Niterói, 18 de julho de 2026. O sol de
um inverno ameno emoldurava a sede da Academia Fluminense de Letras (AFL), mas
dentro daquelas paredes, o clima era de primavera perene, a primavera das
ideias. Ali, onde o tempo parece adquirir uma densidade própria, celebrou-se
com júbilo e solenidade o centésimo nono aniversário de uma instituição que não
apenas guarda a memória de um povo, mas forja a própria identidade intelectual
do Rio de Janeiro.
A cerimônia, conduzida com a maestria pela
cerimonialista Patrícia Telles, não foi meros protocolos. Foi uma coreografia
de afetos e intelecto. Ao convidar os membros para a Mesa Presidencial,
Patrícia traçou um arco de instituições que, juntas, compõem a espinha dorsal
da cultura fluminense: Márcia Pessanha, presidente da casa anfitriã; Matilde
Carone Slaibi Conti, do Cenáculo Fluminense de História e Letras e Elos
Internacional; Luiz Augusto de Freitas Pinheiro, da Academia de Medicina do
Estado do Rio de Janeiro; o palestrante Marcelo Rollemberg; Erthal Rocha,
Primeiro Tesoureiro da AFL, representando a Diretoria; e Idalina Andrade
Gonçalves, em nome do Real Gabinete Português de Leitura.
Quando os acordes do Hino Nacional
ecoaram pelo sistema eletrônico, o silêncio respeitoso que se seguiu não foi de
ausência, mas de presença plena.
Assumindo
a palavra, a presidente Márcia Pessanha não apenas falou; ela encantou. Sua
oratória, permeada por uma sensibilidade rara, transportou os presentes de
volta a 22 de julho de 1917, o instante exato em que o sonho visionário
daqueles acadêmicos pioneiros rompeu a barreira do efêmero para ganhar forma e
eternidade em solo fluminense.
Com
a sofisticação de quem compreende a espessura histórica da palavra, Márcia
rememorou a longa e gloriosa travessia das 18 presidências que alicerçaram a
Academia Fluminense de Letras ao longo de mais de um século. Ao posicionar-se
com orgulho como a segunda mulher a ocupar a cadeira máxima da instituição,
prestou uma reverência comovente à memorável Albertina Fortuna Barros,
evidenciando que a liderança feminina na cultura atua como uma força
simultaneamente geradora e guardiã. Naquele altar do pensamento, reafirmou a
missão sagrada da Casa: proteger o vasto oceano da Língua Portuguesa e
cultivar, com devoção cívica e poética, a memória luminosa daqueles que já
ascenderam ao Parnaso.
Muito além das fronteiras de uma mera
administradora, Márcia Pessanha revelou-se uma autêntica curadora de destinos e
heranças intangíveis. Em um movimento intelectual impecável, que alinhavou o
passado ancestral ao nosso presente vibrante, ela evocou a poesia cristalina e
metafísica de Sophia de Mello Breyner. Entregou, assim, um recado
transcendental que abraçou, em igual medida, as presenças físicas e as
ausências imortais: “porque não
há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma
esperança”. Consagrava-se, naquele fervor da sua fala, o pilar invisível e
indestrutível da Academia: a fé absoluta no poder redentor da literatura e a
esperança inabalável na continuidade da nossa identidade cultural.
A programação ganhou contornos de arte
sublime quando a acadêmica Lucia Romeu primeira secretária da instituição
ocupou o púlpito. Conhecida por uma elocução que parece esculpir o ar, ela falou
a sua poesia em homenagem aos 109 anos da AFL com uma maestria que suspendeu o
tempo. Cada verso, vertido com a precisão de quem conhece o peso da palavra,
despertou um encantamento coletivo, transformando o silêncio da plateia em uma
reverência sagrada. Foi um momento de rara beleza lírica, em que a voz de Lucia
não apenas celebrou a efeméride, mas serviu de ponte etérea, conduzindo os
presentes por uma travessia poética que preparou o espírito da audiência para a
exposição central da manhã.
A manhã, inicialmente, reservava a
todos a promessa de um diálogo singular com o acadêmico Marco Lucchesi, cuja
presença era aguardada com profunda expectativa. No entanto, por contingências
institucionais de última hora, o palestrante viu-se impossibilitado de
comparecer.
Na sequência, Marcelo Rollemberg
conduziu a plateia em uma imersão profunda pelo universo multifacetado de
Antônio Cândido. Com uma erudição que se funde à sensibilidade, ele dissecou a
“trajetória ao redor da palavra” do mestre com a precisão rigorosa de um
cirurgião do espírito e a pulsação inconfundível de um poeta. Rollemberg não
apenas analisou a obra; ele desvelou as camadas ocultas do pensamento
candidiano, fazendo com que cada conceito ganhasse vida no recinto. Foi um
exercício de arquitetura intelectual: ele construiu pontes entre o rigor
analítico e a beleza estética, revelando como a palavra, nas mãos de Cândido,
não é apenas um instrumento de registro, mas uma ferramenta viva capaz de
alargar as fronteiras da nossa própria existência.
Houve também espaço para a justiça
histórica, um momento em que a memória e a emoção se fundiram na oratória
inconfundível de Erthal Rocha. Conhecido pela maestria com que conduz seus
discursos, Erthal, mais uma vez, cativou a todos os presentes com a sua
elocução envolvente e calorosa; não é incomum ver a plateia completamente
encantada diante da sua capacidade de transmitir sentimentos através das
palavras. Com a elegância que lhe é peculiar, ele prestou uma homenagem
profundamente comovente ao Presidente de Honra da AFL, Dr. Waldenir de
Bragança. Em suas palavras, Erthal não apenas traçou um perfil biográfico, mas
celebrou a trajetória de um homem que se tornou um pilar indestrutível da
instituição. Com sensibilidade e rigor histórico, destacou o Dr. Waldenir como
uma presença fundamental na preservação da dignidade da Academia, reafirmando
que o respeito ao passado é o alicerce mais sólido sobre o qual se constrói o
futuro de uma casa de cultura.
