segunda-feira, 27 de abril de 2026

PARALELAS, ENTRE LETRAS E TELAS: A ALQUIMIA LITERÁRIA E VISUAL DE MARLI MARINHO - CRÔNICA JORNALÍSTICA CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

 

O jornalismo cultural, em sua essência mais nobre, tem o dever de registrar não apenas o fato, mas a alma da notícia. No último dia 08 de março, data em que o calendário mundial se curva à força e ao protagonismo das mulheres, o cenário literário brasileiro testemunhou um renascimento: o lançamento virtual de "Paralelas, Entre Letras e Telas". Esta obra, embora marque a estreia de Marli Marinho em um projeto solo, carrega consigo a densidade de décadas de uma produção intelectual e artística incansável. 

Diferente de obras que nascem do impulso efêmero, "Paralelas" é o resultado de uma vida inteira dedicada à observação sensível do mundo. Marli Marinho revisita seu interior para colher frutos de todas as suas estações, da efervescência da infância à serenidade da maturidade. A autora nos revela que este projeto é uma compilação de poemas, contos e crônicas que começaram a ser desenhados aos 14 anos de idade. São textos que foram peneirados, revisitados e pontilhados, ganhando agora a maturidade necessária para enfrentar a apreciação do público e da crítica. 

A decisão de lançar a obra no Dia Internacional da Mulher não foi meramente simbólica; foi um ato de afirmação. Em um mundo que muitas vezes silencia as vozes femininas, Marli ergue sua voz através da escrita, oferecendo o que chama de "sua contribuição ao mundo". A obra reflete temas universais como a fé, a contemporaneidade e as nuances do cotidiano, sempre sob uma ótica que mescla a técnica do jornalismo cultural com a liberdade da lírica poética. 

O título "Paralelas" não é fortuito. Ele descreve perfeitamente a trajetória de uma mulher que nunca permitiu que seus talentos fossem excludentes. Como artista plástica e escritora, Marli Marinho opera em uma zona de convergência onde a cor encontra o verbo. A capa do livro é o exemplo máximo dessa simbiose: um design magistral assinado por seu filho, Mikael Marinho, criado a partir de uma arte do acervo pessoal da própria autora. É o amor filial e a admiração mútua materializados em papel. 

Além disso, a obra contou com a sensibilidade de Di Virtuoso na diagramação, um trabalho que exigiu meses de partilha afetiva e trocas intelectuais. Essa colaboração feminina, nascida em meio a viagens e desafios de saúde, reforça o espírito de resiliência que permeia cada página de "Paralelas". 

Falar de Marli Marinho é falar de uma intelectualidade plural. Doutora Honoris Causa em Literatura e pela Academia Brasileira de Belas Artes (ABBA), sua formação abrange áreas que, à primeira vista, poderiam parecer distantes, mas que nela se encontram em harmonia, ela transita entre a academia e a arte com a mesma fluidez com que maneja as palavras. Teóloga com pós-graduação em Neurociências e Inteligência Socioemocional, Marli aplica o rigor científico e a profundidade espiritual em sua escrita. Essa bagagem permite que seus textos alcancem camadas da alma humana que a literatura convencional raramente toca.

Sua atuação como Embaixadora da Paz pela OMDDH e diretora financeira do Núcleo Cultural da Rede Sem Fronteiras de Niterói sob a liderança de Matilde Carone Slaibi Conti demonstra seu compromisso inabalável com a gestão da cultura e a promoção social. Marli não é apenas uma espectadora do tempo; ela é uma operária da arte, presente em mais de 30 antologias, muitas delas best-sellers, o que torna este lançamento solo um evento de extrema relevância para a historiografia literária contemporânea. 

Em suas palavras, Marli expressa profunda gratidão àqueles que pavimentaram seu caminho. A memória de seus pais, o apoio incondicional de sua família e a inspiração vinda de seus filhos, Mikael e Ellen Rose, sua primeira leitora, são as âncoras que sustentam este projeto. A obra é, acima de tudo, um hino de gratidão a Deus, a fonte primordial de sua inspiração. 

