quinta-feira, 30 de abril de 2026

PADRE JONAS PINTO, O PASTOR DE ALMAS E MEMÓRIAS - UMA MEMÓRIA DE FÉ EM LUZILÂNDIA - CELEBRANDO 110 ANOS DE NASCIMENTO DO SACERDOTE QUE MOLDOU A IDENTIDADE CRISTÃ DE NOSSA TERRA - CRÔNICA MEMORIALISTA E BIOGRÁFICA © ALBERTO ARAÚJO


A história de uma cidade não se escreve apenas com datas e monumentos, mas com o rastro de luz deixado por presenças que se tornam o próprio alicerce de um povo. Em Luzilândia, esse alicerce atende pelo nome de Monsenhor Jonas da Fonseca Pinto. Recentemente, ao navegar pelas páginas digitais do Facebook Imagens de Luzilândia e me deparar com um vídeo emocionante na página de Gilberto Gomes e outras que não consegui localizar a página, fui transportado de volta a um tempo de pureza, onde a fé era conduzida por mãos firmes, porém imensamente doces. 

Falar do Padre Jonas é falar da minha própria identidade cristã. Ele não foi apenas o vigário da paróquia; ele foi o sustentáculo dos meus primeiros passos espirituais. Foi sob sua estola que recebi as águas do batismo, o pão da Primeira Comunhão e o selo da Crisma. E não fui apenas eu. O Monsenhor era uma presença constante na genealogia da fé da minha família: minhas irmãs, Sônia, Conceição e Adélia Araújo compartilham desse mesmo privilégio, tendo sido todas guiadas por ele nos mesmos sacramentos.

Lembro-me com uma nitidez poética das manhãs de domingo. Eu ia às missas acompanhado por minha mãe, Maria, sob o teto sagrado da Paróquia Santa Luzia. Ali, Padre Jonas exercia o que melhor sabia fazer: amar incondicionalmente suas "ovelhinhas". Ele possuía uma dedicação rara, um olhar que parecia enxergar a alma de cada paroquiano, mesmo com o seu olho frágil após um acidente de automóvel. 

A catequese daquela época era um prelúdio de bondade. Fomos preparados para a Primeira Comunhão pelas irmãs do Padre Jonas: as freiras Irmã Zélia e Irmã Helena. Elas herdaram, compartilhavam do mesmo DNA de compaixão. Com uma empatia incrível, elas não apenas ensinavam a doutrina, mas plantavam o Evangelho através do carinho, tornando o aprendizado algo suave e inesquecível. 

Para além da memória afetiva, os fatos reafirmam a grandeza deste homem. Nascido em 28 de março de 1916, filho de João Vieira Pinto e Orcina Fonseca Pinto, Jonas foi ordenado sacerdote em 1942, na Igreja Prainha, em Fortaleza. Sua missão o levou por estradas poeirentas e corações sedentos em Buriti dos Lopes, Esperantina e Matias Olímpio. 

Contudo, foi em Luzilândia que ele fincou raízes profundas, servindo por impressionantes 42 anos e 10 meses. Seu trabalho também ecoou em Joaquim Pires, na Paróquia Santa Dorotéia, entre 1961 e 1982. Às margens da Lagoa do Cajueiro, onde hoje se ergue o Centro Pastoral São Sebastião, as orações de Padre Jonas ainda parecem ecoar na brisa.

O Monsenhor nos deixou fisicamente em 09 de março de 2007, em Recife, mas sua presença é atemporal. Se hoje passamos pela Praça Santa Luzia e vemos o seu busto em frente à Casa Paroquial, não vemos apenas bronze. Vemos um homem que realizou milhares de batizados e casamentos, que uniu famílias e que, acima de tudo, personificou o amor de Deus no sertão e na beira do rio. 

Padre Jonas Pinto não foi apenas um vigário; foi o pai espiritual de gerações. E, como toda boa história que merece ser contada, a dele permanece viva em cada foto amarelada, em cada vídeo compartilhado e, principalmente, em cada oração proferida por aqueles que, como eu e minhas irmãs, tiveram a honra de ser chamados de suas ovelhas. 

Ao encerrar estas linhas, é impossível não olhar para o leito do nosso Rio Parnaíba e nele encontrar a síntese desta saudade. Padre Jonas Pinto partiu como as águas do Velho Monge, que seguem sua viagem silenciosa e inevitável em direção ao destino final. Há uma sabedoria antiga que diz que um homem jamais se banha duas vezes no mesmo rio, pois as águas já não são as mesmas, e o homem também já mudou. Pois bem, trazemos essa metáfora para dizer que, na correnteza do tempo, nunca haverá outro igual ao Monsenhor Jonas. 

