domingo, 22 de fevereiro de 2026

MAGDA BELLOTI & TALITHA PERES - THE MAN I LOVE DE GEORGE GERSHWIN

(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)

 

O vídeo apresenta a performance de Magda Belloti, voz e Talitha Peres, piano para o clássico "The Man I Love", de George e Ira Gershwin.

 

LETRA

Someday he'll come along

The man I love

And he'll be big and strong

The man I love

And when he comes my way

I'll do my best to make him stay

 

He'll look at me and smile

I'll understand

And in a little while

He'll take my hand

And though it seems absurd

I know we both won't say a word

 

Maybe I shall meet him Sunday

Maybe Monday, maybe not

Still I'm sure to meet him one day

Maybe Tuesday will be my good day

 

He'll build a little home

Just meant for two

From which I'll never roam

Who would? Would you?

And so all else above

I'm waiting for the man I love

 

Maybe I shall meet him Sunday

Maybe Monday, maybe not

Still I'm sure to meet him one day

Maybe Tuesday will be my good day

 

He'll build a little home

Just meant for two

From which I'll never roam

Who would? Would you?

And so all else above

I'm waiting for the man I love


Esta versão destaca-se pelo arranjo íntimo e sofisticado. A interpretação de Magda Belloti foca no controle emocional e na clareza da dicção, enquanto o acompanhamento de Talitha Peres traz harmonias ricas que remetem tanto ao cancioneiro americano o Great American Songbook, quanto a toques sutis de música de câmara. 

GERSHWIN SOB A LENTE DE MAGDA BELLOTI E TALITHA PERES

A música, quando atinge o estado de arte pura, deixa de ser uma sucessão de notas para se tornar um documento do tempo. No vídeo em questão, o que testemunhamos não é apenas uma "cover" de um clássico, mas um encontro de linhagens. De um lado, o gênio que rompeu as barreiras entre o popular e o erudito no século XX; do outro, duas artistas brasileiras que tratam o som com a precisão de um cirurgião e a alma de um poeta. 

GEORGE GERSHWIN - O ARQUITETO DO SONHO AMERICANO 

Falar de George Gershwin é falar da própria invenção da modernidade musical. Nascido no Brooklyn, filho de imigrantes, Gershwin foi o alquimista que conseguiu fundir o ritmo sincopado do Jazz das ruas de Nova York com a sofisticação estrutural da música clássica europeia.

"The Man I Love", composta originalmente em 1924 para o musical Lady, Be Good, é o exemplo perfeito de sua maestria. A canção quase foi descartada após ser cortada de três produções diferentes antes de se tornar um standard global. O que Gershwin criou aqui não foi apenas uma melodia, mas uma atmosfera de expectativa. A harmonia de Gershwin é melancólica, mas carrega uma "blue note" de esperança. Ele não escrevia apenas para o ouvido; ele escrevia para a saudade de algo que ainda não aconteceu. 


O DUO MAGDA BELLOTI E TALITHA PERES 

Quando artistas do calibre de Magda Belloti (voz) e Talitha Peres (piano) se debruçam sobre uma obra dessas, o resultado é uma construção respeitosa e profunda. 

MAGDA BELLOTI: A VOZ COMO INSTRUMENTO NARRATIVO 

Magda não se limita a cantar as notas; ela as habita. Sua interpretação de "The Man I Love" foge do óbvio. Enquanto muitas cantoras de jazz optam pelo improviso virtuosístico excessivo (o scat), Belloti escolhe a economia do sentimento. Cada palavra é enunciada com uma clareza que revela a vulnerabilidade da letra de Ira Gershwin. 

Sua técnica vocal é impecável, permitindo que ela transite por dinâmicas suaves sem perder o apoio ou a sustentação. Ela entende que, nesta canção, o silêncio e as pausas são tão importantes quanto o som. Ela canta como quem conta um segredo ao ouvinte, transformando o palco ou o estúdio em um confessionário íntimo. 

TALITHA PERES: A MAESTRIA NAS TECLAS 

Ao piano, Talitha Peres prova por que é uma das pianistas mais respeitadas em seu gênero. O piano de Talitha não é um mero acompanhamento; é uma segunda voz. Ela possui o toque "perolado" necessário para Gershwin, mas também a força rítmica para sustentar a estrutura da canção sem a necessidade de uma seção rítmica completa, baixo e bateria.

As harmonizações e os preenchimentos que Talitha insere entre as frases de Magda mostram uma profunda compreensão do vocabulário do piano jazzístico e erudito. Ela utiliza o pedal de sustentação para criar ressonâncias que envolvem a voz, criando uma "cama" harmônica onde a melodia pode flutuar com liberdade. 

O IMPACTO DA INTERPRETAÇÃO: POR QUE ESTE VÍDEO É RELEVANTE? 

Vivemos em uma era de saturação sonora, onde a música muitas vezes é produzida para ser descartável. O encontro de Magda Belloti e Talitha Peres é um antídoto para isso. Elas nos lembram de que a música de câmara, esse formato reduzido e focado na interação humana direta, ainda é a forma mais poderosa de comunicação artística. 

Ao escolherem o repertório de Gershwin, elas estabelecem uma ponte entre o Brasil e o mundo. Elas mostram que a música brasileira, rica em sua essência, tem total afinidade com o Jazz de vanguarda, pois ambos bebem da mesma fonte: a liberdade de expressão através do rigor técnico. 

A ausência de artifícios tecnológicos coloca o foco na qualidade do timbre e da interpretação. É possível notar a troca de olhares e a antecipação mútua. Elas respiram juntas. Ao interpretar Gershwin com tamanha qualidade, elas ajudam a manter viva a chama da música que exige escuta atenta. 

George Gershwin ficaria orgulhoso. "The Man I Love" é uma promessa de encontro, e o encontro entre Magda Belloti e Talitha Peres é a realização dessa promessa no campo da música. Elas não apenas executam uma partitura; elas dão vida a um mito, provando que, enquanto houver artistas dessa magnitude, o "homem, ou a arte, que amamos" sempre estará presente. 

