Onde posso pertencer? (onde posso pertencer?)
Neste imenso mundo (neste imenso mundo de tristeza)
Como posso esquecer? (como posso esquecer?)
Aqueles lindos sonhos que compartilhamos (aqueles lindos sonhos que
compartilhamos)
Eles se perderam e não podem mais ser encontrados
Como posso continuar?


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Shirley Araújo disse: Obrigada meu esposo, lindo, doce amor Alberto Araújo da minha vida. Você é demais! Soube com palavras expressar exatamente o que sinto diante do vídeo que com frequência assisto e que me causa prazer carregado de emoção. Meu querido e muito amado esposo Alberto Araújo obrigada, você me emocionou viu.
Amo muito você, meu lindo.
Beijo no sorriso.
Sua,
Shirley