As águas passam, mas o leito permanece marcado pela força da correnteza. Assim é o rastro deixado por este sacerdote em nossas vidas. Ele foi a personificação de uma compaixão que não se explica, apenas se sente. Alguém que tratava o ministério não como um cargo, mas como um exercício contínuo de delicadeza. Sua bondade era o cais onde as ovelhas cansadas encontravam refúgio; seu carinho, o vento que soprava o calor das angústias sertanejas. 

Falar dele é tentar traduzir o imensurável. Como descrever a segurança de um batismo, o conforto de uma primeira comunhão ou o olhar atento que ele dedicava a cada um de nós na Paróquia Santa Luzia? São coisas que a gramática muitas vezes não alcança, e que o jornalismo, em sua objetividade, por vezes deixa escapar. Ah! Mas o coração, esse cronista fiel da existência, sabe exatamente o que foi o privilégio de conviver com um homem de tamanha estatura espiritual.

Ele foi embora, sim, seguindo o curso natural da vida, mas deixou em cada luzilandense uma semente de amor incondicional. Padre Jonas tornou-se parte da paisagem invisível de nossa terra, está no busto da praça, está na memória das minhas irmãs e está no sentimento de quem sabe que, embora o rio siga sua viagem e as águas nunca se repitam, a bênção que ele derramou sobre nós é uma fonte que jamais secará. Ele foi único, um pastor que conhecia o cheiro e o nome de cada ovelha, e que hoje, no centenário de seu nascimento, faz-se presente na saudade que corre mansa, como o Parnaíba, dentro de todos nós. 

Crônica dedicada à memória de Monsenhor Jonas da Fonseca Pinto e à fé do povo luzilandense. Ocasião da celebração de 110 anos de seu nascimento. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural






(clicar na imagem para assistir ao pequeno vídeo)









 

PORQUE SOU ROTARY? – DECLARAÇÃO DO PRESIDENTE DO ROTARY INTERNATIONAL 2023-2024 GORDON R. MCINALLY, EM VÍDEO


O Impacto do Rotary 

"Não faz muito tempo, uma de minhas netas, que tem seis anos, me perguntava: 'O que fazem os rotarianos que lhes consome tanto tempo? Pensei um pouco e comentei, adaptando um pouco as palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano: 'Os rotarianos somos muita gente, em muitos lugares, fazendo muitas coisas, mas estamos mudando o mundo de forma positiva. 

Para mim, o Rotary é um estilo de vida único e irrepetível, uma mudança em minha maneira de ver e desfrutar a vida, de ajudar aos demais. Estou convencido de que colaborar com a Fundação é um investimento na vida.

Lembro-me de uma frase que John Germ nos disse: 'Quando reconhecemos alguém por sua contribuição à Fundação, não estamos celebrando o dinheiro, mas sim o que esse dinheiro consegue fazer em projetos de serviço ao mundo. Estamos dando esperança e fazendo o bem no mundo. Obrigado." 


(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)





SOBRE O ROTARIANO 

GORDON R. MCINALLY, DA ESCÓCIA, FOI SELECIONADO PARA SER O PRESIDENTE DO ROTARY INTERNATIONAL NO BIÊNIO 2023-2024. 

Gordon R. McInally, membro do Rotary Club de South Queensferry, Lothian, Escócia, foi o escolhido pelo Comitê de Nomeações para Presidente do Rotary International para o biênio 2023-2024. Ele será declarado presidente indicado em 1º de outubro, caso não haja outros candidatos concorrentes. 

McInally elogiou a capacidade do Rotary de se adaptar tecnologicamente durante a pandemia de COVID-19, afirmando que essa abordagem deve continuar e ser combinada com as melhores práticas do passado, à medida que o Rotary busca crescer e aumentar o engajamento. 

“Aprendemos que existe uma disposição dentro das comunidades para cuidar uns dos outros”, diz ele, “e devemos garantir que incentivemos as pessoas que recentemente abraçaram o conceito de voluntariado a se juntarem a nós para que possam continuar prestando serviços.” 

McInally afirma que a capacidade dos líderes seniores de se comunicarem diretamente com os membros do clube online será um legado positivo das mudanças que o Rotary teve que implementar. Mas, acrescenta, “as reuniões presenciais continuam sendo importantes, pois incentivam uma maior interação”. 

