Em um
cenário onde o ritmo acelerado dos tempos modernos muitas vezes invisibiliza a
importância da pausa, do acolhimento e da valorização daqueles que acumulam a
sabedoria da vida, surgem iniciativas que resgatam a essência da convivência
humana. O mês de setembro de 2026 começa sob o signo do afeto e da transformação
social. No dia 3 de setembro, comemoramos um marco de profunda relevância para
a nossa comunidade cultural e jurídica: a realização do 3º Encontro com Fabi
– Mulheres que florescem juntas, um Café da Tarde Extraordinário concebido
como um convite irrecusável para desacelerar, contemplar o presente e
fortalecer laços de solidariedade e empatia.
O Focus
Portal Cultural estende os seus mais efusivos cumprimentos e calorosas
felicitações à idealizadora desse projeto admirável, a Dra. Fabiana Cardoso
Malha Rodrigues, cuja atuação luminosa como presidente da Comissão dos
Idosos e vice-presidente da Comissão de Apoio à Terceira Idade (CATI) da 16ª
Subseção da OAB/RJ tem sido pura essência de sensibilidade, liderança e defesa
intransigente dos direitos humanos.
O
emblemático Bistrô do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Niterói-RJ cartão-postal
que une a beleza arquitetônica à contemplação da natureza, serviu de palco para
esta tarde inesquecível. O 3º Encontro com Fabi superou as expectativas
ao reunir mulheres extraordinárias em uma atmosfera vibrante de integração e
acolhimento.
A
presença marcante da nossa presidente Matilde Carone Slaibi Conti
conferiu ainda mais brilho e prestígio a este momento especial, simbolizando a
união de lideranças comprometidas com o desenvolvimento cultural, social e
institucional do nosso município. O evento reafirmou a importância de criar
espaços em que o público feminino e, em especial, a pessoa idosa possam
encontrar escuta ativa, valorização e um ecossistema fértil para florescerem
juntas.
O Focus
Portal Cultural reconhece que eventos dessa natureza ultrapassam a mera
socialização: são atos pedagógicos, de promoção da saúde mental, de resgate da
autoestima e de afirmação do direito fundamental ao bem-estar e à convivência
comunitária.
A
sensibilidade demonstrada pela Dra. Fabiana Cardoso Malha Rodrigues na
liderança dessas ações não surge por acaso; é fruto de uma formação intelectual
rigorosa, pautada pela interdisciplinaridade e por uma busca incessante pelo
conhecimento a serviço do bem comum.
Sua
trajetória acadêmica e profissional é um exemplo inspirador de dedicação às
ciências humanas e sociais:
Graduada
pela Universidade Federal Fluminense (2000), a Dra. Fabiana aprofundou seus
estudos na mesma instituição, conquistando o Mestrado (2004) e o Doutorado em
História (2008), com sólida atuação e interesse em História Moderna e
Contemporânea.
Expandindo
seus horizontes intelectuais, concluiu em 2014 seu Pós-Doutorado em Educação
pela renomada Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), consolidando sua
visão crítica sobre Filosofia da Educação e processos formativos.
Com
graduação em Direito pela Universidade Candido Mendes (2020), uniu a
sensibilidade histórica à práxis jurídica, atuando como advogada e concentrando
seus estudos nas áreas de Direito Privado e Direito do Trabalho.
Na busca
contínua por aprimoramento técnico e humanístico, cursou a Pós-Graduação Lato
Sensu em Cognição, Jurisdição, Mediação e Arbitragem, promovida pela Escola
Superior de Advocacia (ESA - OAB Niterói) em parceria com a UNIVERSO.
Demonstrando seu compromisso ético e social, apresentou o valioso Trabalho de
Conclusão de Curso intitulado MEDIAÇÃO: VIOLÊNCIA EM FACE DA PESSOA IDOSA,
abordando com coragem e profundidade um tema urgente e necessário para a
proteção da vulnerabilidade na terceira idade.
O
reconhecimento ao seu trabalho incansável é fruto contínuo dessa entrega. Vale
recordar que, em 1º de outubro de 2024 — data em que se celebra o Dia
Internacional da Pessoa Idosa —, a Dra. Fabiana foi agraciada com uma Moção
de Agradecimento da OAB Niterói/RJ, honraria que chancelou a relevância de
sua atuação institucional e comunitária.
Para o Focus
Portal Cultural, acompanhar e divulgar iniciativas como o 3º Encontro
com Fabi é parte essencial de nossa missão editorial. Acreditamos que a cultura,
a memória, o Direito e a educação caminham juntos na construção de uma
sociedade justa, fraterna e inclusiva.
Parabenizamos
a Dra. Fabiana Cardoso Malha Rodrigues pela dedicação exemplar, pelo
entusiasmo contagiante e pela nobreza de sua causa à frente da Comissão dos
Idosos e da CATI. Que o projeto Mulheres que florescem juntas continue a
render belos frutos, inspirando novas edições e tocando corações com a força
transformadora do afeto e do respeito.
Sobre o Artigo PARA IR LONGE É PRECISO DAR O
PRIMEIRO PASSO de Ricardo Franco Teixeira, Presidente da Revista Rotary Brasil,
Edição de setembro de 2026.
O texto
central da coluna parte de uma premissa instigante: quando motivados por um
propósito nobre, os seres humanos possuem uma capacidade incomensurável de
mover montanhas e transformar realidades. Para ilustrar essa força
transformadora na prática social, o autor evoca a memória de Irmã Dulce
(Santa Dulce dos Pobres).
A
narrativa destaca a essência admirável entre a constituição física frágil da
freira e sua grandeza monumental na luta pelos necessitados. Sem dispor de
recursos financeiros próprios, Irmã Dulce adotou uma estratégia diária de ação
direta: ao acordar, dava o primeiro passo para resolver os problemas imediatos
de "seus pobres", batendo à porta de empresários, com forte parceria
do Rotary Club da Bahia e clubes de Salvador para arrecadar fundos. O exemplo
consolida a tese central do artigo de que a grandiosidade de um legado social
nasce sempre da coragem de dar o primeiro passo.
Expandindo
essa lógica de impacto humanitário para o escopo global e institucional,
Teixeira demonstra como os projetos sociais do Rotary mudaram a história da
saúde pública:
Erradicação
da Pólio: O autor
relembra o alcance monumental da principal bandeira rotariana, ressaltando o
impacto decisivo da instituição e de seus parceiros na prevenção de sequelas e
salvamento de vidas em âmbito mundial.
O Projeto
Hepatite Zero: Um marco
de orgulho nacional, o programa global de combate às hepatites virais nasceu no
Brasil a partir da superação pessoal do rotariano Humberto Coelho Neto e Silva.
A campanha ganhou força estrutural através de parcerias estratégicas de grande
visibilidade, como os mutirões de testagem realizados na sede da Fiesp, na
Avenida Paulista.
Alinhando
os projetos sociais aos temas de destaque do mês de setembro, a resenha aponta
como o Rotary atua de forma capilar nas comunidades:
Educação
Básica: Diante
dos desafios educacionais do Brasil, o autor evidencia iniciativas práticas de
clubes distritais, como o Rotary Club de Curitiba-Corporativo Sanepar, que
fornecem suporte e recursos pedagógicos cruciais para centenas de estudantes do
ensino fundamental.
Sustentabilidade: Conectando a conscientização
ambiental ao mês da árvore e da primavera, Teixeira homenageia o brasileiro
Paulo Viriato Corrêa da Costa (ex-presidente do Rotary International),
lembrando seu papel pioneiro em incentivar a preservação da fauna, da flora e
dos recursos naturais na instituição.
Concluindo
com um forte apelo à mobilização comunitária, o autor reforça que o primeiro
passo é sempre o mais árduo, mas que a união de esforços dentro do Rotary torna
qualquer transformação possível. A mensagem encerra com uma reflexão intimista
e provocativa direcionada ao leitor sobre a importância de protagonizar a sua
própria jornada de impacto social.
Poucos
nomes na história recente da filologia e da linguística brasileira carregam
tanto prestígio e reconhecimento quanto o do professor e acadêmico Ricardo
Cavaliere. Mestre das palavras, guardião da tradição gramatical e ao mesmo
tempo atento às transformações da língua em seu uso contemporâneo, o professor
Cavaliere construiu uma trajetória que une rigor científico, paixão pela
docência e um olhar sensível para os dilemas culturais do Brasil. Sua presença
na Academia Brasileira de Letras, ocupando a Cadeira 8, é prova incontestável
de sua relevância intelectual e de sua contribuição para o fortalecimento da
identidade linguística nacional.
Nascido
em Niterói e formado em instituições públicas de excelência, como o Colégio
Pedro II e a Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cavaliere é exemplo vivo
de como a educação pode transformar destinos. Sua carreira de mais de cinco
décadas no magistério, passando por diferentes níveis de ensino e ambientes
sociais, revela não apenas um professor dedicado, mas um verdadeiro intérprete
da diversidade linguística brasileira. Ao longo desse percurso, ele soube conciliar
a prática pedagógica com a pesquisa acadêmica, tornando-se referência na
historiografia da linguística e na análise crítica das gramáticas brasileiras.
O
Focus Portal Cultural tem a honra de apresentar uma entrevista exclusiva com
esse intelectual que, além de sua erudição, transmite uma humanidade rara. Em
suas respostas, Cavaliere nos conduz por memórias afetivas da infância, pela
descoberta precoce da paixão pela língua portuguesa, pelas experiências em
salas de aula que moldaram sua visão de mundo e pela convivência com grandes
mestres, como Evanildo Bechara. Mais do que um diálogo acadêmico, trata-se de
uma conversa franca e descontraída, em que o professor abre o coração e
compartilha reflexões sobre o papel da língua, da literatura e das instituições
culturais em tempos de mudanças aceleradas.
Receber
Ricardo Cavaliere em nosso espaço é celebrar a vitalidade da língua portuguesa
e reconhecer a importância de quem dedica a vida a estudá-la, preservá-la e
difundi-la. Sua trajetória nos inspira a olhar para o idioma não apenas como um
sistema de regras, mas como um organismo vivo, moldado pelo tempo, pela
história e pela cultura. É com imenso orgulho que convidamos nossos leitores a
mergulhar nesta entrevista, que certamente ficará marcada como um dos momentos
mais especiais da história do Focus Portal Cultural.
ENTREVISTA
1
- Professor, o senhor nasceu em Niterói, mas mudou-se para o Rio ainda na infância.
Como essas memórias afetivas de Niterói e a transição para a capital
influenciaram sua formação?
Resposta:
Tenho boas lembranças de minha infância em Niterói, já que morava em uma casa
com quintal e em que havia uma pequena horta. Minha mudança para Rio aos cinco
anos, na verdade para a Guanabara, decerto traçou novo rumo em minha vida
porque o ambiente cultural era distinto, mais desenvolvido. Então, tive
oportunidade de, ainda muito jovem, frequentar instituições como o Theatro
Municipal, onde era gravado aos domingos o programa Concertos para a Juventude,
e a Biblioteca Nacional. Mas o grande benefício de minha mudança para o Rio foi
a possibilidade de ingressar no Colégio Pedro II, instituição que marcou
profundamente minha adolescência.
2
- Sua trajetória escolar foi feita integralmente em instituições públicas,
incluindo o prestigiado Colégio Pedro II. Que lições daquele período o senhor
carrega até hoje para a sua prática docente?
Resposta:
O Colégio Pedro II marcou demais minha personalidade porque foi o lugar onde
vivi os dramas da adolescência, tive experiências marcantes de relacionamento
humano com professores e colegas de classe. Agência, o Pedro II tem uma aura
cativante que o faz ser um não propriamente um aluno, mas um amante do colégio.
É uma relação afetiva difícil de explicar, talvez decorrente da tradição e da
excelência com que o colégio é reconhecido. Seu dúvida o aluno que fui no Pedro
II está presente no professor que me tornei. Já a UFRJ é minha alma mater, onde
cursei a graduação, o mestrado e o doutorado em Letras, além da graduação em
Direito.
3
- O senhor demonstrava um pendor precoce pela linguagem. Como se deu esse
"despertar" pela gramática e pelos estudos linguísticos ainda no
ensino médio?
Resposta:
Quando ingressei no Curso Clássico do Pedro II em 1968 já percebia que minha
vocação era mais acentuada para as humanidade, sobretudo para o estudo nas
áreas linguística e histórica. Interessante que, no ano em cursei a terceira
série do Clássico, eu ganhei uma bolsa de estudos para frequentar um curso pré
-vestibular denominado Curso Psiqué. Minha carteirinha do curso indicava
pretensão para ingressar no curso de Direito, mas, ao longo do ano, fui-me
apaixonando pela língua portuguesa a ponto de haver mudado de ideia para ingressar
no curso de Letras. Também contou bastante minha formação no Clássico, já que
tive aulas de literatura brasileira, literatura portuguesa, latim e grego, além
naturalmente de português. Fui aluno de literatura portuguesa, por exemplo, do
Geraldo França de Lima, que ocupou a cadeira 31 da ABL. Tive aulas de português
com o Niel Casses, que era docente da UEG (atual UERJ), e aulas de grego com o
Fernando Barata, da UFRJ. Foi uma época maravilhosa de minha vida.
4
- O senhor frequentava bibliotecas fundamentais, como a Biblioteca Nacional e o
Real Gabinete Português de Leitura. Como esse contato com o acervo físico
moldou o pesquisador que o senhor se tornou?
Resposta:
Comecei a frequentar a Biblioteca Nacional ainda bem jovem, no início de
ginásio, muito em decorrência dos trabalhos escolares na área da História. Eu
admirava muito o professor de história, Abelardo, e me esforçava por fazer
trabalhos que lhe agradassem. Assim, a pesquisa na BN se impunha. A biblioteca
do Real Gabinete tornou-se frequente em minha vida mais tarde, na época do
curso de Letras, devido à pesquisa na área linguística e literária. Também
costumava participar de palestras e seminários no Liceu Literário Português.
Por outro lado, eu era frequentador assíduo da Biblioteca Pública do Rio
Comprido, que ficava na Rua do Matoso, onde pegava romances para leitura em
casa. Portanto, minha intimidade com os livros iniciou-se muito cedo e decerto
permanecerá em mim até meus derradeiros dias.
5
- Como foi a experiência de ingressar no curso de Letras da UFRJ na década de
70, em um momento de efervescência acadêmica?
Resposta:
Ingressei na UFRJ para cursar Letras em 1971, em pleno governo Médici. Do ponto
de vista acadêmico, não havia efervescência, havia medo e inquietude. Basta
dizer que na época a Faculdade de Letras ser tinha diretório acadêmico. Era
comum vermos alunos "itinerantes" em sala, apareciam de repente e
sumiram da mesma forma. O clima político era efervescente no tocante ao
confronto crônico entre o governo militar e os grupos de resistência armada. No
âmbito interno da Faculdade de Letras, o clima era até de certo marasmo do
ponto de vista político.
6
- Antes de se consolidar como pesquisador, o senhor exerceu diversos cargos,
desde professor em cursos supletivos até técnico de editoração. Como essa
"vida real" de professor de sala de aula contribuiu para o seu olhar
sobre a língua portuguesa?
Resposta:
Minha trajetória no magistério de língua portuguesa foi muito rica em
experiências porque eu trabalhei em praticamente todos os níveis de ensino,
desde o Ensino Fundamental até o Doutorado, passando pelo curso supletivo e por
cursos preparatórios para concursos e vestibulares. Tudo isso em distintas
regiões do Rio, desde o Leblon até Santa Cruz. Então posso dizer que acumulei
uma experiência realmente muito rica quanto à realidade da educação e,
sobretudo, do magistério. Por um breve período de três anos, trabalhei na
Editora da Fundação Getúlio Vargas como técnico de editoração, mas mesmo neste
período eu lecionava à noite no Colégio de Aplicação Luso-Carioca, vinculado à
Suam em Bonsucesso. São 54 anos ininterruptos de atividade docente que me dão a
convicção de que o melhor investimento em educação está na formação do
professor e na infraestrutura da administração escolar. Estes dois fatores
conferem boa qualidade de ensino aí educando. Infelizmente, seguimos um caminho
diferente, em que se supõe que a tecnologia resolve os problemas educacionais.
Sem professores bem preparados e motivados, sem boas condições administrativas,
não há tecnologia que resolva.
7
- O senhor lecionou em lugares como Cidade de Deus e Santa Cruz. O que o
contato com a diversidade linguística e social desses ambientes ensinou ao
filólogo?
Resposta:
O contato com essa clientela menos favorecida nos confere uma visão mais
consciente da relação entre a realidade socioeconômica e as oportunidades de
crescimento intelectual, de conquistas pessoais no corpo da sociedade. Conheci
alunos brilhantes e muito interessados quando trabalhei em Santa Cruz e sentia
à época que as dificuldades que enfrentavam os condenava à estagnação na busca
de uma formação educacional mais elevada. Sempre tive um respeito profundo pelo
esforço que dependiam na busca de crescimento.
8
- Por que a escolha pelo magistério, apesar das recomendações da época sobre a
baixa rentabilidade da carreira?
Resposta:
Na realidade, não fiz uma escolha pelo magistério, mas uma opção pelos estudos
humanísticos. Então, percebi que o curso de Letras era meu caminho, não que a
profissão de professor era meu caminho. A questão é que a atividade
profissional mais ligada ao curso de Letras é efetivamente a de professor, e
foi assim que ingressei na vida do magistério em 1972, ainda no segundo ano de
faculdade. O magistério tem esta característica do baixo salário em
praticamente todo lugar, não apenas no Brasil. Claro que haverá exceções, mas
são exceções que confirmam a regra. No entanto, pelo menos no meu caso, não
percebi estrangulamento no mercado de trabalho, pois sempre encontrei emprego,
claro que uns bons, outros ruins, mesmo em horas de grande necessidade.
9
- Como foi a transição para a carreira universitária na UFF e o momento em que
a pesquisa se tornou o eixo central de sua vida?
Resposta:
Em 1990, eu era professor do Colégio Militar, onde havia ingressado por
concurso em 1987. Eu estava insatisfeito lá por vários motivos que não importa
agora comentar. O fato é que, em certo dia, um colega chamado Paulo Nascentes
me disse que estavam abertas inscrições para professor de Língua Portuguesa na
UFF. Ele insistiu tanto em que nos inscrevêssemos que acabei cedendo e fui com
ele a Niterói, certo de que era tempo perdido. Resumo: eu, descrente, passei e
ele, entusiasmado, foi reprovado. Ainda bem que, anos mais tarde, ele prestou
concurso para a UnB e ingressou em seus quadros. Então, são estas coisas que a
vida nos reserva e não conseguimos propriamente explicar. A mudança em minha
vida profissional foi radical, pois larguei as cerca de 50 aulas semanais em
quatro estabelecimentos de ensino para assumir um cargo de dedicação exclusiva
com 12 tempos semanais. Sem contar a maravilhosa condição de pesquisador
remunerado, o que decerto deu grande impulso a minha trajetória acadêmica.
10
- O professor Evanildo Bechara foi um mentor fundamental em sua trajetória.
Como essa amizade fraterna de mais de três décadas influenciou sua visão sobre
a filologia?
Resposta:
O Bechara foi um amigo dileto que cultivei por mais de 30 anos. Ele agradava
não apenas como filólogo ou colega de profissão, mas sobretudo como ser humano:
era amável, cordato, com uma voz em meio-tom que sempre trazia soluções em
momentos de conflito. Este era o Bechara. Quando o conheci na UFF, estava
elaborando meu projeto de tese sobre história da gramática, fato que me fazia
tocar em nomes como Maximino Maciel, Júlio Ribeiro, Manuel Pacheco da Silva
Júnior, Said Ali e outros, fato que despertou nele um interesse especial em meu
trabalho. Os linguistas de minha geração são majoritariamente funcionalistas ou
analistas do discurso, gerativistas etc. e eu era um “peixe fora d’água” que
estudava gramáticos antigos. Por isso, certo dia, ele me disse “você é
diferente”. Observe que ele não disse “você é bom”, disse “diferente”. Mas foi
essa diferença que nos uniu na pesquisa e na amizade.
11
- Em uma época em que muitos pesquisadores se voltavam para a Análise do
Discurso ou Linguística Funcionalista, o senhor manteve o olhar nos filólogos
"clássicos" (Said Ali, João Ribeiro). Por que manter essa ligação com
a tradição?
Resposta:
Como disse, não me tornei um funcionalista ou analista do discurso porque eu me
interessei a partir de um determinado momento pela historiografia da
linguística. No entanto, minha dissertação de mestrado, que estuda os termos de
difícil classificação, tais como as palavras denotativas, utiliza conceitos da
teoria da argumentação em Oswald Ducrot, que é um grande nome da linguística
textual francesa. Mesmo nesse primeiro trabalho, busquei investigar o que
diziam os clássicos da gramaticografia portuguesa, tais como Said Ali, Mário
Barreto e José Oiticica. Como cedo construí uma carreira no ensino fundamental,
minha perspectiva era de encontrar soluções para os grandes problemas que o
professor encontrava em sala de aula.
12
- O senhor é uma referência em historiografia linguística. Por que é tão
importante entender a "gênese" das gramáticas brasileiras para
compreender o Brasil de hoje?
Resposta:
Eu creio que uma das principais tarefas da historiografia da linguística está
na pesquisa sobre a gênese dos conceitos, porque mediante tal estudo
conseguimos acompanhar a arquitetura do pensamento linguístico que elaborou
teses sobre a natureza da língua e de seu funcionamento. Ou seja, passamos a
entender o conceito não como produto acabado, mas como processo que gera o
saber da língua. Por outro lado, conhecer a história dos estudos sobre a língua
nos proporciona o privilégio de perceber que muitas ideias tidas como inéditas
ou inovadoras na verdade já tinham paternidade em estudos do passado.
13
- O senhor afirma que "cada século tem a gramática de sua filosofia".
Como essa premissa guia o seu trabalho em obras como História da gramática no
Brasil?
Resposta:
Na verdade, esta é uma frase que se atribui ao linguista francês Antoine
Meillet, presente no prefácio que escreveu à obra Grammaire comparée des
langues indo-européennes, de Franz Bopp. É um princípio norteador do denominado
“princípio da contextualização”, que impõe analisemos uma obra gramatical à luz
de seu tempo. Um dos grandes equívocos da crítica contemporânea às gramáticas
antigas é o de considerá-las excessivamente normativas usando parâmetros
atuais, isto é, mediante um conceito nosso sobre o que é norma exagerada. No
meu livro, procuro avaliar a presença dos gramáticos na sociedade brasileira
mediante parâmetros de seu próprio tempo, situando-os culturalmente na
sociedade a que pertenceram.
14
- Sua pesquisa sobre os "termos de exceção" foi um marco inicial. O
que esses termos revelam sobre a dificuldade de encaixar a língua falada em
modelos taxonômicos importados?
Resposta:
Uma das conquistas da linguística no fim do século passado situa-se na análise
semântica de termos além das fronteiras da gramática, para ingressar na seara
do texto. Essa era uma noção que os antigos gramáticos não tinham, razão por
que procuravam tratar certos termos de claro papel textual segundo os
parâmetros taxionômicos da tradição gramatical. Daí surgiram as palavras
denotativas e palavras de realce, ou palavras reforçativas, obviamente uma
solução enviesada do problema. Com a linguística textual, os linguistas passam
a verificar que um dado item lexical exerce papel não no sistema gramatical,
mas na arquitetura do texto, fato que exigiu a construção de um aparato
metalinguístico próprio, conforme acontece com os denominados operadores
argumentativos.
15
- Como a "linguística de recepção" no Brasil, muitas vezes baseada em
teorias estrangeiras, desenhou a identidade da nossa própria gramaticologia?
Resposta:
O Brasil sempre figurou como centro de pesquisa receptor de ideias e conceitos
estrangeiros, obviamente em face da imensa diferença de investimento em pesquisa
que nos distingue de centros como os Estados Unidos, a França e Alemanha. Isso
não é propriamente um demérito, é apenas um fato que se constata com clara
evidência. O problema é que nossa permeabilidade a teses novidadeiras que advêm
desses grandes centros é extremamente permissiva, de tal sorte que muitas
subáreas da linguística ganham terreno no ambiente universitário sem que
efetivamente contribuam para o desenvolvimento do saber sobre a língua. Sem
contar no surgimento de “guetos” de pesquisa comprometidos com essas
subcorrentes de uma dada área, de tal sorte que só leem o que o próprio grupo
produz.
16
- O que o senhor destaca como sendo o maior desafio de compilar dados de
gramáticos menos expressivos, além dos consagrados, em suas obras?
Resposta:
Esta é uma tarefa da Historiografia da Linguística que vem sendo executada
paulatinamente em vários trabalhos publicados. Ser um gramático menos
conceituado não significa necessariamente que sua obra é menor, senão que não
foi lida com os olhos críticos adequados. Então, cabe ao historiógrafo tecer
juízo crítico sobre o trabalho desse gramático para, caso mereça, venha a
usufruir o devido reconhecimento científico.
17
- Qual é a importância, nos dias de hoje, do trabalho de preservação e estudo
de textos dos jesuítas e dos gramáticos do século XIX?
Resposta:
Os jesuítas foram nossos primeiros gramáticos, portanto a historiografia
gramatical brasileira decerto muito deve ao trabalho desses religiosos. A eles
devemos a descrição da língua indígena que se falava ao longo da costa
brasileira, com suas variantes de uso. Nomes como José de Anchieta, Luiz
Figueira e Vicencio Mamiani ocuparam-se dessa relevante tarefa e hoje são
reconhecidos como precursores dos estudos linguísticos no Brasil.
18
- Como o senhor recebeu a notícia da eleição para a Cadeira 8 da Academia
Brasileira de Letras? O que representa ocupar o lugar que foi de figuras tão
ilustres?
Resposta:
Sinceramente, mesmo correndo o risco de incorrer em fala modéstia, eu não tinha
um projeto firmado para entrar na ABL, isto é, a Academia não estava em meus
objetivos ou desejos. É claro que muito me envaidece compor hoje os quadros da
Academia, uma honra que enobrece minha vida como pesquisador, mas a ideia dessa
minha eleição veio do Bechara, que julgava haver necessidade do ingresso de um
filólogo nos quadros acadêmicos. Isso começou a ser objeto de conversas nossas
desde 2018 mediante observações pontuais em que ele me dizia: “você é um nome
necessário na Academia”, “a Academia precisa de você”, “já disse lá que se
quiserem um filólogo minha indicação é de seu nome”. Quando na época da
pandemia surgiram várias vagas, ele propôs minha candidatura, que acabou sendo
frustrada, sem o preparo necessário. Depois, com o falecimento da Dona
Cleonice, meu nome surgiu com força entre os acadêmicos e, finalmente, fui
bem-sucedido. Hoje me considero um privilegiado por não só representar a área
de Letras na Academia, nomeadamente os estudos linguísticos e filológicos, como
também ter a oportunidade de conviver com pessoas inteligentes e proeminentes
da cultura brasileira, além de com todos participar de projetos culturais de
alta relevância propostos pela Academia.
19
- Em seu discurso de posse, o senhor mencionou o "privilégio de falar a
língua portuguesa". Como o senhor enxerga a vitalidade do português
brasileiro no cenário internacional atual?
Resposta:
Eu tenho uma relação não apenas científica, senão afetiva com a língua
portuguesa, fruto de meu contato com o texto literário. Quem conhece a língua
literária consegue mergulhar nesse maravilhoso mar de construções e recursos
estilísticos que a língua oferece na construção do texto. Acho que em face
dessa riqueza literária, o português efetivamente goza de uma posição
privilegiada no concerto das línguas, haja vista a presença das nossas
literaturas no panorama cultural das nações. Falta maior força política ao
português, como seu uso em organizações internacionais, por sinal um sonho que
acalentava o saudoso Antônio Houaiss.
20
- Qual a importância de uma instituição como a ABL na era da inteligência
artificial e da mudança acelerada nas formas de comunicação?
Resposta:
A ABL funciona como uma referência para discussão dos grandes temas nacionais e
uma fonte de soluções que possam advir dos vários projetos que oferece ao
público a cada ano. Os ciclos de conferências da Academia tocam questões que
interessam a todos que buscam entender o Brasil e torná-lo um lugar mais justo
e igualitário, em que todos vivam em harmonia. É óbvio que o atingimento dessa
situação talvez utópica está longe de conseguir-se, mas a Academia mantém
atuante no sentido de indicar os caminhos sem comprometimento ideológico. A IA,
que ainda está em um momento de esplendor inicial, decerto será uma ferramenta
presente na ABL do futuro, talvez com mais controle de seus benefícios e
malefícios.
21
- O senhor possui uma ligação profunda com instituições luso-brasileiras, como
o Real Gabinete Português de Leitura. Como essa ponte entre Brasil e Portugal
deve ser cultivada na literatura e na língua?
Resposta:
Essa é uma ponte que se construiu na própria formação da sociedade brasileira,
portanto deve ser enxergada como natural consequência do ambiente cultural
lusófono. São tantas as identidades que temos não apenas com Portugal, como
também com países africanos (Angola, Moçambique, Cabo Verde etc.) que as
literaturas correspondentes acabam por dialogar naturalmente. Quem lê um
Saramago, um escritor angolano Pepetela e um Jorge Amado nota perfeitamente
essa confluência de traços culturais que, a meu juízo, não necessita de defesa,
necessita de cultivo.
22
- Como o senhor avalia o papel da ABL na preservação da memória da língua
versus sua necessidade de adaptação ao uso contemporâneo?
Resposta:
A ABL tem trabalho bastante na seara da lexicografia com o dicionário (em
construção), o Volp e vocabulários menos conhecidos, tais como o de topônimos e
gentílicos e de estrangeirismos. Então, com esses produtos, a ABL atua no
registro das palavras, sua grafia e significado, de tal sorte que o usuário da
língua tenham a sua disposição ferramentas úteis para a construção do texto.
23
- Quais projetos o senhor pretende desenvolver na ABL para aproximar a
filologia e a lexicografia do grande público?
Resposta:
Já havia na ABL quando de meu ingresso um projeto denominado “ABL responde”, em
que o público envia dúvidas e observações sobre os usos linguísticos que são
objetos de análise e comentário. São 500 mensagens mensais em média, cujo
temário é de ordem variada: lexicográfica, semântica, sintática etc. Agora, após
meu ingresso, temos aprimorado a consulta a esse acervo linguístico, sobretudo
mediante elaboração de aplicativos para smartphones que permitam consulta
imediata em qualquer lugar, como é o caso do Volp para telefones celulares.
24
- O senhor é um acadêmico com uma carreira administrativa robusta na
Universidade. Como essa experiência de gestão administrativa é importante para
termos uma visão interna das instituições.
Resposta:
Na UFF, fui chefe de departamento em dois mandatos e membro do CUV em três
mandatos, tarefas que me deram decerto uma boa noção da administração pública e
seus problemas. Na ABL, temos uma configuração distinta da universidade, mas
decerto poderei contribuir de alguma forma nessa área de atividades com a
bagagem que trago de minha experiência anterior.
25
- Para encerrar, qual mensagem o senhor deixaria para o jovem estudante de
Letras que, assim como o senhor na biblioteca do Rio Comprido, sonha em
mergulhar nas profundezas do nosso idioma?
Resposta:
Como diz o economista Roberto Campos no título de seu livro de memórias, a
experiência é uma “lanterna na popa”. Cada um de nós deve trilhar seu caminho e
projetar para os que vêm atrás a luz do que fizemos. Mas eu acho que a melhor
escolha em tudo que fazemos é a que nos dá prazer e boas condições de vida. Nem
sempre as duas coisas andam juntas, mas a perspectiva deve ser essa, no sentido
de fazermos o que nos motiva e nos dá um retorno que justifique o investimento
e a dedicação. Se alguém se deixa apaixonar pela literatura e pela língua, que
se deixe levar pela paixão, mas na exata medida.
26
- Professor, o senhor assinou o posfácio do livro: Manuel Said Ali Ida:
Primeiros Escritos & Outros Textos, organizado por Marcelo Moraes Caetano.
Said Ali foi uma presença central no início de sua trajetória como pesquisador.
Como foi, décadas depois, revisitar esses 'primeiros escritos' sob a luz da
maturidade e da erudição que o senhor hoje possui?
Resposta:
Este livro, na verdade, foi organizado pela Prof.ª Thais Araujo da Costa, o
Marcelo, salvo engano, escreve o prefácio. Trata-se de uma publicação
relevante, pois nos dá oportunidade de ler e avaliar o que Said Ali escreveu em
seus primeiros anos como filólogo.
27
- Ao escrever esse posfácio, que tipo de relevância o senhor buscou sublinhar
para as novas gerações de linguistas? O que o pensamento de Said Ali, contido
nesses textos de 1886 a 1945, ainda tem a nos dizer sobre os dilemas da língua
portuguesa no Brasil atual?
Resposta:
Trata-se de uma publicação que interessa porque dá uma visão clara do
pensamento de Said Ali à época em que ainda não trabalhava no Ginásio Nacional
e no Colégio Militar, ou seja, em um momento inicial de sua vida acadêmica.
28
- O trabalho de organização de Marcelo Moraes Caetano, aliado ao seu posfácio,
funciona como uma arqueologia da nossa filologia. Como o senhor avalia o papel
desse tipo de edição crítica, que resgata textos raros e esparsos, para a
construção da nossa identidade científica? Experiência de gestão ajuda a pensar
o futuro da Academia Brasileira de Letras?
Resposta:
Como disse, o trabalho não é organizado pelo Marcelo Caetano, mas pela Prof.ª
Thais Araújo)
29
- Professor, o livro Língua Portuguesa: geo-história filológica do latim ao
presente, de Marcelo Moraes Caetano, traz uma 'constelação' de grandes nomes:
prefácio do mestre Evanildo Bechara e orelha assinada pelo senhor. Como o
senhor avalia a importância desse tipo de convergência acadêmica, em que
diferentes gerações se unem para chancelar uma obra que percorre a trajetória
da nossa língua desde 218 a.C.?
Resposta:
O livro do Marcelo Caetano é mais uma leitura competente e contributiva sobre o
percurso do português, em perspectiva geo-histórica. Por tal motivo conquistou
o interesse do Bechara e eu, com prazer, opinei favoravelmente a sua exposição
da diacronia de nossa língua.
30
- Ao redigir a orelha desta obra, o senhor pôde analisar o esforço de Marcelo
em traçar uma geo-história da nossa língua. Qual é o valor, para o filólogo e
para o leitor comum, de olharmos para o português não apenas como um sistema
gramatical, mas como um organismo vivo, moldado pelo tempo e pelo espaço
geográfico, desde as suas raízes latinas?
Resposta:
O livro do Marcelo dá uma visão do percurso do português nessa dupla
perspectiva, o que lhe confere um traço de interessante peculiaridade. Para o
leitor comum, essa é uma visão que renova o saber sobre a língua e seu saber histórico.
AGRADECIMENTO
DO FOCUS PORTAL CULTURAL
Encerrar
este diálogo com o professor Ricardo Cavaliere é, ao mesmo tempo, um exercício
de gratidão e de celebração. Gratidão por termos tido a oportunidade de ler, em
primeira pessoa, as memórias, reflexões e ensinamentos de um dos maiores nomes
da filologia e da historiografia linguística brasileira. Celebração porque cada
resposta, cada lembrança e cada análise nos recorda da vitalidade da língua
portuguesa e da força transformadora da educação.
Ao
longo desta entrevista, Cavaliere nos conduziu por caminhos que vão da infância
em Niterói às salas da Academia Brasileira de Letras, passando por bibliotecas
históricas, salas de aula em diferentes cantos do Rio de Janeiro e pelos
corredores da Universidade Federal Fluminense. Sua trajetória é marcada por uma
dedicação ininterrupta ao magistério, pela paixão pela pesquisa e pela
convicção de que a língua é mais do que um sistema de regras: é um organismo
vivo, pulsante, moldado pelo tempo, pela cultura e pela história.
É
impossível não se emocionar ao perceber como sua vida se enlaça com a própria
vida da língua portuguesa. Ao falar de seus mestres, como Evanildo Bechara, ou
ao revisitar os clássicos da gramaticografia, o professor Cavaliere nos lembra
de que o conhecimento é uma corrente que se transmite de geração em geração, e
que cada estudioso tem o dever de iluminar o caminho dos que vêm depois. Sua
frase de que “cada século tem a gramática de sua filosofia” ecoa como um
convite à reflexão: compreender a língua é compreender o espírito de uma época,
suas tensões, seus sonhos e suas contradições.
Mas,
para além da erudição, há em Ricardo Cavaliere uma humanidade que transparece
em cada palavra. Ele fala da língua com afeto, da docência com respeito, da
pesquisa com entusiasmo. Reconhece as dificuldades enfrentadas pelos alunos em
contextos menos favorecidos, valoriza o esforço dos professores e insiste na
importância da formação docente como pilar da educação. Sua visão é clara: sem
professores bem preparados e motivados, não há tecnologia que resolva os
desafios da escola. Essa defesa apaixonada do magistério é, sem dúvida, uma das
mensagens mais poderosas que esta entrevista nos deixa.
Ao
agradecer ao professor Cavaliere, agradecemos também a todos os leitores que
nos acompanham. Vocês são parte fundamental desta missão de difundir cultura,
de valorizar a língua portuguesa e de reconhecer aqueles que dedicam a vida a
estudá-la e preservá-la. O carinho e a atenção de cada leitor são o combustível
que nos move a realizar entrevistas como esta, que não apenas informam, mas
inspiram.
O
Focus Portal Cultural sente-se honrado por ter sido palco deste encontro.
Honrado por receber um acadêmico que, com simplicidade e profundidade, nos
mostra que a língua é um patrimônio coletivo, que deve ser cultivado com amor e
responsabilidade. Honrado por poder compartilhar com todos vocês um diálogo
que, mais do que uma entrevista, é uma verdadeira aula de vida, de cultura e de
humanidade.
Que
esta conversa seja uma lanterna na popa, como disse o professor ao citar
Roberto Campos: uma luz que ilumina o caminho dos que virão, que inspira jovens
estudantes a se apaixonarem pela literatura e pela língua, e que reforça em
todos nós o orgulho de falar português.
Em
nome de toda a equipe do Focus Portal Cultural, deixamos aqui nosso mais
sincero agradecimento ao professor Ricardo Cavaliere, pela generosidade em
compartilhar sua história e seu pensamento, e aos nossos leitores, pelo carinho
e pela confiança. Que possamos seguir juntos, cultivando a beleza da língua,
celebrando a cultura e construindo pontes de conhecimento que nos tornem cada
vez mais conscientes de quem somos e do legado que queremos deixar.
Ricardo
Stavola Cavaliere, nascido em Niterói em 25 de junho de 1953, é um dos mais
destacados filólogos e linguistas brasileiros da atualidade. Eleito em 2023
para a cadeira nº 8 da Academia Brasileira de Letras, sua trajetória é marcada
pela dedicação ao ensino, à pesquisa e à historiografia da língua portuguesa.
Filho de família de classe média, percorreu toda sua formação em escolas públicas,
iniciando na Escola Pereira Passos e prosseguindo no tradicional Colégio Pedro
II, onde concluiu o Curso Clássico em 1970. Desde cedo demonstrou inclinação
para os estudos linguísticos, frequentando bibliotecas como a Biblioteca
Nacional e o Real Gabinete Português de Leitura, que se tornariam espaços
fundamentais em sua formação intelectual.
Em
1971 ingressou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), graduando-se
em Letras (Português/Inglês) em 1975 e, posteriormente, em Direito em 1996.
Obteve o título de mestre em Língua Portuguesa com a dissertação Os marginais
do discurso e, em 1997, concluiu o doutorado em Língua Portuguesa – Letras
Vernáculas, com a tese Fonologia e morfologia na gramática científica
brasileira. Em 2005 realizou pós-doutorado em História da Gramática na
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, sob supervisão de Evanildo Bechara,
consolidando sua vocação para a historiografia linguística.
Sua
carreira docente começou cedo, ainda durante a graduação, em cursos supletivos
e escolas particulares. Entre 1976 e 1979 atuou como técnico de editoração na
Fundação Getúlio Vargas. Lecionou em escolas públicas estaduais e federais,
incluindo o Colégio Militar do Rio de Janeiro e o Colégio Brigadeiro Newton
Braga, até ingressar no ensino superior em 1987, na Universidade Veiga de
Almeida. Em 1992, aprovado em concurso público, passou a integrar o quadro da
Universidade Federal Fluminense, onde construiu sólida carreira acadêmica e se
aposentou como professor titular, atuando no Programa de Pós-Graduação em
Estudos de Linguagem.
Na
UFF, exerceu cargos administrativos como chefe do Departamento de Letras
Clássicas e Vernáculas, membro do Conselho Universitário e coordenador de
Pós-Graduação Lato Sensu. Sua atuação institucional sempre esteve voltada ao
fortalecimento da universidade e à valorização da pesquisa acadêmica.
Paralelamente, tornou-se membro da Academia Brasileira de Filologia em 1998,
ocupando a cadeira nº 29, cujo patrono é João Ribeiro, além de integrar
diversas associações científicas nacionais e internacionais, como a Abralin, a
Associação Internacional de Lusitanistas e a Société de Linguistique Romane.
Sua
produção acadêmica é vasta e relevante. Entre suas obras destacam-se Pontos
essenciais em fonética e fonologia (2005), Palavras denotativas e termos afins:
uma visão argumentativa (2009), A gramática no Brasil: ideias, percursos e
parâmetros (2014) e História da gramática no Brasil: séculos XVI a XIX (2022).
Esses estudos consolidam sua posição como referência na historiografia da
linguística, especialmente no campo da gramaticologia brasileira, ao analisar
continuidades e rupturas na tradição gramatical e situar os textos linguísticos
em seu contexto histórico e epistemológico.
O
reconhecimento institucional veio com diversas honrarias: título de Grande
Benemérito do Real Gabinete Português de Leitura (2008), Honra ao Mérito
Filológico da Academia Brasileira de Filologia (2016), Grande Mérito Cultural
da União Brasileira de Escritores (2015) e Prêmio Celso Cunha (2017). Em seu
discurso de posse na ABL, Cavaliere destacou a importância da língua portuguesa
como instrumento de visão de mundo e de expressão cultural, afirmando: “Como
faz bem podermos dizer o coração em português.”
A
trajetória de Ricardo Cavaliere é marcada pela defesa da tradição filológica e
pela valorização da língua portuguesa como patrimônio cultural e científico.
Sua obra contribui decisivamente para compreender a evolução da gramática no
Brasil e para situar os estudos linguísticos em perspectiva histórica e
epistemológica, tornando-o uma figura central na consolidação da linguística
brasileira e da filologia como campos de saber.
(SOLENIDADE DE POSSE DE RICARDO CAVALIERE NA ACADEMIA
BRASILEIRA DE LETRAS - 21 DE AGOSTO DE 2023
CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR)
Palestra "Manuel Said Ali", por Ricardo Cavaliere, na ABL