Embora o lançamento virtual tenha sido um sucesso retumbante, o público aguarda com ansiedade o lançamento físico. Este será o momento do encontro tátil, do autógrafo que sela a conexão entre autor e leitor.

Até lá, "Paralelas, Entre Letras e Telas" já se firma como um marco de superação e beleza no Focus Portal Cultural. 

NOTAS DE RODAPÉ E RECONHECIMENTOS

Data de Lançamento Virtual: 08 de março (Dia Internacional da Mulher)

Composição da Obra: Poemas, contos e crônicas escritos desde os 14 anos

Colaboradores Chave: Mikael Marinho (Capa) e Di Virtuoso (Diagramação)

Afiliação Institucional: Rede Sem Fronteiras de Niterói / ABBA / ALB 

Este texto é uma homenagem à persistência da arte e à força da mulher escritora. 

Editorial: © Alberto Araújo - Focus Portal Cultural





UMA TARDE DE GLÓRIA LITERÁRIA: MARY DEL PRIORE ENCANTA A UBE DO RIO DE JANEIRO

 

No dia 27 de abril de 2026, segunda-feira, a União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), sob a presidência de Luiza Lobo, transformou-se no epicentro do debate historiográfico carioca. Em uma tarde marcada pelo refinamento intelectual, a instituição reuniu associados e luminares das letras para uma imersão na vida de uma das figuras mais fascinantes do Brasil colonial: Chica da Silva. 

A palestra magna, intitulada "Chica da Silva: Uma História de Francisca", foi conduzida pela premiada historiadora Mary Del Priore. Com o rigor acadêmico que lhe é peculiar e a fluidez de uma narradora nata, Mary desmistificou lendas e revelou a mulher real por trás do mito do século XVIII.  Baseada em sua obra "Meu Nome é Francisca", a historiadora desmistificou lendas e revelou a mulher real por trás do mito, proporcionando uma análise profunda sobre as relações de poder, raça e gênero no século XVIII. 

O evento ganhou um brilho especial com a participação de personalidades exponenciais da nossa cultura. Entre os presentes, destacaram-se as nossas companheiras Vice-presidente da UBE-RJ, Ana Maria Tourinho, e a Diretora Jurídica da Instituição, Matilde Carone Slaibi Conti. Ambas, que representam a força e a continuidade da tradição literária fluminense, marcaram presença de forma notável, acompanhando de perto o "banquete de saber" oferecido pela premiada historiadora Mary Del Priore. 

O prestígio da tarde foi reforçado pela presença de outras personalidades de relevo, o presidente da Academia Carioca de Letras, Adriano Spinola, o cineasta Julio Lellis. O encontro contou ainda com a participação de Tania Zagury, Leão Zagury, Maria Esther Rodrigues; Edir Meirelles, Juçara Valverde, Regina Guimarães, entre muitos outros nomes da cena cultural. 

A reunião foi também um momento de congraçamento e renovação para a casa. Além da brilhante exposição histórica, a sessão incluiu a cerimônia oficial de boas-vindas aos novos membros, com a entrega de diplomas, e o Reconhecimento de Mérito aos homenageados do ano. 

Os acadêmicos: Márcia Schweizer (Presidente da AJEB-RJ); Marly Lopes, Tchello de Barros, Fernanda Lessa e Guilherme Preger que tomaram posse como titulares, renovando o vigor do nosso solo literário.

Mérito Literário: A literatura de fôlego foi honrada com o Prêmio da Diretoria concedido a Maria Esther Rodrigues, pela obra "Nelson Rodrigues - o autor mais censurado do Brasil" (Edições ITALIAMIGA), e a Jorge Ventura, pela densidade poética de "Libitina – Elegias e alguns infortúnios"; Leslie Aloan com a obra: Profana Tragédia, o autor por motivo de enfermidades Cris Aloan recebeu a honraria. 

