Em 06 de outubro de 1945 nascia, no
Rio de Janeiro, Antonio Cicero Correia Lima, um dos mais importantes
intelectuais brasileiros das últimas décadas. Poeta, filósofo, ensaísta,
crítico literário e letrista, sua obra transitou com naturalidade entre a reflexão
filosófica, a literatura e a música popular brasileira, deixando uma marca
profunda na cultura nacional.
Filho dos piauienses Amélia Correia
Lima e Ewaldo Correia Lima, Antonio Cicero passou parte da juventude nos
Estados Unidos, onde concluiu os estudos secundários após a família se mudar
para Washington. De volta ao Brasil, iniciou sua formação em Filosofia na
PUC-Rio e na UFRJ, concluindo posteriormente seus estudos na Universidade de
Londres. Mais tarde, aprofundou-se nos clássicos gregos e latinos durante a
pós-graduação na Georgetown University, nos Estados Unidos.
Embora escrevesse poesia desde cedo,
foi por meio da música que seu talento alcançou o grande público. Ao lado da
irmã, a cantora Marina Lima, tornou-se autor de algumas das letras mais
célebres da música brasileira contemporânea. Entre suas composições mais
conhecidas estão “Fullgás”, “Para Começar” e “À Francesa”, além do clássico “O
Último Romântico”, gravado por Lulu Santos. Sua parceria artística também se
estendeu a nomes como Adriana Calcanhotto, João Bosco, Orlando Morais, Waly
Salomão e Cláudio Zoli.
A partir da década de 1990, Antonio
Cicero consolidou-se como poeta e ensaísta. Publicou obras marcantes como
Guardar (1996), vencedora do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira na
categoria estreante; A Cidade e os Livros (2002); Porventura (2012); e os
ensaios filosóficos O Mundo Desde o Fim (1995) e Finalidades sem Fim (2005),
finalista do Prêmio Jabuti.
Além da produção literária,
desempenhou importante papel na vida cultural brasileira, coordenando cursos,
promovendo debates e organizando encontros que reuniram grandes nomes da arte,
da literatura e da filosofia. Foi também colunista da Folha de S.Paulo entre
2007 e 2010.
O reconhecimento de sua trajetória
culminou, em 2017, com sua eleição para a Cadeira 27 da Academia Brasileira de
Letras, tomando posse em março de 2018. Na ocasião, foi saudado como um dos
mais representativos escritores da literatura brasileira contemporânea.
Antonio Cicero faleceu em 23 de
outubro de 2024, em Zurique, na Suíça, após anos enfrentando a doença de
Alzheimer. Sua partida encerrou uma trajetória singular, mas sua obra permanece
viva em poemas, ensaios e canções que continuam a emocionar e inspirar
leitores, ouvintes e estudiosos.
Ao celebrar o nascimento de Antonio
Cicero, recordamos um criador raro, capaz de unir o pensamento filosófico à
delicadeza da poesia e à força da canção popular, construindo uma obra que
ocupa lugar de destaque na cultura brasileira contemporânea.
OBRAS PUBLICADAS
Ensaios filosóficos
O mundo desde o fim. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1995.
Finalidades sem fim. São Paulo:
Companhia das Letras, 2005.
Poesia e filosofia. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2012.
Livros de Poemas
Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.
A cidade e os livros. Rio de Janeiro:
Record, 2002.
Livro de sombras: pintura, cinema e
poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo). Rio de Janeiro, + 2
Editora, 2010.
Porventura. Rio de Janeiro: Record,
2012
Livro de Entrevistas
Antonio Cicero por Antonio Cicero.
Org. por Arthur Nogueira.
Alguns textos em coletâneas
De suas palestras, integrantes dos
ciclos de conferências e debates organizados por Adauto Novaes e a sua empresa
de produção cultural "Artepensamento", foram publicadas as seguintes:
"Hölderlin: O destino do
homem" (in: Poetas que pensaram o mundo. NOVAES, A. (org.). São Paulo:
Companhia das Letras, 2005)
"A sedução relativa" (in: O
silêncio dos intelectuais. NOVAES, A. (org.). São Paulo: Companhia das Letras,
2006)
"Da atualidade do conceito de
civilização" (in: A urgência da teoria. BHABHA, Homi et al. Lisboa: Tinta
da China, 2007)
"O ser humano e o
pós-humano" (in: Mutações: a condição humana. NOVAES, A. (org.). São
Paulo: Agir, 2009)
"A razão niilista" (in:
Mutações: a experiência do pensamento. NOVAES, A. (org.). São Paulo: SESC,
2010)
"Razão crítica, razão
instrumental e crença" (in: Mutações: a invenção das crenças. NOVAES, A.
(org.). São Paulo: SESC, 2011)
"Poesia e preguiça" (in:)
"O ser humano e o pós-humano" (in: Mutações: a condição humana.
NOVAES, A. (org.). São Paulo: Agir, 2009)
Obras organizadas por Antonio Cicero
Nova antologia poética de Vinícius de
Moraes (com o poeta Eucanaã Ferraz). São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
O relativismo enquanto visão do mundo
(com o poeta Waly Salomão). Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1994.
Forma e sentido contemporâneo. Rio de
Janeiro: EDUERJ, 2012.
Vários poemas seus fazem parte de
importantes antologias, tanto no Brasil quanto em Portugal, na Espanha e no
México, entre as quais Os cem melhores poemas brasileiros do século XX (Rio de
Janeiro: Objetiva, 2001), organizada por Ítalo Moriconi.
Além de várias teses e artigos, dois
livros foram escritos sobre sua obra: Do princípio às criaturas, de Noemi Jaffe
(São Paulo: Capes e USP, 2008) e Antonio Cicero, de Alberto Pucheu (Rio de
Janeiro: UERJ, 2010).
© Alberto Araújo
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