domingo, 4 de outubro de 2026

SÃO FRANCISCO DE ASSIS: 800 ANOS DO LEGADO DE UM HOMEM QUE CHAMOU A NATUREZA DE IRMÃ - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

PINTURA: Pintor Bonaventura Berlinghieri: São Francisco e cenas de sua vida, 1235, a mais antiga pintura representando São Francisco de Assis

 

Em 3 de outubro de 2026, o mundo recorda os 800 anos do falecimento de São Francisco de Assis, uma das figuras mais influentes da história do Cristianismo e um personagem cuja mensagem ultrapassou fronteiras religiosas, alcançando a cultura, a filosofia, a literatura e a relação da humanidade com a natureza.

Nascido em Assis, na Itália, entre 1181 e 1182, com o nome de Giovanni di Pietro di Bernardone, Francisco cresceu em uma família abastada de comerciantes e viveu uma juventude marcada pelos prazeres, pelas festas e pelos sonhos de glória militar. No entanto, experiências profundas de sofrimento, reflexão e contato com os mais marginalizados da sociedade transformaram radicalmente sua visão de mundo.

A partir dessa mudança interior, abandonou os privilégios da riqueza e escolheu um caminho de simplicidade absoluta. Renunciou aos bens materiais e passou a dedicar a própria vida aos pobres, aos doentes e aos excluídos. Sua postura inspirou a criação da Ordem dos Frades Menores, conhecida como Ordem Franciscana, que se tornaria um dos movimentos religiosos mais importantes da Idade Média.

Num período em que muitos religiosos permaneciam recolhidos em mosteiros, Francisco percorria cidades e campos pregando uma vivência prática do Evangelho. Sua mensagem destacava valores como humildade, fraternidade, solidariedade e desapego material. Mais do que palavras, sua própria vida tornou-se exemplo daquilo que anunciava.

Um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória foi a forma como enxergava a criação. Em vez de considerar a natureza apenas como recurso ou cenário, Francisco a via como uma grande comunidade de vida. O sol, a lua, as aves, os animais e os elementos naturais eram tratados por ele como irmãos e irmãs. Essa percepção singular ajudou a construir uma das imagens mais conhecidas do santo e explica por que ele é reconhecido mundialmente como patrono dos animais e da preservação ambiental.

Sua influência ultrapassou os limites da religião. Historiadores e estudiosos apontam que sua visão otimista da humanidade e da natureza contribuiu para mudanças culturais significativas na Europa medieval, abrindo caminhos para novas formas de pensamento que floresceriam nos séculos seguintes. Sua figura inspirou artistas, escritores, músicos e pensadores ao longo de gerações. 

A admiração por Francisco já era enorme enquanto ele ainda vivia. Apenas dois anos após sua morte, ocorrida em 1226, foi canonizado pela Igreja Católica. Desde então, tornou-se símbolo universal de paz, compaixão e respeito por todas as formas de vida.

O poeta italiano Dante Alighieri definiu-o como uma “luz para o mundo”, definição que permanece atual oito séculos depois. Em tempos marcados por conflitos, desigualdades sociais e desafios ambientais, a mensagem franciscana continua ecoando com surpreendente contemporaneidade: a defesa da dignidade humana, o cuidado com os mais vulneráveis e a busca por uma convivência harmoniosa entre as pessoas e a natureza.

Oitocentos anos após sua partida, São Francisco de Assis permanece não apenas como um santo venerado por milhões de fiéis, mas como um dos grandes símbolos universais da fraternidade e da esperança.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural – Efemérides | 800 anos do falecimento de São Francisco de Assis (1226-2026).




A CORAGEM SILENCIOSA QUE MOVE O MUNDO - © ALBERTO ARAÚJO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

 

No vasto universo criado por J.R.R. Tolkien, a verdadeira força raramente reside em exércitos monumentais, magias avassaladoras ou na imponência dos grandes senhores. Quando Gandalf reflete sobre o destino da Terra Média e questiona a escolha de criaturas aparentemente comuns, ele revela uma verdade luminosa e reconfortante: são as pequenas coisas, as tarefas diárias da vida comum e os laços cultivados na simplicidade da rotina que mantêm a escuridão afastada.

