sábado, 25 de abril de 2026

MARIA OTÍLIA E A ARTE DE ETERNIZAR O AGORA - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO - HOMENAGEM A MARIA OTILIA MARQUES CAMILLO PELA PASSAGEM DE SUAS 93 PRIMAVERAS.

Há pessoas que atravessam o tempo não como quem caminha contra o vento, mas como quem o conduz. Maria Otília, aos seus 93 anos, é uma dessas raras essências que transformam a longevidade em uma forma de resistência estética. Se o tempo, em sua voracidade, costuma desbotar as cores do entusiasmo e silenciar o ímpeto da descoberta, nela ele opera um processo inverso, quase alquímico: Maria Otília parece ser submetida a uma decantação constante, onde a experiência se transforma em luz e a memória se solidifica em cristal. 

Se em outros tempos a celebramos como a "Senhora do Tempo", hoje o amadurecimento do nosso olhar nos obriga a reconhecê-la como algo ainda mais profundo: a curadora do afeto. 

Falar de Maria Otília não é apenas relatar a trajetória de uma dama da sociedade cultural; é analisar um fenômeno de presença e permanência. Ela é o que podemos chamar de "ponto de convergência" na intelectualidade fluminense. 

É uma "Lady", sim, mas no sentido mais nobre e filosófico do termo: aquela que detém o domínio absoluto sobre si e uma benevolência inesgotável sobre o outro. 

O que torna a jornada de Maria Otília contemporânea e vibrante é sua recusa absoluta ao anacronismo. Enquanto muitos se refugiam no passado como um “bunker” contra a modernidade, ela utiliza as ferramentas do presente para documentar o futuro. Vê-la com seu smartphone de tecnologia de ponta em punho é presenciar o encontro de dois séculos em perfeita harmonia. Ela não é uma mera espectadora da revolução digital; ela é uma cronista visual que domina o "instante decisivo" de Henri Cartier-Bresson fotógrafo francês com a agilidade de quem entende que a beleza é efêmera se não for capturada. 

Lembro-me com vivacidade de uma manhã solene na Academia Fluminense de Letras. Entre os discursos inflamados e o rigor dos protocolos acadêmicos, lá estava ela, posicionada estrategicamente. Não como alguém que busca os holofotes, mas como alguém que precisa testemunhar. O clique de sua câmera não busca a perfeição plástica de um filtro de rede social; busca a verdade do espírito. Quando ela me fotografou, não registrou apenas um jornalista sorrindo em uma homenagem. Ela captou a vibração daquela alegria, a luz específica que incide sobre quem se sente em casa entre os livros e os amigos. 

A fotografia, para Maria Otília, é um sacramento de generosidade. Ao compartilhar o registro instante depois, ela não entrega apenas um arquivo de imagem; ela devolve ao fotografado uma versão iluminada de si mesmo. É como se ela dissesse, através da lente: "Eu vi a sua luz, e aqui está ela para que você nunca se esqueça de que a possui". Este é o jornalismo do coração a documentação do que há de mais nobre na experiência humana, feita por quem não tem pressa, mas tem precisão.

Se o olhar de Maria Otília é uma lente de alta definição, sua escrita é um cinzel de mestre. Suas mensagens não são meros textos trocados no vácuo digital; são joias lapidadas com uma pontuação que respira, uma gramática própria da ternura. Recentemente, ao receber suas palavras celebrando minha "caprichosa, íntegra, dedicação à Cultura e Literatura" pela Academia Fluminense de Letras, compreendi que ela pratica a crítica literária da alma. Ela não analisa apenas a métrica de um poema ou a estrutura de uma crônica; ela lê o esforço, o suor, a intenção e a entrega do escritor.

Suas palavras têm o peso da sabedoria que só quem viu o mundo mudar radicalmente por nove décadas pode conferir. No entanto, possuem a leveza das penas. É uma dialética fascinante: como pode alguém carregar quase um século de vivências, perdas, mudanças e transformações sociais, e ainda manter o vocabulário tão límpido, tão isento de amargura ou cansaço? A resposta reside em sua capacidade cristã e humanista de celebrar o próximo. Maria Otília compreendeu, talvez antes de todos nós, que a verdadeira imortalidade não está no que acumulamos para nós mesmos, mas no que exaltamos nos outros. Ela é o eco que torna a voz do amigo mais forte. 

Não se pode decifrar a essência de Maria Otília sem mencionar sua relação íntima com a porcelana. A pintura neste material é uma arte de paciência extrema, de precisão milimétrica e, acima de tudo, de fogo. É necessário submeter a peça a altas temperaturas para que a cor se torne eterna, para que o desenho se funda ao objeto e nunca mais se apague. Assim é a vida de nossa homenageada: uma construção delicada que passou pelo fogo do tempo e saiu dele temperada, brilhante e indestrutível. 

Fui por duas vezes agraciado, junto à minha Shirley, com o fruto dessa sua dedicação manual. Em uma das peças de porcelana que ela nos ofereceu, o traço firme e sensível de Maria Otília desenhou dois pássaros. Ela nos explicou, com a simplicidade mística dos sábios, que aqueles pássaros éramos nós: uma representação de amor e liberdade. Ao transpor para a cerâmica fria o calor de um sentimento observado, ela opera um milagre doméstico: ela cristaliza laços. 

A porcelana de Maria Otília é uma metáfora de sua própria existência: parece frágil aos olhos dos desavisados, mas possui a dureza do diamante. Ela atravessa gerações intacta, guardando em si a pintura de um tempo em que a delicadeza era a lei maior da convivência. Somos, eu e tantos outros companheiros de jornada cultural, nomes que compõem o mosaico do nosso Elos Clube, Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói e da ANE, colecionadores dessas suas gentilezas. Seus porta-retratos, sempre acompanhados de trovas que parecem dançar no papel, são mais que presentes; são certificados de pertencimento a uma estirpe de pessoas que ainda acreditam na cortesia. 

Chegar aos 93 anos com tamanha lucidez, autonomia e vigor criativo é, em última análise, um ato de coragem. Em um mundo que muitas vezes descarta o idoso e marginaliza a memória em prol do novo imediato, Maria Otília se impõe como uma luz de um barco a navegar. Ela não está à margem da história; ela está no epicentro da produção cultural de Niterói e além, incentivando jovens escritores e veteranos com a mesma intensidade vibrante. 