O encerramento, em um coquetel exclusivo, permitiu que a troca de ideias e o networking fluíssem entre veteranos e novos sócios, selando uma tarde onde a memória e a amizade caminharam lado a lado. Com a presença ativa de lideranças como Ana Maria Tourinho e Matilde Slaibi Conti, a UBE-RJ reafirma seu papel vital como guardiã da inteligência brasileira.

Créditos das fotos: Ana Maria

Tourinho; Maria Esther Rodrigues e Nina Fernandes. 

Editorial © Alberto Araújo

Diretor Cultural do Elos Internacional

Editor do Focus Portal Cultural 























CHANCE IMPERDÍVEL PARA ARTISTAS E PRODUTORES!

Você tem um projeto cultural na gaveta, mas trava na hora de encarar um edital? Então este convite é para você! 

A equipe da Niterói Livros convida para um encontro fundamental sobre fomento à cultura. A instituição trará para a cidade a aula inaugural da 2ª edição do Curso de Capacitação para Editais Culturais. E o convidado não poderia ser melhor: Thiago Rocha, Secretário Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura do MinC. 

É a oportunidade perfeita para aprender direto da fonte como transformar sua ideia em um projeto vencedor!

DATA: 29 de abril de 2026, quarta-feira, às 18h

LOCAL: Sala Nelson Pereira dos Santos

ENDEREÇO: Av. Visconde do Rio Branco, 880

Entrada: Gratuita

Bônus: Com certificado de horas complementares! 

Não guarde essa informação só para você: marque aqui aquele amigo artista que precisa dar um upgrade na carreira. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



O ABRAÇO DE FOGO: ENTRE O POST E O ABISMO - CRÔNICA ENSAÍSTA DE © ALBERTO ARAÚJO - A MARINA ZARVOS

 

Nota do Autor: Este texto configura-se como uma réplica literária à postagem de Marina Zarvos. Ao resgatar a carta de Pessoa como eco à efeméride que publiquei, Marina permitiu que este pesquisador mergulhasse mais fundo no "abraço de fogo" que une os poetas e o Criador. 

A era digital possui delicadezas irônicas: verdades eternas costumam surgir em meio ao fluxo de notificações efêmeras. Foi em um desses momentos de "rolagem" distraída que meus olhos pararam em uma postagem de Marina Zarvos, no grupo da Rede Sem Fronteiras. O texto, denso e solene, destoava do imediatismo ruidoso das redes; era Fernando Pessoa debruçado sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro. 

A escritora publicou o texto como uma réplica vibrante à efeméride que eu acabara de lançar, marcando os 110 anos do encantamento de Sá-Carneiro, no dia 26 de abril de 2026. A coincidência não foi casual; foi um chamado. Como pesquisador e eterno entusiasta do universo pessoano, senti o impacto familiar daquelas palavras, mas algo me impeliu a ir além do print de tela. 

Fui buscar a fonte original, o rastro de tinta que sobreviveu ao século para entender o peso real daquele tributo publicado na revista Athena, em 1924, oito anos após o fatídico suicídio de Sá-Carneiro em um hotel em Paris. O que Pessoa nos entrega ali não é um mero elogio fúnebre; é uma tese definitiva sobre a maldição de ser excepcional. 

Pessoa abre o texto evocando um preceito da sabedoria antiga: "Morre jovem o que os Deuses amam". Mas ele, o mestre do desdobramento, logo refina essa ideia. Para Pessoa, a morte não é apenas a cessação do pulso, mas o fim do "instinto natural com que se vive". 

Nesta perspectiva, Sá-Carneiro não morreu apenas quando ingeriu o veneno no Hotel Nice; ele já vinha "morrendo a vida" desde que a flor fatal do gênio desabrochou nele. O pesquisador que habita em mim não pode deixar de notar a crueldade desta lógica: os Deuses, ao amarem um homem, tornam-no seu par através da arte. Mas o homem, sendo finito, não suporta o peso da eternidade. O resultado é o que Pessoa chama de "doente da sua ficção". Sá-Carneiro era esse doente. Alguém que "fingia" mundos com tamanha intensidade que o mundo real tornou-se uma roupa apertada, um cenário cinzento e insuportável. 