A grande beleza dessa mensagem é que a esperança e a alegria não dependem de feitos extraordinários, mas sim de simples atos de bondade, amor e coragem cotidiana praticados por pessoas comuns. No fundo, cada gesto afetuoso e cada atitude de cuidado genuíno funcionam como sementes de luz, provando que a coragem mais inspiradora é aquela que habita os corações mais humildes. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




sábado, 3 de outubro de 2026

O ENCANTAMENTO DE MÁRIO MARTINS RIBEIRO CARVALHO, O ETERNO CANECO GELADO DO MÁRIO

 


O Focus Portal Cultural informa aos clientes, amigos, admiradores e à comunidade niteroiense o encantamento de Mário Martins Ribeiro Carvalho, empresário, comerciante, anfitrião e uma das personalidades mais marcantes da história gastronômica e afetiva de Niterói. 

Natural de Braga, em Portugal, Mário escolheu a Cidade Sorriso para construir sua trajetória de trabalho, dedicação e acolhimento. Sua história confunde-se com a do tradicional Caneco Gelado do Mário, localizado na Rua Marquês de Caxias, lojas 5, 6 e 7, no Centro de Niterói, endereço que ao longo das décadas se transformou em um verdadeiro patrimônio sentimental da cidade. 

Inaugurado em 22 de novembro de 1969, o estabelecimento abriu suas portas inicialmente com o nome de Lanchonete Ponte Rio-Niterói. Com o passar dos anos, ganhou a identidade pela qual se tornaria conhecido em todo o Estado do Rio de Janeiro. O nome nasceu das famosas canecas de alumínio utilizadas por Mário para servir sua cerveja sempre gelada, marca registrada que atravessou gerações e eternizou o local na memória de moradores e visitantes. 

Mais do que proprietário de um restaurante, Mário foi um construtor de amizades. Sua presença diária, o sorriso acolhedor, a conversa franca e a atenção dedicada a cada cliente transformaram o Caneco em um espaço de convivência, onde histórias eram compartilhadas, reencontros celebrados e memórias construídas. 

Ao longo de mais de cinco décadas, o estabelecimento tornou-se referência gastronômica e cultural, especialmente pelo icônico bolinho de bacalhau, pelos pratos que valorizavam a tradição portuguesa e pela atmosfera familiar que conquistou milhares de frequentadores. O Caneco Gelado do Mário tornou-se um símbolo da identidade de Niterói. 

Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura, a gastronomia e a vida social fluminense, Mário recebeu, em vida, a Medalha Tiradentes, maior honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Seu restaurante também foi declarado Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro, reconhecimento que consagrou oficialmente a importância histórica e afetiva do estabelecimento para a população.

Hoje, Niterói se despede de um de seus personagens mais queridos. Encanta-se Mário, mas permanece viva sua obra, seu exemplo de trabalho, sua generosidade e o legado construído ao longo de décadas. Permanecem as lembranças das conversas ao balcão, dos encontros entre amigos, das celebrações e da hospitalidade que marcou tantas vidas. 

O homem parte para outros horizontes. A história, porém, permanece. E na memória da cidade, entre canecas geladas, risos compartilhados e afetos preservados pelo tempo, o nome de Mário Martins Ribeiro Carvalho continuará para sempre como sinônimo de acolhimento, tradição e amor por Niterói.

© Alberto Araújo

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O MUNDO EM CORES E LUZ: AS PINTURAS DE SHIRLEY

Contemplar a obra pictórica de Shirley é ser gentilmente convidado a ingressar num universo onde a sensibilidade, a luz e a natureza se fundem em perfeita harmonia. Cada pincelada traz à tona a alma de uma artista plástica que traduz a beleza do mundo através de olhares poéticos, registrados com mestria e esmero sobre a tela.

 

Nas suas marinhas e paisagens litorâneas, o mar ganha vida em nuances que vão do azul-profundo ao verde-esmeralda das águas translucidas. O movimento suave das vagas, o rebentar das ondas em espuma alva e o encontro constante com praias douradas e vegetação exuberante revelam um fascínio contínuo pelas águas e pela maresia.

