Na manhã
de domingo, vinte de setembro de 2026, quando o fuso invisível do tempo tangeu
suas cordas mais sensíveis. Ao abrir a tela fria do computador e mergulhar no
grupo Foculistas no WhatsApp, o meu olhar de poeta colidiu com a luz de
uma mensagem enviada por Gracinha Rego. Naquele instante, o cotidiano desfez-se
em névoa. A alma, comovida pela delicadeza das palavras daquela que irradia
fidalguia e cultura, não tardou em responder. Mas o eco daquele diálogo digital
não cabia apenas nos limites de uma tela; ele vinha de mais longe, vinha de um
sábado memorável que parecia recusar-se a virar passado.
Voltemos,
pois, as horas. Era sábado, dia dezenove de setembro. Sob a liderança e a
condução inspiradora de sua presidente, a acadêmica Márcia Pessanha, a Academia
Fluminense de Letras (AFL) abriu suas portas, às dez horas e trinta minutos,
para mais uma jornada de iluminação do espírito. Situada no coração de Niterói,
no histórico prédio anexo à Biblioteca Parque vestiu-se de gala para acolher a
terceira edição do consagrado Ciclo de Conferências "Publicar a gente
brasileira". O projeto, fruto de uma parceria estratégica e iluminada com
a Fundação de Arte de Niterói (FAN) e o Projeto Niterói Livros, desdobrava-se
sob a batuta atenta e dinâmica do acadêmico Jordão Pablo de Pão.
A sessão
abriu-se em uma harmonia quase litúrgica. As saudações da presidente Márcia
Pessanha, cujas palavras possuem sempre o dom raro de encantar e acolher, deram
o tom de um abraço coletivo na plateia atenta, nos pares intelectuais e no
ilustre convidado. Logo em seguida, o ar da sala recriou-se, vestindo-se de uma
emoção profunda, solene e sagrada, quando a acadêmica Gracinha Rego tomou a
palavra.
Havia na
voz de Gracinha um tremor sutil, o sopro da reverência. Com delicada
solenidade, ela apresentou o livro “Maria Sabina de Albuquerque – Suas
memórias, nossas lembranças - A professora – volume 1”, preciosa obra
organizada pela saudosa Neide Barros Rêgo. Obra esta que, nos suspiros
derradeiros de sua jornada terrena, a inesquecível Neide deixou-nos como um
testamento de amor à terra e à história, um verdadeiro legado às vésperas de
sua partida para os jardins do mistério. Gracinha falou de “Revelação”, outra
importante obra de Neide Barros Rêgo.
Ao
distribuir os exemplares aos presentes, o gesto adquiriu contornos de pura
oferenda afetiva. Gracinha ocupa na Academia Fluminense de Letras justamente a
Cadeira que antes pertenceu a Neide, sob o patronato da imortal e inesquecível
Maria Sabina. Naquele instante, o presente e o passado fundiram-se numa ponte
viva e pulsante. Na partilha daquelas páginas e memórias, a imortalidade das
letras fluminenses renovou-se diante de nós, reafirmando com vigor que a
verdadeira poesia não fenece com o silêncio da morte; ela apenas se transfigura,
eternizando a alma daqueles que a cultivaram com pureza de propósito.
A manhã
seguiu o seu curso fecundo com a mesa-redonda dedicada ao tema "Publicar
Liberdade". O debate trouxe à tona o papel transformador da literatura na
reflexão e na difusão das liberdades humanas, investigando os caminhos, as
sendas tortuosas e as belezas das experiências editoriais no Brasil. O evento
coroou-se com a participação esplêndida do romancista e acadêmico Godofredo de
Oliveira Neto, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), que abrilhantou a
discussão ao lado da própria Márcia Pessanha e de Jordão Pablo de Pão. A
condução dos trabalhos, fluida e lapidar, esteve a cargo da mestria da
acadêmica Lucia Romeu.
Foi dessa
manhã indescritível que brotou a centelha. No texto que escrevi anteriormente e
que circulou entre os pares, tentei traduzir em verbetes de afeto a grandeza
daquele ritual acadêmico.
E foi
essa mesma crônica de sentimentos que fez Gracinha, ainda extasiada, enviar-me
as palavras que hoje me comoveram no grupo de WhatsApp: “Alberto,
queridíssimo amigo! Ainda encantada com sua fala no texto sobre a sessão
maravilhosa na AFL. Falar sobre a nossa Neide e de sua obra é para mim motivo
de muita emoção... e você reproduziu com muita verdade o que vivi naquela manhã
inesquecível. Muito obrigada!! Muito obrigada meu querido!!! Sinta-se abraçado!❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️”
Ao ler o recado,
a minha resposta fluiu como um transbordamento natural do coração. Disse-lhe,
com a verdade dos que sabem amar a arte:
“Olá,
Gracinha, queridíssima amiga! É sempre uma emoção indescritível falar de Neide.
Fico maravilhado quando vejo algo referente à nossa eterna Diva Neide Barros
Rêgo. Inclusive, tenho a honra de guardar em minha estante a obra "Maria
Sabina de Albuquerque — suas memórias, nossas lembranças - Volume 1", e o
privilégio de ter o poema "Lembrança Eternizada de Maria Sabina"
eternizado nas páginas 320 e 321. Muito obrigado pelas suas palavras tão
carinhosas. O sentimento é inteiramente mútuo, e saber que consegui traduzir
com verdade o que você viveu naquela manhã inesquecível na AFL me enche de
alegria. Abraços do Alberto Araújo.”
Sim, a
vida na Academia é isso: um tecido de memórias onde os fios do tempo não se
rompem, apenas se apertam. Neide continua a caminhar por entre nós, seja no
perfume das páginas que nos deixou, seja na voz embargada de Gracinha Rego, ou
no eco perene de um poema que teima em eternizar Maria Sabina. Na Praça da
República, as letras fluminenses continuam a respirar, soberanas, provando que a
beleza e a cultura são as únicas armas capazes de vencer o esquecimento.
© Alberto
Araújo
Focus
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