A crônica de Pessoa estabelece uma hierarquia fascinante sobre como o divino toca o humano. O Herói: Recebe o auxílio dos Deuses por sorte. A luz não está nele, mas sobre ele. 

O Santo: É um cego por misericórdia. Os Deuses o poupam do sofrimento ao não deixarem que ele veja a operação do Destino.

O Gênio: Este é o único que os Deuses verdadeiramente amam. E, por isso, é o único que eles destroem. 

O amor dos Deuses, explica Pessoa, não é humano. Ele se manifesta como um "abraço de fogo". Ao dar ao gênio a sua própria essência, a capacidade de criar, os Deuses condenam o homem a ser um exilado permanente: "par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, exilado ao mesmo tempo em duas terras". 

Ao ler isso, compreendemos a angústia de Sá-Carneiro. Ele não pertencia a Lisboa, não pertencia a Paris, e certamente não pertencia ao cotidiano burocrático dos mortais. Ele habitava o interstício, o vácuo entre a criação e a criatura. 

A parte final do texto de Pessoa, resgatada pela postagem de Marina Zarvos, ganha contornos proféticos se lida em 2026. Pessoa lamenta que, para Sá-Carneiro, além da dor do gênio, houve o peso de ser um inovador. 

Ele compara o amigo a Cassandra, a profetisa que dizia verdades que todos tomavam por mentiras. Pessoa escreve sobre a "barbara terra" e sobre como "as plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande". É uma crítica feroz à mediocridade que, já em 1924, engolia o mundo. 

Pessoa diz que a glória, na modernidade, pertence aos "gladiadores e aos mimos". Em tempos de influenciadores e de busca frenética por curtidas, a frase ecoa com uma força assustadora. O circo, diz ele, alargou seus muros até os confins da terra. Para o gênio autêntico, resta apenas o isolamento ou a morte jovem. 

A citação de Catulo que abre a carta,  "Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!" (E para sempre, irmão, saudações e adeus) A famosa citação é o verso final do Carmen 101 do poeta romano Caio Valério Catulo, c. 84–54 a.C.. resume o sentimento de Pessoa. Ele sabia que Sá-Carneiro era o mais brilhante de sua geração, aquele que levou o "fingimento" poético às últimas consequências. 

Ao redigir esta crônica, movido pela provocação de um post em rede social, percebo que a pesquisa do original não foi apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade de resgate. Em um mundo que insiste no barulho, o silêncio de Sá-Carneiro e a análise cirúrgica de Pessoa nos lembram de que a arte não é um entretenimento, mas um "abraço de fogo" que, embora queime, é a única coisa que nos torna verdadeiramente pares dos Deuses.

Sá-Carneiro morreu jovem porque os Deuses o amaram demais. E nós, que ficamos, continuamos a ler seus escombros, tentando entender como alguém pôde ser tanto deus e tanto homem ao mesmo tempo. 

A verdade que Fernando Pessoa nos expele em sua crônica sobre Sá-Carneiro não é uma consolação, mas um diagnóstico implacável. Ao afirmar que o gênio é um "êxul em duas terras", Pessoa define a condição humana de quem se recusa a ser apenas um reflexo do seu tempo. Trazer essa verdade para o presente, para este 2026 onde a imagem precede a essência e o algoritmo dita a relevância, é confrontar o quanto nos tornamos eficientes em ignorar o "abraço de fogo" que Pessoa descreveu. 

Pessoa foi profético ao dizer que o circo romano havia se expandido para os confins da terra. Hoje, vivemos a apoteose dessa previsão. Se em 1924 ele lamentava que a glória pertencia aos "gladiadores e mimos", hoje assistimos à consagração do entretenimento vazio sobre a profundidade do espírito. A "maré morta" das plebes de todas as classes, que Pessoa menciona, manifesta-se agora na homogeneização do pensamento pelas redes sociais. Onde está o espaço para o inovador que, como Sá-Carneiro, traz verdades que todos têm por mentira?