Segundo McInally, a melhor maneira de aumentar o número de associados é por meio do engajamento. Para melhor apoiar os clubes, ele afirma que o Rotary International, os líderes regionais e as equipes distritais precisam se engajar com eles. O engajamento por meio das mídias sociais reforçará a marca do Rotary e mostrará as oportunidades que ela oferece. Além disso, ele acrescenta que o engajamento com governos, empresas e outras organizações levará a parcerias significativas. 

Com um maior envolvimento, diz McInally, "Vamos expandir o Rotary tanto em termos de número de membros quanto em nossa capacidade de prestar serviços significativos".

Ele acrescenta: “A participação dos membros é a força vital da nossa organização. Eu encorajaria o uso da flexibilidade agora disponível para estabelecer clubes com um novo formato que atraiam um público diferente.” 

McInally, formado em cirurgia dentária pela Universidade de Dundee, era proprietário e administrava seu próprio consultório odontológico em Edimburgo. Foi presidente da filial do leste da Escócia da Sociedade Britânica de Odontopediatria e ocupou diversos cargos acadêmicos. Também atuou como presbítero, presidente do Conselho Congregacional da Paróquia de Queensferry e comissário da assembleia geral da igreja. 

Membro do Rotary desde 1984, McInally foi presidente e vice-presidente do Rotary International na Grã-Bretanha e Irlanda. Ele também serviu ao Rotary International como diretor e como membro ou presidente de vários comitês. Atualmente, é consultor do Comitê da Convenção de Houston de 2022 e presidente do Comitê de Revisão de Operações. 

McInally e sua esposa, Heather, são Grandes Doadores e Benfeitores da Fundação Rotária. Eles também são membros da Sociedade de Legados.

Os membros do Comitê de Nomeação para a Presidência do Rotary International 2023-2024 são:

Gérard Allonneau, Parthenay, França; Ann-Britt Åsebol, Falun-Kopparvågen, Suécia; Basker Chockalingam, Karur, Tamil Nadu, Índia; Corneliu Dincă, Craiova, Romênia; Celia Cruz de Giay, Arrecifes, Buenos Aires, Argentina; Mary Beth Growney Selene, Madison West Towne-Middleton, Wisconsin, EUA; Jackson SL Hsieh, Taipei Sunrise, Taiwan; Masahiro Kuroda, Hachinohe South, Aomori, Japão; Larry A. Lunsford (secretário), Kansas City-Plaza, Missouri, EUA; Anne L. Matthews (presidente), Columbia East, Carolina do Sul, EUA; Akira Miki, Himeji, Hyogo, Japão; Eun-Soo Moon, Cheonan-Dosol, Chungcheongnam, Coreia do Sul; Peter L. Offer, Coventry Jubilee, West Midlands, Inglaterra; Ekkehart Pandel, Bückeburg, Alemanha; MK Panduranga Setty, Bangalore, Karnataka, Índia; Andy Smallwood, Houston Hobby Area, Texas, EUA; e Steven A. Snyder, Auburn, Califórnia, EUA.



A FORÇA DA INTELECTUALIDADE EM FOCO: MATILDE CARONE SLAIBI CONTI LADEADA DE INÚMERAS PERSONALIDADES É HOMENAGEADA NO JUBILEU DA ORDEM DOS ARTILHEIROS DA CULTURA

 

Informativo especial do Elos Internacional

O Auditório do Forte de Copacabana, cenário histórico que testemunhou momentos decisivos da trajetória brasileira, abriu suas portas no último dia 30 de abril, quinta-feira para uma celebração que uniu o rigor do civismo à fluidez das artes. A Ordem dos Artilheiros da Cultura, ao comemorar seu jubileu de duas décadas, reafirmou seu papel como uma das instituições mais atuantes no fomento ao pensamento nacional. Em uma solenidade marcada pela presença de expoentes da literatura, educação, jornalismo e do direito, o destaque absoluto recaiu sobre à nossa companheira elista Matilde Carone Slaibi Conti, Presidente do Elos Internacional e de outras instituições que recebeu a Medalha do Mérito à Mulher Brasileira. 

O evento não foi apenas um ato formal de entrega de honrarias, mas um painel jornalístico da vitalidade cultural fluminense. Sob a organização de Mara Joaquim e Antonio Pereira, a cerimônia conectou o passado e o presente, utilizando a estrutura do Forte não como uma barreira, mas como um palco de acolhimento para as inteligências que moldam o Rio de Janeiro e o Brasil. 