O vídeo é, em última análise, uma aula de elegância, técnica e paixão. É a prova de que o talento, quando aliado ao estudo profundo, resulta em algo que o tempo não pode apagar. Incrivelmente belo! 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




21 DE FEVEREIRO DE 2026 – CELEBRAMOS OS 162 ANOS DO NASCIMENTO DE COELHO NETO – EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL

Há datas que não se apagam da memória cultural de um povo. O 21 de fevereiro de 1864, em Caxias, Maranhão, é uma dessas marcas indeléveis: nasceu Henrique Maximiano Coelho Neto, personalidade monumental da literatura brasileira, cuja obra atravessou fronteiras e séculos. Hoje, 21 de fevereiro de 2026, celebramos 162 anos de seu nascimento, reafirmando a vitalidade de um autor que soube traduzir em palavras a alma múltipla do Brasil. 

Coelho Neto era fruto de uma união simbólica: filho do português António da Fonseca Coelho e da indígena Ana Silvestre Coelho. Essa fusão de raízes europeias e indígenas moldou sua sensibilidade e deu à sua escrita uma riqueza que dialogava com o universal sem perder o vínculo com o nacional. 

Poucos escritores brasileiros tiveram uma produção tão vasta e diversificada. Coelho Neto foi:

Romancista que explorou os dramas humanos e sociais.

Contista e cronista atento ao cotidiano e às nuances da vida urbana.

Folclorista que valorizou as tradições populares.

Teatrólogo e crítico que contribuiu para o desenvolvimento das artes cênicas.

Professor e político, sempre engajado na formação cultural e cívica do país. 

Sua pena era incansável, e sua obra, volumosa, conquistou leitores em todo o Brasil e em Portugal. No final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, foi considerado um dos autores mais lidos e celebrados. 

Reconhecimento e Legado

Membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, ao lado de nomes como Machado de Assis;  Indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, representando Brasil e Portugal; Reverenciado por gerações de leitores e estudiosos, que viam nele um verdadeiro arquiteto da palavra. 

Em 1964, a Biblioteca Nacional celebrou o centenário de seu nascimento com uma exposição especial, cujo catálogo permanece disponível na BN Digital. Já em 2016, inaugurou a série “Documentos Literários”, tendo como primeira postagem o manuscrito do conto Os Pombos, reafirmando a relevância de sua obra para a memória literária nacional. 

Mais do que escritor, Coelho Neto foi intérprete da alma brasileira. Sua obra reflete: A pluralidade cultural do país. A valorização das tradições populares. A busca por uma identidade literária que dialogasse com o mundo sem perder suas raízes. 

Ele compreendia que a literatura é ponte entre passado e futuro, entre o íntimo e o coletivo, entre o Brasil e o mundo.

Hoje, ao celebrarmos os 162 anos de Coelho Neto, não apenas lembramos o nascimento de um escritor. Celebramos a permanência de uma voz que ecoa através do tempo, lembrando-nos que a literatura é força viva, capaz de moldar consciências e inspirar gerações. 

Coelho Neto não foi apenas um homem de letras: foi um construtor de imaginários, um guardião da memória e um visionário da cultura brasileira. Sua obra continua a nos desafiar e a nos encantar, reafirmando que o Brasil é terra fértil de grandes criadores. 

Que esta efeméride seja não apenas uma lembrança, mas um convite: ler Coelho Neto é reencontrar o Brasil em sua essência, é ouvir o pulsar de uma nação que se constrói pela palavra. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 










A PRESIDENTE MATILDE SLAIBI CONTI RECEBE VISITA DE SUA NETA CAROLINA CONTI

 

Em meio às festividades do Carnaval carioca, a presença de Carolina Conti no Rio de Janeiro trouxe não apenas alegria, mas também um profundo significado afetivo. A jovem geneticista, que construiu uma trajetória acadêmica brilhante nos Estados Unidos, fez questão de dedicar parte de sua permanência para visitar sua avó, a presidente Matilde Slaibi Conti. Esse gesto, carregado de ternura e respeito, revela a essência dos laços familiares que se fortalecem na convivência e no carinho mútuo.

Carolina, filha de Ricardo Augusto Conti e Poliana Conti, representa uma nova geração que honra o legado de seus pais e avós. Seu percurso acadêmico, marcado pelo mestrado em Genética e pela atuação na Universidade de Columbus, em Ohio, é reflexo de disciplina, talento e paixão pela ciência. Mas, acima de tudo, sua visita demonstra que, por mais longe que a vida profissional a leve, o coração permanece enraizado nas origens e nos afetos familiares. 

Seu pai o Dr. Ricardo Augusto Conti, médico formado pela UFF e doutorado pela USP, consolidou sua carreira nos Estados Unidos, onde há duas décadas é referência em clínica geral. Diretor Médico do Saint Agnes Hospital, em Baltimore, foi reconhecido como o melhor clínico geral de Maryland. Seu primogênito, Lucas, já formado em Medicina pela Universidade de Boston, segue os passos do pai, enquanto Carolina trilha sua própria jornada acadêmica, reafirmando o espírito de excelência que caracteriza a família.

A mãe Poliana Conti, por sua vez, é exemplo de liderança e visão estratégica. Com quase três décadas de experiência em Recursos Humanos e Estratégia de Pessoas, atuou em mais de 44 países, transformando culturas organizacionais em empresas globais. Fundadora e CEO da Partners4Growth®, dedica-se a criar ambientes de confiança e alto desempenho, sendo reconhecida internacionalmente como mentora e arquiteta de culturas inovadoras. 

No centro dessa constelação de talentos e realizações está a presidente Matilde Slaibi Conti, sua vida é marcada pela dedicação à cultura, à literatura e ao fortalecimento dos laços humanos. Líder do Elos Internacional, preside também o Cenáculo Fluminense de História e Letras e a Academia Brasileira Rotária de Letras do Estado do Rio de Janeiro. Em breve, assumirá a presidência do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói, ampliando ainda mais sua atuação em prol da integração cultural e da amizade entre povos.