 

Com igual delicadeza, Shirley capta a magia dos entardeceres e céus crepusculares. Tons quentes de dourado, rosa e alaranjado tingem o horizonte e refletem-se serenamente sobre lagos e rios, em composições envolvidas por silhuetas de árvores e montanhas ao longe. A luz que emana de suas obras não apenas ilumina a cena, mas desperta sentimentos de paz, contemplação e nostalgia.

 

Mais do que tinta sobre tela, cada pintura de Shirley é um convite para desacelerar o olhar e sentir a poesia viva que habita a arte.

 

© Alberto Araújo

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A JORNADA ALÉM DA CORTINA: A ILUSÃO DO FIM SOB O OLHAR DO SÁBIO

 

A finitude da existência frequentemente nos assombra com o medo do desconhecido, mas sob o olhar da verdadeira sabedoria, o fim revela-se uma mera ilusão de ótica. Diante do desespero de Pippin, Gandalf desmistifica o término da vida ao ensinar que a jornada humana não se encerra na escuridão, mas se desdobra em transição. A morte, portanto, deixa de ser um abismo temível para se tornar apenas outro caminho,  uma passagem inexorável que todos devemos trilhar.

 

Quando a "cortina cinza deste mundo se enrola e tudo se transforma em vidro prata", o sábio nos convida a enxergar além das limitações físicas e temporais. Ele revela a beleza poética que nos aguarda: praias brancas reluzentes, o mistério do Além e campos verdes longínquos sob a luz suave de um eterno amanhecer.

 

Essa perspectiva transforma o terror da finitude em uma serena aceitação. A magia de viver e morrer reside na compreensão de que o fim nada mais é do que um recomeço luminoso. Atravessar essa fronteira deixa de ser uma tragédia e passa a ser a realização última de um destino sublime, um horizonte onde a esperança prevalece.

 

Crédito do vídeo

@teoriacinematográfica

 

© Alberto Araújo

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OS TEMPLOS DA ÓPERA

A ópera é, talvez, a expressão máxima da síntese artística, aquilo que Friedrich Nietzsche chamava de Gesamtkunstwerk, a obra de arte total. Para abrigar a convergência dramática entre poesia, música e cenografia, a civilização ocidental ergueu monumentos que transcenderam a mera função arquitetónica: transformou-os em catedrais do sublime.

Palcos como o Teatro alla Scala em Milão ou o Palais Garnier em Paris não foram concebidos apenas para a acústica, mas como cenários de representação social e estética. Cada pórtico, afresco e candeeiro em ferro forjado funciona como uma moldura ritualística, preparada para elevar o espírito humano antes mesmo do primeiro acorde soar.

É dentro desta tradição de apogeu estético que brilha a Ópera do Estado Húngaro, em Budapeste. Projetada no século XIX por Miklós Ybl em puro estilo neorrenascentista, esta joia da Avenida Andrássy une a elegância monumental à perfeição acústica, rivalizando com os mais imponentes palácios da Europa Central. 

© Alberto Araújo

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A TOPOGRAFIA DO ABSOLUTO: ARQUITETURA, PODER E OS PALÁCIOS CLÁSSICOS © ALBERTO ARAÚJO


​A gênese dos palácios clássicos ocidentais reside em uma premissa estética e política fundamental: a espacialização do poder soberano por meio da monumentalidade. 

Longe de configurarem meros abrigos dinásticos, essas edificações operam como verdadeiros sistemas semióticos, onde a ordem clássica, expressa na simetria axial, no rigor geométrico e na opulência ornamental, procura mimetizar a própria racionalidade cósmica. 

Nesses recintos, o programa decorativo, corporificado em afrescos de trompe-l'œil, estuques policromos e galerias de retratos, institucionaliza a memória e subordina a temporalidade histórica à eternidade da persona régia. 

A arquitetura palaciana converte-se, assim, em um palco onde a etiqueta cortesã e a alta cultura dialogam sob a égide da beleza idealizada. 