A abertura dos trabalhos seguiu o protocolo de solenidades oficiais, iniciando-se com o Hino do Centro de Literatura do Forte. A composição, com letra e música de Abílio Kac, serviu como um prelúdio sonoro que preparou o público para a carga intelectual que viria a seguir. 

Um dos pontos alto do pensamento crítico literário da tarde foi a palestra proferida por Maria Amélia Palladino, renomada acadêmica e Presidente da Academia Luso-Brasileira de Letras. Com o tema "Jorge Amado: Um simples escritor baiano!", Palladino traçou um perfil biográfico e técnico do autor, celebrando os 112 anos de seu nascimento. A palestrante mergulhou na ficção regionalista amadiana, destacando sua relevância no Segundo Tempo Modernista e como sua obra continua a ser um espelho fidedigno das contradições e belezas do povo brasileiro. 

No centro deste contexto de glória, a homenagem a Matilde Carone Slaibi Conti consolidou-se como o reconhecimento de uma gestão que transcende a burocracia das associações. Como Presidente do Elos Internacional e do Cenáculo Fluminense de História e Letras, Matilde tem demonstrado uma capacidade rara de articulação entre o universo acadêmico e as demandas da sociedade civil. Sua trajetória é pautada por um acúmulo de funções que exigem não apenas paixão, mas uma competência técnica e jurídica irretocável. Analisando seu impacto nas instituições, observa-se uma presença multifacetada. Atua como Procuradora e Delegada da Comissão Artística e Cultural da OAB-Niterói, além de ocupar a Vice-Presidência na mesma subseção. Lidera a Academia Brasileira Rotária de Letras do Estado do Rio de Janeiro e o Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói. Exerce ainda o papel fundamental no Rotary Club de Niterói, na Casa da Amizade e na União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro. 

A outorga da Medalha do Mérito à Mulher Brasileira a Matilde Conti funciona como um símbolo para todas as mulheres que ocupam espaços de poder e decisão na cultura. Sua liderança é marcada pela sensibilidade em unir a tradição ao dinamismo contemporâneo, inspirando pares e novas gerações. 

Embora Matilde representando o ápice do reconhecimento na data, a Ordem dos Artilheiros da Cultura fez questão de pontuar a importância do trabalho coletivo. Inúmeras personalidades que movimentam a engrenagem cultural do estado foram devidamente agraciadas, entre elas: Ana Maria Tourinho; Idalina Gonçalves Andrade; Angela Guerra; Sabrina Campos; Marli Marinho; Nilza Freire; Neumara Coelho e outras. 

A rede de apoio e amizade que sustenta essas instituições foi visível com a presença da Companheira elista Iara Dan, do Elos Cidade Maravilhosa, que acompanhada de seu esposo, prestigiou o momento de glória da presidente Matilde, reforçando os laços de união da família elista. 

Chegar aos 20 anos de existência em um país onde o fomento cultural muitas vezes enfrenta obstáculos estruturais é um feito que merece o registro jornalístico. A Ordem dos Artilheiros da Cultura, nascida em 2006, consolidou-se como "guarda do saber". Este jubileu reflete uma trajetória de resistência. 

O lirismo cultural aqui não é apenas retórico; ele reside na prática de manter vivas as bibliotecas, os cenáculos e as academias de letras. A medalha entregue a Matilde é o reflexo de um legado indelével, onde o civismo e a arte se encontram para elevar a alma humana e fortalecer a cidadania. 

A cobertura deste evento pelo Elos Internacional reafirma o orgulho de ter Matilde Carone Slaibi Conti à frente de seus quadros, provando que o serviço ao próximo e a dedicação às letras são os pilares de uma sociedade desenvolvida. Em 2026, a cultura fluminense não apenas resiste; ela brilha com o vigor daquelas que transformam o conhecimento em ação.

O fluxo de atividades da Ordem permanece intenso. A diretoria, através de Mara Joaquim e Antonio Pereira, mantém o cronograma de valorização do mérito feminino. 

Editorial © Alberto Araújo

Diretor de Cultura do Elos Internacional




























29 - O ESPELHO DA ALTERIDADE - A MULTIPLICAÇÃO DO HUMANO NO DESASSOSSEGO DE FERNANDO PESSOA NA DRAMATURGIA DE SHAKESPEARE - ENSAIO LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

 

No teatro do mundo, onde a luz da ribalta se confunde com o pó das bibliotecas, ergue-se um monumento invisível construído por dois arquitetos de almas: William Shakespeare e Fernando Pessoa. Se o primeiro multiplicou o homem através do drama, o segundo estilhaçou o eu através do pensamento. Ambos, porém, habitaram a mesma pátria: aquela vasta e terrível vastidão que jaz entre o que somos e o que fingimos ser. 

A Anatomia do Fingimento 

Diz-se que o poeta é um fingidor, e nunca uma sentença foi tão partilhada sem que os seus autores se tenham cruzado no tempo. Shakespeare, o demiurgo de Stratford, não precisou de heterônimos de batismo para ser muitos; bastou-lhe a máscara do teatro. Em cada monólogo de Hamlet, em cada fúria de Lear, em cada artimanha de Iago, Shakespeare ausentava-se de si para que o humano pudesse, enfim, manifestar-se em sua plenitude contraditória. Ele não descrevia a paixão; ele era a própria carne que ardia no palco, transmutada em verbo. 

Pessoa, por sua vez, operou a alquimia inversa. Se Shakespeare expandiu o indivíduo para o coletivo, o português implodiu o coletivo para dentro do peito. Criou para si uma corte de fantasmas: Caeiro, Reis, Campos  que não eram meros personagens de uma peça, mas inquilinos de uma alma que se recusava a ser uma só. Se Shakespeare é o dramaturgo da ação exterior que revela o interior, Pessoa é o dramaturgo da inação interior que revela o abismo. 

O Estilo: A Trama e o Labirinto 

Imagine-se a escrita como um tear. Em Shakespeare, o fio é de seda e ferro. Há uma carnalidade nas palavras, um cheiro de terra, de vinho e de sangue. A sua linguagem é uma força da natureza que não pede licença; ela inunda a consciência do espectador com metáforas que são, ao mesmo tempo, universais e profundamente íntimas. A originalidade reside na capacidade de transformar o arcaico em eterno.

Já na linhagem que nos remete a uma observação quase telúrica, como se estivéssemos a escavar as camadas da memória ibérica, Pessoa trabalha a palavra com a precisão de um relojoeiro que sabe que o tempo é uma ilusão. O seu estilo é o do desassossego, uma prosa que se torna poesia pela força da sua exatidão metafísica. Ele não busca a catarse através da tragédia, mas o reconhecimento através da melancolia. 

Unir Shakespeare e Pessoa é, portanto, cruzar a vertigem de um desfiladeiro. Enquanto um nos mostra que "o mundo é um palco", o outro sussurra que "o que em mim sente está pensando". Ambos compreendem que a identidade é uma ficção necessária, uma veste que trocamos conforme a estação da nossa angústia. 

A Pátria da Língua e o Exílio do Ser 

Para o Bardo, a língua inglesa foi o barro com que moldou reis e bobos, transformando o vernáculo em uma sinfonia de poder e desejo. Para o vate lisboeta, a "Minha pátria é a língua portuguesa", mas uma pátria sentida como um lugar de exílio, onde o poeta se esconde atrás de sonetos ingleses ou odes pagãs para suportar o peso de não ser ninguém.

Há entre eles um diálogo silencioso sobre a solidão. O isolamento de Macbeth no seu castelo de crimes ecoa na solidão do guarda-livros Soares na Rua dos Douradores. Ambos sabem que, no final da jornada, resta-nos apenas o relato, a memória escrita, o registro de que por aqui passou alguém que ousou olhar para o sol sem fechar os olhos.

A Ressonância de uma Herança 

Esta criação original não busca apenas comparar biografias, mas sentir o pulso de uma herança que ainda sangra nas nossas mãos quando abrimos um livro. Shakespeare deu-nos a coragem de enfrentar os nossos monstros; Pessoa deu-nos a lucidez de saber que nós somos os monstros. Juntos, eles formam o mapa completo da geografia humana: o relevo das nossas paixões e a profundidade dos nossos silêncios. 

Ao ler Shakespeare sob a luz de Pessoa, percebemos que Falstaff é um heterônimo que ganhou corpo e gordura, uma explosão de vida que desafia a morte com uma piada. Ao ler Pessoa sob a sombra de Shakespeare, compreendemos que o desassossego é uma peça de teatro em cinco atos que nunca chega ao fim, onde o cenário é a própria alma do autor, vazia de gente mas cheia de vozes. 