O atual cenário é hostil àquilo que Pessoa chama de "privilégio como castigo". Ser genial, ou mesmo buscar a autenticidade radical, tornou-se um ato de resistência quase suicida. Em um mundo que exige a visibilidade constante, o "instinto natural" com que se vive, aquele que os Deuses tiram dos que amam, foi substituído por uma performance de vida. Morremos a vida não mais por excesso de espírito, como Sá-Carneiro, mas por excesso de fachada. 

A crônica nos ensina que o amor dos Deuses é isolamento. Ao pesquisar a fundo a carta que Marina Zarvos trouxe à tona no grupo da Rede Sem Fronteiras, percebemos que o sofrimento de Sá-Carneiro era a impossibilidade de ser compreendido por uma terra que lhe era "bárbara". 

Trazendo isso para o agora, percebemos uma ironia cruel: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil encontrar ressonância para o que é verdadeiramente profundo. O gênio atual não sofre apenas a indiferença, ele sofre o cancelamento ou o soterramento pelo volume de dados. A maldição de ser "par dos Deuses sendo homem" é, hoje, a angústia de carregar uma verdade eterna em um formato de quinze segundos. 

A conclusão definitiva de Pessoa é que Sá-Carneiro morreu porque era amado pelos Deuses, e esse amor se traduz na incapacidade de suportar a feiura e a ignorância universal. No contexto contemporâneo, essa lição serve como um alerta para a nossa saúde espiritual. Estamos sacrificando os nossos "gênios", as nossas capacidades criativas mais puras, no altar da produtividade e da aceitação social. 

O texto de Pessoa, resgatado do passado e jogado na nossa timeline, funciona como um choque de realidade. Ele nos lembra de que a arte não é um luxo, mas uma necessidade orgânica que pode, inclusive, consumir quem a produz. A verdade de Pessoa é que a vida, despida de transcendência, é apenas uma "morte vivida". 

Ao encerrarmos esta crônica, fica a provocação: quantos Sá-Carneiros estamos perdendo hoje para a "maré morta"? Quantas vezes os Deuses abraçam alguém com o seu fogo e nós, por estarmos distraídos com os gladiadores do circo digital, não percebemos a luz que se apaga? A carta de 1924 não é um adeus apenas a um poeta português; é um manifesto eterno contra a banalização da alma. Pessoa e Sá-Carneiro continuam vivos, não porque venceram o Destino, mas porque tiveram a coragem de ser "doentes de sua própria ficção" em um mundo que prefere a saúde anestesiada do senso comum. Que o "ave atque vale" de Pessoa nos inspire a buscar, entre as ruínas do que foi grande, os alicerces do que ainda pode vir a ser. 

Para além da literatura, das análises estéticas e do fado dos poetas, existe uma verdade que não se encerra no papel: a nossa conexão inalienável com o Senhor do Universo. Se Fernando Pessoa via no gênio um exilado entre dois mundos, a fé nos ensina que não precisamos viver como estrangeiros. Quando elevamos nossas reflexões para as "coisas do alto", como nos exorta a sabedoria espiritual, o peso da existência transfigura-se em propósito.

Nós, seres humanos, em nossa busca incessante por sentido, muitas vezes nos perdemos nos labirintos da intelectualidade ou nas dores da incompreensão mundana. Esquecemos que a palavra de Deus é o alicerce que permanece quando todas as outras vozes se calam. Colocar as reflexões sob a luz do Criador é entender que a nossa inteligência e a nossa sensibilidade não são fardos destinados ao sofrimento, mas dons para honrar Aquele que nos deu o sopro da vida. 

O amor a Deus deve ser o centro gravitacional de tudo o que somos. Independentemente da literatura, dos títulos ou das glórias humanas, que Pessoa tão bem descreveu como "fumo passageiro", o que realmente nos define é a capacidade de levar no coração a presença do Senhor. É nesse amor que encontramos o equilíbrio para sermos "par dos homens" sem nos perdermos na mediocridade, e "par do divino" sem sucumbirmos ao orgulho ou ao desespero. 