​No entanto, é na transição do barroco tardio para o Rococó que essa gramática espacial atinge seu paroxismo estético e formal, encontrando no Palazzina di Caccia de Stupinigi, também chamado frequentemente de Palácio de Caça de Stupinigi uma de suas expressões mais lúcidas e sofisticadas. 

Projetado por Filippo Juvarra nos arredores de Turim, o Palazzina di Caccia de Stupinigi subverte a rigidez tipológica das fortalezas tradicionais ao adotar uma planta em cruz de Santo André, irradiando salões monumentais que integram o espaço arquitetônico à paisagem circundante.

Nele, a apoteose dos afrescos de teto e a sinuosidade dos detalhes rococós não buscam apenas o assombro visual, mas realizam a síntese perfeita entre a função lúdica da aristocracia saboiana e o virtuosismo técnico da engenharia construtiva do século XVIII. 

Ao fim, Stupinigi ergue-se não apenas como um marco piemontês, mas como um tratado tridimensional sobre a elegância do poder e a persistência do sublime clássico. 

© Alberto Araújo

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PERMANECER É UMA FORMA DE LINGUAGEM - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Permanecer é uma forma de linguagem. 

As árvores a praticam. O mar a desafia. As montanhas a aperfeiçoam. As pedras, contudo, parecem dominá-la.

Entre Icaraí e Ingá, localização exata, no trecho de transição da orla entre os dois bairros, a Pedra de Itapuca fala esse idioma silencioso há séculos. Enquanto a cidade escreve e reescreve a própria história, ela continua ali, traduzindo o tempo em matéria. 

Poucos símbolos urbanos carregam uma eloquência semelhante. Não porque sejam grandiosos, mas porque sobreviveram. A pedra que hoje emerge solitária das águas da Baía de Guanabara é mais do que uma formação geológica ou um cartão-postal de Niterói. É um fragmento da duração.

Seu nome já conta uma história. "Itapuca", palavra de origem tupi, significa "pedra fendida". A expressão fazia referência à forma original da rocha. Muito antes de os bairros de Icaraí e Ingá receberem seus contornos atuais, a pedra formava um arco natural ligado ao continente. O mar passava por baixo dela. A paisagem possuía uma arquitetura esculpida pela natureza ao longo de milhares de anos. 

Era uma obra sem arquiteto. 

Uma ponte de pedra construída pela lenta engenharia do tempo. 

A antiga Itapuca não separava terra e mar. Unia-os. Funcionava como um portal natural através do qual a água, a luz e os ventos circulavam livremente. Os indígenas que habitavam a região deram-lhe um nome que descrevia precisamente aquilo que viam: uma pedra aberta, partida, fendida pela própria geografia.

Muito antes de se tornar símbolo urbano, ela já era paisagem. Muito antes de figurar em fotografias, cartões-postais e brasões, já fazia parte do horizonte daqueles que habitavam a enseada. E talvez resida aí uma das razões de sua permanência afetiva: ela antecede a cidade que hoje a contempla. 

Em 1840, porém, a paisagem foi convocada a servir a outro projeto. 

O século XIX acreditava profundamente na ideia de progresso. Ruas precisavam ser abertas, caminhos precisavam ser traçados, obstáculos precisavam ser removidos. Para permitir o arruamento da região, o arco natural foi implodido. A pedra perdeu a forma que, durante séculos, justificara seu nome. 

O curioso é que o nome sobreviveu à forma. 

A fenda desapareceu. 

A memória da fenda permaneceu.

Talvez nenhuma imagem represente tão bem a relação entre tempo e civilização. Os homens alteraram a paisagem, mas não conseguiram apagar completamente sua história. O que restou da antiga estrutura transformou-se em algo novo: um monumento involuntário àquilo que deixou de existir. 

A Itapuca tornou-se um fragmento carregando a memória de um todo. 

Talvez por isso sua presença provoque uma espécie de fascínio silencioso.

Não é a maior pedra da costa fluminense. Não é a mais imponente. Não é a mais célebre. Ainda assim, tornou-se um dos principais símbolos de Niterói, figurando inclusive no brasão da cidade. Em 1985, foi tombada pelo patrimônio estadual, como se o poder público reconhecesse oficialmente aquilo que a população já sabia havia muito tempo: certas paisagens também merecem ser preservadas porque guardam parte da alma de uma cidade.