O Inventário do Abismo: Entre o Trono e a Tabacaria 

Se o ensaio anterior lançou as bases da alma, este complemento busca os alicerces na letra. É no confronto direto entre a dramaturgia shakespeariana e a poética panteísta de Pessoa que compreendemos como a ficção pode ser mais real que a própria vida.

O Palco das Paixões Absolutas

Em Shakespeare, a obra é um organismo vivo. Tomemos Hamlet: o príncipe dinamarquês não é apenas um personagem, mas o precursor do desassossego. Quando ele hesita diante da vingança, ele antecipa em séculos a paralisia intelectual que Pessoa viria a sistematizar. O monólogo "Ser ou não ser" é o solo fértil onde brotaria, muito depois, a árvore da angústia moderna. 

Já em Rei Lear, Shakespeare descasca o homem até à sua essência mais bruta e desamparada. A tempestade na charneca é a manifestação física do caos mental, um recurso que Pessoa utilizaria de forma inversa em "Ode Marítima", de Álvaro de Campos, onde o tumulto não está no céu, mas no cais e no sangue do poeta que deseja ser "toda a gente em toda a parte". 

Enquanto Macbeth lida com a ambição que apodrece o tempo ("Amanhã, e amanhã, e amanhã..."), as peças históricas de Shakespeare constroem a identidade de uma nação. Esse esforço de mitificação encontra um eco direto em Mensagem, o único livro que Pessoa publicou em vida em português. Onde o Bardo canta a glória e a queda dos reis ingleses, Pessoa ergue o castelo de sonhos de Portugal, transformando D. Sebastião em um mito que, tal como as figuras shakespearianas, sobrevive à morte pela força do verbo. 

A Constelação dos Eus Poéticos 

Ao atravessarmos para o lado lusitano, a multiplicidade de Shakespeare fragmenta-se em vozes autônomas. Alberto Caeiro, o mestre, é a antítese de Hamlet: ele recusa a metafísica. Se para o Bardo o mundo é cheio de "som e fúria", para Caeiro o mundo é apenas o que se vê. Seus poemas de "O Guardador de Rebanhos" são lições de um olhar limpo, uma tentativa de retornar ao estado de natureza que as tragédias de Shakespeare mostram ter sido perdido para sempre.

Ricardo Reis, o latinista exilado na própria mente, traz a precisão das odes. Nele, a consciência da morte é uma constante, lembrando-nos dos sonetos de Shakespeare, onde o tempo é o devorador de todas as coisas belas. "Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio" é o convite para um carpe diem que sabe que a noite é eterna, uma melancolia clássica que poderia adornar o final de Noite de Reis. 

Por fim, a fúria modernista de Álvaro de Campos é o palco onde a máquina e o cansaço se encontram. No poema "Tabacaria", temos o ápice da despersonalização: "Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada." Aqui, a máscara cai e o que resta é o vácuo. Se Iago é o vilão que manipula a realidade por puro niilismo, Campos é o poeta que se deixa manipular pela própria sensibilidade excessiva, sentindo tudo de todas as maneiras. 

A Síncope do Tempo

A conclusão que se impõe ao observar estas obras é que Shakespeare e Pessoa são os dois polos de uma mesma bússola. Nas comédias como Sonho de uma Noite de Verão, a realidade é um equívoco dos sentidos, um jogo de espelhos que Pessoa levaria às últimas consequências em seu Livro do Desassossego. 

O Bardo deu-nos o corpo, o conflito e a glória. O vate deu-nos a mente, o fragmento e a saudade. Juntos, as peças e os poemas formam um arco que cobre toda a experiência humana: desde o primeiro grito de um rei no campo de batalha até ao silêncio de um homem que, numa tarde de Lisboa, olha pela janela e compreende que o universo é tão grande quanto o que ele consegue imaginar.

Este ensaio é um tributo à capacidade humana de se inventar. Entre o "Ser ou não ser" e o "Não sou nada / Nunca serei nada", estende-se a ponte por onde todos caminhamos. Shakespeare e Pessoa são os guardiões dessa travessia, os vates que nos ensinaram que a única forma de suportar a realidade é através da invenção suprema da beleza.

Que o leitor, ao fechar estas linhas, sinta o frescor dessa união: o vigor britânico temperado pela saudade lusitana, o drama do destino unido à filosofia do nada. Pois, no fim, somos todos feitos da mesma substância de que são feitos os sonhos, e a nossa pequena vida é cercada pelo sono,  e por versos que não morrem. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

I. Fontes Primárias: William Shakespeare 

SHAKESPEARE, William. Hamlet. Tradução de Lawrence Flores Pereira. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. (A base para o estudo da hesitação e do "eu" moderno).