Seu "olhar de lince" é famoso. Ele não enxerga apenas o que está posto diante dos olhos; ele enxerga o potencial invisível. Ela percebe o talento que ainda hesita, a dor que se esconde atrás de um sorriso protocolar e a beleza que o próprio dono da beleza às vezes esquece que tem. Ela é uma ponte de ouro entre o tempo e a ternura. Quando ela nos olha, o tempo parece fazer uma pausa reverencial. As rugas de expressão em seu rosto não são marcas de decadência, mas mapas de alegria que insistiram em permanecer. Ela é a prova viva de que a elegância é o último refúgio da inteligência e que a bondade é a forma mais sofisticada de sabedoria. 

Maria Otília não precisa escrever tratados para ser considerada uma das maiores essências da nossa literatura vivida. Ela é a crônica em movimento, a poesia que caminha pelos corredores da cultura com passos leves e decididos. Sua vida é um texto aberto, escrito com tintas de dignidade, coragem e um amor profundo pela humanidade.

Ao olharmos para ela, aprendemos que viver com propósito não é realizar grandes feitos para os livros de história fria, mas realizar pequenos e constantes milagres de atenção. É estar presente. É responder a uma mensagem. É pintar um pássaro em um prato para dizer a um amigo que ele é livre para voar. Maria Otília é uma guardadora de memórias, uma dama que ensinou ao tempo que ele pode passar, mas que a luz, quando é gerada na alma, jamais se apaga. 

Obrigado, admirável Maria Otília, por nos permitir habitar o seu olhar. Por nos fotografar a alma e nos moldar em porcelana. Que sua primavera particular continue a florir, desafiando as estações e nos lembrando de que, enquanto houver uma lente atenta e um coração disposto, a vida será sempre um presente a ser aberto com o maior dos cuidados. Sua existência é, sem dúvida, a fotografia mais bonita e impactante que a vida já tirou de todos nós.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 



sexta-feira, 24 de abril de 2026

23 - A GESTÃO DO ADORNO: GEORGINA MONCREIFFE E A RECONSTRUÇÃO DO PAPEL FEMININO NA ARISTOCRACIA BRITÂNICA - ENSAIO BIOGRÁFICO ANALÍTICO © ALBERTO ARAÚJO

A história de Georgina Ward, Condessa de Dudley (1846–1929), é frequentemente reduzida a uma anedota sobre beleza e redenção. Contudo, uma análise histórica rigorosa revela que sua trajetória não foi apenas uma transformação pessoal, mas um desafio direto às estruturas de poder econômico e social da Inglaterra do século XIX. Georgina não foi apenas uma "vítima" da vaidade do marido; ela foi uma administradora que operou no vácuo de um sistema patriarcal, provando que a exclusão feminina das esferas de decisão não se baseava na incapacidade, mas em uma imposição política de "irresponsabilidade planejada". 

Nascida em 1846, Georgina Moncreiffe pertencia à nobreza escocesa, uma linhagem de beleza lendária, mas de recursos financeiros que não se comparavam ao colosso industrial que era William Ward, o primeiro Conde de Dudley. Quando se casaram em 1865, a disparidade não era apenas de idade, trinta anos de diferença, mas de agência. Dudley era um dos magnatas mais ricos da Era Vitoriana, cujas rendas provinham das "Black Country" as terras ricas em carvão e ferro em Staffordshire e Worcestershire. 

O regime imposto por Dudley a Georgina foi o que Virginia Woolf mais tarde identificaria como uma "jaula de diamantes". Historicamente, o Conde sofria de uma obsessão por estética que beirava a patologia. Ele exigia que sua esposa servisse como a manifestação visual de sua riqueza. Documentos da época confirmam que ele a obrigava a usar tiaras de diamantes e vestidos de seda pesada em jantares privados em pavilhões de caça isolados, onde não havia convidados para impressionar. Georgina era, tecnicamente, uma extensão do capital fixo de Dudley: um ativo de prestígio. 

Durante quatorze anos, a participação de Georgina na gestão da fortuna da família,  que incluía minas de carvão, siderúrgicas, as famosas Round Oak Ironworks e vastas propriedades de terra. era nula. Ela estava confinada ao papel biológico de garantir a sucessão, teve sete filhos e ao papel social de ofuscar outras cortes europeias, como as de Napoleão III e da Imperatriz Sissi da Áustria. 

A virada na vida de Georgina não foi uma escolha romântica, mas uma necessidade administrativa decorrente de uma tragédia médica. Em 1879, o Conde de Dudley sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) debilitante que o deixou fisicamente incapaz e mentalmente instável. Pela lei e pelo costume da época, o controle de tal império deveria ter passado para curadores ou para o filho mais velho, que na época ainda era menor de idade. 

No entanto, Georgina assumiu o comando. Este é o ponto onde a história factual supera a crônica: ela não apenas "ajudou" nos negócios; ela assumiu a liderança de um dos maiores complexos industriais da Inglaterra. Georgina passou a lidar com gerentes de minas, engenheiros siderúrgicos e administradores de propriedades. Durante os seis anos em que o marido permaneceu inválido até sua morte em 1885, ela demonstrou uma competência que chocou o establishment britânico. Ela navegou por períodos de instabilidade econômica no setor de carvão e manteve a coesão das propriedades de Dudley, algo que exigia não apenas sensibilidade, mas um entendimento agudo de contratos, rendas e direitos minerais. 

Com a morte do marido, Georgina detinha uma riqueza considerável e, pela primeira vez, autonomia legal total, como dowager countess. Sua recusa em se casar novamente, rejeitando inclusive propostas de diplomatas e da aristocracia europeia, como o conde Herbert von Bismarck, foi uma declaração de independência. Ela não estava interessada em retornar à condição de "representante" de outro homem. 

Sua entrada para o serviço público não foi um passatempo de caridade. Ela se profissionalizou dentro da estrutura da Cruz Vermelha e da Ordem de São João. Durante a Segunda Guerra dos Bôeres (1899–1902), Georgina não se limitou a doar fundos; ela organizou e equipou hospitais de campanha. 