Símbolos raramente são escolhidos por acaso. 

Eles condensam significados que muitas vezes escapam à consciência coletiva. 

No caso da Itapuca, talvez o símbolo resida justamente em sua sobrevivência. A cidade mudou inúmeras vezes ao seu redor. A antiga vila transformou-se em município. O município transformou-se em cidade moderna. A linha da orla foi alterada. Novos bairros surgiram. Casas deram lugar a edifícios. Bondes desapareceram. Automóveis multiplicaram-se. O horizonte foi redesenhado por dezenas de gerações. 

A pedra assistiu a tudo. 

E continuou ali. 

Talvez o tempo não deva ser imaginado como um rio, mas como um escultor. Um escultor paciente, obstinado e invisível. Seu material não é apenas a rocha. São também as cidades, as instituições, os costumes e as pessoas. 

Tudo o que existe está sendo esculpido. 

A Pedra de Itapuca carrega as marcas desse trabalho. O sal a desgasta. O vento a corrói. As ondas retornam diariamente para continuar uma tarefa iniciada muito antes de qualquer mapa registrar a Baía de Guanabara. 

Entretanto, cada golpe das águas parece apenas reforçar aquilo que ela simboliza. 

A permanência. 

Não a permanência da imobilidade. 

A permanência da identidade. 

Porque permanecer não significa conservar intacta uma forma original. Significa atravessar mudanças sem perder completamente aquilo que se é. 

Nesse sentido, a Itapuca possui algo profundamente humano. 

Todos somos pedras fendidas. 

Em algum momento da vida perdemos partes de nós mesmos. Perdemos pessoas, lugares, certezas e versões antigas da nossa própria identidade. As experiências nos modificam continuamente. Ao final de muitos anos, já não somos os mesmos de antes. 

E, contudo, continuamos sendo nós. 

A pedra ensina essa lição sem palavras. 

Aquilo que lhe dava a forma original desapareceu. O arco deixou de existir. O continente afastou-se. O mundo ao redor mudou. Ainda assim, quando alguém pronuncia "Pedra de Itapuca", todos sabem exatamente do que se trata. 

A essência sobreviveu à transformação. 

Mas talvez a verdadeira razão de seu poder simbólico não esteja apenas naquilo que ela preservou. Esteja também naquilo que perdeu. 

Porque a Pedra de Itapuca não é apenas uma sobrevivente da paisagem. 

É também uma sobrevivente da memória. 

Toda cidade é construída duas vezes. 

Primeiro na matéria. 

Depois na lembrança. 

A primeira pertence à história. A segunda pertence à memória. 

A história registra datas, acontecimentos, obras e transformações. A memória guarda aquilo que os fatos, sozinhos, não conseguem explicar. Ela preserva afetos, significados e ausências.

No caso da Itapuca, as duas dimensões convivem sobre a mesma pedra.

A história informa que, em 1840, o arco natural foi destruído para permitir o arruamento da região. O registro é objetivo. Está nos arquivos. Nos estudos. Nos documentos. 

A memória opera de forma diferente. 

Ela continua procurando o arco onde já não existe arco. 

Continua enxergando, na pedra isolada que emerge das águas, a sombra daquilo que desapareceu. 

Talvez por isso a Itapuca desperte uma emoção difícil de definir. Seu valor não está apenas no que ela é. Está também naquilo que deixou de ser.

A presença da pedra carrega a ausência do arco. 

E poucas coisas falam tão profundamente à condição humana quanto as ausências. 

As cidades também são feitas delas. 

Sob cada avenida existe uma paisagem anterior. Sob cada edifício repousa uma versão desaparecida da cidade. Os mapas registram as mudanças. A memória insiste em conservar os vestígios.

A Pedra de Itapuca parece concentrar essa tensão entre o que foi perdido e o que permaneceu. Ela não testemunha apenas acontecimentos. Testemunha transformações. Não guarda apenas uma forma geológica. Guarda uma narrativa. 

Nesse sentido, aproxima-se mais de uma ruína do que de um monumento. 

Os monumentos celebram certezas. 

As ruínas provocam perguntas.

Diante de uma ruína, o olhar nunca repousa apenas sobre o que resta. Ele procura imaginar aquilo que falta. 

É exatamente esse movimento que a Itapuca produz.

Seu nome continua contando a história de uma pedra fendida. De uma abertura. De uma passagem entre a terra e o mar. Mas nossos olhos encontram apenas um fragmento isolado diante da baía. 

Entre a palavra e a paisagem existe uma lacuna. 

E é dentro dessa lacuna que a memória trabalha. 

Porque recordar não significa reconstruir o passado. 

Significa dialogar com aquilo que o tempo recusou preservar por inteiro.

Ao cair da tarde, especialmente nos dias em que a luz dourada repousa sobre a Baía de Guanabara e os edifícios de Icaraí começam a acender suas primeiras janelas, a pedra parece assumir outra dimensão. Deixa de ser apenas um elemento da paisagem e transforma-se em presença.

Uma presença antiga. 

Quase filosófica. 

À sua volta, a cidade acelera. Pessoas caminham pelo calçadão. Corredores passam apressados. Veículos percorrem a avenida. Novas fotografias são tiradas. Novas histórias começam. 

A pedra permanece.

Não como quem resiste ao tempo.

Mas como quem aprendeu a conviver com ele. 

Talvez seja essa a razão de ela continuar provocando admiração depois de tantos anos. Não porque represente o passado, mas porque revela uma verdade permanente sobre a condição humana. 

Tudo muda. 

Quase nada permanece inteiro.

E, ainda assim, certas coisas atravessam os séculos carregando consigo uma identidade que nem o mar, nem o vento, nem a intervenção dos homens conseguem apagar completamente. 

A antiga Itapuca desapareceu. 

A atual continua presente. 

E, paradoxalmente, ambas habitam a paisagem de Niterói. 

Uma pertence à história.

A outra pertence à memória. 

Entre Icaraí e o Ingá, diante das águas da baía, a velha pedra continua sustentando esse diálogo silencioso entre aquilo que foi e aquilo que permanece. 

E toda cidade precisa desses lugares. 

Porque uma cidade não é feita apenas de ruas, edifícios e infraestrutura. Uma cidade é feita das lembranças que seus habitantes compartilham. É feita das histórias que contam a si mesmos para compreender quem são.

A Pedra de Itapuca ocupa um lugar privilegiado nessa narrativa. Funciona como uma âncora lançada nas profundezas da memória niteroiense. Enquanto o tempo transforma a cidade, ela continua lembrando que toda identidade nasce do encontro entre presença e ausência, entre permanência e perda, entre história e lembrança. 

Assim, a velha pedra diante da Baía de Guanabara deixa de ser apenas paisagem.

Torna-se metáfora. 

A metáfora de que nada permanece exatamente como era.

Mas algumas coisas permanecem o suficiente para que não esqueçamos quem fomos. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




CARTA ABERTA DO FOCUS PORTAL CULTURAL O FUTURO DA EDUCAÇÃO E DA CULTURA JÁ É REALIDADE


Rubén Darío Argüelles Sánchez - cônsul-geral da República do Panamá no Rio de Janeiro; Dr. Raymundo Stelling – Presidente da UPPES; Andréa de Fátima da Paz Pereira Barcala - presidente do Instituto Cultural Marinha Mercante.

Um marco histórico da UPPES-Sindicato 

para o magistério, a cultura e a sociedade brasileira


Ao Presidente da UPPES-Sindicato, Professor Doutor Raymundo Nery Stelling Junior, às Diretorias Executiva e Regional, aos Conselhos da entidade, aos educadores filiados e à sociedade fluminense. 

O Focus Portal Cultural registra publicamente sua admiração e reconhecimento pela inauguração do Centro Integrado de Educação e Cultura (CIEC), realizada na sede estadual da UPPES-Sindicato, no dia 24 de setembro de 2026, em Niterói, um acontecimento que suplanta as dimensões de uma simples obra física para se consolidar como um gesto concreto de compromisso com o conhecimento, a cidadania, a cultura e o futuro da educação. 