A visita de Carolina, portanto, não é apenas um encontro familiar, mas um símbolo da continuidade de valores que unem gerações. O carinho da neta pela avó Matilde é expressão de gratidão e reconhecimento por uma trajetória que inspira e abre caminhos. Entre os momentos de celebração do Réveillon nos Estados Unidos e a vivência cultural em Miami, a família Conti reafirma sua identidade marcada pela união, pelo afeto e pela busca constante de conhecimento. 

Matilde, mesmo em momentos de descanso e convivência familiar, mantém viva sua missão de promover integração e amizade além-fronteiras. Sua liderança é exemplo de que a vida pública e a vida pessoal podem se entrelaçar em harmonia, fortalecendo tanto os vínculos familiares quanto os compromissos culturais. A visita de Carolina é, assim, um capítulo luminoso dessa história, em que o amor e a dedicação se tornam pontes entre gerações e territórios.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural








RAFAEL SANZIO HISTORIADOR, MESTRE DA PINTURA E DA ARQUITETURA DA ESCOLA DE FLORENÇA DURANTE O RENASCIMENTO ITALIANO.

 


Celebrado pela perfeição e suavidade das suas obras. Juntamente, com Michelangelo e Leonardo da Vinci forma a tríade de grandes mestres do Alto Renascimento.

Rafael Sanzio, frequentemente, referido apenas como Rafael, foi um Rafael fez uso das grandes inovações introduzidas na pintura de Da Vinci como o claro-escuro, contraste de luz e sombra que empregou com moderação, e o esfumado, sombreado levemente batido em vez de traços para delinear as formas. 

Segundo historiadores e mestres da arte, o mais adequado é chamá-lo de Raffaello Santi, já que Sanzio fazia referência apenas ao seu local de nascimento e Santi era o sobrenome de seu pai, Giovanni Santi, nascido em Lucca, na Toscana. 

Admirado pela aristocracia e pela corte papal, que o viam como o "príncipe dos pintores", foi encarregado pelo papa Júlio III de decorar com afrescos as salas do Vaticano hoje conhecidas como as "Stanze di Raffaello". 

Rafael era filho de Giovanni Santi, poeta  que escreveu uma Crônica famosa em rima e também pintor para a corte de Mântua. Quando o nascimento de Rafael, ele dirigia um famoso estúdio em Urbino. 

Giovanni ensinou seu filho a pintar e o introduziu à corte humanista de Urbino, que, ao final do século XV, havia se tornado um dos mais ativos centros culturais da Itália, sob a regência de Federico da Montefeltro, falecido sete meses antes do nascimento de Rafael. Lá, Rafael pode conhecer os trabalhos de Paolo Uccello, Luca Signorelli, e Melozzo da Forlì. Precoce, aos dezessete anos, em 1500 Rafael já era considerado um mestre. 

De acordo com Giorgio Vasari, Rafael foi levado pelo pai aos onze anos para ser aprendiz de Pietro Perugino, em Perúgia, mas esta informação é discutida por algumas autoridades no assunto. É de consenso geral que Rafael estava na Úmbria a partir de 1492, ano do falecimento de seu pai. Com Perugino, Rafael aprendeu a técnica do afresco ou pintura mural.

Em sua primeira obra de realce, o Casamento da Virgem, 1504, a influência de Perugino evidencia-se na perspectiva e na relação proporcional entre as figuras, de um doce lirismo, e a arquitetura. A disposição das figuras é, no entanto, mais informal e animada que a do mestre. 

Em Florença, Rafael tornou-se amigo de vários pintores locais, destacando-se Fra Bartolommeo, um proponente do idealismo renascentista. A influência de Fra Bartolomeo o levou a abandonar o estilo suave e gracioso de Pietro Perugino e abraçar a grandiosidade e formas mais poderosas. Entretanto, a maior influência sobre a obra de Rafael durante seu período florentino veio de Leonardo da Vinci e suas composições, figuras e gestuais, bem como suas técnicas inovadoras como o chiaroscuro e o sfumato. 

O primeiro trabalho, registrado de Rafael foi um altar para a Igreja de San Nicola da Tolentino na cidade de Castello, entre Perúgia e Urbino. A peça foi encomendada em 1500 e terminada um ano depois. Foi muito danificada por um terremoto em 1789, restando atualmente somente alguns fragmentos na Pinacoteca Tosio Martenigo, em Bréscia. 

Outra peça importante de seus primeiros anos foi o altar de Oddi para a capela de mesmo nome na igreja de Francisco de Assis de Perúsia. Rafael, provavelmente como membro da oficina de Pietro Perugino, trabalhou também nos afrescos do Collegio del Cambio. 

O Casamento da Virgem, de 1504, foi sua principal obra desse período, ainda influenciado pelo estilo de Perugino. Logo depois Rafael concluiu três pequenos quadros: Visão de um Cavaleiro, As Três Graças e São Miguel. Neles já se expunha o seu estilo amadurecido e o frescor que lhe acompanharia a vida toda. 

O primeiro trabalho arquitetônico conquistado por Rafael foi a posição de arquiteto da nova Basílica de São Pedro, cuja construção começou em 1506. A posição havia sido vagada pela morte de Bramante em 1514. Rafael mudou a planta de um desenho de inspiração grega para um design longitudinal. Contudo este projeto foi modificado novamente após sua morte. 

Dois anos depois ele projetou as linhas da importante Villa Madama em Roma. Construída para o papa, era uma imitação das villas que existiam por toda a Roma clássica e cuja descrição Rafael encontrou nos textos de Plínio, o Velho.

Villa Madona – a mais antiga foi projeto inacabado de Rafael, onde repete com muito cuidado aquilo que vinha descrito nos textos. O projeto original era majestoso e complexo, envolvendo uma ampla extensão de terreno que seria necessário graduar com uma sucessão de terraços, perspectivas renascentistas e jardins à italiana até o rio Tibre. Para a realização dos respectivos contrafortes também foi pedida a colaboração de Antonio da Sangallo, conhecido pelas suas capacidades técnicas nas fortificações. 