O caso mais emblemático de sua competência técnica e dedicação foi a recuperação de Hugh Trenchard, que viria a ser o Marechal da Força Aérea Real. Em 1900, Trenchard foi baleado no pulmão e sofreu uma lesão na coluna que o deixou parcialmente paralisado. Ele foi enviado para uma das casas de convalescença geridas por Georgina em Mayfair. Relatos biográficos de Trenchard indicam que a Condessa não era uma figura distante; ela administrava o hospital com uma disciplina quase militar, supervisionando protocolos de higiene e nutrição que eram avançados para a época. Foi sob sua tutela que Trenchard recuperou a capacidade de andar, um fato que ele reconheceu como o divisor de águas em sua carreira. 

Aos 68 anos, quando a maioria de seus contemporâneos estava retirada da vida pública, a Condessa de Dudley intensificou suas atividades com o início da Grande Guerra em 1914. Seu trabalho no Hospital de Convalescença para Oficiais, em Londres, era uma jornada de tempo integral. Ela trabalhava diariamente das 9h às 18h, lidando com a logística de suprimentos médicos e o cuidado direto com os feridos. 

Este período foi marcado por perdas pessoais profundas: a morte de seu filho Gerald em combate na Bélgica. No entanto, sua resposta ao luto foi o aprofundamento no trabalho hospitalar. Ela foi uma das primeiras mulheres a receber a Cruz Vermelha Real (RRC), uma condecoração militar concedida por serviços excepcionais em enfermagem militar. 

Georgina Ward morreu em 1929, o mesmo ano em que Virginia Woolf publicou a obra que a imortalizou como exemplo de potencial desperdiçado pela estrutura social. No entanto, a análise factual de sua vida mostra que o potencial não foi totalmente desperdiçado; ele foi apenas represado e, uma vez liberado, transformou-se em uma força de gestão e serviço público que durou quase meio século. 

A história real de Georgina Moncreiffe nos ensina que a "beleza" foi a sua primeira prisão, mas a "responsabilidade" foi a sua ferramenta de libertação. Ela provou que a mesma mente capaz de navegar na etiqueta complexa das cortes imperiais era capaz de gerir minas de carvão e salvar vidas em hospitais de guerra. Sua vida é um registro factual de que a competência feminina não nasce da crise, mas apenas encontra nela a permissão social para se manifestar. 

A trajetória de Georgina Ward, Condessa de Dudley, exige um distanciamento da narrativa da "beleza oprimida" para uma compreensão da "competência reprimida". No final do século XIX, a gestão de fortunas aristocráticas baseadas na indústria pesada era uma tarefa de alta complexidade técnica e política. Quando Georgina assumiu o controlo dos bens de William Ward em 1879, ela não herdou apenas propriedades de terras, mas um complexo industrial integrado que era o motor econômico da região de Black Country. 

O coração financeiro da família Dudley residia nas Round Oak Ironworks, fundadas em 1857. Esta siderúrgica não era apenas uma fábrica; era um marco da engenharia vitoriana, responsável pela produção de ferro forjado de alta qualidade utilizado em infraestruturas ferroviárias e navais por todo o Império Britânico. 

Quando o Conde de Dudley sofreu o AVC que o incapacitou, Georgina viu-se na posição de supervisora de facto deste complexo. A gestão de siderúrgicas naquela época envolvia lidar com flutuações violentas no preço do carvão e do minério de ferro, além de gerir uma força de trabalho masculina altamente sindicalizada e sujeita a condições de trabalho perigosas.

Historicamente, Georgina demonstrou uma agudeza rara ao manter a coesão administrativa entre os engenheiros chefes e os gestores das minas. Ela compreendeu a natureza vertical da fortuna dos Dudley: as minas de carvão da família alimentavam os altos-fornos das siderúrgicas. Qualquer interrupção na extração de carvão paralisava a produção de ferro. Documentos administrativos sugerem que, durante a sua regência, houve uma manutenção rigorosa dos investimentos em tecnologia de drenagem de minas, essencial para evitar as inundações que frequentemente encerravam poços na região de Staffordshire. Ela não era apenas uma figura de proa; era a autoridade final em decisões de reinvestimento de capital que garantiam a solvência da família enquanto o marido definhava. 

A transição de Georgina para o serviço hospitalar, após a morte do marido em 1885, não foi um ato de caridade amadora, mas uma aplicação de competências de gestão logística ao campo da saúde pública e militar. A sua atuação na Cruz Vermelha Britânica e na Ordem de São João de Jerusalém coincidiu com a revolução nos protocolos de enfermagem iniciada por Florence Nightingale. 

Georgina especializou-se na gestão de Hospitais de Convalescença. Na medicina militar da época, a taxa de mortalidade após a cirurgia inicial era alarmantemente alta devido a infecções e cuidados pós-operatórios inadequados. O modelo de Georgina focava-se em três pilares técnicos:

Higiene Ambiental e Ventilação: Implementação rigorosa de protocolos de assepsia nas enfermarias, minimizando a contaminação cruzada entre soldados feridos. 

Nutrição Clínica: Supervisão direta das dietas hospitalares, entendendo que a recuperação de ferimentos de guerra exigia uma densidade calórica e proteica específica, algo muitas vezes negligenciado nos hospitais militares padrão. 

Cinesioterapia Primitiva: Foi através deste foco na recuperação física ativa que ela conseguiu o "milagre" da reabilitação do Capitão Hugh Trenchard em 1900. Trenchard tinha sido dado como permanentemente inválido. O regime de Georgina combinava cuidados médicos com um incentivo rigoroso à mobilidade, o que permitiu que ele voltasse ao serviço ativo e, eventualmente, fundasse a Royal Air Force (RAF). 

A autonomia de Georgina entre 1885 e 1929 é um estudo de caso sobre a "economia da viuvez" na aristocracia. Ao rejeitar o casamento, ela evitou a aplicação das leis de propriedade que, embora estivessem a mudar com o Married Women's Property Act, ainda conferiam ao marido um poder considerável sobre os bens da esposa.

A sua recusa em casar com o conde Herbert von Bismarck é particularmente significativa do ponto de vista geopolítico. Um casamento com o filho do "Chanceler de Ferro" alemão teria transformado Georgina num peão diplomático entre Londres e Berlim. Ao escolher a independência, ela manteve a sua fortuna e a sua influência focadas no serviço nacional britânico. 