Vivemos uma época marcada por profundas transformações tecnológicas, sociais e culturais. Em meio a tantos desafios que cercam a educação brasileira, especialmente o magistério público, iniciativas capazes de fortalecer a formação permanente dos profissionais da educação representam verdadeiros investimentos no patrimônio humano de nossa nação. 

É nesse contexto que o novo Centro Integrado de Educação e Cultura surge como uma resposta moderna, sensível e visionária às demandas do presente e às necessidades das futuras gerações.

Ao inaugurar um espaço equipado com recursos tecnológicos avançados, salas de aula modernas, lousas interativas, climatização, acessibilidade e estrutura adequada para cursos, palestras, seminários e eventos culturais, a UPPES-Sindicato demonstra que continua fiel à sua trajetória histórica de defesa dos professores públicos do Estado do Rio de Janeiro. 

Não se trata apenas de instalar equipamentos ou ampliar dependências institucionais. Trata-se de criar um ambiente destinado à construção do conhecimento, ao intercâmbio de saberes e à valorização daqueles que dedicam suas vidas à formação de cidadãos. 

Durante a solenidade, o presidente da entidade, Professor Doutor Raymundo Nery Stelling Junior, definiu com clareza a essência desse novo momento ao afirmar que o espaço representa mais uma oportunidade de interação da UPPES com a sociedade. 

Ao longo de seus mais de oitenta anos de história, a UPPES consolidou-se como uma das mais importantes entidades representativas do magistério fluminense. Agora, ao investir simultaneamente em educação, cultura e integração social, reafirma seu papel como instituição promotora de cidadania e desenvolvimento humano. 

O significado simbólico do CIEC torna-se ainda maior quando observamos a diversidade de presenças que prestigiaram a inauguração. 

Representantes sindicais, dirigentes educacionais, autoridades civis, parceiros institucionais, personalidades da área da cultura, integrantes da diplomacia internacional e lideranças da sociedade civil estiveram reunidos em torno de um mesmo propósito: celebrar a educação como instrumento de transformação social. 

A presença do cônsul-geral da República do Panamá no Rio de Janeiro Rubén Darío Argüelles Sánchez confere ao evento uma dimensão internacional que merece destaque. 

A educação e a cultura são linguagens universais capazes de aproximar povos, estabelecer pontes de cooperação e promover intercâmbios que beneficiam comunidades inteiras. Ao receber autoridades estrangeiras em um evento dessa natureza, a UPPES fortalece sua vocação de diálogo e sua capacidade de construir relações institucionais que ultrapassam fronteiras. 

Da mesma forma, merece especial reconhecimento a participação da comandante Andréa de Fátima da Paz Pereira Barcala - Capitão de Longo Curso da Marinha Mercante brasileira, presidente do Instituto Cultural Marinha Mercante. 

A parceria estabelecida entre as instituições evidencia um importante encontro de valores: a formação humana, a qualificação profissional e a construção de oportunidades por meio do conhecimento. 

A aproximação entre educação, cultura e economia do mar demonstra uma visão contemporânea e estratégica do desenvolvimento nacional, na qual diferentes áreas atuam de forma integrada para produzir avanços sociais e econômicos.

Outro momento de grande significado foi a inauguração da Galeria de Arte Maria Francisca Pereira Marinho, uma homenagem à professora presidente fundadora da UPPES, que esteve à frente da entidade em sua fundação na década de 1940. Ao homenagear sua fundadora, a UPPES presta tributo não apenas a uma personalidade histórica, mas também às raízes que sustentam sua identidade institucional.

A preservação da memória é um dos pilares fundamentais da cultura. Nenhuma sociedade pode construir o futuro sem valorizar as histórias, os desafios e as conquistas daqueles que vieram antes.

A galeria representa justamente esse reencontro entre passado e presente. As fotografias, documentos e registros históricos expostos ali constituem um patrimônio cultural que narra décadas de lutas em defesa da educação pública, das condições de trabalho dos professores e dos direitos conquistados pelo magistério fluminense.

Ao percorrer esse espaço, visitantes poderão compreender melhor a relevância da atuação da entidade desde a década de 1940 e sua contribuição para importantes avanços sociais. 

