APRESENTAÇÃO: O que você encontrará nestas
páginas é o resultado de um diálogo que travei entre a arquitetura de Barcelona
e a intimidade da minha mesa de trabalho em Niterói. Ao contemplar a
resiliência do monumento de Joan Brossa, percebi que o meu escritório não é
apenas um cômodo, mas um universo de equilíbrio. Neste ensaio, abro meu
gabinete para mostrar como a música, a literatura e a vida acadêmica se
entrelaçam na minha escrita. Proponho a você uma reflexão sobre o livro como um
"tentetieso", aquele que,
mesmo balançado pelas tempestades do mundo, insiste em permanecer de pé. Deixo
aqui a minha assinatura e o meu convite: entre e sinta a ressonância das
palavras que, como o aço inoxidável, buscam vencer o esquecimento.
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O PÊNDULO
DA ETERNIDADE – ENSAIO SOBRE O GABINETE, A ESCRITA E A RESSONÂNCIA DO SER
I. A
Geometria do Equilíbrio: O Monumento como Espelho
No coração pulsante de
Barcelona, onde a Gran Via de les Corts Catalanes encontra o Passeig de Gràcia,
repousa uma profecia de aço. O Monument al Llibre, de Joan Brossa, não é
uma estrutura estática; é um poema visual que desafia a gravidade. O livro,
entreaberto sobre uma semiesfera azul, evoca o tentetieso, o brinquedo
que, por mais que seja golpeado pelo destino, recusa-se a permanecer caído.
Esta
imagem ressoa com uma força telúrica para quem fez da palavra e da cultura o
seu ofício. O livro ali exposto é uma metonímia da própria condição humana. A
base azul representa o imenso e incerto mar da existência, e o livro,
equilibrado em seu centro, é a bússola que nos permite navegar sem naufragar.
Para mim, essa escultura não é um ponto turístico em um mapa europeu; é a
representação física do que sinto ao cruzar o batente da porta do meu
escritório. Ali, o mundo exterior se cala para que o universo interior possa,
finalmente, falar.
II. O
Gabinete: O Microcosmo da Alquimia
Se em Barcelona o monumento é público e urbano, no
silêncio do meu refúgio ele se torna íntimo e sagrado. Meu escritório não é um
local de trabalho no sentido burocrático; é um gabinete de curiosidades, um
laboratório de alquimia onde a matéria-prima é o pensamento. É o meu
"mundo", o território onde sou, simultaneamente, o explorador e a
terra descoberta.
Neste espaço,
o tempo assume uma cronologia distinta. Ao fechar a porta, o ruído das ruas de
Niterói se desvanece. As estantes, carregadas de lombadas que guardam segredos
seculares, formam as muralhas de uma fortaleza de papel. É neste microcosmo que
componho. E a composição, aqui, é um ato de resistência. Em um mundo que exige
pressa e superficialidade, o ato de sentar-se à mesa para tecer um texto ou
organizar uma edição do "Focus Portal Cultural" é o meu modo de dizer
que o livro, assim como o monumento, sempre volta a se endireitar.
III. A
Melodia das Palavras: O Piano Invisível da Escrita
A ampliação deste ensaio exige
que falemos da música que habita o silêncio. Como um jornalista que respira a
cultura e um apreciador das harmonias clássicas, sei que a escrita é, em sua
essência, uma forma de musicar o pensamento. Se o monumento de Brossa tem uma
estrutura metálica, a minha escrita busca a estrutura de uma sonata ou a
fluidez de um improviso de jazz.
Muitas
vezes, enquanto componho minhas crônicas, sinto que as teclas do computador se
transformam nas teclas de um piano. Existe um ritmo na frase, uma pausa
necessária, o sustenido de uma exclamação, o bemol de uma reticência. Amo os
livros porque eles são partituras de vidas alheias que eu aprendo a tocar com
os olhos. No meu escritório, a presença da música não é apenas sonora; é
estrutural. A harmonia que busco entre as estantes é a mesma que um mestre
procura ao sentar-se diante de um Steinway: a nota exata que faz a alma vibrar.
IV. A
Metamorfose da Matéria: Da Ferrugem à Imortalidade
A história da obra de Brossa nos
ensina sobre a vulnerabilidade. Originalmente feito de ferro, o monumento
sofreu a corrosão do tempo e do clima marítimo, exigindo uma restauração em aço
inoxidável em 2002. Essa transição é uma metáfora poderosa para a trajetória de
um escritor e jornalista.
Quantas
vezes nossas ideias iniciais são feitas de um ferro bruto, suscetíveis à
oxidação das críticas, do cansaço ou da desesperança? No entanto, a convivência
diária com a literatura opera em nós uma restauração. O amor pelos livros é o
que impede que o espírito oxide. No meu escritório, cercado por obras de
Clarice Lispector, Nélida Piñon e tantos outros mestres que considero mentores
silenciosos, eu me refaço em "aço". A cultura é o verniz que protege
a memória contra o esquecimento. Cada página que leio é uma demão de resistência.
V. A
Genealogia do Afeto: Placas na Calçada da Memória
Ao redor do monumento em
Barcelona, placas de metal eternizam assinaturas de grandes escritores
catalães. No pavimento do meu escritório, as placas são feitas de afeto e
memória. Ali estão as presenças invisíveis daqueles que moldaram meu olhar: a
erudição acadêmica das instituições que integro, a amizade dos amigos da
Academia Fluminense de Letras, e o apoio constante da minha "musa",
Shirley, cuja arte e poesia coloram os meus dias.
Amo os livros
porque eles são o elo de uma corrente que não se quebra. Quando escrevo sobre a
história da música, sobre a beleza da Praia de Icaraí ou sobre a força de um
soneto, estou apenas adicionando a minha assinatura ao pé de uma página que
começou a ser escrita séculos atrás. O meu escritório é o ponto de encontro
entre o meu "eu" mais profundo e o "nós" da cultura
universal.
VI. O
Tentetieso da Alma
O Monument
al Llibre termina onde a minha página em branco começa. Se o livro é um
boneco que não cai, a nossa vontade de criar é a força que o empurra de volta
para cima. O mundo pode tentar derrubar a cultura, pode tentar banalizar a
escrita, mas enquanto houver um homem em seu escritório, cercado por seus
livros e movido pela melodia interna das palavras, o equilíbrio será mantido.
Barcelona
tem sua praça; eu tenho minha mesa. Barcelona tem o aço de Brossa; eu tenho a
tinta da minha alma. E, no fim de cada dia de composição, olho para as minhas
estantes e percebo que, como o monumento sobre a esfera azul, eu também me
sinto flutuar, ancorado apenas pelo peso sagrado de um livro entreaberto.
Porque no meu escritório, que é o meu mundo, o livro nunca cai. Ele apenas
aguarda o próximo leitor, o próximo acorde, o próximo sonho.
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
- Fontes sobre o Monumento e
Arte Urbana:
BROSSA,
Joan. Poemas Visuais. Barcelona: Edicions 62, 1994.
GRÊMIO DE
LIVREIROS DE ANTIGUIDADES DA CATALUNHA. História do Monument al Llibre.
Barcelona: Arquivo Histórico de Barcelona, 2026.
GOOGLE. Monument
al Llibre: História e Simbolismo. Pesquisa digital realizada em 2026.
- Influências Literárias e
Estilísticas:
LISPECTOR,
Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1973.
PIÑON,
Nélida. Livro das Horas. Rio de Janeiro: Record, 2012.
SERRANO,
Marne; LUCAS, Lícia. A Genealogia do Piano. Niterói: Edição dos Autores,
2010.
- Filosofia e Crítica
Cultural:
BENJAMIN,
Walter. Desempacotando minha biblioteca. In: Obras Escolhidas.
São Paulo: Brasiliense, 1987.
PORTAL
CULTURAL, Focus. Arquivos e Crônicas de Niterói. Edição Dirigida por
Alberto Araújo. Niterói, 2025-2026.
Nota do
Autor:¹ ¹ Este
ensaio configura-se como um "Diálogo Intertextual" entre a
arte urbana de Barcelona e a vivência literária fluminense. Através da análise
da obra Monument al Llibre, de Joan Brossa, o texto busca traçar um
paralelo fenomenológico entre a resiliência do objeto físico e a subjetividade
do espaço de criação, unindo a tradição catalã à sensibilidade contemporânea do
Rio de Janeiro.