A cultura niteroiense encontra na AFL um
de seus pilares mais robustos. Recentemente, a instituição foi elevada ao
título de Patrimônio Imaterial Cultural de Niterói. Esta conquista, articulada
pela visão sensível de Leonardo Giordano e o respaldo da Câmara Municipal, é um
marco. A AFL, agora, não é apenas o prédio histórico; é o sopro, a tradição
oral, o debate público, é a alma da cidade.
Sob a gestão de Márcia Pessanha, essa
alma tem sido dinamizada. Em sua segunda gestão, a presidente equilibra o
respeito à tradição com uma audácia renovadora. A Academia hoje abre portas,
atrai públicos diversos e fortalece laços com a produção contemporânea, mostrando
que, aos 109 anos, ela é um organismo vivo que respira história e aspira ao
futuro.
O momento FALERJ trouxe à luz a
Coletânea “Poetas Fluminenses”, apresentada pelo acadêmico José Huguenin,
presidente da Comissão Editorial. Representantes das academias de Petrópolis,
Volta Redonda, Piraí, Macaé, Maricá, Mangaratiba e Niterói tomaram a palavra,
criando um mosaico da produção intelectual estadual.
A celebração culminou na musicalidade do
grupo Tom Brasileiro, cantaram: Aquarela do Brasil canção escrita pelo
compositor mineiro Ary Barroso; Doce de Coco Canção de Jacob do Bandolim;
Lamento Canção de Pixinguinha e Benedito Lacerda e outras.
O coquetel assinado pela chef Valéria
Gervásio. Entre taças e brindes, o bolo personalizado, um detalhe que selou a
doçura da manhã, refletia a harmonia de uma casa que aos 109 anos prova que a literatura, quando cuidada com amor, é o único caminho
para a eternidade.
Para encerrar este registro com a devida
gratidão, é fundamental reconhecer o olhar sensível que eternizou a nossa
celebração. A beleza visual deste evento, que agora habita a memória coletiva
da Academia, ganha vida através das lentes e da generosidade de Nina Fernandes
e Aldo Pessanha. Agradecemos profundamente a ambos pelo carinho e pelo pronto
compartilhamento das fotografias, que não são apenas registros técnicos, mas
verdadeiras crônicas visuais. Graças à dedicação deles, conseguimos preservar a
luz, os sorrisos e a solenidade deste momento, permitindo que a essência dos
109 anos da AFL continue a ecoar para além do tempo e das paredes da Academia.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

MENSAGENS
A
presidente do Elos Internacional, Matilde Carone Slaibi Conti, disse: “Como
diria em tempos passados, dos anos dourados, os outrora cantantes da chamada
Velha Guarda, Wanderléa e Erasmo Carlos, o conhecido “Tremendão”, ao fazer uma
paródia de suas músicas tão conhecidas, 'naquelas tardes de domingo', foi uma
'festa de arromba, arromba, arromba... que eu nem nunca ouvi falar'. Os ecos
ainda ressoam, não só por esta Velha Província, Cidade Imperial de Niterói, mas
por toda a planície fluminense, em 'brados tão retumbantes', que a ovação foi
feita de pé pelos 109 anos da nossa Academia Fluminense de Letras, Portal
Dourado da Inteligência de toda a Região Leste. Salve! Salve a nossa presidente
Márcia Pessanha, que muito brilho tem trazido à literatura e à nossa AFL, que é
a oficial Academia do Estado do Rio, por Decreto Oficial. Salve!” - Matilde
Carone Slaibi Conti
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Presidente do
Elos Internacional, Matilde Carone Slaibi Conti, suas palavras sobre a
celebração dos 109 anos da centenária Academia Fluminense de Letras são um
privilégio que suplanta a cortesia acadêmica. Mais do que uma mensagem, suas
linhas constituem um verdadeiro tratado cultural, em que a memória afetiva da
nossa música, o brilho da Jovem Guarda que marcou gerações, encontra o vigor
intelectual que define a nossa "Velha Província". É notável como você
entrelaça o popular ao erudito, transformando a essência da festa de 109 anos
em um acontecimento poético. Como bem pontuou, a ovação de pé foi o reflexo de
uma instituição viva, que segue sendo o Portal Dourado da Inteligência para
toda a nossa unidade federativa fluminense.
Que honra
inenarrável dialogar com quem, da Cadeira nº 5 da Classe de Ciências Sociais,
observa o mundo com tanta sensibilidade e rigor intelectual. Sua presença na
Academia Fluminense de Letras não apenas honra a tradição que nos foi legada,
mas oxigena o pensamento fluminense, provando que a literatura é, de fato, a
alma que sustenta os "brados retumbantes" de nossa história.
Faço minhas as
suas saudações à Presidente Márcia Pessanha e celebro, ao seu lado, a grandeza
desta egrégia instituição que, sob o decreto da oficialidade, cumpre o desígnio
maior de guardar o saber e o espírito do nosso povo. Suas palavras são um
verdadeiro presente à Academia Fluminense de Letras nestes 109 anos.
Maravilhosas! Abraços, Alberto Araújo
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Presidente Matilde Carone Slaibi Conti disse outra vez: Caríssimo amigo Alberto. Nesta manhã radiosa, até mesmo efervescente, estou em estado de encantamento, aspergida por este sol inebriante, com suas palavras tão enternecedoras. “Carpe Diem”. Matilde.