Durante a Primeira Guerra Mundial, a sua rotina de trabalho das 9h às 18h no Hospital de Convalescença para Oficiais em Mayfair era um exercício de resistência física e organizacional. Aos 70 anos, ela geria o fluxo de admissões, a logística de suprimentos médicos (que estavam escassos devido ao bloqueio submarino alemão) e a coordenação de voluntários. Georgina aplicou a mesma disciplina que outrora manteve as siderúrgicas Round Oak operacionais para garantir que o hospital funcionasse com a precisão de uma máquina industrial. 

O reconhecimento de Georgina com a Cruz Vermelha Real (RRC) e como Dama de Justiça da Ordem de São João não foram títulos honorários por "bons serviços sociais". Foram condecorações por mérito administrativo em tempos de guerra. A Cruz Vermelha Real, especificamente, era concedida a mulheres que mostrassem um dever excepcional na enfermagem militar. 

Georgina enfrentou a perda de dois filhos de formas que sublinham a sua ligação visceral com a medicina e a guerra: 

Reginald Ward: Faleceu em 1904 após complicações de uma apendicectomia, uma lembrança brutal dos limites da medicina da época que ela tanto tentava avançar. 

Gerald Ward: Morto em combate em 1914. A sua morte não a fez recuar para o luto privado; pelo contrário, intensificou o seu trabalho hospitalar, transformando a dor pessoal em eficiência logística para salvar os filhos de outras mulheres. 

Georgina Moncreiffe morreu em 2 de fevereiro de 1929. O seu legado não é o de uma "beleza da sociedade", mas o de uma administradora de topo que viveu duas vidas distintas: a primeira como uma peça de exibição num sistema de capital simbólico, e a segunda como uma gestora de capital humano e industrial.

A sua vida desmente a teoria da fragilidade feminina vitoriana. Georgina provou que a mente que consegue memorizar as complexas linhagens e etiquetas das cortes de Viena e Paris é a mesma mente que consegue gerir as folhas de pagamento de milhares de mineiros e os protocolos de esterilização de um hospital de guerra. Ela não se "reinventou"; ela apenas ocupou o espaço que a sua classe e o seu género lhe tinham negado durante a juventude. Foi uma das administradoras mais eficazes e discretas da sua geração, operando nas sombras de um império industrial e nas linhas da frente da recuperação médica militar. 

Round Oak Ironworks: Continuou a ser um pilar industrial até ao seu fecho em 1982, um testemunho da solidez das fundações geridas pela família. 

Estatuto Legal: Georgina utilizou o seu título de Dowager Countess para exercer uma autoridade que mulheres de classes baixas não possuíam, utilizando o seu privilégio como escudo para a sua atuação profissional. 

Condecorações: A Cruz Vermelha Real (RRC) foi instituída pela Rainha Vitória em 1883, e Georgina foi uma das suas recipientes mais distintas pela consistência do serviço prestado ao longo de três décadas. 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA LITERÁRIA E TEÓRICA 

WOOLF, Virginia. A Room of One's Own (Um Quarto Só Para Si). Londres: Hogarth Press, 1929. 

Nota: Esta é a fonte primária para a análise da "irresponsabilidade" imposta a Georgina e a reflexão sobre como o AVC de Lord Dudley permitiu que ela demonstrasse sua competência. 

Biografias e História da Família Ward (Dudley)

WARD, C.H.D. The Ward Family of Dudley. (Registros genealógicos e históricos da linhagem dos Condes de Dudley). 

TREVELYAN, Raleigh. Grand Dukes and Diamonds: The Wards of Dudley. Londres: Secker & Warburg, 1991. 

Nota: Esta é a biografia definitiva sobre a família, detalhando o estilo de vida extravagante de William Ward e a transição administrativa de Georgina. 

3. História Industrial e Regional (As Siderúrgicas e Minas) 

HACKWOOD, Frederick William. Oldbury and Round Oak: A History of the Iron Trade in South Staffordshire. 1920 (Reimpressão).

Nota: Essencial para entender o funcionamento das Round Oak Ironworks e o impacto económico da família Dudley na região de Black Country. 

GALE, W. K. V. The Black Country Iron Industry. Londres: Iron and Steel Institute, 1966. 

4. Contexto de Enfermagem e Medicina Militar 

BOYLE, Andrew. Trenchard: Man of Vision. Londres: Collins, 1962.

Nota: Biografia do Marechal Trenchard que detalha sua convalescença sob os cuidados de Georgina e o impacto do método dela em sua recuperação.

BRITISH RED CROSS ARCHIVES. Records of the Joint War Committee (1914-1919). 

Nota: Registros oficiais que documentam a atuação das damas da aristocracia nos hospitais de convalescença e a atribuição da Cruz Vermelha Real (RRC).

5. Documentação Histórica e Periódicos (Fontes Primárias)

THE LONDON GAZETTE. Edições de 1914-1919. (Para verificação das condecorações e nomeações oficiais na Ordem de São João). 

THE TIMES (Archive). Obituário de Georgina, Countess of Dudley, publicado em 4 de fevereiro de 1929. 

Nota: O obituário fornece o resumo factual de suas atividades de caridade e serviço público após a viuvez. 

6. História Social e de Gênero

CANNADINE, David. The Decline and Fall of the British Aristocracy. New Haven: Yale University Press, 1990. 

Minha pesquisa - ARAÚJO, Alberto. A Gestão do Adorno: Georgina Moncreiffe e a Reconstrução do Papel Feminino na Aristocracia Britânica. Niterói: Focus Portal Cultural, 2026. Pesquisa documental e análise historiográfica. 

Nota do Editor: Este texto é fruto de uma pesquisa dedicada à recuperação da memória institucional e social de figuras históricas, buscando ir além da anedota biográfica para encontrar a essência da competência humana. — Alberto Araújo 

Pesquisa e Redação © Alberto Araújo



















MILTON HATOUM TOMA POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

Três vezes vencedor do prêmio Jabuti, o escritor Milton Hatoum toma posse na cadeira 6 da Academia Brasileira de Letras na próxima sexta-feira, 24 de abril, às 20h, na sucessão do jornalista Cícero Sandroni, morto em junho do ano passado. 

