terça-feira, 7 de abril de 2026

07 DE ABRIL DE 2026 - 133 ANOS DO NASCIMENTO DE ALMADA NEGREIROS – EFEMÉRIDE DO FOCUS PORTAL CULTURAL


ALMADA NEGREIROS – O "HOMEM-ESPETÁCULO" DA MODERNIDADE

Se o modernismo português fosse uma constelação, Fernando Pessoa seria o sol negro da introspecção, Amadeo de Souza-Cardoso o meteoro fulgurante da cor, e José Sobral de Almada Negreiros, 1893–1970 seria, sem dúvida, o éter: a substância que preenche todos os espaços, que une o verbo ao traço e o escândalo à geometria. Hoje, ao celebrarmos os 133 anos do seu nascimento em São Tomé e Príncipe, não recordamos apenas um artista morto, mas um estado de espírito que permanece desafiadoramente contemporâneo. 

Almada não foi apenas um pintor, um poeta ou um dramaturgo. Ele foi, nas palavras de Eduardo Lourenço, um "Narciso do Egipto", um artista que se recusou a ser fragmentado. Enquanto o mundo insistia na especialização, Almada escolheu a dispersão fulgurante. 

Nascido na roça da Trindade, em São Tomé, Almada trouxe consigo uma luz que Lisboa tardaria a compreender. Órfão de mãe aos três anos, criado num internato de jesuítas, a sua educação não passou pelas academias de Belas-Artes. E talvez aí resida o segredo da sua liberdade. "Eu não sou moderno, eu sou o tempo", costumava dizer, rejeitando os rótulos que tentavam enclausurar a sua força criativa. 

A sua precocidade foi um sismo. Antes mesmo de dominar a técnica a óleo, já dominava o desenho de humor e a caricatura, ferramentas de precisão que usaria para dissecar a burguesia lisboeta. Mas foi com a Revista Orpheu, em 1915, que Almada saltou para o centro do palco. Enquanto Pessoa multiplicava-se em heterônimos para suportar a dor de existir, Almada multiplicava-se em manifestos para forçar o país a acordar. 

Se Amadeo e Santa-Rita partiram cedo demais, em 1918, deixando o modernismo órfão de pincéis, Almada assumiu a responsabilidade de ser o rosto e a voz da vanguarda. Ele foi o protagonista do Manifesto Futurista de 1917, subindo ao palco do Teatro República vestido com um macacão de operário para confrontar uma plateia atônita. 

Era o "ativismo de Almada", a vibração espetacular que dava corpo às ideias. Ele não queria apenas que a arte fosse vista; ele queria que a arte fosse um acontecimento. A sua escrita interventiva, como o célebre Manifesto Anti-Dantas, não era apenas literatura, era um ato de guerra cultural contra o passadismo e o mofo intelectual que asfixiava Portugal. 

"Basta de gerações de lixo! Basta de gente que só sabe ser velha!" — gritava o jovem Almada, num eco que ainda ressoa nas galerias e redações de 2026.

Ao contrário dos seus pares, a relação de Almada com o estrangeiro foi idiossincrática. Paris, a capital do mundo artístico, foi para ele um palco de passagem rápida, quase um desencontro. Já a sua estadia em Madrid, entre 1927 e 1932, revelou-se fundamental. Lá, colaborou com a vanguarda espanhola, desenhou para jornais e conviveu com figuras como Gómez de la Serna.

No entanto, o seu destino era Portugal. Ao regressar, Almada tomou uma decisão política e estética: centraria a sua obra na interpretação da alma e da geometria portuguesas. É neste período de maturidade que o "vanguardista barulhento" dá lugar ao "mago hermético". Almada mergulha no estudo das proporções, da secção áurea e da simbologia oculta nas obras de Nuno Gonçalves. 

Para Almada, a arte não era um acidente emocional, mas uma matemática divina. A sua busca pela "chave do mundo" através do "número imanente do universo" transformou-o numa figura quase mística na cultura nacional. 

Não se pode caminhar por Lisboa sem tropeçar no gênio de Almada. Os seus murais nas Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos são, possivelmente, a maior realização da pintura mural portuguesa do século XX. Ali, ele narra a epopeia do povo português, os emigrantes, as varinas e os marinheiros, com uma força plástica que funde o modernismo com a tradição clássica. 

A sua obra culmina no painel monumental "Começar", na sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Ali, o traço de Almada despoja-se de tudo o que é supérfluo. É a linha pura, o ponto original, o nascimento perpétuo. É a prova de que, para Almada, o fim da vida era um eterno recomeço. 

José Augusto França definiu-o como o "português sem mestre". De fato, Almada inventou-se a si próprio. Mas a tragédia, segundo o historiador, é que ele ficou também "sem discípulos". Não porque não tenha sido admirado, mas porque a sua arte era tão intrinsecamente ligada à sua personalidade vulcânica que era impossível de ser imitada. Ser "almadiano" exigia uma coragem que poucos possuíam: a coragem de ser tudo ao mesmo tempo. 