Rafael morreu em Roma no seu aniversário de 37 anos, alegadamente apenas algumas semanas depois de Leão X apontá-lo como cardeal, acometido por uma febre causada por uma doença pulmonar após um encontro à meia-noite, e foi profundamente lamentado por todos aqueles que reconheciam sua grandeza. Seu corpo repousou por certo tempo em uma das salas na qual

ele havia demonstrado sua genialidade e foi honrado com um funeral público. Sua obra Transfiguração precedeu seu corpo durante a procissão fúnebre. 

A "incansável mão da morte" (nas palavras de seu biógrafo) pôs um limite em suas conquistas e privou o mundo de um benefício maior de seus talentos, na idade em que a maioria dos outros homens começa a ser útil. 

Rafael foi enterrado no Panteão de Roma, o mais honorável mausoléu na Itália, atendendo seu próprio pedido. 

Em sua tumba foi colocada uma frase de Pietro Bembo em latim que diz: "Aqui jaz Rafael, que fez temer à Natureza por si fosse derrotada, em sua vida, e, uma vez morto, que morresse consigo".

 

SEQUENCIAL DE  IMAGENS

 







01  - Pintura Rafael Sanzio, Auto-retrato

02 - Transfiguração 1518-1520, Museus Vaticanos

03 - Madona e o Menino Entronados com Santos, 1505, Metropolitan Museum of Art.

04 - Ressurreição de Cristo, c. 1499/1502 Museu de Arte de São Paulo, São Paulo.

05 - A Sagrada Família Canigiani, 1518 Antiga Pinacoteca, Munique.

06 - Stanza dell'Incendio di Borgo Museus Vaticanos.

07 - Escola de Atenas, 1509 Stanza della Segnatura Museus Vaticanos.

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

NAGIB SLAIBI FILHO – PRIMEIRO VICE-PRESIDENTE DO NÚCLEO DA REDE SEM FRONTEIRAS EM NITERÓI


O anúncio da composição da diretoria do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói marca um momento histórico para a cidade e para a própria instituição. Sob a presidência da admirável Dra. Matilde Carone Slaibi Conti, o núcleo contará com uma equipe plural e comprometida, formada por nomes que representam diferentes áreas da cultura, da educação e da vida pública. Entre eles, destaca-se a presença do Desembargador Dr. Nagib Slaibi Filho, que assume o posto de 1º Vice-Presidente, trazendo consigo uma trajetória que transcende o Direito e se inscreve na própria história intelectual e cultural do Brasil. 

A composição da diretoria é um reflexo da diversidade e da força da Rede Sem Fronteiras. Cada nome representa não apenas uma função administrativa, mas um compromisso pessoal com a missão de difundir cultura e promover integração. Ao lado da presidente Matilde Conti e do vice-presidente Nagib Slaibi Filho, estão Karin Rangel, Marli Marinho, Ana Paula Aguiar, Sabrina Campos da Cunha, Jocelin Marry Viana Nery, Ângela Maria Riccomi de Paula, Rubens Carrilho Fernandes e o Conselho Fiscal formado por Maria da Conceição Panait, Luciane Queiroz e Maria Otília Marques Camillo. Juntos, formam um corpo diretivo que une experiência, juventude, tradição e inovação. 

Professor respeitado, mestre em Direito Público, doutor, livre-docente e pós-doutor pela Universidade Federal Fluminense, Nagib Slaibi Filho construiu sua carreira acadêmica com rigor e generosidade. Na Universidade Salgado de Oliveira, onde continua a lecionar, suas aulas são pontes entre teoria e prática, entre a letra fria da lei e a vida pulsante dos cidadãos. Mais do que ensinar normas, ele ensina valores: justiça, ética, responsabilidade e humanidade. 

Na magistratura, sua atuação ultrapassou quatro décadas, culminando no posto de Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde presidiu a 3ª Câmara de Direito Público. Sua aposentadoria não significou afastamento, mas sim expansão: continuou presente em academias literárias, institutos culturais, conferências e livros, sempre como alguém que se recusa a estagnar. Sua vida é testemunho de que o verdadeiro intelectual não se aposenta: ele se reinventa. 

Nagib Slaibi Filho é presidente da Academia Niteroiense de Letras e membro de diversas instituições culturais, como a Academia Fluminense de Letras, a Academia Rio-Branquense de Letras, a Academia Brasileira de Letras da Magistratura e o Instituto Histórico e Geográfico de Niterói. Sua presença nessas entidades não é apenas protocolar: é ativa, vibrante, transformadora. Ele é um semeador de cultura, alguém que planta ideias e colhe diálogos, que constrói pontes entre gerações e entre saberes. 

Em 2024, foi aclamado Intelectual do Ano, reconhecimento que se soma a outras distinções, como a Comenda IFEC de Cultura e a Medalha Pedro Ernesto, maior honraria concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Esses títulos não são apenas medalhas: são símbolos de uma vida dedicada ao bem comum, à justiça e à cultura.

Autor de livros jurídicos fundamentais, Nagib também se revela como escritor de ensaios e memórias que expõem sua faceta humanista. Não é apenas o magistrado que escreve: é o homem que pensa, que reflete, que compreende a vida como espaço de diálogo entre justiça e beleza. Sua obra literária é testemunho de que o Direito pode ser mais do que norma: pode ser poesia, pode ser filosofia, pode ser caminho de luz.

O nome de Nagib Slaibi Filho ressoa hoje não apenas no Direito, mas também na Literatura, na História, na Educação e na vida pública. Sua presença é serena e firme, capaz de unir mundos que, em muitos casos, se apartam: o da razão jurídica e o da sensibilidade poética. Ele é, ao mesmo tempo, juiz e poeta, professor e escritor, intelectual e cidadão. Sua vida é exemplo de que a verdadeira grandeza está na capacidade de servir, de ensinar e de inspirar.

Assumir a vice-presidência do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói é mais do que um cargo: é um gesto simbólico. Significa que a instituição reconhece em Nagib Slaibi Filho não apenas um líder, mas um guia, alguém capaz de conduzir projetos culturais e sociais com a mesma seriedade com que conduziu processos jurídicos. Sua presença na diretoria é garantia de que o núcleo terá não apenas administração, mas também visão, inspiração e profundidade.

