quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A OBRA MACHADO DO ESCRITOR SILVIANO SANTIAGO É O LIVRO INDICADO E ABRILHANTA A VITRINE DO FOCUS, DURANTE O MÊS DE FEVEREIRO. CONFIRA.



Silviano Santiago narra os últimos anos de Machado de Assis em um misto de ensaio, romance e biografia, faz relações entre a doença de Machado e sua escrita.


 

 
Título original: MACHADO
Capa: Marcelo Girard
Páginas: 424
Formato: 14.00 x 21.00 cm
 Acabamento: Brochura
Lançamento: 07/12/2016
ISBN: 9788535928365
 Editora: Companhia das Letras

 

A obra Machado do escritor Silviano Santiago é o livro indicado e abrilhanta a Vitrine do Focus Portal Cultural, durante todo o mês de fevereiro de 2017.  


O autor se debruça nos quatro últimos anos do autor de “Dom Casmurro”, um período relativamente desprezado por críticos, biógrafos e historiadores.

Numa escrita que transita entre romance, ensaio e biografia, busca as relações entre o drama íntimo de um Machado solitário, em luto pela morte da mulher, Carolina, e castigado por problemas de saúde e pela epilepsia, e as redes de intrigas do Rio de Francisco Pereira Passos.

Mas há ainda outra conexão: ao expor a sua pesquisa e torná-la transparente, o autor se coloca como um dos protagonistas, um narrador perdido entre seus livros, suas obsessões e suas ligações com o biografado.


SINOPSE
 
Rio de Janeiro, começo do século XX. Viúvo e solitário, Machado de Assis sofre fortes dores e crises nervosas enquanto testemunha a modernização da antiga cidade do Rio de Janeiro.
Em Mário de Alencar, filho de José de Alencar, o presidente da Academia Brasileira de Letras encontrará um precioso interlocutor, que também sofre terríveis crises nervosas e o encaminhará ao Dr. Miguel Couto.
Qual é a relação entre as convulsões de Machado e sua genial criação?  Depois de narrar passagens inauditas das vidas de Graciliano Ramos e Antonin Artaud, Silviano Santiago oferece uma perspectiva totalmente original e audaciosa dos últimos anos de vida de um dos maiores romancistas de todos os tempos.


LEIA UM TRECHO DO LIVRO.


Carlos de Laet, Machado de Assis e Gustave Flaubert.

Um homem que começa mentindo disfarçada ou descaradamente acaba muita vez exato e sincero. Machado de Assis, Memorial de Aires, 21 de maio de 1888 Ora, para caracterizar os retornos a Freud e a Marx, é preciso acrescentar um último atributo: eles se fazem com vistas a uma espécie de costura enigmática da obra e do autor. Michel Foucault, “O que é um autor?”


CAPÍTULO I

 
Compro o quinto volume da correspondência de Machado de Assis na manhã do dia 24 de junho de 2015. Datas-limite definem e recobrem o material anotado com competência por especialistas e publicado pela Academia Brasileira de Letras: 1905-1908. Se recortada, a curta fração de tempo ganha o formato de ponto de interrogação e sobressai de forma agressiva e incontornável. Os nove caracteres — oito algarismos unidos quatro a quatro por traço — vêm impressos em negro na capa que guarnece cartas e mais cartas de Machado de Assis e de seus correspondentes. É inestimável a valia do volume para o estudioso da literatura ou para o simples observador da história nacional no início do século XX.

Lá dentro, entre 1905 e 1908, se desenrola o cotidiano dos últimos anos de vida do grande romancista brasileiro que nasce na corte imperial em 1839. Passa toda a vida na metrópole, com curta estada em Petrópolis e em Nova Friburgo, e vem a falecer no bairro do Cosme Velho, em setembro de 1908, viúvo da portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais, e sem filhos. Fixo os olhos no lado de fora do volume. Aprecio a curta fração de tempo que acoberta a reta final duma compacta e misteriosa vida profissional, vivida de modo a realçar os valores nobres que uma nação formada por indígenas, conquistadores lusitanos, escravos africanos e colonos europeus pode manifestar no Novo Mundo. Salienta-se a reta final duma vida bem tecida com amizades e amor, de muito trabalho e muito sofrida.