Hoje, aos 133 anos do seu nascimento, o Focus Portal Cultural presta homenagem a este homem que não coube em nenhuma gaveta. Almada Negreiros ensinou-nos que a arte não é uma profissão, mas uma postura ética perante a vida. Ele foi o bailarino que escreveu romances, o pintor que desenhou vitrais, o poeta que calculou triângulos. 

Almada continua a ser o nosso contemporâneo porque, num mundo cada vez mais digital e fragmentado, a sua busca pela unidade do saber e pela integridade do ser permanece como o único norte possível. 

Almada é, hoje e sempre, o futuro que nunca termina de chegar 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




A partida dos emigrantes, c. 1948, tríptico (painéis central e lateral direito), Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos, Lisboa


Retrato de Fernando Pessoa, 1954, óleo sobre tela, 201 cm x 201 cm


Almada Negreiros






segunda-feira, 6 de abril de 2026

MESA-REDONDA E LIVRO HOMENAGEIAM OS 120 ANOS DE AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO

Para marcar o aniversário de 120 anos do jurista, diplomata, professor, ensaísta e político brasileiro Afonso Arinos de Melo Franco, imortal da Academia Brasileira de Letras, o historiador Arno Wehling e o jornalista Rogério Faria Tavares organizaram a publicação “Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco”, que resgata, em 17 ensaios, o legado intelectual do autor. O lançamento será dia 9 de abril, antecedido por um debate entre Arno Wehling, Rogerio Faria Tavares, o advogado Cesario Mello Franco e o ex-ministro da Cultura Angelo Oswaldo Santos, com início às 17h30min. 

Os textos de Airton L. Cerqueira Leite Seelaender, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Arno Wehling, Aspásia Camargo, Bernardo Cabral, Cesario Mello Franco, Christian Lynch, Cláudio Aguiar, Domício Proença Filho, Edmar Lisboa Bacha, José Sarney, Joaquim Falcão, Luiz Feldman, Rogério Faria Tavares, Rubens Ricupero e Sydney Limeira Sanches contemplam os inúmeros interesses culturais e áreas de atuação de Afonso Arinos, que incluem a ciência política, o direito constitucional, a história das ideias, a história econômica e a política externa, sem esquecer-se da crítica literária e do memorialismo. 

Entre os autores, alguns conviveram com Afonso Arinos e outros têm familiaridade com a sua trajetória e conhecem a importância de seu papel entre os pensadores brasileiros. A obra traz, ainda, dois poemas sobre o homenageado, ambos publicados nos seus 50 anos: um assinado por Carlos Drummond de Andrade e o outro por Alphonsus de Guimaraens Filho. 

O livro promove uma renovação do diálogo com a produção de Arinos e uma humanização de sua figura através de depoimentos bastante pessoais — em prosa e em verso e de um conjunto expressivo de fotos cedidas pela família, capturando cenas e gestos que ajudam a construir o percurso biográfico daquele que foi o idealizador, em 1951, da primeira lei antirracista do período republicano, batizada com seu nome, e um dos principais formuladores da chamada “política externa independente”, quando chanceler no governo Jânio Quadros. 

Ao longo das mais de 500 páginas, o livro mostra a produção intelectual de Afonso Arinos, desde sua atuação na Câmara e no Senado, no Ministério das Relações Exteriores e na Universidade (foi professor na UERJ e na UFRJ), até sua participação em entidades como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto dos Advogados Brasileiros e a Academia Brasileira de Letras. 

Falecido em 1990, quando era senador, Afonso Arinos foi o mais idoso membro da Assembleia Nacional Constituinte, e o parlamentar que falou em nome de todos no dia da promulgação da Constituição de 1988. Suas ideias em favor do estado democrático de direito e da expansão da soberania nacional parecem, hoje, mais atuais que nunca.

Sobre os organizadores:

Arno Wehling é membro da Academia Brasileira de Letras (cadeira 37) e presidente de honra do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), historiador, jurista e professor brasileiro, conhecido por suas contribuições aos estudos da história do Brasil, especialmente nos campos da história política, institucional e da historiografia. Doutor em História e formado em Direito, foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e reitor da UniRio, e construiu uma carreira marcada pela pesquisa sobre o período colonial e o Império brasileiro, além de reflexões sobre a formação do Estado e das instituições no país. 

Rogério Faria Tavares é jornalista, advogado e escritor nascido em Belo Horizonte. Mestre em Direito e Doutor em Literatura, detém o Diploma de Estudos Avançados em Direito Internacional e Relações Internacionais da Universidade Autônoma de Madri. Ao longo de sua trajetória, atuou na imprensa e no meio acadêmico, dedicando-se à reflexão sobre cultura e, em especial, sobre literatura. Autor de nove livros, é membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e presidente emérito da Academia Mineira de Letras (Cadeira 8). 