SHAKESPEARE, William. Rei Lear. Tradução de Millôr Fernandes. Porto Alegre: L&PM, 2013. (Essencial para a desintegração da identidade e a natureza humana). 

SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Tradução de Barbara Heliodora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. (Onde a magia da criação e o "teatro do mundo" se consolidam). 

SHAKESPEARE, William. Sonetos. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2008. 

II. Fontes Primárias: Fernando Pessoa (e Heterônimos) 

PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. Edição de Jerónimo Pizarro. Lisboa: Tinta-da-China, 2013. (A bíblia da introspecção e da inação). 

PESSOA, Fernando. Obra Poética. Organização de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2017. (Contém o Guardador de Rebanhos, as Odes de Ricardo Reis e a poesia de Álvaro de Campos). 

PESSOA, Fernando. Mensagem. Edição comemorativa. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004. (O diálogo místico com a história e o destino das nações). 

PESSOA, Fernando. Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literária. Lisboa: Ática, 1994. (Onde Pessoa discorre sobre o "fingimento" poético).

III. Literatura de Intersecção e Crítica

BLOOM, Harold. Shakespeare: A Invenção do Humano. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. (Fundamental para entender como Shakespeare criou a subjetividade moderna). 

BLOOM, Harold. O Cânone Ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995. (Onde o autor situa Shakespeare no centro e Pessoa como um dos herdeiros mais complexos do século XX). 

PIÑON, Nélida. Aprendiz de Homero. Rio de Janeiro: Record, 2008. (Ensaios que exploram a herança clássica e a arte da narrativa, servindo de inspiração para o tom do ensaio). 

STEVINER, George. A Morte da Tragédia. São Paulo: Perspectiva, 2006. (Para a análise da transição do drama clássico para a angústia moderna). 

ZENITH, Richard. Pessoa: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. (A mais completa investigação sobre a gênese dos heterônimos e a relação de Pessoa com a literatura inglesa). 

IV. Estudos Comparados

LOURENÇO, Eduardo. Fernando Pessoa, Rei da Nossa Baviera. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986. (Análise da "teatralidade" interna de Pessoa).

SILVA, Vítor Aguiar e. As Humanidades, os Estudos Culturais e o Ensino da Literatura. Coimbra: Almedina, 2010. (Para o entendimento da "Pátria Língua" em ambos os autores).

© Alberto Araújo

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

28 - A ARTE DE COMPREENDER A MARCHA: UM CONVITE À VIDA ENSAIO LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO - INSPIRADO EM VÍDEO QUE DULCE MATTOS COMPARTILHOU EM NOSSO GRUPO.


Viver é, talvez, a tarefa mais complexa e, simultaneamente, a mais bela que recebemos. Muitas vezes nos perdemos no ruído da modernidade, no imediatismo das telas e na pressão invisível de "chegar a algum lugar". Mas, como a canção nos ensina, a vida não é um destino; é a própria marcha. 

Temos o hábito de medir o sucesso pela velocidade. Queremos a carreira pronta aos vinte, a estabilidade aos trinta e o descanso imediato. No entanto, a natureza, que o vídeo tão bem retrata, não tem pressa, e ainda assim tudo nela se realiza. Uma árvore não força seus frutos a amadurecerem no inverno; ela compreende a marcha das estações. 

Quando Almir Sater diz que "anda devagar porque já teve pressa", ele nos oferece uma libertação. Ele nos diz que está tudo bem não estar na frente. Está tudo bem saborear o caminho. A pressa é a inimiga da percepção; quando corremos, as paisagens da alma tornam-se borrões. Só quem caminha devagar consegue notar as "manhas e as manhãs". 

Muitas vezes, olhamos para os nossos momentos de tristeza como erros de percurso. Tentamos deletar as lágrimas ou esconder as cicatrizes. Mas a sabedoria da vida reside em entender que "é preciso a chuva para florir". Sem as tempestades, o solo da nossa alma permaneceria seco e infértil. 

As dores que enfrentamos não são punições, são preparações. O sorriso mais bonito não é aquele que nunca conheceu o choro, mas aquele que, após atravessar o deserto, encontrou o valor de uma única gota de água. Aceitar a nossa vulnerabilidade e as nossas falhas é o que nos torna verdadeiramente "fortes e felizes". 