Ao olharmos para o "encantamento" de Sá-Carneiro e para a lucidez dolorida de Pessoa, compreendemos que o intelecto sozinho pode ser um abismo. Mas, quando ancoramos nossa alma nas promessas do Altíssimo, o abismo dá lugar ao horizonte. Que saibamos, acima de tudo, direcionar o nosso olhar para o alto, reconhecendo que a beleza que buscamos na arte é apenas um pálido reflexo da Glória Eterna. Que o nosso coração esteja sempre preenchido por esse Amor Soberano, pois só Ele é capaz de transformar o "abraço de fogo" da vida em uma luz que guia, acolhe e salva. 

Neste banquete da existência, onde as palavras humanas são o pão, o amor a Deus é o vinho da vida eterna a única força capaz de nos manter íntegros na travessia rumo ao Infinito. 

© Alberto Araújo

 

CRÔNICA DE FERNANDO PESSOA

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO  (1890-1916)

Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!

                                                                   CAT

 

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção. 

Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida. 

No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe estreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras. 

Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terrafuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.

 

1924

Textos de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. -149. 1ª publ. in “Athena”, nº 2. Lisboa: Nov. 1924.


Fernando Pessoa e Mario de Sá-Carneiro



Marina Zarvos






domingo, 26 de abril de 2026

UMA TARDE DE AUTÓGRAFOS QUE CELEBROU LITERATURA, ARTE E FILOSOFIA EM NITERÓI COM PAULO ORACY AZEREDO

 

No dia 25 de abril, o Café do Padre, no Cine Center de Icaraí, Niterói, foi palco de uma tarde memorável dedicada à literatura, às artes e ao pensamento filosófico. O companheiro elista, escritor Paulo Oracy Azeredo lançou oficialmente seu segundo livro, Cotidiano, Belas Artes & Filosofia – 100 crônicas escolhidas, reunindo reflexões sobre o comportamento humano, a estética e os dilemas cotidianos. O evento, que se estendeu das 16h às 19h, atraiu familiares, amigos e admiradores do autor, consolidando-se como um encontro de celebração cultural e afetiva. 

A atmosfera foi marcada pela presença calorosa de pessoas próximas ao escritor, que compartilharam da alegria de ver sua obra ganhar vida em mais uma publicação. Entre os convidados de destaque, compareceram a presidente do Elos de Niterói, Jocelin Marry Nery, a nossa companheira elista Edith Siqueira, além de outros representantes da cena literária e artística da cidade. A participação dessas personalidades reforçou o caráter coletivo e comunitário do lançamento, transformando-o em um espaço de diálogo e reconhecimento mútuo.

O livro, que reúne cem crônicas selecionadas, é fruto de um olhar sensível e atento às nuances do cotidiano, sempre atravessado pela arte e pela filosofia. Paulo Oracy Azeredo, em suas palavras, destacou que receber os leitores naquela tarde seria como conquistar o título honorífico de “escritor cronista”, revelando a importância simbólica do encontro para sua trajetória pessoal e literária. A dedicatória ao público presente foi permeada por gratidão e entusiasmo, sentimentos que se refletiram nos autógrafos e nas conversas informais que se seguiram.

Mais do que um simples lançamento, o evento representou um momento de afirmação da literatura como espaço de convivência e reflexão. A reunião de familiares, escritores e amigos em torno da obra de Paulo Oracy Azeredo mostrou que a escrita, quando compartilhada, ganha novas dimensões: torna-se ponte entre gerações, inspira debates e fortalece laços. Assim, a tarde de autógrafos em Icaraí não apenas celebrou um livro, mas também reafirmou o papel da cultura como elemento vital da vida comunitária. 

Esse encontro, marcado por emoção e reconhecimento, ficará registrado como uma etapa significativa na trajetória do autor e como um gesto de valorização da literatura em Niterói. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural     









O ENCONTRO DAS ALMAS EM 1916: O VOO DO POETA E O DESPERTAR DA MESTRA - 110 ANOS DO ENCANTAMENTO DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO E 110 ANOS DO NASCIMENTO DE CLEONICE BERARDINELLI - ENSAIO BIOGRÁFICO/LITERÁRIO DE © ALBERTO ARAÚJO

O ano de 1916 não foi apenas um marco no calendário; foi uma encruzilhada metafísica para a literatura de língua portuguesa. Enquanto as luzes de Paris testemunhavam o trágico e prematuro "encantamento" de Mário de Sá-Carneiro, o Brasil via nascer aquela que viria a ser a guardiã suprema de seu legado: a imortal Cleonice Berardinelli. 