FICHA TÉCNICA: 

Título: Nos 120 anos de Afonso Arinos de Melo Franco

Organizadores: Arno Wehling e Rogério Faria Tavares

Autores: Airton L. Cerqueira Leite Seelaender, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, Arno Wehling, Aspásia Camargo, Bernardo Cabral, Cesario Mello Franco, Christian Lynch, Cláudio Aguiar, Domício Proença Filho, Edmar Lisboa Bacha, José Sarney, Joaquim Falcão, Luiz Feldman, Rogério Faria Tavares, Rubens Ricupero e Sydney Limeira Sanches

ISBN: 978-65-89792-35-2

Formato: 13,5 cm x 20,5 cm

Número de páginas: 592 pp

Acabamento: capa dura

Preço: R$ 219,00

Data de livraria: 07/04

Editora: Miguilim








 

PROGRAMAÇÃO MÊS DE ABRIL DE 2026 DA NITERÓI LIVROS

09/04/2026, das 18h às 20h, na Sala Carlos Couto

SARAU DA LIRA

A Niterói Livros apoia o Sarau da Lira, organizado pela única revista especialmente dedicada à literatura em Niterói: a revista Lira. Para saber mais, @revista.lira. 

11/04/2026, das 13h às 15h, no Solar do Jambeiro

CLUBE DE LEITURA ENCONTRO DE PÁGINAS

A Niterói Livros apoia o clube de leitura Encontro de Páginas, mediado por Suellen Carvalho e Gabriel do Carmo. Nesta edição, a conversa será em torno do livro "Oitentáculos", de Nei Lopes. Para saber mais, @encontrodepaginas_.

 

11/04/2026, das 15h às 18h, no Solar do Jambeiro

SARAU & AUTÓGRAFOS

Uma sessão coletiva de livros com um sarau: artistas e leitores dialogam neste evento. Nesta edição, estarão autografando João Peçanha, Márcia Martins, Mônica Assumpção, Mônica Martins, Regiane da Silva, Rodrigo Amaro, Rosane Rodrigues, Sandra Gurgel, Sílvia Letícia Soares de Souza e Tátia Rangel. Para saber mais, @niteroilivrosoficial.

 

19/04/2026, das 14h às 18h, na Solar do Jambeiro

MÚSICA PRA DANÇAR NA MORAL

A Niterói Livros apoia a venda de publicações no evento. Todo espaço é oportunidade de leitura! Para saber os artistas que participarão da próxima edição, acesse @niteroilivrosoficial.

 

25/04/2026, das 14h às 16h, no Museu Janete Costa de Arte Popular

LANÇAMENTO DO CORDEL "O TUIUIÚ AZUL", DE EVELYN BASTOS

A Niterói Livros apoia o lançamento da mais nova obra da autora Evelyn Bastos, que contará história para os pequenos!

 

26/04/2026, das 09h às 12h, no Solar do Jambeiro

JAMBEIRO ENCANTADO

A Niterói Livros apoia a venda de publicações no evento. O evento promete um quintal cheio de magia, um espaço interativo e divertido para os pequenos, com brincadeiras e gincanas lúdicas. Para saber os artistas que participarão da próxima edição, acesse @niteroilivrosoficial.

 

26/04/2026, das 14h às 16h, no Solar do Jambeiro

LEIA MULHERES - NITERÓI

A Niterói Livros apoia o Leia Mulheres - Niterói, mediado por Giselle Veiga e Mariana Rio. Nesta edição de 10 anos na cidade, uma oficina celebra o legado do grupo. Para saber mais, @leiamulheres_niteroi.

 

26/04/2026, das 16h às 18h, no Solar do Jambeiro

SARAU EXPRESSOS & VERSOS

A Niterói Livros apoia o Sarau Expressos & Versos, organizado por Suellen Carvalho. Para saber mais, @sarauexpressoseversos.

 

É isso! Espalha para quem possa se interessar também!

Com afeto e muitas leituras,

 

Equipe Niterói Livros


Niterói Livros

Fundação de Arte de Niterói

Prefeitura Municipal de Niterói


@ Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



 

O RELÓGIO DE AREIA E O ALGORITMO: ENTRE CECÍLIA, O CAFÉ E RAFAEL – 06 DE ABRIL UMA EFEMÉRIDE DUPLA SOBRE RAFAEL SANZIO

Onde o Café, a Poesia 

e a História se Encontram 

O vapor sobe da xícara com uma audácia que só o café "feito na cara do freguês" possui. No Nordeste, essa expressão não é apenas sobre o frescor da moagem ou o tempo da fervura; é sobre a transparência do rito. É o café que nasce diante dos olhos, sem mistérios industriais, pingado no coador de pano com a paciência de quem sabe que o tempo é o ingrediente principal. É nesse cenário, entre o aroma terroso e o silêncio da tarde, que abro Cecília Meireles. 