Vivemos na era da informação, onde todos sentem a obrigação de ter opiniões formadas sobre tudo. Admitir "que muito pouco eu sei" é um ato de coragem intelectual e espiritual. Quando reconhecemos nossa pequenez diante do universo, abrimos as portas para o aprendizado contínuo. O mestre não é aquele que sabe tudo, mas aquele que nunca deixou de ser aluno. 

No final de tudo, a canção nos devolve o protagonismo. "Cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz". Não espere que o mundo lhe dê permissão para ser feliz. A felicidade não é um evento externo, é uma composição interna. Você é o maestro da sua própria história. Suas escolhas, por menores que pareçam, são as notas que formam a melodia da sua existência. 

Tocar em frente não significa ignorar o passado, nem temer o futuro. Significa estar presente no agora, com os pés firmes no chão e o coração aberto para o que vier. Compreenda o seu ritmo. Respeite o seu tempo. E, acima de tudo, nunca pare de caminhar. 

Que hoje você possa olhar para sua trajetória com mais ternura, sabendo que cada tropeço foi um passo, e cada lágrima foi adubo para a alegria que ainda vai brotar. Siga tocando, pois a canção é sua, e ela é linda. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

  

TOCANDO EM FRENTE, A CANÇÃO DA VIDA

 

Algumas músicas não são apenas canções, são poesias que traduzem a alma humana. E foi em 1990, no álbum Sul de Minas, que Almir Sater e Renato Teixeira nos presentearam com uma das maiores obras da música brasileira: "Tocando em Frente".

Desde então, essa canção tem atravessado gerações, tocando corações, inspirando vidas, trazendo conforto e reflexão. 

Mas o que faz essa música ser tão especial? O que há por trás de cada verso? Almir Sater não apenas canta, ele nos convida a uma jornada de autoconhecimento, a um olhar mais profundo sobre a vida quando ele diz:

"Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais." 

Ele fala sobre maturidade. Sobre como no início da vida corremos, nos afobamos, queremos tudo para ontem; mas com o tempo aprendemos que a pressa rouba a beleza do caminho. 

O sorriso que carregamos hoje é fruto das lágrimas que já derramamos, das dores que nos moldaram. E então ele segue:

"Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe..." 

Aqui ele reconhece que a felicidade vem com o tempo, com as batalhas vencidas, mas também com a aceitação de que nem tudo está sob o nosso controle. A vida tem seus mistérios, suas incertezas, e aprender a conviver com isso nos torna mais fortes. E o que ele quer dizer com:

 "Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, ou nada sei."?

Esse é um dos versos mais profundos da canção, porque a verdadeira sabedoria está em conhecer que sempre há algo a aprender. Quanto mais vivemos, mais percebemos o quanto ainda não sabemos. 

Depois a música nos ensina algo essencial: "Conhecer as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maçãs."

Aqui ele nos fala sobre sentir a vida. As manhãs são os recomeços, os dias claros que surgem depois da tempestade. E as massas e as maçãs são os pequenos prazeres: o gosto da comida, o cheiro da terra, a simplicidade das coisas que realmente importam.

Então ele nos entrega um ensinamento precioso: "É preciso amor pra poder pulsar, é preciso paz pra poder sorrir, é preciso a chuva para florir."

Nada floresce sem amor, nada cresce sem paz. E as dificuldades da vida, ah, elas vem como a chuva. Às vezes assustam, às vezes parecem demais, mas são elas que fazem a vida renascer. São as dores que nos fazem evoluir, que nos tornam mais fortes. 

E aí Almir Sater nos dá um conselho valioso: "Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente." 

O que ele quer nos dizer aqui: que a vida não é sobre correr sem destino, mas sobre entender o seu próprio ritmo. Aceitar os altos e baixos e seguir com fé, porque cada um tem seu tempo, sua história, sua caminhada.

E então ele nos lembra de algo essencial: "Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz." 

Aqui ele nos mostra que ninguém pode viver a nossa vida por nós. Que cada escolha, cada passo, cada sonho, tudo faz parte de nossa própria história. E que dentro de cada um de nós existe força, coragem, capacidade e um caminho único para a felicidade. 

No fim, "Tocando em Frente" não é apenas uma música. É um lembrete de que a vida deve ser vivida com calma, com gratidão, com aceitação.

E a maior lição que Almir Sater e Renato Teixeira nos deixam é essa: não tenha pressa, não se desespere, não tema a chuva. Apenas compreenda a marcha da vida e siga sempre tocando em frente!






(Vídeo da inspiração - clicar na imagem)