Hoje, 26 de abril de 2026, celebramos uma efeméride dupla e profunda, os 110 anos de ausência física do poeta e os 110 anos do nascimento da mestra que o manteve vivo entre nós. 

No dia 26 de abril de 1916, no número 29 da Rua Victor Massé, o gênio do Modernismo português decidia partir. Aos 26 anos, Mário consumava sua última poesia com frascos de estricnina, sucumbindo a um mundo que lhe parecia "estreito demais" para a vastidão de sua alma dispersa. Ele, o pilar da Revista Orpheu, o amigo confidente de Fernando Pessoa, deixava órfã uma vanguarda que mal começava a florescer. Mas a providência literária já traçava um antídoto para esse esquecimento. 

Cleonice Berardinelli, nascida naquele mesmo 1916, dedicaria um século de vida a decifrar os enigmas que Mário e seus contemporâneos lançaram ao vento. Ela foi a ponte entre a dor de Sá-Carneiro e a compreensão de milhares de alunos. Enquanto Mário escrevia sobre o "narcisismo" e o "sentimento de abandono", Cleonice, com sua elegância e rigor acadêmico, transformava essa angústia em objeto de estudo e beleza. Da Academia Brasileira de Letras às cátedras da UFRJ e PUC-Rio, ela não apenas leu Mário; ela o resgatou do abismo parisiense para o coração dos leitores brasileiros. 

Celebrar estes 110 anos é reconhecer que a morte de um poeta não é um ponto final quando existe uma mestra capaz de transformar sua ausência em eternidade. O Focus Portal Cultural rende homenagem a esse diálogo invisível: o gênio que viveu o que disse, e a acadêmica que ensinou o que ele viveu. Dois nomes, um mesmo ano de origem e partida, unidos para sempre no altar da nossa cultura. 

Mário não foi apenas um poeta; foi o pilar do Modernismo em Portugal e fundador da icônica revista Orpheu. Sua obra, produzida majoritariamente entre 1912 e 1916, é um labirinto de autossarcasmo, narcisismo e uma sensibilidade tão aguda que beirava a dor física. Como disse Pessoa: "O Sá-Carneiro não teve biografia: teve gênio. O que disse foi o que viveu." E foi esse gênio que encontrou em Cleonice Berardinelli a sua maior decifradora. 

Cleonice Berardinelli, A Mestra que "Encantou" o Brasil por Portugal. Falar de Cleonice é falar de uma força da natureza intelectual. Membro da Academia Brasileira de Letras,  ocupante da Cadeira nº 08, professora emérita da UFRJ e da PUC-Rio, Dona Cleonice, como era carinhosamente chamada, não apenas estudou Sá-Carneiro; ela o humanizou para gerações de alunos. 

Sua autoridade era tamanha que, desde 1975, era Acadêmica Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. Enquanto Mário se perdia na dispersão de sua alma, Cleonice organizava o caos com o rigor da ciência e a paixão da arte. Ela foi a "stakhanovista" do trabalho intelectual, nunca tirando férias ou licenças, orientando mais de cem dissertações e ensinando a mais de mil alunos o prazer de ler Camões, Pessoa, Gil Vicente e, claro, Sá-Carneiro. 

Para ilustrar a vivacidade com que Cleonice tratava o legado de Sá-Carneiro, o Focus Portal Cultural resgata um momento emblemático de 2014. Na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, a mestre deu uma aula de abertura magistral sobre o poeta. Naquela ocasião, a teoria encontrou a melodia: a cantora Adriana Calcanhotto participou do evento, trazendo à tona os poemas que musicara, como "O Outro", "Vislumbre" e "O Pajem". 

Ali, sob o olhar atento de Cleonice, os versos de Mário: "Eu não sou eu nem sou o outro / Sou qualquer coisa de intermédio", deixavam de ser apenas angústia impressa para se tornarem som e presença. Cleonice compreendia que a poética de Sá-Carneiro, embora marcada pelo abandono, era uma construção de beleza inestimável que merecia ser celebrada em todas as formas de arte. 

Uma Vida Dedicada às Letras e à Ética. O currículo de Cleonice Berardinelli é uma cartografia da cultura lusófona. Suas obras, como Estudos Camonianos e as edições críticas de A Passagem das Horas de Álvaro de Campos, são pedras angulares para qualquer estudante de Letras. Ela não se limitava ao gabinete; era uma mulher engajada. Ao analisar o Padre Antônio Vieira, revelou seus próprios princípios éticos ao destacar a coragem do jesuíta em defender índios e negros contra o poder econômico dos senhores de engenho.

Essa mesma coragem e retidão ela aplicou ao magistério. Onde Cleonice não lecionou? Da UFF à Universidade da Califórnia, de Lisboa a Petrópolis, sua voz ressoou levando a luz da literatura portuguesa. Foi por sua excelência que o Instituto Camões criou a Cátedra Padre Antônio Vieira especialmente para ela na PUC-Rio, um marco que permitiu a continuidade de pesquisas que mantêm o modernismo de Sá-Carneiro vibrante e relevante.

Cleonice Seroa da Mota Berardinelli nasceu no Rio de Janeiro, 28 de agosto de 1916 e faleceu em Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 2023 foi uma professora universitária brasileira, especialista em literatura portuguesa. Foi a integrante mais longeva da Academia Brasileira de Letras, após o falecimento de Evaristo Moraes Filho. 

Foi graduada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo (1938) e livre docente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1959), com uma dissertação intitulada Poesia e Poética de Fernando Pessoa.

Especialista em Camões e Fernando Pessoa, foi professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, pesquisadora 1-C do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, consultora ad hoc da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e consultora ad hoc da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro. 

O Legado Cruzado: 110 Anos de Mário, Eternamente Cleonice. Nesta efeméride de 2026, o Focus Portal Cultural propõe uma reflexão: o que seria de Mário de Sá-Carneiro sem o olhar atento de Cleonice? E o que seria da carreira acadêmica brasileira sem a paixão que Cleonice devotou aos poetas d’além-mar? 

Mário partiu por não aguentar o peso do mundo; Cleonice ficou conosco por 106 anos para nos ensinar a suportar esse mesmo mundo através da poesia. Ele foi a explosão modernista; ela foi a lente que nos permitiu observar o brilho dessa explosão sem cegarmos.

"A personalidade sensível, o humor instável e o autossarcasmo culminaram em uma linguagem única", dizemos sobre Mário. 

"A dedicação incansável, a elegância intelectual e a generosidade pedagógica", dizemos sobre Cleonice.

Unir esses dois nomes hoje é celebrar a resistência da cultura. Mário de Sá-Carneiro, com seus frascos de estricnina e seu gênio torturado, e Cleonice Berardinelli, com sua elegância e sua inteligência solar, são agora parte de um mesmo firmamento. 

Neste 26 de abril, rendemos homenagem a Mário de Sá-Carneiro pelos seus 110 anos de imortalidade. E, ao fazê-lo, fazemos uma mesura profunda à memória de Cleonice Berardinelli. Que as gerações de 2026 continuem a ler "A Confissão de Lúcio" e a ouvir as aulas gravadas da mestra, pois, enquanto houver alguém para ler e alguém para ensinar, o "encantamento" de Mário será sempre um renascimento.

Que o legado desses dois gigantes continue a iluminar os caminhos da lusofonia. No Focus Portal Cultural, acreditamos que a morte é apenas um verso que se encerra para que o poema comece em outro plano. 

Focus Portal Cultural Homenagem a Mário de Sá-Carneiro e Cleonice Berardinelli. 

© Alberto Araújo