Aprecio a curta fração de tempo. Fascina-me enxergar a graça e o valor da experiência humana pela abreviação de longo e extraordinário percurso individual em pouquíssimos anos salientes. Nada responsabiliza mais o cidadão brasileiro letrado e o acusa de conluio vergonhoso com a ditadura imposta pelo Palácio do Catete que o relato dos meses que se seguem ao dia 13 de janeiro de 1937, dia em que o romancista Graciliano Ramos deixa a prisão a que fora condenado sem julgamento pelo regime Getúlio Vargas. Se o latino-americano negligenciar a viagem em 1936 do dramaturgo francês Antonin Artaud ao México, então presidido por Lázaro Cárdenas, não terá se adentrado com coragem e paixão pelas longas e intrincadas relações nos planos político e cultural entre os colonizadores espanhóis e os índios astecas e pelas relações pós-coloniais entre a Europa e a América Latina.


Ao negligenciar alguns meses das experiências de vida de Graciliano e de Artaud, nosso compatriota estaria também negligenciando o significado profundo da imersão tardia dos latino-americanos no fogo cruzado da Segunda Grande Guerra e o modo como a poderosa nação ao norte joga a bomba atômica em Hiroshima, chuta pra escanteio a Inglaterra e assume de modo dramático e incontestável a liderança mundial. 1905-1908. Um grão da areia que cobre as extensas praias que banham o oceano Atlântico. E se eu, para curar a intranquilidade que me assalta nos momentos duros da solidão derradeira, que desmorona o corpo e desmantela minha imaginação, decidisse domesticar, neste ano de 2015, a linguagem da viuvez e da velhice de Machado de Assis no modo como se amansa o filhote rebelde e arisco para transformá-lo em companheiro e interlocutor calado, em animal de estimação? E se a curta fração de tempo vivida e impressa em negro na capa do livro fosse respeitada por mim como bula de remédio milagroso?


Há que se precaver com metáforas. Adestramento da vida selvagem alheia e bulas de medicamento simbólico são por natureza exercícios inequívocos e ditatoriais e servem para reafirmar a eficácia de quem quer manter curtas as rédeas sobre o próprio corpo ou sobre o corpo alheio. No final, regras de adestramento e bulas propõem mais do que dispõem. Ao espalharem aos quatro ventos os benefícios fortificantes do controle físico e do autocontrole emocional, querem esconder melhor os danos colaterais. Arrisco-me, assim mesmo.

 

Na hora de dormir, enquanto afofo o travesseiro, os dois olhos arregalados e agradecidos do filhote domesticado me espiam com meiguice. Deito na cama, recosto a cabeça, estendo o corpo e o recubro, e me encaminho devagarzinho para o sono. Boa noite — Machado de Assis e eu nos despedimos em silêncio conivente para nos reencontrarmos nas regeneradoras aleias do sonho, lugar onde — e momento em que — o happy ending se assemelha a moral de fábula e diz que, ao embalo dos braços de Morfeu, os acontecimentos da véspera e os dramas tristes da vida são amadurecidos e caem do galho. Ao me levantar bem-humorado na manhã seguinte, calçar os chinelos e vestir o robe de chambre sobre o pijama, as quatro patas do bichinho de estimação se espreguiçam, distendem e me acompanham servilmente pelos cômodos do apartamento até a mesa. Espera-nos o café da manhã. Sirvo-o. Reinou a tranquilidade nas horas mais desamparadas e perigosas da nossa vida de velhos solitários. Sem filhos e recém-viúvo, Machado de Assis continua a vivência e a rotina de pai de família casado, de funcionário público qualificado e cumpridor dos deveres, de refinado artesão das letras e amigo dos amigos. Depois da morte da patroa, as duas criadas permanecem no chalé do Cosme Velho. Carolina e Jovita se transformam em guardiãs durante o dia e anjos da guarda à noite. Para evitar lembranças amargas ou constrangimento diante de visita menos íntima, Machado alonga os nomes das criadas. Para a primeira adota o nome de Carolina Pereira e para a segunda, o de Jovita Maria. Apresentam-se mais como reorganizadoras da memória doméstica do que como alicerce ao sobrevivente castigado pela perda da doce Carolina no dia 20 de outubro de 1904.


São proibidas pelo patrão de deslocar um único móvel ou objeto em toda a casa e de abolir ou simplificar os arranjos domésticos no quarto de dormir, na sala de banhos ou na sala de jantar e na cozinha. Bem que as duas tentaram retirar do lugar privilegiado a cadeira de dois assentos opostos, chamada de conversadeira, mas não conseguiram. Carolina Pereira volta a ter o cuidado — lembro e intercalo a observação feita por amigo íntimo do viúvo — em continuar a dispor na mesa de jantar os dois guardanapos, as duas xícaras e os dois pratinhos rasos, acompanhados dos dois jogos de talheres. Revela que, mal acesas as luzes da casa, o fantasma de Carolina abandona a cova no Cemitério de São João Batista, volta a sentar no lugar de sempre, à cabeceira, para tomar o café da manhã com o marido. No Ministério da Indústria, Viação e Obras Públicas, onde tem a função de chefe de contabilidade, na Livraria Garnier, onde passa o final das tardes a conversar com colegas de literatura, e na recém-fundada Academia Brasileira de Letras, de que é o presidente desde a fundação em 1896, fala-se à boca pequena que, em virtude da solidão e da tristeza reinante no lar, as antigas e intermitentes crises nervosas do viúvo (as chamadas “vertigens”, causadas pela imprudência de não conseguir seguir à risca o conselho médico e evitar o café) estão se tornando constantes e públicas. Observa-se e se comenta que o aplicado funcionário público, o leitor atento e crítico da produção literária clássica e europeia e o romancista de renome internacional estão os três enfermos. Os três continuam também produtivos e, a cada dia que passa, mais exibem os achaques da idade aos íntimos e ao médico clínico, o Dr. Miguel Couto. No entanto, o amanuense, o crítico e o escritor conseguem impor em público — como bem centrado núcleo da personalidade senhorial — a figura morena e frágil, de chapéu entre os dedos, mas sempre altiva, que, por tartamudear, se expressa em tom de sussurro. Nos momentos mais castigados do dia, o vir probus, com residência em chalé no bairro do Cosme Velho, alugado dos condes de São Mamede, se esconde por detrás do pincenê de cordão, da barba e do bigode bem aparados. Esconde-se, e sorri de modo discretíssimo e franco, como bruxo zombeteiro que aprendeu a resolver tantos enigmas humanos com o pó de cocaína sorvido nos livros que ama...

 
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SILVIANO SANTIAGO


 

Nasceu em 1936, em Formiga (MG). É o romancista de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015.

Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas.

Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti.

Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro.




 

 
 
 
 
 
 
 
APOIO CULTURAL





 


 COMENTÁRIO


 
Caro Alberto, excelente a matéria publicada por você. Li Silviano Santiago, no CLIC, "Em Liberdade", e gostei muito. E Machado de Assís, nem se fala. Pretendo ler "Machado". Obrigada!
Abraços.
Elenir
 



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Um intelectual do quilate de Silviano Santiago transcende -pelas qualidades e performances- ao plano médio dos homens de letras. Sua maior característica é a coragem de envolver-se (imiscuir-se mesmo!) com a obra de seus personagens. Dizem-se personagens as figuras humanas que ele vasculha, enobrece e retrata ao escrever sobre elas.

 O livro do mês (mais uma escolha brilhante do Blog de Alberto) não é um relato tecnicista dos últimos momentos de Machado de Assis. É uma reinvenção vigorosa daquele autor mitológico, com as dez digitais de Silviano, carimbadas, despudoradamente, da primeira a última linha, num enlace que nos escandaliza, deliciosamente.


Nasceu em 1936, em Formiga (MG). É o romancista de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015.

Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas.

Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti.

Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro.
  
 
 
 
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FONTE:


 


 

Um comentário:

Luiz Carlos Lemme disse...

Um intelectual do quilate de Silviano Santiago transcende -pelas qualidades e performances- ao plano médio dos homens de letras. Sua maior característica é a coragem de envolver-se (imiscuir-se mesmo!) com a obra de seus personagens. Dizem-se personagens as figuras humanas que ele vasculha, enobrece e retrata ao escrever sobre elas.
O livro do mês (mais uma escolha brilhante do Blog de Alberto) não é um relato tecnicista dos últimos momentos de Machado de Assis. É uma reinvenção vigorosa daquele autor mitológico, com as dez digitais de Silviano, carimbadas, despudoradamente, da primeira a última linha, num enlace que nos escandaliza, deliciosamente.


Nasceu em 1936, em Formiga (MG). É o romancista de Mil rosas roubadas, vencedor do prêmio Oceanos em 2015.

Sua vasta obra inclui romances, contos, ensaios literários e culturais. Doutor em letras pela Sorbonne, Silviano começou a carreira lecionando nas melhores universidades norte-americanas.

Transferiu-se posteriormente para a PUC-Rio e é, hoje, professor emérito da UFF. Por três vezes foi distinguido com o prêmio Jabuti.

Pelo conjunto da produção literária, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras e o José Donoso, do Chile. Silviano vive hoje no Rio de Janeiro.