Ler Cecília é como tentar segurar água entre os dedos. Suas palavras possuem uma fluidez etérea, uma consciência aguda da transitoriedade. "Ou isto ou aquilo", diz ela, mas na verdade, o que ela nos oferece é o "entre". 

Enquanto o café esfria o suficiente para o primeiro gole, mergulho em versos que falam de ventos, de espelhos e de ausências. Há uma melancolia mansa em sua poesia que combina perfeitamente com o balanço da rede e o calor da xícara. Ela escreve sobre o que passa, sobre o que se perde, sobre a beleza trágica de sermos instantes. 

Fecho o livro. O peso das palavras de Cecília ainda vibra no ar, mas a mão, quase por um vício mecânico, busca o smartphone. Saio da lírica atemporal para o caos imediato da informação. O contraste é violento. Em segundos, a paz do café e da poesia é estilhaçada pela velocidade das notificações. Decido, então, dar um propósito a essa navegação: pesquiso a efeméride do dia 6 de abril. 

O algoritmo me devolve um espelho da própria existência: a história de um homem o qual a sua vida foi um círculo perfeito. Hoje, o mundo celebra e lamenta, simultaneamente, Rafael Sanzio.

O prodígio do Renascimento, o "Príncipe dos Pintores", nasceu e morreu em um 06 de abril. Ele veio ao mundo na Sexta-Feira Santa de 1483 e partiu, com apenas 37 anos, na Sexta-Feira Santa de 1520. Há algo de profundamente poético e assustador nessa simetria. Enquanto Cecília me sussurrava sobre a impermanência, Rafael a materializa em uma biografia que parece escrita por um roteirista divino obcecado por rimas temporais. 

Rafael Sanzio não era apenas um pintor; ele era um organizador de mundos. Seus afrescos nas Stanze di Raffaello, no Vaticano, são o ápice da ordem, da harmonia e da clareza. Ao olhar para "A Escola de Atenas", vemos a informação organizada de forma suprema: a filosofia, a ciência e a arte dispostas em uma arquitetura perfeita, onde cada gesto tem um significado e cada olhar aponta para uma verdade. 

Hoje, porém, nossa "Escola de Atenas" é o feed. A informação não é mais um afresco cuidadosamente planejado; é um dilúvio. Pesquisar sobre Rafael na internet é ser bombardeado por camadas de dados:

Análises técnicas de sua técnica sfumato.

Teorias da conspiração sobre sua morte (teria sido excesso de luxúria ou uma febre mal tratada?).

Leilões de desenhos que valem fortunas.

Memes que utilizam seus anjinhos da "Madona Sistina" para vender papel higiênico ou seguros de vida. 

A informação, que no tempo de Rafael era um privilégio esculpido em pedra e pigmento, hoje é uma commodity volátil. O café que tomei "na cara do freguês" é o antídoto para essa virtualidade. Ele é físico, quente, amargo. Rafael, o homem que pintou a perfeição divina em corpos humanos, entenderia essa necessidade do tato, do olfato, do real. 

A efeméride dupla de Rafael nos faz pensar sobre a natureza do tempo. Para nós, modernos, o tempo é uma linha reta que corre em direção ao progresso, ao "novo", ao próximo post. Mas para o homem do Renascimento, e para a sensibilidade de Cecília Meireles, o tempo é circular. 

Rafael morreu jovem, mas sua vida foi uma obra completa. Ele não deixou pontas soltas. Suas Madonas continuam a olhar para nós com uma serenidade que a internet jamais conseguirá replicar. A rede nos dá dados, mas nos rouba a contemplação. Ela nos entrega a data da morte de Rafael, mas não nos permite o silêncio necessário para sentir o luto por um gênio que partiu há cinco séculos. 

Ao pesquisar a efeméride, percebo que estamos perdendo a capacidade de "moer" a informação. Queremos tudo pronto, instantâneo, encapsulado. O café feito na hora exige que você espere a água ferver. A poesia de Cecília exige que você respire entre as estrofes. A arte de Rafael exige que você pare e deixe que a luz da pintura entre nos seus olhos. "A vida só é possível / reinventada." — Cecília Meireles 

Nesta tarde de 6 de abril, reinventar a vida é justamente isso: cruzar o tempo. É ler uma poetisa brasileira do século XX, enquanto se consome uma tradição nordestina secular, para descobrir a história de um italiano do século XV. 

A grande lição desta efeméride, entre o aroma do café e a luz azul da tela, é a busca pela harmonia. Rafael a encontrou na geometria das suas telas. Cecília a encontrou na musicalidade dos seus versos. E nós? Nós a procuramos no meio do ruído digital. 

Talvez a "informação" mais impactante não seja o dado biográfico de que Rafael morreu no dia em que nasceu. O impacto real está na percepção de que, apesar de toda a tecnologia que nos cerca, ainda somos movidos pelas mesmas coisas: o assombro diante da beleza, o conforto de uma bebida quente e a consciência de que nossa jornada, assim como a de Rafael, é um sopro. 

Termino o café. O fundo da xícara guarda apenas a marca do pó fino. Na tela do celular, a imagem da "Transfiguração", a última obra de Rafael, brilha em milhões de pixels. Ele a deixou inacabada aos pés de sua cama de morte. Há uma beleza profunda no inacabado que a informação técnica não consegue explicar. 

Que neste 6 de abril, possamos ser menos "usuários de dados" e mais "fregueses da vida". Que a gente aceite o tempo de cada coisa. O tempo do café, o tempo do verso e o tempo do gênio. Afinal, como diria Cecília, tudo é efêmero, exceto aquilo que a gente consegue, por um breve instante, transformar em eternidade dentro de nós. 

Rafael Sanzio: Um círculo que se fechou em perfeição.

Cecília Meireles: A voz que nos ensina a abraçar o vento.

O Café: O chão que nos mantém acordados para o milagre do dia.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 










 

"A MODERNIDADE DO RIO NOS ANOS 20" - PALESTRA COM RUY CASTRO NA ACADEMIA CARIOCA DE LETRAS


O RIO QUE INVENTOU A MODERNIDADE 

​Prepare-se para uma viagem no tempo com um dos maiores cronistas do nosso país. Em celebração aos 100 anos da Academia Carioca de Letras, convidamos você para uma tarde de história, cultura e elegância. 

​"A MODERNIDADE DO RIO NOS ANOS 20"

​Uma palestra exclusiva com Ruy Castro.

Venha descobrir como a "Cidade Maravilhosa" se transformou no epicentro da vanguarda brasileira, em um encontro apresentado pelo Acadêmico Paulo Alonso. Além da palestra, teremos o momento histórico do descerramento da placa comemorativa do Centenário (1926–2026).

PROGRAME-SE:

​Data: 08 de abril de 2026 (quarta-feira)

​Horário: Às 16h

​Local: Rua Teixeira de Freitas, nº 5 - Sala 306 (Centro - Prédio do IHGB)

​Entrada: Franca (Sujeito à lotação)

​"Cem anos de letras, um século de história." - © Alberto Araújo. 

Não perca a oportunidade de ver de perto a história do Rio sendo contada por quem melhor a entende. 

​Realização:

Academia Carioca de Letras

Apoio: Rio Capital Mundial do Livro.


@ Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





 

A ESCRITA DO AMANHÃ – A ARTE DE COMEÇAR

Começamos mais um ciclo, e a literatura nos lembra de que cada dia é uma página em branco aguardando o rigor da nossa vontade. Em um mundo de ruídos, o otimismo é um ato de resistência intelectual. 

Iniciar a semana é, acima de tudo, um exercício de redação sobre o próprio destino. Se Guimarães Rosa nos lembra de que "o que a vida quer da gente é coragem", é na prática diária que essa bravura se manifesta. Afinal, a existência exige fôlego, pois Machado de Assis já advertia: "A vida sem luta é um mar morto". 

Para navegar esses dias, adotemos a postura de Ariano Suassuna, sendo sempre esse "realista esperançoso". É preciso ter em mente que a produtividade sem propósito é vazia; como ensinou Fernando Pessoa, "para ser grande, sê inteiro". Não se trata apenas de cumprir agenda, mas de entender, com Cecília Meireles, que "a vida só é possível reinventada". 

Se o peso das responsabilidades aumentar, recorra à delicadeza de Mario Quintana: "O segredo não é correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você". E se algo não sair como planejado, acolha a lição de Clarice Lispector de que "recomeçar é dar-se uma nova chance", mantendo a firmeza de Cora Coralina: "Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar".

Que o seu roteiro semanal não aceite amarras, pois, como dizia Jorge Amado, "não se pode colocar limites aos nossos sonhos". 

No fim, a qualidade da nossa história dependerá de como a percebemos, lembrando que para García Márquez, a vida é o que recordamos para contar. Que você faça, portanto, uma semana que valha a pena ser narrada, pois como bem sintetizou Drummond, para ganhar um tempo novo que mereça este nome, você tem de merecê-lo.


Crônica de © Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




EXPOSIÇÃO “GRANDE SERTÃO” CHEGA À ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

A Academia Brasileira de Letras recebe a exposição “Grande Sertão” para comemorar os 70 anos de lançamento da obra-prima do imortal da ABL João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”. A abertura da mostra, na qual a artista visual Graça Craidy retrata os principais personagens do romance surgido em 1956, será na terça-feira dia 31 às 17h, e ficará até 29 de maio de 2026. 

Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo e necessário que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”. Assim escreveu o Acadêmico Eduardo Giannetti, titular da Cadeira 2, que já pertenceu a Guimarães Rosa. 

Graça Craidy apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz. 

O próprio Guimarães Rosa (1908/1967), mineiro de Cordisburgo, aparece, em uma das pinturas, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros - a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra. 

Natural de Ijuí (RS) e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” - sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks, especialista na obra literária. A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. 

Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à Academia por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária marcante e ao seu grande autor”, diz a artista. 

Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse monumental romance”, acrescenta ela.

“Experiência transpsíquica” 

O livro, escrito por Rosa quando morava na Rua Francisco Otaviano, 33, ap. 501, em Copacabana, teve seus originais entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty Azeredo da Silveira, o escritor e diplomata relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”. 

O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande sertão: veredas” constou da lista dos "100 melhores livros de todos os tempos" organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). Destacou-se principalmente por suas inovações linguísticas.



O OLHAR DA ETERNIDADE: ONDE A FÉ ENCONTRA A HISTÓRIA - TEXTO REFLEXIVO DE © ALBERTO ARAÚJO

(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)

O vídeo que você assistiu não é apenas uma performance musical; é o encontro entre o clamor humano e a presença divina. 

A primeira parte nos submerge na energia do Sunday Service. O coral não canta apenas palavras; eles proclamam uma soberania que atravessa eras. Quando as vozes se unem para dizer que "Ele reina para sempre", há uma quebra na barreira do tempo. É o reconhecimento de que, acima do caos do mundo, existe um trono inabalável. 

A transição para a reconstrução facial de Jesus, baseada no Sudário de Turim, muda o tom da experiência. Saímos do som para o silêncio, da multidão para o indivíduo. 

O Sudário é um dos mistérios mais estudados da história. Ver aquelas marcas ancestrais se transformarem em um rosto humano nos lembra de que a fé cristã não é baseada em mitos, mas em uma pessoa que caminhou sobre a terra, sentiu dor e olhou nos olhos de seus contemporâneos. 

A imagem final apresenta um Jesus que não é uma estátua distante, mas alguém com um olhar de profunda compaixão e autoridade. É a face Daquele que o coral acabou de proclamar como "Rei dos Reis". 

Este vídeo nos convida a uma reflexão profunda: se Ele é o Rei que reina para sempre, e se Sua face carrega tamanha serenidade e verdade, qual é a nossa resposta diante disso? 

É um lembrete visual e sonoro de que a majestade, o Rei e a humanidade, o rosto se beijam na figura de Cristo. É um chamado para tirar a fé do campo das ideias e colocá-la diante de um olhar que nos conhece por inteiro. 

"O nosso Deus reina para sempre, e a Sua face é o espelho da nossa esperança."

SOBRE O VÍDEO

Jesus is King - Jesus es Rey" - Jesus é Rei 

Esse vídeo é uma montagem poderosa que une a performance musical do coral Sunday Service, de Kanye West, a uma representação visual impressionante da face de Jesus Cristo, baseada no Santo Sudário. 

A música transita para uma harmonia etérea e solene. Surge o texto: "El Rostro Real de Jesucristo", O Rosto Real de Jesus Cristo. Uma animação começa a partir das marcas do Santo Sudário de Turim, reconstruindo digitalmente as feições de um homem até revelar um rosto vívido, sereno e de olhar profundo. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

domingo, 5 de abril de 2026

O TRIUNFO DA VIDA NA NAVE DE SÃO JUDAS - UMA CRÔNICA DA PÁSCOA EM ICARAÍ © ALBERTO ARAÚJO - AO PADRE CARLOS ALBERTO MESQUITA DE ANDRADE

O relógio marcava o compasso da eternidade na tarde de 05 de abril de 2026. Em Niterói, onde o mar de Icaraí sempre sussurra preces às areias, a Paróquia e Santuário São Judas Tadeu abriu suas portas não apenas para uma celebração litúrgica, mas para um encontro vivo com o Mistério. 

Cruzar o umbral da igreja como de praxe, junto à minha Shirley, nesta Páscoa, foi como deixar para trás as poeiras do tempo comum para mergulhar na clareza do Dia que não conhece o ocaso.

A celebração ganhou uma alma vibrante sob a presidência do Padre Carlos Alberto Mesquita de Andrade. Vindo de sua missão na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Manilha, ele trouxe consigo o vigor de quem celebra o altar com o corpo e o espírito. No presbitério, sua imagem não era apenas a de um celebrante, mas a de um regente de almas. No momento do canto, ao elevar os braços, Padre Carlos Alberto parecia conduzir uma invisível orquestra celestial, transformando a assembleia em um coro de anjos que entoava a vitória da vida com uma entonação impecável, rara de se ouvir, onde cada voz era um fio de luz tecido na tapeçaria do louvor. 

O rito iniciou-se com a Aspersão da Água Benta. Enquanto o sacerdote percorria a nave central com o aspergilo, as gotas cristalinas que tocavam os fiéis não eram apenas símbolos; eram o orvalho da ressurreição. Cada gota lembrava o nosso Batismo, purificando os sentidos e renovando a promessa de proteção contra o mal, preparando o coração para o que os olhos da fé estavam prestes a contemplar. 

A liturgia da palavra nos conduziu pelo testemunho corajoso de Pedro. Ouvimos, nos Atos dos Apóstolos, a síntese do caminho de Jesus de Nazaré: aquele que passou fazendo o bem, ungido pelo Espírito, e que, embora morto no madeiro da cruz, foi erguido por Deus ao terceiro dia. "Nós comemos e bebemos com Ele", dizia todo o contexto, e naquelas palavras sentíamos a mesma fome de eternidade que movia as primeiras comunidades. 

O Salmo Responsorial (117) ecoou como o grito de liberdade de um povo: "Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!". Não era um convite opcional, mas uma constatação que transbordava das fileiras de bancos. Logo após, a exortação de São Paulo aos Colossenses nos elevou: se ressuscitamos com Cristo, nosso olhar deve se voltar para o alto, para o triunfo, para a glória que já nos habita, embora ainda escondida nos mistérios de Deus. 

Não se pode narrar o crepúsculo desta Páscoa sem mergulhar na beleza acústica que transbordou da nave central, envolvendo cada fiel em um manto de harmonia. Com um repertório escolhido a dedo, a corolista e cantora litúrgica Poliana Arantes, detentora de uma técnica e sensibilidade ímpares, não apenas cantou; ela emprestou sua voz para que os hinos de glória ganhassem corpo e transcendência. Cada nota que partia de seus lábios carregava o peso de séculos de fé, elevando as preces da assembleia até as abóbadas da paróquia. 

Ao seu lado, ao órgão, a talentosa Isadora tornava-se uma extensão do próprio instrumento. De seus dedos ágeis, brotavam notas que pareciam descer diretamente das esferas celestiais, preenchendo os vácuos do silêncio com uma majestade divina. O entrosamento entre as irmãs, uma simbiose de sangue e espírito, transformou a música em oração em estado puro. O "Cristo Venceu, Aleluia!" deixou de ser um cântico comum para tornar-se uma experiência mística avassaladora, uma vibração que reverberava em cada vitral colorido e fazia o ar vibrar com a certeza da vida. Naquele instante, o som não era apenas ouvido; era sentido como um abraço do Ressuscitado, provando que, onde a palavra silencia, a música das irmãs fala diretamente ao coração do Pai. 

No momento do Ofertório, o altar foi preparado com as nossas humildes ofertas, e o canto de consagração preparou o espírito para o "Santo, Santo, Santo". Mas foi na hora da Comunhão que o tempo pareceu parar. Enquanto os fiéis se aproximavam para receber a Eucaristia, os sinos da Paróquia São Judas Tadeu começaram a dobrar. O som do bronze batendo contra o ar misturava-se ao canto de comunhão: "Ressurgiremos por crer, nesta vida escondida no pão". Era o ponto alto. O encontro do Criador com a criatura, selado pelo repique festivo que anunciava ao bairro de Icaraí: O túmulo está vazio! Ele está vivo entre nós! 

É justo destacar a trajetória do Padre Carlos Alberto. Com dez anos de sacerdócio completados em 2024, ele é um operário da fé que, desde 2021, conduz com zelo a comunidade de Manilha, em Itaboraí. Sua presença em nossa paróquia foi um presente pascal, um testemunho de que a Igreja é uma só, unida pelo mesmo Espírito e pela mesma missão de curar e pregar o perdão. 

Ao término da celebração, o átrio da igreja tornou-se um cenário de afetos. Encontramos amigos queridos, Licia Lucas, a nossa Dama do Piano, com sua aura artística, o empresário e pesquisador Marne Serrano e a incansável Vera Lúcia da Pastoral da Paróquia. Ali, nos sorrisos trocados e nos abraços de "Feliz Páscoa", percebemos que a ressurreição se faz carne também na amizade e na comunhão dos santos que caminham no cotidiano. 

Saímos da Paróquia São Judas Tadeu com a alma lavada e o passo mais leve. A Páscoa de 2026 ficará gravada não apenas como um registro jornalístico, mas como um poema escrito pelo próprio Deus no coração de cada fiel. O Senhor de fato ressuscitou. Ele não é uma imagem de gesso ou uma metáfora literária; Ele é a presença que aquece as manhãs, tardes e noites de domingo e que nos envia de volta ao mundo com a certeza de que a morte não tem a última palavra. 

Icaraí hoje não é apenas um bairro de Niterói; é um território de esperança, onde o Cristo Vivo caminha entre os prédios, as árvores e o mar, sussurrando a cada um de nós: "Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos". Amém. Aleluia! 

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HOMILIA DE PÁSCOA - O TESTEMUNHO DO RESSUSCITADO

Pelo Padre Carlos Alberto Mesquita de Andrade 

"Por isso nós podemos dizer e vivemos isso hoje, neste dia: Cristo ressuscitou! Cristo está vivo, Cristo está entre nós. As Sagradas Leituras de hoje nos colocam exatamente nesse caminho.

Na primeira leitura, vimos o anúncio da Igreja que proclama Cristo morto e ressuscitado. Pedro proclamou que Ele foi morto, mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, indicando que a iniciativa é divina. Aquele Jesus que morreu é, verdadeiramente, o Filho de Deus; Ele é o próprio Deus. Por isso, o Pai o ressuscitou. Pedro não apresenta apenas um 'contar de histórias' ou uma narrativa vazia; ele proclama um fato: 'Ele foi morto, mas Deus o ressuscitou'. E quem viu? Nós! Nós, os apóstolos; nós, que comemos e bebemos com Ele. Ele se manifestou a nós e nos mandou anunciar. Portanto, a nossa missão é fruto do testemunho; é fruto de uma fé testemunhada. 

O Evangelho de hoje nos mostra o que eles viram e experimentaram. Maria Madalena vai dizer aos discípulos a Pedro e ao discípulo que Jesus amava o que encontrou. Eles foram ao sepulcro e viram. É bonito notar os detalhes que João coloca: há sinais claros da Ressurreição. Por que o evangelista detalha que os panos estavam no chão, mas o sudário que cobria o rosto estava enrolado à parte? Ele indica que não houve fraude. Se alguém tivesse roubado o corpo, teria a preocupação de enrolar o pano do rosto e colocá-lo em outro lugar? Seria mais coerente levar tudo ou deixar tudo jogado. 

A Escritura nos dá esse sinal. E diante dele, o que João escreve? 'O discípulo viu e creu'. No lugar do medo, nasce a fé. No lugar da escuridão, do desespero e da dor da cruz, nasce agora a esperança neste Senhor que está vivo. E essa Ressurreição, amados irmãos e irmãs, transforma a nossa existência. É o que São Paulo nos diz: somos um povo de ressuscitados. A Ressurreição aconteceu no tempo, mas ela nos alcança hoje pelo nosso batismo. 

E como viver essa ressurreição? São Paulo ensina: 'Buscai as coisas do alto'. Viver como ressuscitado é buscar os valores de Cristo, os valores da Escritura. Por isso, amado povo da Paróquia São Judas de Icaraí, hoje somos chamados a proclamar Cristo vivo com o nosso testemunho. Não sejamos meros espectadores; entremos neste mistério de vida. Despojemo-nos do homem velho e busquemos o que nos une a Deus.

Não gastem suas energias com coisas que não levam a nada, que não nos elevam. Não fiquem presos ao egoísmo, aos ressentimentos ou aos valores deste mundo, que tantas vezes são a desunião, o apego ao poder e a sede desenfreada de ter. Hoje somos chamados a nos elevar! Busquem valores, busquem relacionamentos saudáveis, busquem uma fé viva que os faça crescer, que os torne pessoas melhores e cristãos melhores. 

Não fiquem apegados às suas limitações, mas busquem aquilo que realmente dá sentido à vida. A Ressurreição que hoje nos toca nos projeta para o futuro, para a vida eterna. Essa vida que recebemos do Ressuscitado será plena quando estivermos nela, mas ela precisa ser vívida aqui e agora. Como dizemos na Santa Missa: 'O nosso coração está em Deus'. Sim, o coração em Deus, enquanto estamos aqui com nossas mãos e pés em missão, testemunhando o Senhor com o coração já no céu. Porque sabemos que tudo o que vivemos pela fé se tornará pleno e claro quando estivermos, finalmente, diante do Senhor Ressuscitado. Por isso, amados irmãos e irmãs, vivamos como homens e mulheres verdadeiramente ressuscitados!" 

ORAÇÃO AO FINAL -  A GRAÇA DA RESSURREIÇÃO

"Senhor, o que buscamos é a Ressurreição que faz as trevas cederem lugar à Luz. Pedimos agora a coragem de poder anunciar o Verbo e ressaltar a Tua presença em nós. Hoje, pedimos essa graça, Senhor: não deixes que o desânimo ou os cargos do mundo nos envenenem. Tira-nos, Senhor, do sepulcro de nossa existência; do sepulcro da vaidade humana; do sepulcro do conflito e da desunião entre a gente. Tira-nos do sepulcro da falta de fé e da falta de esperança. 

Preenche-nos, Senhor, com a certeza de que Deus nos ajudará. O Senhor não nos abandonará! Diante das nossas dificuldades, dá-nos esta certeza e este auxílio para cuidarmos do mundo e enfrentarmos as incertezas. Que o nosso testemunho seja a prova de que Tu estás vivo. Amém!" 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

05 de abril de 2026 – Domingo de Páscoa.