Assim, Nagib Slaibi Filho se inscreve definitivamente entre os grandes humanistas brasileiros. Um homem que fez do Direito um caminho de luz e das Letras um altar de permanência. Sua vida é testemunho de que a justiça e a cultura não são mundos separados, mas faces de uma mesma moeda: a moeda da dignidade humana. Ao assumir a 1ª vice-presidência da Rede Sem Fronteiras em Niterói, ele reafirma seu compromisso com a cidade, com a cultura e com o futuro. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



MENSAGEM

Parabéns, companheiro Nagib Slaibi Filho! 

Você é exemplo vivo de moral ilibada e saber notório, um verdadeiro Humanista que honra a tradição da justiça e engrandece a cultura brasileira. Sua trajetória inspira e dignifica, mostrando que conhecimento e integridade podem caminhar lado a lado.

Receba meu abraço fraterno e minha admiração sincera.

© Alberto Araújo





 

6 - HAMNET E OS SONETOS DE SHAKESPEARE: A POÉTICA DO TEMPO, DA PERDA E DA ARTE - ENSAIO ACADÊMICO © ALBERTO ARAÚJO

 


Introdução 

O filme Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao, constitui uma obra cinematográfica que transcende o relato biográfico ao transformar o luto pela morte do filho de William Shakespeare em experiência estética. Inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, o longa explora a dor como paisagem e silêncio, estabelecendo um diálogo intertextual com os sonetos do dramaturgo. A narrativa não se limita a reconstruir fatos históricos, mas propõe uma reflexão sobre o tempo, a mortalidade e a permanência da arte. 

Este ensaio busca analisar como Hamnet se articula com os Sonetos 12, 60 e 73, criando uma reflexão estética sobre a fragilidade da vida e a resistência da memória. Para tanto, serão intercaladas frases do filme com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, de modo a evidenciar a construção de uma poética compartilhada entre literatura e cinema. 

Metodologia 

A presente análise adota uma abordagem intertextual comparativa, fundamentada em três eixos metodológicos: 

Leitura close reading dos sonetos - leitura minuciosa e detalhada dos textos: examina-se a estrutura poética, as imagens centrais e os recursos retóricos de Shakespeare, com atenção especial às metáforas do tempo e da mortalidade. 

Análise fílmica: considera-se a mise-en-scène, tudo aquilo que compõe visualmente uma cena, os diálogos e a construção visual de Hamnet, observando como o cinema traduz ou ressignifica os temas presentes nos sonetos. 

Intercalação textual: frases do filme são colocadas em paralelo com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, permitindo observar como o discurso cinematográfico encarna ou tensiona a filosofia poética. 

Essa metodologia se insere no campo dos estudos comparados de literatura e cinema, conforme discutido por Hutcheon (2006) em A Theory of Adaptation, e por Stam (2005) em Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. A análise privilegia a dimensão estética e simbólica, sem pretensão de reconstrução histórica literal, mas como exercício de crítica cultural. 

O TEMPO COMO DESTRUIÇÃO: SONETO 12 E A MORTE DE HAMNET 

Verso original: “When I do count the clock that tells the time, / And see the brave day sunk in hideous night...”  

Tradução: “Quando eu conto as horas que o relógio marca, / E vejo o dia audaz em noite medonha afundar...” 

No Soneto 12, o tempo é representado como força destrutiva, que transforma o dia em noite e a juventude em velhice. A metáfora da “foice do tempo” sintetiza a inevitabilidade da perda.

No filme, essa metáfora ganha corpo na morte precoce de Hamnet. A frase “Ele leva todos os desejos no coraçãozinho dele. É só desejar.” contrasta com a violeta já passada: o desejo infantil é puro, mas destinado a ser ceifado. O filme encarna o instante anterior à destruição, enquanto o soneto antecipa o destino inevitável. 

O FLUXO INCESSANTE: SONETO 60 E OS PROJETOS FRUSTRADOS 

Verso original: “Like as the waves make towards the pebbled shore, / So do our minutes hasten to their end...” 

Tradução: “Tal como as ondas correm para a praia pedregosa, / Assim nossos minutos apressam-se para o fim...” 

O tempo é comparado ao mar, incessante e indiferente. No filme, o diálogo “Eu vi uma casa para nós em Londres... Morar em Londres não dar...” mostra como os projetos de futuro são engolidos pelo fluxo temporal. 

A ausência de Shakespeare, denunciada por Agnes em “Você não estava aqui... Ele agonizou... e você não estava aqui...”, reforça a ideia de que o tempo não concede trégua, arrastando o pai para longe enquanto a morte acontece em casa. Aqui, o filme dramatiza a falha humana diante da inevitabilidade do tempo, ampliando a dor da perda. 

O OUTONO DA VIDA: SONETO 73 E O SACRIFÍCIO DE HAMNET 

Verso original: “That time of year thou mayst in me behold, / When yellow leaves, or none, or few, do hang...” 

Tradução: “Aquela estação do ano podes ver em mim, / Quando folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem...” 

Neste soneto, Shakespeare compara a velhice ao outono, às brasas que se apagam mas ainda aquecem. No filme, Hamnet diz à irmã: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. O sacrifício infantil é como uma chama que continua em Judith, ecoando a metáfora das brasas que, mesmo em declínio, irradiam calor. 

O amor, diante da morte, intensifica-se. O filme encarna a ideia de que a perda não extingue o vínculo, mas o transforma em memória ardente, tal como o fogo que persiste nas brasas. 

A FRAGILIDADE DOS FILHOS E A ARTE COMO LEGADO 

Verso original (Soneto 12): “And nothing ’gainst Time’s scythe can make defence / Save breed, to brave him when he takes thee hence.” 

Tradução: “Nada detém a foice do tempo que tudo parte, / A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.”

Shakespeare via nos filhos a única defesa contra o tempo. No filme, Agnes afirma: “O que é dado, é tirado. Não deixe de valorizar os corações de um filho...”. A morte de Hamnet nega essa defesa, tornando a arte o único legado possível.

A peça Hamlet, escrita anos depois, surge como resposta estética ao trauma, perpetuando a memória que a descendência não pôde garantir. Assim, o cinema e a literatura convergem: ambos transformam a dor em criação, resistindo ao esquecimento. 

INTERTEXTUALIDADE E RESSIGNIFICAÇÃO

Ao inserir o Soneto 12 na narrativa, o filme não apenas cita Shakespeare, mas ressignifica sua obra. O texto poético, originalmente universal, ganha dimensão íntima e biográfica. O espectador entende que a reflexão sobre o tempo não é apenas filosófica, mas nasce da experiência concreta do luto. 

O filme, portanto, não adapta Shakespeare de forma literal, mas cria um eco emocional: a perda do filho inspira a arte, e a arte perpetua a memória. Essa intertextualidade reforça a ideia de que o cinema pode dialogar com a literatura não apenas como tradução de formas, mas como continuidade de sentidos. 

CONCLUSÃO 

O diálogo entre Hamnet e os sonetos de Shakespeare revela uma poética da mortalidade em que cinema e literatura se complementam.

O Soneto 12 fornece a metáfora da foice do tempo.

O Soneto 60 mostra o fluxo incessante que não permite pausa.

O Soneto 73 revela a intensidade do amor diante da finitude. 

As frases do filme encarnam essas ideias em diálogos íntimos, transformando filosofia poética em drama humano. Assim, Hamnet não é apenas uma obra sobre perda, mas um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna a única forma de eternidade.


A ATUAÇÃO DOS PROTAGONISTAS EM HAMNET

JESSIE BUCKLEY COMO AGNES (ANNE HATHAWAY) 

Jessie Buckley recebeu grande destaque da crítica por sua interpretação de Agnes, esposa de Shakespeare. Sua atuação foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2026. 

Buckley constrói Agnes como o coração pulsante do filme: uma mulher que carrega a dor da perda e a ausência do marido.

Sua performance é marcada por gestos contidos, olhares silenciosos e uma dor que nunca se torna excessiva, criando uma atmosfera de luto permanente. 

A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força justamente pela entrega emocional da atriz, que transforma acusação em desabafo visceral.


PAUL MESCAL COMO WILLIAM SHAKESPEARE 

Paul Mescal interpreta Shakespeare em um registro intimista, evitando o tom grandioso que poderia reduzir o personagem a ícone. 

Sua atuação enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada. 

Mescal transmite a culpa e o peso da perda através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60. 

A relação com Agnes é construída em tensão: ele é ao mesmo tempo companheiro e ausente, o que intensifica o drama conjugal. 

OS JOVENS ATORES COMO HAMNET E JUDITH 

O núcleo infantil é essencial para o impacto emocional do filme. 

O ator que interpreta Hamnet entrega uma performance de coragem e sacrifício, especialmente nos diálogos: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. 

Judith, por sua vez, é representada com ternura e cumplicidade, reforçando o vínculo fraterno. 

Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte. 

DIREÇÃO DE ATORES POR CHLOÉ ZHAO

Chloé Zhao, conhecida por sua estética contemplativa, conduz o elenco com ênfase na naturalidade e na contenção. 

A câmera privilegia os silêncios e os gestos mínimos, permitindo que os atores transmitam emoção sem recorrer ao excesso. 

Essa escolha reforça a ideia de que o luto é uma presença constante, mais sugerida do que explicitada. 

A direção transforma cada atuação em parte da paisagem emocional do filme, criando uma unidade entre performance e estética visual. 

SÍNTESE CRÍTICA 

As atuações de Jessie Buckley e Paul Mescal, somadas ao núcleo infantil, são fundamentais para que Hamnet alcance sua densidade poética. 

Buckley encarna a dor materna como permanência.

Mescal traduz a ausência paterna como falha humana diante do tempo.

Os jovens atores dão corpo ao sacrifício e à intensidade do amor.

Assim, o elenco não apenas interpreta personagens, mas encarna os temas centrais dos sonetos de Shakespeare: a foice do tempo (Soneto 12), o fluxo incessante (Soneto 60) e o outono da vida (Soneto 73).

William Shakespeare e a sua esposa, Agnes, celebram o nascimento do seu filho, Hamnet. No entanto, quando a tragédia atinge e Hamnet morre ainda jovem, isso inspira Shakespeare a escrever a sua obra-prima intemporal, Hamlet. 

Hamnet Shakespeare O único filho homem de William Shakespeare e Anne Hathaway. Além do garoto, que era gêmeo com Judith, eles também tiveram a filha mais velha, Susanna. O menino morreu em 1596, aos 11 anos, e acredita-se que, muito provavelmente, vítima da peste bubônica que assolava a Inglaterra no período. Outro fato histórico importante é que Shakespeare escreveu Hamlet poucos anos depois da morte do filho. Na época, “Hamnet” e “Hamlet” eram grafias chamadas de intercambiáveis do mesmo nome, o que estabelece uma conexão documental entre os dois, ainda que o dramaturgo jamais tenha comentado publicamente sobre a perda do filho. 

O casamento entre Shakespeare e Anne Hathaway também é confirmado pelos registros históricos, assim como a distância física entre os dois durante longos períodos, já que o autor dividia sua vida entre Stratford-upon-Avon e Londres, onde trabalhava no teatro. 

Além, o longa Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, não se limita a narrar a perda do filho de William Shakespeare.

Ele se constrói como uma experiência estética em que o cinema se aproxima da poesia, transformando silêncio em linguagem e dor em paisagem. Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o filme articula memória e ausência, criando uma narrativa que dialoga com os sonetos do dramaturgo e com a própria ideia de arte como resistência ao tempo. 

Conhecida por sua sensibilidade contemplativa, Zhao reafirma em Hamnet sua assinatura autoral. Cada plano é concebido como respiração, cada silêncio como gesto narrativo. A natureza, filmada em sua delicadeza, torna-se metáfora do estado emocional dos personagens: ciclos que continuam apesar da morte, paisagens que guardam a memória daquilo que se perdeu. 

No centro da trama está Jessie Buckley, cuja interpretação de Agnes, figura inspirada em Anne Hathaway, esposa de Shakespeare, se impõe como uma das mais intensas de sua carreira. Buckley constrói uma personagem marcada pela permanência da dor, não pela explosão. Seus olhares e gestos contidos sustentam uma atuação que permanece com o espectador muito além dos créditos finais. A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força pela entrega visceral da atriz, que transforma acusação em desabafo íntimo. 

Paul Mescal interpreta Shakespeare em registro intimista, evitando a grandiosidade. Sua performance enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada. Mescal transmite culpa e fragilidade através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60. A relação com Agnes é construída em tensão, intensificando o drama conjugal. 

Os jovens atores que interpretam Hamnet e Judith são fundamentais para o impacto emocional do filme. Hamnet, em especial, é representado como portador de coragem e sacrifício: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. Judith, por sua vez, encarna a ternura e a cumplicidade fraterna. Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte.

O filme sugere, sem afirmar de forma literal, que da perda nasceu a arte. Hamnet, o menino, carrega um nome quase idêntico ao de Hamlet, e o longa constrói um eco emocional entre biografia e criação literária. A dor que não pôde ser perpetuada pela descendência encontra na arte sua forma de eternidade. 

Hamnet é mais que um filme sobre perda: é um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna memória. A direção autoral de Zhao, a atuação impactante de Jessie Buckley e a entrega intimista de Paul Mescal convergem para uma obra de delicadeza arrebatadora. Não surpreende que o filme seja apontado como candidato ao Oscar, não apenas por sua sofisticação estética, mas por sua capacidade de transformar dor em criação e silêncio em poesia.

SONETO 12

When I do count the clock that tells the time,

And see the brave day sunk in hideous night;

When I behold the violet past prime,

And sable curls all silvered o’er with white;

 

When lofty trees I see barren of leaves,

Which erst from heat did canopy the herd,

And summer’s green all girded up in sheaves,

Borne on the bier with white and bristly beard:

 

Then of thy beauty do I question make,

That thou among the wastes of time must go,

Since sweets and beauties do themselves forsake

 

And die as fast as they see others grow;

And nothing ’gainst Time’s scythe can make defence

Save breed, to brave him when he takes thee hence.

 

SONETO 12

TRADUÇÃO PORTUGUÊS

 

Quando eu conto as horas que o relógio marca,

E vejo o dia audaz em noite medonha afundar;

Quando vejo a violeta em sua cor tão fraca,

E o viço negro em branco pelo tempo se tornar;

 

Quando vejo a copa alta sem folhas, despojada,

Que antes dava sombra ao rebanho fatigado;

E a relva cortada e em feixes carregada,

Em fardos, para longe, no campo transportado;

 

Então questiono a tua beleza, que há de fenecer

Com o vagar dos anos, como tudo o que floresce;

E a doçura e a graça, que não podem permanecer,

Morrem tão rápido, enquanto outra vida cresce.

 

Nada detém a foice do tempo que tudo parte,

A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.


Soneto 60

Inglês (original): 

Like as the waves make towards the pebbled shore,

So do our minutes hasten to their end;

Each changing place with that which goes before,

In sequent toil all forwards do contend.

 

Nativity, once in the main of light,

Crawls to maturity, wherewith being crown’d,

Crooked eclipses ’gainst his glory fight,

And Time that gave doth now his gift confound.

 

Time doth transfix the flourish set on youth

And delves the parallels in beauty’s brow,

Feeds on the rarities of nature’s truth,

And nothing stands but for his scythe to mow:

 

And yet to times in hope my verse shall stand,

Praising thy worth, despite his cruel hand.

 

PORTUGUÊS (TRADUÇÃO): 

 

Tal como as ondas correm para a praia pedregosa,

Assim nossos minutos apressam-se para o fim;

Cada um sucede ao que veio antes,

Num labor contínuo todos avançam sem cessar.

 

O nascimento, uma vez na plenitude da luz,

Rasteja até a maturidade, coroado enfim,

Mas eclipses tortuosos contra sua glória lutam,

E o Tempo que deu, agora confunde o dom.

 

O Tempo transfixa o viço posto na juventude

E cava sulcos na fronte da beleza,

Alimenta-se das raridades da verdade da natureza,

E nada resiste senão para sua foice ceifar:

 

E ainda assim, em esperança, meu verso há de ficar,

Louvando teu valor, apesar de sua mão cruel.

 

*********************

 

SONETO 73

 

Inglês (original): 

That time of year thou mayst in me behold

When yellow leaves, or none, or few, do hang

Upon those boughs which shake against the cold,

Bare ruin’d choirs, where late the sweet birds sang.

 

In me thou see’st the twilight of such day

As after sunset fadeth in the west,

Which by and by black night doth take away,

Death’s second self, that seals up all in rest.

 

In me thou see’st the glowing of such fire

That on the ashes of his youth doth lie,

As the death-bed whereon it must expire,

Consum’d with that which it was nourish’d by.

 

This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,

To love that well which thou must leave ere long.

 

PORTUGUÊS (TRADUÇÃO): 


Aquela estação do ano podes ver em mim,

Quando folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem

Nos ramos que tremem contra o frio,

Coros arruinados, onde antes cantavam doces aves.

 

Em mim vês o crepúsculo de tal dia

Que após o pôr-do-sol se apaga no oeste,

E logo a noite negra o arrebata,

Segunda face da morte, que sela tudo em repouso.

 

Em mim vês o brilho de tal fogo

Que jaz sobre as cinzas de sua juventude,

Como o leito de morte onde deve expirar,

Consumido pelo que antes o alimentava.

 

Isto percebes, e faz teu amor mais forte,

Amar bem aquilo que logo deverás deixar.

 

HAMNET: ENTRE A BIOGRAFIA E A POESIA 

O drama histórico Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao e coescrito com Maggie O’Farrell, parte do romance homônimo de 2020 para dramatizar a vida familiar de William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway diante da morte do filho de 11 anos, Hamnet. Estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, com participações de Emily Watson, Joe Alwyn e Noah Jupe, o filme constrói uma narrativa que combina rigor histórico com atmosfera poética.

A obra teve estreia mundial no 52º Festival de Telluride em agosto de 2025, seguida de lançamento limitado nos Estados Unidos e Canadá pela Focus Features em novembro, e distribuição ampla em dezembro. No Reino Unido, chegou aos cinemas em janeiro de 2026 pela Universal Pictures. A recepção crítica foi amplamente positiva, com destaque para a atuação de Jessie Buckley. O filme conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Atriz – Drama, além de oito indicações ao Oscar de 2026, incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz. Foi ainda listado entre os dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute. 

O prólogo lembra que em Stratford “Hamnet” e “Hamlet” eram considerados o mesmo nome, sugerindo desde o início a ligação entre biografia e criação artística. A narrativa acompanha Agnes, apresentada como mulher ligada à natureza e ao conhecimento das ervas, e William, que inicia sua trajetória como tutor antes de se lançar ao teatro em Londres.

O filme articula momentos íntimos, como o nascimento dos filhos Susanna, Hamnet e Judith, com episódios de tensão social e familiar. A peste bubônica funciona como catalisador da tragédia: Judith adoece, mas é Hamnet quem morre, após tentar enganar a morte oferecendo-se em seu lugar. A cena de sua partida, marcada pela visão de um palco e pela aparição do falcão de Agnes, sintetiza a fusão entre mito, memória e arte.

Jessie Buckley constrói Agnes como o coração pulsante da narrativa. Sua performance é marcada por contenção e intensidade, transformando o luto em permanência. Paul Mescal, por sua vez, interpreta Shakespeare em registro intimista, enfatizando a ausência e a culpa. O núcleo infantil, com Noah Jupe como Hamnet, dá corpo ao sacrifício e à coragem, reforçando o vínculo fraterno com Judith.

O filme sugere que a dor da perda inspirou a criação de Hamlet. Agnes, ao assistir à estreia da peça no Globe Theatre, inicialmente se ofende com o uso do nome do filho, mas ao ver William no papel do fantasma percebe a homenagem. A cena final, em que Agnes imagina Hamnet sorrindo antes de desaparecer, marca a reconciliação entre memória e arte. 

Chloé Zhao utiliza a mise-en-scène para transformar o luto em paisagem: a floresta, o falcão, a luz natural e os gestos contidos dos atores compõem uma atmosfera contemplativa. A fotografia valoriza os ciclos da natureza, criando metáforas visuais para o tempo e a mortalidade. 

Hamnet é mais que uma cinebiografia: é um ensaio visual sobre como a dor pode se transformar em criação. Ao intercalar memória, mito e poesia, o filme reafirma a arte como forma de eternidade. A direção autoral de Zhao, a entrega de Buckley e Mescal e a delicadeza da mise-en-scène convergem para uma obra que dialoga com Shakespeare não como adaptação literal, mas como eco emocional. 

ELENCO 

Jessie Buckley como Agnes Shakespeare, esposa de William.

Faith Delaney como a jovem Agnes

Paul Mescal como William Shakespeare, marido de Agnes.

Emily Watson como Mary Shakespeare , mãe de William.

Joe Alwyn interpreta Bartholomew Hathaway, irmão de Agnes.

Smylie Bradwell como o jovem Bartolomeu

Jacobi Jupe como Hamnet Shakespeare , filho de William e Agnes e gêmeo de Judith.

Olivia Lynes como Judith Shakespeare , a filha mais nova de William e Agnes e irmã gêmea de Hamnet.

Justine Mitchell como Joan Hathaway, madrasta de Agnes.

David Wilmot como John Shakespeare , pai de William.

Bodhi Rae Breathnach como Susanna Shakespeare , a filha mais velha de William e Agnes.

Freya Hannan-Mills como Eliza Shakespeare, irmã de William (baseada em Joana d'Arc ) 

James Skinner como Gilbert Shakespeare , irmão mais novo de William.

Elliot Baxter interpreta Richard Shakespeare, o irmão mais novo de William.

Dainton Anderson interpreta Edmond Shakespeare , o irmão mais novo de William.

Louisa Harland interpreta Rowan Hathaway, a mãe de Agnes.

Noah Jupe como o ator que interpreta Hamlet em Hamlet.

Raphael Goold como o ator que interpreta Horácio em Hamlet

Shaun Mason como o ator que interpreta Cláudio em Hamlet

Matthew Tennyson como o ator que interpreta Gertrude em Hamlet

El Simons como o ator que interpreta Ofélia em Hamlet

Clay Milner Russell como o ator que interpreta Laertes em Hamlet

Sam Woolf como o ator que interpreta Bernardo em Hamlet

Hera Gibson como o ator que interpreta Francisco em Hamlet

Jack Shalloo como o ator que interpreta Marcelo em Hamlet

Javier Marzan como o ator que interpreta o Bobo em Hamlet

Zac Wishart como o filho mais velho de Joan, meio-irmão de Agnes.

James Lintern como filho mais novo de Joan, meio-irmão de Agnes.

Eva Wishart interpreta a filha mais velha de Joan e meia-irmã de Agnes.

Effie Linnen como a filha mais nova de Joana, meia-irmã de Agnes.

Laura Guest como parteira

John Mackay como Edward Woolmer, o padre local.

Albert McCormick como Menino na janela

Eliah Arnstjerna como baterista

Edward Anderson como flautista


REFERÊNCIAS 

Campos, Fernando. Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Plano Crítico, 17 dez. 2025.

Culturadoria. Hamnet: por que o filme de Chloé Zhao vai além de Shakespeare. 2025. 

Carlos, Henrique. Crítica: Em Hamnet, Chloé Zhao entrega seu filme mais triste e poderoso. Portal Leo Dias, 18 dez. 2025. 

Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. Londres: Routledge, 2006. 

Stam, Robert. Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. Oxford: Blackwell, 2005. 

Walker, Shanta Navvab. Para uma Tradução Comentada de Sonetos de Shakespeare. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, 2018.

Coelho, Daniel Jonas da Silva. Uma Interpretação dos Sonetos de Shakespeare: Tradução e Comentário. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 2024. 

Landsberg, Débora. Os Sonetos de Shakespeare: Estudo Comparativo das Estratégias Tradutórias. PUC-Rio, 2017. 

O’Farrell, Maggie. Hamnet. Londres: Tinder Press, 2020.


(Esta imagem é o slide com as fotos - aguardar as fotos rolarem)


Texto, pesquisa e prints

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural