Ensaio
cultural com tom jornalístico e homenagem intelectual
© Alberto
Araújo – Focus Portal Cultural
No
imaginário ocidental, poucas figuras atravessaram os séculos com tanta força
simbólica quanto Don Juan. Desde Tirso de Molina, que lhe deu forma dramática
no teatro barroco espanhol, até as releituras contemporâneas que o inserem em
cenários urbanos e cinematográficos, Don Juan permanece como arquétipo do
desejo insaciável, do sedutor que nunca se sacia, do finório que joga com as
regras sociais apenas para subvertê-las.
Dalma
Nascimento, em sua obra “Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório”
(2024), nos convida a revisitar esse mito com olhar renovado, articulando
erudição e sensibilidade, crítica e poesia, para revelar como o personagem
continua a nos interpelar e a nos provocar. Mas o mérito maior de sua leitura
está em confrontar Don Juan com a ascensão da mulher como sujeito histórico e
literário. Se antes o sedutor encontrava terreno fértil em uma sociedade que
relegava à mulher o papel de objeto passivo, agora ele se vê diante de
resistências, de vozes que não se deixam capturar.
Essa
perspectiva é essencial para compreender o que significa homenagear Dalma
Nascimento no Dia Internacional da Mulher. Pois, ao revisitar Don Juan, a
autora não apenas ilumina o mito masculino, mas sobretudo revela a força da mulher
intelectual, capaz de dialogar com os mitos sem se submeter a eles.
Dalma
Nascimento descreve Don Juan como um “caçador de afetos, mas também fugitivo da
completude, sempre em busca de uma mulher mítica que lhe devolva o paraíso
perdido”. Essa busca, porém, é marcada pela frustração, pela impossibilidade de
fixar o objeto do desejo, pela eterna tensão entre ideal e realidade.
O mito,
portanto, não é apenas sobre sedução, mas sobre ausência. Don Juan deseja o que
não pode possuir, e é nesse vazio que reside sua força simbólica. Dalma
aproxima essa dimensão da poesia de Vinicius de Moraes, especialmente em “A
mulher que passa”, onde o desejo se revela como promessa e ausência, como sonho
e desencanto.
Mas se
Don Juan é o arquétipo da fuga, a mulher intelectual é o arquétipo da
permanência. Ela não se deixa capturar, mas também não se dissolve na ausência.
Ao contrário, afirma-se como sujeito, como voz, como presença crítica que
ressignifica o mito.
DON JUAN
DE MARCO: O CINEMA E A REINVENÇÃO DO MITO
Se Don
Juan Tenório é o mito literário, Don Juan de Marco é sua versão
cinematográfica. Interpretado por Johnny Depp no filme de 1994, Don Juan de
Marco é um jovem que acredita ser o maior amante do mundo. Sua figura é ao
mesmo tempo paródica e poética, revelando como o mito pode ser reinventado em
chave contemporânea.
No filme,
Don Juan não é apenas sedutor; é também narrador de si mesmo, criador de sua
própria ficção. Ele seduz porque acredita na sedução, porque constrói um
universo em que o amor é absoluto. Mas, ao mesmo tempo, sua figura revela a
fragilidade do mito: o sedutor é também seduzido por sua própria narrativa.
Essa
dimensão dialoga com a leitura de Dalma Nascimento. Don Juan é figura que seduz
e é seduzida por sua própria ficção. Ele é mito que se reinventa, mas que
encontra resistência na mulher contemporânea, consciente de seu valor e de sua
autonomia.
A MULHER
INTELECTUAL: SUJEITO DA NARRATIVA
O ponto
central da obra de Dalma Nascimento é a ascensão da mulher como essência
histórica e literária. Com o avanço dos movimentos feministas e a valorização
da voz feminina, o poder de sedução de Don Juan encontra resistência. A mulher
deixa de ser objeto passivo e passa a ser agente de sua própria narrativa.
Essa
mudança é fundamental. Pois, ao se tornar sujeito, a mulher não apenas desafia
Don Juan, mas também ressignifica o mito. O sedutor já não pode agir
impunemente; ele se vê diante de presenças que o obrigam a se reinventar.
Dalma
celebra essa nova mulher como figura antenada, consciente de seu valor e capaz
de dialogar com os mitos sem se submeter a eles. Essa leitura é essencial para
compreender como o mito de Don Juan se transforma diante da presença feminina.
ENTRE
TENÓRIO E DE MARCO: O ESPELHO DA CONDIÇÃO HUMANA
Ao
aproximar Don Juan Tenório e Don Juan de Marco, percebemos que ambos revelam
dilemas existenciais e filosóficos. O primeiro é o arquétipo da fuga; o
segundo, o arquétipo da ficção. Mas ambos expressam a mesma tensão: o desejo
por completude em um mundo marcado pela ausência.
Dalma Nascimento
mostra que Don Juan não é apenas personagem literário, mas espelho das
inquietações humanas. Ele encarna o “pathos” do desejo, a tensão entre
liberdade e responsabilidade, entre sonho e frustração, entre sedução e sedução
de si mesmo.
Mas é a
mulher intelectual que dá sentido a esse espelho. Pois, ao se afirmar como
sujeito, ela revela que o desejo não é apenas masculino, mas humano. O mito de
Don Juan, portanto, só se mantém vivo porque encontra na mulher contemporânea
sua interlocutora crítica, sua resistência, sua reinvenção.
HOMENAGEM
A DALMA NASCIMENTO
No Dia
Internacional da Mulher, homenagear Dalma Nascimento é reconhecer sua
contribuição para a leitura crítica do mito de Don Juan. Sua obra alia erudição
e sensibilidade, crítica e poesia, para construir uma narrativa que é ao mesmo
tempo análise e celebração, reflexão e provocação.
Dalma nos
mostra que Don Juan não pode ser compreendido sem a mulher. Pois é a mulher que
dá sentido ao mito, que revela sua fragilidade, que desafia sua sedução. Ao
trazer a mulher intelectual para o centro da narrativa, Dalma não apenas
revisita o mito, mas também celebra a condição humana em sua busca incessante
por sentido.
CONCLUSÃO:
A MULHER COMO TRAVESSIA
Ao final,
o que se impõe é a percepção de que Don Juan Tenório e Don Juan de Marco são
figuras que só existem porque a mulher existe. O sedutor só é sedutor porque há
quem resista, quem desafie, quem se afirme como sujeito.
Dalma
Nascimento nos convida a pensar o amor não como completude, mas como movimento;
não como posse, mas como travessia; não como fim, mas como eterno recomeço.
No Dia
Internacional da Mulher, essa leitura é mais do que homenagem: é celebração da
mulher intelectual, da mulher que pensa, que escreve, que ressignifica os
mitos. É celebração da mulher que, como Dalma Nascimento, nos mostra que o
desejo não é apenas sedução, mas também reflexão; não apenas ausência, mas
também presença; não apenas mito, mas também realidade.
© Alberto
Araújo
Focus
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