A cerimônia também foi marcada por homenagens que reforçam a importância do reconhecimento público. 

A entrega da medalha comemorativa dos cinco anos do ecossistema Vem Pra Bordo, idealizado por Bruno Silva, chefe de Máquinas da Marinha Mercante, simbolizou o respeito às ações que promovem a educação, valorizam profissionais e contribuem para o desenvolvimento da economia do mar. 

Ao ser agraciado, o Professor Doutor Stelling destacou que a homenagem pertencia à UPPES como um todo, recordando que sua gestão é resultado de um trabalho coletivo desenvolvido por diretores, conselheiros e educadores.

Essa declaração sintetiza um princípio essencial das instituições sólidas: as conquistas individuais somente se tornam relevantes quando representam realizações coletivas. 

Cabe destacar ainda a presença de importantes lideranças institucionais, entre elas a presidente do Elos Internacional, Núcleo da Rede Sem Fronteiras de Niterói, Cenáculo Fluminense de História e Letras, Academia Brasileira Rotária de Letras do Estado do Rio de Janeiro, Dra. Matilde Carone Slaibi Conti, acompanhada do diretor jurídico da entidade, presidente da Academia Brasileira de Letras da Magistratura o desembargador Dr. Nagib Slaibi Filho e o Professor Claudio Joaquim – Coordenador do Núcleo de Ensino da UPPES. 

A participação dessas personalidades reafirma a relevância do evento e demonstra o reconhecimento conquistado pela UPPES junto a diferentes segmentos da sociedade.

O encontro foi abrilhantado por apresentações culturais que enriqueceram a programação e deram ao momento uma atmosfera de integração entre povos e expressões artísticas. 

As manifestações folclóricas panamenhas com artista em trajes típicos da nação e o recital de violino da violinista Leide Hotz lembraram aos presentes que a cultura continua sendo uma das formas mais poderosas de promover diálogo, sensibilidade e pertencimento. A arte, assim como a educação, aproxima indivíduos e fortalece laços sociais. 

O Focus Portal Cultural compreende que o valor do Centro Integrado de Educação e Cultura não será medido apenas pela sua arquitetura ou pelos equipamentos disponíveis. Sua verdadeira grandeza estará nas experiências que ali serão construídas. 

Estará nos cursos ministrados, nas pesquisas incentivadas, nos encontros realizados, nos projetos culturais desenvolvidos, nos debates promovidos e nas oportunidades que surgirão para milhares de educadores e cidadãos.

Cada palestra oferecida, cada atividade formativa realizada e cada manifestação artística acolhida pelo CIEC ampliará o alcance desse legado.

O novo centro nasce em um momento histórico no qual a sociedade necessita urgentemente de espaços capazes de estimular pensamento crítico, conhecimento qualificado e convivência democrática.

Por isso, sua inauguração representa uma conquista que ultrapassa os limites institucionais da UPPES para beneficiar toda a comunidade educacional fluminense. 

Ao Presidente Raymundo Nery Stelling Junior, às diretoras regionais e executivas, aos conselhos da entidade, aos parceiros institucionais e a todos aqueles que contribuíram para transformar esse sonho em realidade, registramos nosso reconhecimento. 

Que o Centro Integrado de Educação e Cultura torne-se uma referência nacional na promoção do saber, da arte, da memória e da cidadania.

Que suas portas permaneçam sempre abertas à inovação, à diversidade de ideias, à valorização dos educadores e à construção de um país mais preparado para os desafios do futuro. 

Porque quando educação e cultura caminham juntas, o futuro deixa de ser promessa e passa a ser realidade.

© Alberto Araújo

Jornalista e Escritor

Diretor do Focus Portal Cultural

Niterói - Rio de Janeiro

24 de setembro de 2026


Placa do Centro Integrado de Educação e Cultura - UPPES

Matilde Carone Slaibi Conti; Rubén Darío Argüelles Sánchez; 
Raymundo Stelling Junior;
Andréa de Fátima e Nagib Slaibi Filho. 


Dr. Raymundo Stelling Junior - Pres. UPPES




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