A cerimônia será realizada no Petit Trianon, na sede da ABL, e será transmitida ao vivo pelo site e pelo canal do Youtube pelo link: https://www.youtube.com/live/oa-IT-MATSc?si=ntrq4EyPrEUHul38

Milton Hatoum será recebido pela Acadêmica Ana Maria Machado; receberá o colar da Acadêmica Rosiska Darcy e o diploma, da Acadêmica Lilia Moritz Schwarcz; a espada será entregue pelo decano José Sarney. A comissão de entrada será formada pelos Acadêmicos Antonio Carlos Secchin, Domício Proença Filho e Eduardo Giannetti; a comissão de saída pelos Acadêmicos Arno Wehling, Ana Maria Gonçalves e Gilberto Gil.

Milton é o primeiro membro amazonense da ABL. Quando foi eleito, em agosto do ano passado, disse que pretende continuar fazendo o que faz há mais de 30 anos: falar sobre literatura e a importância da leitura aos jovens, sobretudo nas escolas e universidades, além do público, de modo geral. 

“Quero trazer a literatura para o cotidiano das pessoas. A ABL é uma instituição muito séria, com um valor simbólico muito forte. Foi fundada pelo maior escritor da América Latina no século XIX, Machado de Assis, um dos maiores escritores de língua portuguesa.”

Ao longo de sua trajetória, Hatoum escreveu nove livros de ficção, dentre eles os romances Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte (Companhia das Letras), vencedores do Prêmio Jabuti. Também é responsável por coletâneas de contos e crônicas. Ao todo, tem mais de 500 mil exemplares vendidos em 17 países. 

MILTON HATOUM 

Milton Hatoum nasceu em Manaus, em 1952. Em 1968, mudou-se para Brasília, onde estudou no CIEM (Colégio de Aplicação da UnB). Morou toda a década de 1970 em São Paulo e diplomou-se em arquitetura na FAU(USP), onde desenvolveu uma pesquisa sob a orientação do geógrafo Prof. Dr. Milton Santos. Em 1978-79 foi professor de história da arquitetura na Universidade de Taubaté. 

Em 1980 morou em Madri, como bolsista do Instituto Ibero Americano de Cooperación. Entre 1981 e 1983 morou em Paris, onde cursou mestrado em literatura latino-americana. De 1984 a 1998 foi professor de língua e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas. 

Em 1999 mudou-se para São Paulo, onde foi colunista do Caderno 2 (O Estado de S. Paulo) entre 2008 e 2016. Foi colunista do jornal O Globo, do site Terra Magazine e da revista Entre livros. 

Foi professor visitante da Universidade da California (Berkeley) e da Sorbonne, bolsista da Fundação Vitae (1988), da Maison des Écrivains Étrangers (Saint-Nazaire/França) e escritor residente das Universidades Yale e Standford e do InternationalWritingProgram (Iowa/EUA). Participou de seminários e fez conferências em várias instituições e universidades europeias (Sorbonne, Rennes, Poitiers), norte-americanas (Biblioteca do Congresso, Berkeley, Princeton, Yale) e libanesas (Saint-Joseph, American University).

Em 2000, publicou o romance Dois irmãos (indicado para o Impac-Dublin LiteraryAward, 2004), eleito o melhor romance brasileiro no período 1990-2005 em pesquisa feita pelos jornais Correio Braziliense e O Estado de Minas. O título foi publicado em Argentina, Alemanha, China, Espanha, Estados Unidos, Itália, França, Grécia, Holanda, Inglaterra, Líbano, Portugal, República Tcheca e Sérvia. "Dois irmãos" foi adaptado para o audiovisual (minissérie da TV Globo, direção de Luiz Fernando Carvalho, roteiro de Maria Camargo). 

Em 2005, o romance Cinzas do Norte obteve o Prêmio Portugal Telecom, Grande Prêmio da Crítica/apca-2005, Prêmio Jabuti/2006 de Melhor Romance, Prêmio Livro do Ano da CBL e Prêmio Bravo! de Literatura. Em 2008, recebeu do Ministério da Cultura do Brasil a medalha da Ordem do Mérito Cultural. Em 2010, a tradução inglesa de “Cinzas do Norte” (Ashes of theAmazon, Bloomsbury, 2008) foi indicada para o Prêmio Impac-Dublin. 

Em 2008, publicou seu quarto romance, “Órfãos do Eldorado” (Prêmio Jabuti –2º lugar na categoria Romance). Foi adaptado para o cinema (direção e roteiro de Guilherme Coelho). Em 2009, lançou o livro de contos “A cidade ilhada”, que inspirou o filme “O rio do desejo”, dirigido por Sergio Machado. 

Em 2013, publicou “Um solitário à espreita”, uma seleção de crônicas publicadas em jornais e revistas. 

Em 2017 Hatoum foi nomeado Officier de l'OrdredesArts et des Lettres pelo Ministério da Cultura e da Comunicação da República Francesa.

Recebeu o Prêmio Juca Pato/Intelectual do ano (União Brasileira dos Escritores/UBE/2018) pelo romance A noite da espera - primeiro volume da trilogia O lugar mais sombrio. Ainda em 2018 recebeu em Paris o Prix Roger Caillois 2018 pourlaLittérature Latino-Américaine (Maison de l'Amérique Latine/PENClub France). 

Em 2019, lançou “Pontos de fuga”, segundo volume da trilogia “O lugar mais sombrio.”

Em parceria com o filósofo e crítico literário Benedito Nunes, publicou “Crônica de duas cidades: Belém e Manaus” (2006/Secult-PA), a ser relançado pela Companhia das Letras, editora das obras do autor. 

Os livros de Hatoum já ultrapassam 500 mil exemplares vendidos, foram publicados em 17 países, e contam com uma extensa fortuna crítica no Brasil e no exterior. Traduziu para o português “A cruzada das crianças” (Marcel Schwob), Representações do Intelectual (Edward Said) e, em parceria com Samuel Titan, Três contos (Gustave Flaubert).

Hatoum tem publicado também ensaios e artigos sobre literatura brasileira e latino-americana em revistas e jornais do Brasil, da Espanha, França e Itália. Alguns de seus contos e ensaios saíram nas revistas Europe, Nouvelle Revue Française (França), Grand Street (Nova York), Quimera (México) e Serrote. Participou de várias antologias de contos brasileiros organizadas na Alemanha e no México, e da Oxford Anthology of theBrazilian Short Story.

No final do ano passado, lançou, pela Companhia das Letras, “Dança de enganos”, último volume da trilogia “O lugar mais sombrio”. 

Segue também sua atividade de escritor convidado para ministrar cursos e conferências em universidades e institutos do Brasil e do exterior.




 

DIA NACIONAL DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS: UM MARCO DE INCLUSÃO E CULTURA - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL - © ALBERTO ARAÚJO

No dia 24 de abril, celebramos o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), uma data que carrega enorme significado para a comunidade surda e para toda a sociedade brasileira. Instituída pela Lei nº 13.055/2014, essa celebração rememora o reconhecimento oficial da Libras como meio legal de comunicação e expressão, garantido pela Lei nº 10.436/2002. Mais do que uma efeméride, este dia é um convite à reflexão sobre inclusão, diversidade e respeito às diferenças. 

A escolha do 24 de abril não é aleatória. Foi nesse dia, em 2002, que a Libras foi oficialmente reconhecida como língua, com estrutura gramatical própria, distinta do português. Esse marco legal representou um avanço histórico, pois consolidou o direito das pessoas surdas de se comunicarem em sua língua natural, fortalecendo sua identidade cultural e social. 

A Libras não é apenas um conjunto de gestos ou sinais. É uma língua completa, com sintaxe, semântica e pragmática próprias, capaz de expressar sentimentos, ideias complexas e conceitos abstratos. Sua relevância vai muito além da comunicação: ela é instrumento de cidadania, inclusão e acesso. 

Inclusão educacional: A Libras garante que estudantes surdos possam aprender em igualdade de condições, com professores capacitados e materiais acessíveis. 

Acesso à informação: A presença de intérpretes de Libras em eventos, programas televisivos e serviços públicos assegura que a comunidade surda participe plenamente da vida social. 

Valorização cultural: A Libras é parte da identidade da comunidade surda brasileira, representando sua história, sua luta e sua cultura.

Conquistas e Avanços 

DESDE O RECONHECIMENTO OFICIAL, MUITOS AVANÇOS FORAM CONQUISTADOS: 

Regulamentação da obrigatoriedade da disciplina de Libras em cursos de formação de professores e fonoaudiólogos (Decreto nº 5.626/2005); Expansão de cursos de Libras em universidades e centros de formação; Maior presença de intérpretes em ambientes públicos e privados; Crescente valorização da cultura surda em eventos artísticos e educacionais. 

DESAFIOS PERSISTENTES

Apesar dos progressos, ainda há muito a ser feito:

Educação infantil: Muitas crianças surdas ainda enfrentam barreiras para ingressar em escolas que ofereçam ensino bilíngue:

Capacitação profissional: A escassez de intérpretes e professores fluentes em Libras limita o acesso pleno à educação e aos serviços.

Acessibilidade universal: Em diversos espaços públicos e privados, a comunicação em Libras ainda não é garantida. 

UM CHAMADO À SOCIEDADE

Celebrar o Dia Nacional da Libras é reconhecer que a inclusão não é um favor, mas um direito. É reafirmar que a diversidade linguística enriquece nossa cultura e fortalece nossa democracia. É também um chamado para que governos, instituições e cidadãos se comprometam com políticas públicas e práticas sociais que assegurem a plena participação da comunidade surda. 

Neste 24 de abril, o Focus Portal Cultural se une à celebração do Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais, parabenizando a comunidade surda por suas conquistas e reforçando a importância da Libras como instrumento de inclusão, cidadania e cultura. Que esta data inspire cada um de nós a construir uma sociedade mais justa, acessível e plural, onde todas as vozes, faladas ou sinalizadas, sejam ouvidas e respeitadas. 

Parabéns à comunidade surda e à Libras, patrimônio cultural e linguístico do Brasil! 

© Alberto Araújo 




 

SOLANGE FARKAS LIDERARÁ JÚRI DA BIENAL DE VENEZA 2026

 


A curadora brasileira Solange Oliveira Farkas foi escolhida para presidir o júri da 61ª Bienal de Veneza, responsável por definir os vencedores dos Leões de Ouro e de Prata desta edição. Fundadora da Bienal Videobrasil e diretora da Associação Cultural Videobrasil, Farkas assume a liderança de um painel internacional formado por cinco especialistas.

Além dela, integram o júri Zoe Butt, criadora do in-tangible institute voltado à arte do Sudeste Asiático; Elvira Dyangani Ose, que recentemente deixou a direção do MACBA em Barcelona; Marta Kuzma, professora na Yale School of Art e ex-diretora do OCA na Noruega; e Giovanna Zapperi, docente de história da arte contemporânea na Universidade de Genebra. 

A composição do júri ocorre em um momento delicado. O curador da edição, Koyo Kouoh, faleceu em 2025 antes de anunciar oficialmente o tema “In Minor Keys”. Sem sua condução, a Bienal optou por seguir com apoio de consultores curatoriais, enquanto o conselho administrativo assumiu a responsabilidade pela escolha dos jurados. 

O grupo terá como principais atribuições selecionar o Leão de Ouro para melhor pavilhão nacional e para melhor artista da mostra internacional, além do Leão de Prata para revelação e menções especiais. Diferentemente de anos anteriores, não haverá a premiação por trajetória, já que Kouoh não chegou a indicar um nome.

A edição também enfrenta tensões políticas: a confirmação das participações de Israel e Rússia provocou reações imediatas. A União Europeia ameaçou suspender parte do financiamento futuro, e o governo italiano pressionou por mudanças internas no conselho da Bienal, expondo o clima de disputa que acompanha o evento. 

A 61ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza 2026 acontecerá de 9 de maio a 22 de novembro de 2026, com pré-abertura nos dias 6, 7 e 8 de maio. O evento, um dos mais importantes do mundo, ocupará os tradicionais espaços dos Giardini, Arsenale e outros locais pela cidade.

Datas Principais: 9 de maio a 22 de novembro de 2026.

O evento, que costuma destacar questões sociais e políticas, promete reunir cerca de 100 participações nacionais.

© Alberto Araújo




22 - O ESPELHO DA ETERNIDADE: POR QUE SHAKESPEARE NUNCA SAI DE CENA? - 410 ANOS DE ETERNIDADE: UMA HOMENAGEM A WILLIAM SHAKESPEARE - ENSAIO BIOGRÁFICO-LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

 

Há exatos 410 anos, o mundo se despedia de William Shakespeare. Mas como dizer que um autor "faleceu" se suas palavras ainda ecoam em cada teatro, em cada roteiro de cinema e em cada batida do coração humano? Neste ensaio especial, o Focus Portal Cultural presta uma homenagem-lembrança ao bardo de Stratford, mergulhando na biografia e na genialidade daquele que transformou a escrita em um espelho eterno para a nossa própria condição. 

A pergunta "por que ler Shakespeare?" ecoa através dos séculos, não como um questionamento de sua relevância, mas como um convite para desbravar a própria essência humana. Muitas vezes, o bardo de Stratford-upon-Avon é apresentado nos bancos escolares como uma estátua de mármore, fria, distante e envolta em uma linguagem que parece exigir um mapa para ser navegada. No entanto, a genialidade de Shakespeare vai muito além das peças que decoramos para exames. Ele não é apenas um nome canônico; ele é, em última análise, um espelho da nossa própria condição.

Falar de Shakespeare é falar de tudo o que nos move. Amor, ambição, ciúme, poder, traição e loucura. Séculos se passaram, impérios caíram, a tecnologia transformou a face da Terra, mas o "software" humano permanece o mesmo. Ainda sentimos a hesitação paralisante diante de uma grande decisão, o fogo da paixão que ignora a lógica e a sede de poder que corrói a ética. É nessa permanência que reside a sua eternidade. 

O Homem que Entendia as Pessoas 

O que diferencia Shakespeare de qualquer outro autor é a sua capacidade quase sobrenatural de entender a psique humana. Seus personagens não são meros arquétipos ou funções dramáticas; eles respiram. Eles possuem contradições, dúvidas e uma vida interior que transborda das páginas. 

Quando olhamos para Hamlet, o príncipe da Dinamarca, não vemos apenas um personagem de uma tragédia elisabetana. Vemos o jovem que enfrenta o luto, a desilusão com o mundo adulto e o peso esmagador da expectativa alheia. Shakespeare torna simples o que é complexo e profundamente humano o que, em outras mãos, pareceria distante. Ele nos dá a linguagem para expressar o inexpressável. É impossível não se reconhecer, ainda que em fragmentos, na fúria cega de Lear ou no humor ácido e subversivo de Falstaff.

Essa capacidade de capturar o que há de mais contraditório em nós, o herói que falha, o vilão que sofre, o amante que se perde, é o que mantém suas obras pulsando. Ele não nos oferece respostas fáceis; ele nos oferece o reconhecimento. 

Hamnet: A Dor que Gera o Gênio 

Recentemente, a discussão sobre a vida pessoal de Shakespeare e sua obra ganhou novas cores com a adaptação cinematográfica de "Hamnet" (baseado no livro de Maggie O'Farrell). O filme mergulha em uma ferida histórica muitas vezes negligenciada pela crítica literária tradicional: a morte de seu filho de onze anos, Hamnet, em 1596. 

A obra propõe uma ponte emocional entre a perda doméstica e a criação artística. Como um pai sobrevive à perda de um filho que carrega um nome tão semelhante ao de seu personagem mais famoso? O filme nos lembra que, por trás da "instituição" Shakespeare, havia um homem de carne e osso, lidando com o luto em uma época de pragas e incertezas. 

Hamnet humaniza o bardo ao mostrar que sua escrita não era apenas um exercício de intelecto, mas uma forma de processar a dor. A tragédia de Hamlet, escrita poucos anos após a morte do filho, torna-se, sob essa lente, um diálogo metafísico entre a vida e a morte, entre o pai que fica e o filho que se vai. Isso reforça a tese de que a literatura de Shakespeare é visceral; ela nasce das entranhas da experiência humana. 

A Linguagem que Habita em Nós 

É curioso notar como Shakespeare continua ecoando na linguagem que usamos hoje, muitas vezes sem percebermos. Quando dizemos que alguém está "em um dilema", ou usamos expressões que denotam o "verde do ciúme", estamos, de certa forma, citando o bardo. Ele inventou ou popularizou centenas de palavras e frases no inglês que moldaram a forma como o mundo ocidental comunica emoções. 

Sua influência não se limita às bibliotecas. Ela explode nas telas de cinema, nas séries de streaming e na música popular. Das intrigas políticas de House of Cards (que bebe diretamente de Richard III e Macbeth) às releituras modernas de Romeu e Julieta, Shakespeare é o alicerce da narrativa ocidental. Ele estabeleceu os padrões de conflito e resolução que ainda hoje seguimos. 

Conclusão: O Autor que se Renova 

Shakespeare nunca sai de cena porque ele é o autor que mais inspira, provoca e transforma. O que torna alguém eterno não é apenas a perfeição técnica de sua métrica ou a sofisticação de suas metáforas, mas a capacidade de permanecer vivo em cada nova geração. 

Cada vez que um ator sobe ao palco para dizer "Ser ou não ser", ele não está apenas repetindo um texto antigo; ele está dando voz a uma dúvida que renasce a cada manhã em algum lugar do mundo. Shakespeare nos ensina que, embora o tempo passe, o coração humano continua batendo no mesmo ritmo e que a beleza da vida reside justamente na nossa capacidade de sentir, sofrer e, através da arte, entender quem realmente somos.

O Homem por Trás do Mito: Uma Jornada de Stratford ao Globo

Para compreender a imensidão da obra, é preciso olhar para o homem que a escreveu. William Shakespeare não nasceu em um berço de ouro literário; ele foi o resultado de uma época de transição e de uma curiosidade intelectual insaciável. Nascido em abril de 1564, na pequena Stratford-upon-Avon, era filho de John Shakespeare, um próspero luveiro e comerciante que chegou a ocupar cargos públicos, e de Mary Arden, filha de um rico proprietário de terras. Essa origem provincial, mas sólida, permitiu que o jovem William frequentasse a King’s New School, onde foi mergulhado no latim e nos clássicos de Ovídio e Virgílio. Foi ali, entre gramáticas latinas e retóricas clássicas, que as sementes de suas futuras tragédias e comédias foram plantadas. 

Aos dezoito anos, a vida de Shakespeare tomou um rumo doméstico ao casar-se com Anne Hathaway, uma mulher oito anos mais velha, com quem teve três filhos: Susanna e os gêmeos Judith e Hamnet. No entanto, o que se segue na biografia de William é um dos maiores mistérios da literatura: os chamados "anos perdidos". Entre 1585 e 1592, os registros históricos silenciam. Há lendas de que ele teria sido professor, soldado ou até mesmo que teria fugido para Londres após ser pego caçando ilegalmente nas terras de um nobre local. Independentemente do caminho tomado, quando ele reaparece em 1592, já é um nome estabelecido na vibrante e perigosa cena teatral de Londres. 

A Londres elisabetana era o cenário perfeito para o florescer de seu gênio. Era uma cidade de contrastes brutais, onde a pompa da corte de Elizabeth I convivia com a lama das ruas e a constante ameaça da peste negra. Shakespeare não era apenas um escritor isolado em uma torre de marfim; ele era um homem de teatro total. Atuava, escrevia e era sócio da companhia Lord Chamberlain’s Men (mais tarde King’s Men). Sua inteligência para os negócios era tão afiada quanto sua pena. Ele entendia que o teatro era a televisão daquela época: precisava agradar desde o monarca no palácio até o trabalhador analfabeto que pagava um centavo para ficar em pé diante do palco do Globe Theatre.

Essa vivência prática deu a ele uma percepção única sobre a sociedade. Shakespeare via o mundo como um palco, ideia que ele mesmo imortalizou em As You Like It. Sua produção foi prolífica e diversificada, atravessando fases de otimismo e experimentação com as comédias, explorando a identidade nacional com as peças históricas, até mergulhar nas profundezas da alma humana com suas grandes tragédias, como Othello e Macbeth. O falecimento de seu filho Hamnet, em 1596, parece ter sido um divisor de águas emocional que, anos depois, ecoaria na melancolia e nos questionamentos existenciais de suas obras mais maduras. 

O bardo não se limitou ao drama. Seus 154 sonetos revelam uma face mais íntima e, muitas vezes, enigmática, tratando de temas como a passagem do tempo, a beleza e a imortalidade através da arte. Ele escrevia com uma urgência de quem sabia que a vida era breve, mas que a palavra poderia vencer o esquecimento. Ao final de sua carreira, Shakespeare retornou a Stratford como um homem rico e respeitado, investindo em terras e na imponente casa New Place. Faleceu em 23 de abril de 1616, ironicamente na mesma data em que tradicionalmente se celebra seu nascimento.

Ele partiu deixando um testamento detalhado e uma obra que, anos depois, seria reunida por seus colegas no famoso First Folio. Se hoje falamos dele com tamanha reverência, é porque Shakespeare conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, um homem de seu tempo e um cronista de todos os tempos. Sua biografia não é apenas a história de um dramaturgo inglês, mas a crônica de um homem que aprendeu a traduzir o silêncio da alma humana em palavras que nunca mais pararam de ecoar. 

Ler Shakespeare hoje é, portanto, um ato de autodescoberta. É olhar para o espelho do passado e encontrar, com espanto e admiração, o nosso próprio rosto refletido na eternidade. 

Quer mergulhar mais fundo no universo de Shakespeare? Aqui estão os livros que inspiraram este ensaio. 

FONTES PRIMÁRIAS - AS OBRAS DE SHAKESPEARE 

SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (Edição recomendada pela fidelidade e notas explicativas). 

SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. 

SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 1998. 

CRÍTICA LITERÁRIA E TEORIA (O "PORQUÊ" DA ETERNIDADE)

BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. Tradução de José Roberto O’Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Nota: Obra fundamental para entender a tese de que Shakespeare criou a subjetividade moderna e a profundidade dos personagens. 

HELIODORA, Barbara. Por que ler Shakespeare. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008. 

Nota: A maior especialista brasileira no bardo explica a relevância técnica e emocional da obra para o leitor contemporâneo. 

KOTT, Jan. Shakespeare, nosso contemporâneo. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Cosac Naify, 2003. 

Nota: Analisa como as peças de Shakespeare dialogam diretamente com os horrores e dilemas políticos do século XX e XXI. 

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS E BIOGRÁFICAS

O'FARRELL, Maggie. Hamnet. Tradução de Julia Romeu. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021. 

Nota: O romance que deu origem ao filme e explora a vida familiar de Shakespeare e a morte de seu filho. 

GREENBLATT, Stephen. Como Shakespeare se tornou Shakespeare. Tradução de Caetano W. Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Nota: Uma biografia que busca entender como um homem comum da província se transformou no maior dramaturgo de todos os tempos. 

CULTURA E CINEMA 

BATE, Jonathan. The Genius of Shakespeare. Oxford: Oxford University Press, 1998. 

Nota: Explora como o mito de Shakespeare foi construído e sua influência no cinema e na cultura pop mundial. 

CARTMELL, Deborah. Interpreting Shakespeare on Screen. New York: St. Martin's Press, 2000.

Excelente para analisar as adaptações cinematográficas e como a linguagem visual traduz o texto elisabetano. 

Nota do Editor: Este ensaio é mais do que uma análise literária; é uma homenagem-lembrança aos 410 anos do falecimento de William Shakespeare. Em 23 de abril de 1616, o mundo perdia o homem de Stratford-upon-Avon, mas ganhava um legado que se tornaria a própria fundação da dramaturgia ocidental. Quatro séculos depois, revisitamos sua obra não como um estudo de algo morto, mas como uma celebração de uma voz que permanece, mais do que nunca, viva e necessária.

Uma homenagem do Focus Portal Cultural ao bardo que, quatro séculos após o seu último suspiro, continua a ser o mestre de cerimônias das nossas emoções e o mais fiel cronista da alma humana.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural