quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

OLAYINKA HAKEEM BABALOLA - O DIVISOR DE ÁGUAS E O ROTARY DE 2026-27 - FOCUS PORTAL CULTURAL

O Rotary International sempre foi reconhecido como uma organização que conecta pessoas e transforma comunidades. Em 2026-27, essa missão ganha novo fôlego com a liderança de Olayinka “Yinka” Hakeem Babalola, presidente eleito que traz consigo não apenas décadas de experiência, mas também uma visão ousada: “Crie Impacto Duradouro”. 

Olayinka Hakeem Babalola, membro do Rotary Club de Trans Amadi, Nigéria, foi oficialmente selecionado pelo Conselho Diretor do Rotary International para servir como presidente da organização no período 2026-27. Ele assumirá o cargo em 1º de julho de 2026, sucedendo SangKoo Yun, que havia renunciado para se concentrar em seu tratamento de saúde. Babalola será apenas o segundo africano a ocupar a presidência do Rotary, depois de Jonathan Babatunde Majiyagbe, que serviu em 2003-2004 . 

Sua eleição é considerada histórica e reforça o caráter global e diverso da organização. 

A história de Babalola é marcada por encontros, escolhas e transformações que refletem o próprio espírito do Rotary. Desde o primeiro contato com a organização, ainda jovem, até assumir o cargo mais alto, sua trajetória é um testemunho vivo de como o engajamento comunitário pode moldar destinos. 

Tudo começou de forma quase casual. Durante as férias entre o ensino médio e a faculdade, Babalola viu na televisão um homem vestido de branco falando sobre o Rotary. “Ele falou somente por um ou dois minutos, mas o suficiente para que eu ficasse admirado pela organização”, relembra. Esse breve momento plantou uma semente que germinaria anos depois, quando foi convidado a ajudar na fundação de um Rotaract Club em sua universidade. 

A partir daí, sua ligação com o Rotary se tornou profunda e contínua. Foi presidente fundador do Rotaract Club universitário, conheceu sua esposa em uma reunião rotaractiana e viu suas filhas seguirem o mesmo caminho, liderando clubes Interact e Rotaract. O Rotary, para Babalola, não é apenas uma instituição: é parte de sua família. 

Profissionalmente, Babalola construiu uma carreira sólida no setor de óleo e gás, atuando por 25 anos em cargos seniores na Shell. Fundou empresas voltadas para infraestrutura e consultoria executiva, sempre com foco em inovação e desempenho organizacional. Essa experiência corporativa se refletiu em sua forma de liderar dentro do Rotary: pragmática, estratégica e aberta ao uso da tecnologia.

Um exemplo marcante foi durante sua governadoria distrital, quando arrecadou US$ 80.000 em poucas horas por meio de uma campanha via SMS. “O normal era reunir as pessoas, conversar com elas e só então solicitar doações. Mas com a tecnologia, dava para ser mais rápido e direto”, explicou. Essa iniciativa não apenas quebrou paradigmas, mas também consolidou sua reputação como “divisor de águas”. 

Ao longo de sua trajetória, Babalola recebeu prêmios como o Dar de Si Antes de Pensar em Si, a Menção da Fundação Rotária por Serviços Meritórios e o Prêmio Regional por Atuação em Prol de um Mundo Livre da Pólio. Foi curador da ShelterBox e atuou em comissões estratégicas como a Campanha Elimine a Pólio Agora. 

Sua liderança transcende fronteiras. Como diretor do Rotary entre 2018 e 2020, representou mais de 80 países e áreas geográficas, incluindo regiões politicamente sensíveis como Israel, Líbano, Ucrânia e Afeganistão. Nessas experiências, desenvolveu habilidades diplomáticas que hoje são parte essencial de sua visão global.

Em 2026-27, Babalola convida os associados a refletirem sobre o impacto do Rotary não apenas nas comunidades e no mundo, mas também em si mesmos. “Quando eu perguntava sobre mudanças duradouras em si mesmos, a sala ficava em total silêncio”, conta. Para ele, o verdadeiro crescimento da organização depende de reconhecer como o Rotary transforma vidas individuais.

Ele próprio testemunha essa transformação: “O Rotary me centrou, me tirou daquele mundo privilegiado e me mostrou a realidade da minha comunidade.” Essa experiência pessoal é o que o motiva a incentivar outros a compartilharem suas histórias, ampliando a compreensão pública sobre o valor da associação.

A eleição de Babalola tem um significado especial para o continente africano. Ele será apenas o segundo africano a ocupar a presidência do Rotary International. “Isso significa muito para as pessoas daquele continente”, afirma. Sua liderança é vista como prova de que o Rotary é uma organização verdadeiramente global, capaz de refletir a diversidade de seus associados. 

Com sua postura firme e resultados concretos, Babalola transmite uma mensagem clara: “O medo não deve ser de fracassar, mas, sim, de não tentar.” Essa filosofia resume sua forma de liderar e inspira rotarianos em todo o mundo.

Além do Rotary e da carreira, Babalola cultiva paixões que revelam sua conexão com a natureza e a aventura. É mergulhador certificado, já explorou o Mediterrâneo, o Mar Vermelho e o Atlântico, e sonha em mergulhar em Hurghada, no Egito. Também aprecia jardinagem, natação e observação de pássaros, tendo registrado espécies raras como o ibadan malimbe, encontrado em sua cidade natal.

Olayinka Hakeem Babalola representa uma nova fase para o Rotary: uma fase de impacto duradouro, inovação e diplomacia. Sua história mostra que o Rotary não é apenas uma organização de projetos, mas uma comunidade que transforma vidas. 

O Focus Portal Cultural celebra essa trajetória e convida seus leitores a conhecerem mais sobre o Rotary, a se envolverem em suas causas e a contribuírem para projetos que realmente fazem diferença. Afinal, como Babalola nos lembra, o verdadeiro divisor de águas não é apenas o líder, mas cada pessoa que decide agir. 

© Alberto Araújo 

Focus Portal Cultural



 











 CARTA ABERTA  DO FOCUS PORTAL CULTURAL 

AO ROTARY INTERNATIONAL

Ao Rotary International, seus associados e ao presidente eleito Olayinka Hakeem Babalola, 

O Rotary International, organização centenária que conecta pessoas e transforma comunidades em todos os continentes, inicia um novo capítulo em sua história com a eleição de Olayinka Hakeem Babalola como presidente para o período de 2026-27. Reconhecido como “divisor de águas”, Babalola traz mais de quatro décadas de dedicação ao movimento rotário e uma trajetória marcada por inovação, diplomacia e resultados concretos. 

Sua mensagem presidencial, “Crie Impacto Duradouro”, sintetiza o espírito do Rotary e aponta para o futuro. Mais do que projetos e campanhas, o lema convida associados e simpatizantes a refletirem sobre como o Rotary transforma não apenas comunidades e o mundo, mas também a vida de cada indivíduo que se engaja em sua missão. 

Ao longo de sua história, o Rotary tem sido protagonista em causas globais. A campanha pela erradicação da pólio é um dos maiores exemplos de mobilização internacional, mostrando que a união de voluntários, governos e instituições pode alcançar resultados extraordinários. Os Centros Rotary pela Paz, os Subsídios Globais e milhares de projetos comunitários espalhados pelo planeta reforçam a visão de que juntos podemos causar mudanças duradouras. 

Babalola representa uma nova fase para o Rotary. Sua trajetória pessoal e profissional, desde o primeiro contato com o Rotaract até cargos seniores na Shell e a fundação de empresas próprias, demonstra capacidade de liderança e inovação. Durante sua governadoria distrital, arrecadou US$ 80.000 em poucas horas por meio de uma campanha via SMS, iniciativa que lhe rendeu o apelido de “divisor de águas”. 

Além disso, sua experiência como diretor do Rotary, representando mais de 80 países e áreas geográficas, incluindo regiões politicamente sensíveis, mostra sua habilidade diplomática e sua visão global. Sua eleição como segundo africano a presidir o Rotary é um marco histórico que reforça a diversidade e a representatividade da instituição.

O mundo enfrenta desafios complexos: mudanças climáticas, desigualdades sociais, crises humanitárias e ameaças à paz. Sob a liderança de Babalola, o Rotary tem a oportunidade de reafirmar seu papel como protagonista na busca por soluções. Sua filosofia é clara: “O medo não deve ser de fracassar, mas, sim, de não tentar.” Essa mensagem é um convite para que todos nós abracemos a coragem de agir.

Esta carta aberta é um gesto de reconhecimento ao legado do Rotary e de confiança na administração de Olayinka Hakeem Babalola. Que sua presidência seja marcada por impacto duradouro, por histórias de transformação e por conquistas que inspirem o mundo.

O Rotary é mais do que uma organização: é uma ideia viva de que juntos podemos mudar o curso da humanidade. E sob a presidência de Babalola, essa ideia ganha nova força, nova esperança e nova direção. 

Que o Rotary continue a ser o divisor de águas que o planeta precisa.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural






GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO: LITERATURA, IDENTIDADE E MEMÓRIA

No dia 17 de fevereiro de 2026, a Sorbonne Nouvelle, em parceria com o Crepal (EA 3421), recebe em Paris o escritor e professor Godofredo de Oliveira Neto para uma conferência dedicada à Literatura Brasileira Afrodescendente, Literatura Negra. O evento, que ocorrerá das 10h às 11h na Sala C110, Campus Nation, marca um momento de diálogo entre culturas e tradições literárias, trazendo ao público europeu uma reflexão sobre a pluralidade da produção literária brasileira e sua relação com a memória, a identidade e a resistência. 

Nascido em Blumenau, Santa Catarina, em 1951, Godofredo cresceu em um ambiente profundamente multicultural. O Vale do Itajaí, região marcada pela presença de comunidades indígenas, descendentes de imigrantes europeus e influências africanas, forneceu ao escritor um repertório cultural vasto que se refletiria em sua obra. Essa multiplicidade de vozes e tradições é um dos pilares de sua chamada Trilogia Catarinense, em que explora as tensões e harmonias entre diferentes matrizes culturais presentes no Brasil. 

Ainda jovem, Godofredo partiu para a França, onde estudou na Université de Paris III – Sorbonne Nouvelle, obtendo graduação e mestrado em Letras. Também se diplomou pelo Instituto de Altos Estudos Internacionais da Universidade de Paris II – Sorbonne, em 1974. De volta ao Brasil, concluiu o doutorado em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), instituição na qual atua como professor titular desde 1980. Sua carreira acadêmica inclui ainda um pós-doutorado na Georgetown University, nos Estados Unidos, em 2012.

Com mais de 28 livros publicados, Godofredo construiu uma obra que transita entre o romance, o conto e o ensaio. Entre seus títulos mais conhecidos estão Ilusão e mentira (2014) e outros trabalhos que lhe renderam reconhecimento nacional e internacional. Em 2006, foi agraciado com o Prêmio Jabuti, uma das mais importantes distinções literárias do Brasil. Em setembro de 2022, foi eleito para a Cadeira 35 da Academia Brasileira de Letras (ABL), sucedendo o acadêmico Cândido Mendes de Almeida, e foi recebido pela escritora Ana Maria Machado. 

A conferência em Paris se insere em um contexto de crescente valorização da literatura afrodescendente no Brasil. Trata-se de um campo que busca dar visibilidade às vozes historicamente silenciadas, resgatando narrativas que revelam a experiência da população negra no país. Ao abordar esse tema, Godofredo de Oliveira Neto não apenas reconhece a importância da produção literária de autores negros, mas também destaca como essa literatura contribui para a construção de uma memória coletiva e para o fortalecimento da identidade cultural brasileira. 

A literatura afrodescendente, ao mesmo tempo que denuncia o racismo estrutural e as desigualdades sociais, também celebra a riqueza das tradições africanas e afro-brasileiras. É um espaço de resistência, mas também de criação estética, que amplia os horizontes da literatura nacional e desafia os cânones estabelecidos.

Como professor da UFRJ e membro da ABL, Godofredo ocupa uma posição estratégica para fomentar o debate sobre a diversidade literária. Sua atuação acadêmica e institucional contribui para que a literatura negra seja reconhecida não apenas como um nicho, mas como parte integrante e fundamental da cultura brasileira. Ao levar esse debate para a Sorbonne Nouvelle, ele estabelece uma ponte entre Brasil e França, reforçando a dimensão internacional da literatura afrodescendente. 

O evento promovido pela Sorbonne Nouvelle e pelo Crepal é mais do que uma conferência: é um espaço de encontro entre culturas. Paris, cidade marcada por sua tradição intelectual e por sua abertura ao diálogo intercultural, torna-se palco para a reflexão sobre a literatura brasileira em sua pluralidade. A presença de Godofredo de Oliveira Neto reforça a ideia de que a literatura é um território de trocas, onde diferentes experiências históricas e culturais se encontram e se transformam. 

© Alberto Araújo

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SONETO PARA NICOLE @ ALBERTO ARAÚJO


Nicole, flor que aos nove anos floresce,

Com riso leve e brilho no olhar,

Em cada gesto a ternura aparece,

E em sua alma o amor vem se revelar.

 

Extrovertida, espalha simpatia,

Obediente, reflete a educação.

Na infância guarda a doce poesia,

E em Cristo encontra eterna inspiração.

 

Menina-luz, promessa de esperança,

Aurora viva que anuncia o bem,

Em tua vida a fé já se balança,

 

E o coração transborda o que contém.

Que Deus conserve em você tal pureza,

E multiplique em amor sua beleza.

 

© Alberto Araújo

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09 de fevereiro de 2026

Ocasião dos aniversário de 9 anos de Nicole.


 

EFEMÉRIDES– 12 DE FEVEREIRO DE 2026 – 217 ANOS DO NASCIMENTO DE CHARLES DARWIN

No dia 12 de fevereiro de 1809, em Shrewsbury, Inglaterra, nasceu Charles Robert Darwin, figura que se tornaria um dos pilares da ciência moderna. Hoje, ao celebrarmos os 217 anos de seu nascimento, revisitamos não apenas a biografia de um naturalista, mas também a dimensão cultural e intelectual de um homem que redefiniu a forma como compreendemos a vida e a diversidade no planeta. 

Darwin cresceu em uma família marcada por tradições liberais e pelo espírito reformista de seus avós, Erasmus Darwin e Josiah Wedgwood, ambos defensores do abolicionismo. Desde cedo, demonstrou curiosidade pela natureza, colecionando insetos e plantas, e revelando uma inclinação que o afastaria da medicina, carreira inicialmente desejada por seu pai e o aproximaria das ciências naturais. Em Cambridge, encontrou no botânico John Stevens Henslow um mentor decisivo, que o incentivou a embarcar na expedição do HMS Beagle, viagem que mudaria para sempre sua vida e a história da biologia.

Durante cinco anos de observações minuciosas em diferentes continentes, Darwin acumulou dados sobre fósseis, espécies e ambientes que o levariam a formular sua teoria da seleção natural. A publicação de A Origem das Espécies em 1859 foi um marco cultural e científico: ao propor que todas as formas de vida descendem de um ancestral comum e que a diversidade resulta da adaptação ao meio, Darwin desafiou concepções religiosas e filosóficas vigentes, provocando debates intensos na sociedade vitoriana. O impacto foi tão profundo que, em poucas décadas, sua teoria se consolidou como fundamento da biologia moderna, sendo posteriormente reforçada pela síntese evolutiva do século XX. 

Mas Darwin não se limitou à evolução das espécies. Em obras como A Descendência do Homem (1871) e A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais (1872), explorou temas como sexualidade, comportamento e emoções, ampliando o alcance de suas ideias para além da biologia. Sua curiosidade também se estendeu ao mundo vegetal, resultando em estudos sobre plantas carnívoras, orquídeas e até sobre a ação dos vermes na formação do solo. Essa diversidade de interesses revela um cientista inquieto, que buscava compreender os mecanismos sutis da vida em todas as suas formas. 

Culturalmente, Darwin tornou-se símbolo de uma era de transformações. Sua teoria não apenas revolucionou a ciência, mas também influenciou a filosofia, a literatura e as artes, inspirando reflexões sobre a condição humana, o lugar do homem na natureza e os limites do conhecimento. Escritores como Thomas Hardy e George Eliot, filósofos como Herbert Spencer e até artistas plásticos encontraram em Darwin um ponto de partida para questionar a ordem estabelecida e propor novas visões do mundo. O darwinismo, em suas múltiplas interpretações, atravessou fronteiras disciplinares e provocou debates que ecoam até hoje.

A recepção inicial de suas ideias foi marcada por resistência e polêmica. Muitos viam na teoria da evolução uma ameaça às crenças religiosas e à visão tradicional da criação. No entanto, o tempo consolidou sua posição como um dos maiores pensadores da história. O reconhecimento oficial veio com seu sepultamento na Abadia de Westminster, ao lado de Isaac Newton e outros gigantes da ciência, uma honra reservada a poucos. Esse gesto simbolizou não apenas a importância científica de Darwin, mas também o impacto cultural de suas ideias, que transcenderam o campo da biologia e se tornaram parte do imaginário coletivo.

Ao celebrarmos esta efeméride, não recordamos apenas o nascimento de um cientista, mas a emergência de uma nova forma de pensar o mundo. Darwin nos ensinou que a vida é resultado de processos dinâmicos, que a diversidade é fruto da adaptação e que o conhecimento humano se constrói na observação paciente e na coragem de desafiar paradigmas. Sua obra permanece viva, inspirando pesquisas, debates e reflexões que atravessam séculos. 

Darwin é, portanto, mais do que um nome na história da ciência: é um marco cultural, um símbolo de ruptura e de inovação, cuja influência se estende da biologia às artes, da filosofia à política, da literatura à cultura popular. Celebrar seus 217 anos é reconhecer que sua visão continua a moldar nossa compreensão da vida e do lugar que ocupamos no universo.



A VISITA DE CHARLES DARWIN AO BRASIL – 1832 E 1836 

Quando se fala em Charles Darwin, a memória coletiva imediatamente o associa às ilhas Galápagos e às observações que culminaram na teoria da seleção natural. No entanto, o Brasil ocupa um lugar especial na trajetória do naturalista britânico. Durante a viagem do HMS Beagle, Darwin esteve em território brasileiro em duas ocasiões: 1832 e 1836 e suas impressões sobre a exuberância da natureza e, em contraste, sobre a realidade social marcada pela escravidão, deixaram marcas profundas em sua formação intelectual. 

PRIMEIRA VISITA – 1832

Darwin desembarcou no Rio de Janeiro em abril de 1832 e permaneceu por cerca de três meses. Foi nesse período que se encantou com a Mata Atlântica, descrevendo-a como uma das paisagens mais magníficas que já havia contemplado. Suas excursões o levaram por Niterói, Maricá, Cabo Frio, Saquarema, Araruama, São Pedro da Aldeia, Conceição de Macabu, Macaé, Rio Bonito e Itaboraí. Em cada local, registrava minuciosamente a diversidade da flora e da fauna, coletando espécimes e anotando observações que mais tarde se tornariam fundamentais para suas reflexões sobre adaptação e evolução. 

O impacto da floresta tropical foi tão intenso que Darwin escreveu em seus diários sobre a sensação de estar diante de um espetáculo quase sobrenatural. A densidade da vegetação, a variedade de aves, insetos e répteis, e a vitalidade da vida selvagem impressionaram-no profundamente. Contudo, esse deslumbramento foi acompanhado por uma indignação crescente diante da realidade social que presenciava. Darwin ficou chocado com a escravidão, prática ainda vigente no Brasil, e criticou duramente a burocracia e a corrupção que observava nas relações cotidianas. Em suas anotações, a beleza da natureza contrastava com a brutalidade da sociedade humana. 

SEGUNDA VISITA – 1836 

Quatro anos depois, em 1836, o Beagle retornava à Inglaterra e fez paradas no Brasil, desta vez em Salvador e Recife, para reparos e abastecimento. Embora a estadia tenha sido mais breve, Darwin aproveitou para observar novamente a biodiversidade local. Em Salvador, registrou a riqueza da fauna marinha e a presença de aves que mergulhavam para se alimentar, fenômeno que reforçava suas reflexões sobre adaptação e sobrevivência. Em Recife, teve contato com fósseis e répteis marinhos, ampliando seu repertório de observações. 

A experiência brasileira foi decisiva para Darwin. O contato direto com a biodiversidade tropical ofereceu-lhe exemplos concretos da complexidade da vida e da capacidade de adaptação dos seres vivos. As aves marinhas que mergulhavam em busca de alimento, os répteis que se ajustavam ao ambiente costeiro, os insetos que se multiplicavam em profusão todos esses elementos reforçaram sua percepção de que a natureza operava por mecanismos de seleção e sobrevivência. 

Ao mesmo tempo, a indignação diante da escravidão moldou sua visão crítica sobre a sociedade. Darwin não se limitava a observar a natureza; refletia também sobre a moralidade humana e sobre como práticas sociais poderiam ser tão brutais em contraste com a harmonia da vida selvagem. Essa dimensão ética atravessa seus escritos e revela um pensador atento não apenas às leis naturais, mas também às contradições da civilização.

As visitas ao Brasil foram cruciais para a formação do pensamento darwiniano. A grandiosidade da natureza tropical ofereceu-lhe material empírico para sustentar sua teoria da evolução, enquanto as questões sociais: escravidão, corrupção, burocracia, ampliaram sua compreensão sobre os dilemas humanos. Em A Origem das Espécies (1859), a influência dessas experiências é perceptível: a ideia de que a diversidade resulta da adaptação ao meio encontra eco nas observações feitas nas florestas e costas brasileiras. 

Darwin deixou o Brasil com sentimentos ambíguos: fascínio pela natureza e repulsa pela sociedade escravocrata. Essa dualidade marcou sua obra e sua visão de mundo. Ao celebrarmos sua trajetória, é importante lembrar que o Brasil foi palco de algumas das experiências mais intensas de sua vida, experiências que ajudaram a moldar uma das teorias mais revolucionárias da história da ciência.

© Alberto Araújo

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Casa onde morou Charles Darwin










quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O ALTAR DA VARANDA ONDE O CÉU TOCA O CHÃO DE BOTAFOGO @ ALBERTO ARAÚJO



Minha Shirley disse: "Muito lindo, amigo Euderson. Obrigada por filmar o movimento e transformação da natureza. Esse momento é imperdível. Assisto todos os dias o amanhecer e o anoitecer daqui da janela da minha casa." 

Essas palavras não são apenas um agradecimento; são um testemunho de fé perante o ritmo do mundo. Shirley, com a sensibilidade de quem sabe que a beleza é a única coisa que realmente nos salva da rotina, já reviu o vídeo inúmeras vezes. E quem poderia culpá-la? Cada vez que o play é acionado, a magia se renova, e o que era apenas um registro digital se transforma em uma oração silenciosa sobre a grandiosidade da vida. 

O vídeo, capturado pela lente atenta do amigo Euderson Kang Tourinho, não nasceu em um estúdio, mas no altar doméstico de sua varanda, em Botafogo. Dali, onde o asfalto encontra o sonho e a montanha vigia o mar, Euderson não apenas filmou; ele colheu um fragmento do tempo. 

No início, há uma expectativa suspensa no ar de Botafogo. O céu não é apenas cinza; é uma tela de chumbo carregada de segredos. O Pão de Açúcar, esse gigante de granito que define a silhueta da alma carioca, parece observar o horizonte com a paciência dos milênios. Ele sabe o que vem. 

A transformação começa com um sussurro de vento, mas logo o céu decide falar mais alto. Um relâmpago rasga o véu da manhã, um traço de luz branca, elétrica, que por um milésimo de segundo revela as costuras do universo. O trovão, então, faz o chão de Botafogo vibrar. Não é um barulho assustador, mas a voz da natureza reivindicando seu espaço na metrópole. É o som do imperdível de que Shirley fala.

A chuva chega primeiro como uma cortina de gaze, transparente e delicada, para logo se transformar em uma muralha de água. O movimento é coreografado: as nuvens baixas começam a abraçar as encostas, e o Pão de Açúcar, num jogo de esconde-esconde metafísico, vai desaparecendo. Primeiro some a base, depois o contorno, até que o gigante se torna um espectro, uma memória gravada no horizonte, envolta pela névoa que Euderson capturou com tanta precisão. 

Há uma cultura profunda no ato de contemplar. No Japão, existe o conceito de Mono no aware, a sensibilidade para o efêmero, a capacidade de se emocionar com a transitoriedade das coisas. O conceito representa a empatia pelas coisas. Valoriza a beleza efêmera, como as cerejeiras que caem reconhecendo que a brevidade torna a existência mais preciosa. 

Ao assistir a este vídeo repetidas vezes, Shirley pratica essa filosofia com precisão. Ela entende que aquele exato movimento da nuvem, aquele brilho específico do raio sobre o mar de Botafogo, nunca mais se repetirá da mesma forma. 

Euderson, de sua varanda, tornou-se o resguardador desse instante. No vídeo, vemos a cidade ser lavada, não apenas da poeira, mas da urgência. Os prédios, que costumam parecer tão sólidos e imponentes, tornam-se frágeis diante da força atmosférica. As luzes das janelas, que começam a se acender, são pequenos luzeiros de humanidade em meio ao oceano de cinza e água. 

É um momento de introspecção. Enquanto o mundo lá fora se dissolve em chuva e mistério, quem assiste é convidado a silenciar. A transformação da natureza a que Shirley se refere é, também, uma transformação interna. É impossível observar o céu de Botafogo se curvando à tempestade sem sentir que somos parte de algo imensamente maior.

O registro da vida urbana muitas vezes se perde no caos do trânsito e na pressa dos prazos marcados. Mas, de vez em quando, um amigo como o Euderson aponta a câmera para o lugar certo. Ele nos lembra de que a varanda de um apartamento pode ser o melhor lugar do mundo se soubermos para onde olhar. 

A Shirley sabe. Por isso ela revê. Ela busca naquelas imagens a confirmação de que o ciclo continua: o amanhecer que ela vigia de sua residência, o anoitecer que ela saúda, e essa tempestade que, no meio do caminho, veio para lembrar que a natureza é viva, soberana e, acima de tudo, belíssima em seu furor. 

Quando o vídeo termina e o Pão de Açúcar está  totalmente oculto pela bruma, não sentimos vazio. Sentimos plenitude. O espetáculo não precisa de final feliz; ele precisa apenas existir. E, graças ao olhar de Euderson e à devoção de Shirley, esse momento imperdível agora pertence a todos nós. Botafogo, sob a chuva, não é apenas um bairro; é um estado de espírito. 

© Alberto Araújo

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O vídeo da inspiração da crônica: 
O ALTAR DA VARANDA  
ONDE O CÉU TOCA O CHÃO DE BOTAFOGO 
de Alberto Araújo 
(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)




11 DE FEVEREIRO DE 2026, CELEBRAMOS OS 104 ANOS DO INÍCIO DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO

A Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade. 

No dia 11 de fevereiro de 1922, São Paulo se preparava para viver um dos momentos mais emblemáticos da história cultural brasileira: a Semana de Arte Moderna. Realizada no Theatro Municipal entre os dias 13 e 17 daquele mês, a Semana foi concebida como um gesto de ruptura e ousadia, reunindo artistas de diferentes áreas em torno de um mesmo propósito: questionar o academicismo vigente e propor uma arte que fosse, ao mesmo tempo, moderna e brasileira. Hoje, ao celebrarmos 104 anos desse marco, é fundamental compreender não apenas o evento em si, mas também o contexto que o tornou possível, os protagonistas que o conduziram e os desdobramentos que se seguiram. 

O Brasil das primeiras décadas do século XX vivia sob a República Velha, marcada pela política do café com leite e pela hegemonia das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. A capital paulista, enriquecida pelo café e pela industrialização nascente, tornava-se o centro econômico e cultural do país. A elite cafeeira, que financiou a Semana, buscava afirmar São Paulo como capital cultural, rivalizando com o Rio de Janeiro, até então o polo artístico mais consolidado. Esse pano de fundo político e econômico é essencial para compreender a Semana: ela não foi apenas um movimento artístico, mas também uma afirmação de poder e protagonismo regional. 

O espírito da Semana era o da renovação. Os artistas envolvidos estavam cansados das regras rígidas do parnasianismo e da reprodução realista do naturalismo. Inspirados por movimentos como o futurismo, o cubismo, o dadaísmo e o expressionismo, defendiam a liberdade criativa, a experimentação e a busca por uma arte que dialogasse com o Brasil real, suas paisagens, sua gente, sua cultura popular. A Semana reuniu pintura, escultura, música, literatura e arquitetura em um mesmo espaço, criando um ambiente de choque estético e intelectual. Não se tratava apenas de mostrar obras, mas de provocar, de desafiar o público e de abrir caminho para novas formas de expressão. 

Entre os protagonistas, destacam-se nomes que se tornariam centrais na história da arte brasileira. Anita Malfatti, cuja exposição de 1917 já havia causado polêmica, trouxe pinturas que rompiam com o convencional e escancaravam influências das vanguardas europeias. Mário de Andrade, escritor e intelectual, foi o grande articulador das ideias modernistas, defendendo uma literatura que refletisse a alma brasileira. Oswald de Andrade, irreverente e provocador, lançaria pouco depois as bases da antropofagia cultural, propondo que o Brasil devorasse as influências estrangeiras para criar algo novo. Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida, poetas, ajudaram a consolidar o grupo, enquanto Victor Brecheret, escultor, trouxe novas formas e materiais. Manuel Bandeira, mesmo ausente fisicamente, foi representado por seus poemas, e Heitor Villa-Lobos, com sua música, deu o tom sonoro da revolução.

Curiosamente, o impacto imediato da Semana foi restrito. O público reagiu com vaias, críticas e incompreensão. A imprensa paulista registrou o evento mais como uma curiosidade do que como uma revolução. Muitos consideraram os artistas “extravagantes” ou “desconectados da realidade”. No entanto, o tempo se encarregaria de dar à Semana o lugar que ela merecia. Ao longo da década de 1920, as ideias lançadas ali foram aprofundadas, dando origem a movimentos como o Verde-Amarelismo e, sobretudo, a Antropofagia, que se tornaria um dos pilares do modernismo brasileiro. Após a morte de Mário de Andrade em 1945, iniciou-se um movimento de recuperação de seu legado, e a Semana passou a ser vista como o marco fundador do modernismo nacional. 

É importante, contudo, reconhecer que essa visão consagrada não é unânime. Muitos estudiosos contemporâneos apontam que a Semana foi um evento da elite para a elite, desconsiderando artistas populares e movimentos de renovação que já existiam antes de 1922. Nomes como Pixinguinha, Donga, João da Baiana, João do Rio e Benjamim Costallat, por exemplo, já promoviam transformações significativas na música e na literatura, mas foram ignorados pelo cânone modernista. Essa crítica não diminui a importância da Semana, mas nos lembra que ela foi apenas um dos marcos de um processo mais amplo, complexo e plural de construção da modernidade artística no Brasil.

O legado da Semana de Arte Moderna é vasto. Ela abriu caminho para uma arte que buscava ser brasileira em essência, sem deixar de dialogar com o mundo. Nas artes plásticas, rompeu com a dependência da estética europeia e incentivou o uso de temas nacionais. Na literatura, estimulou a experimentação formal e a valorização da linguagem coloquial. Na música, aproximou-se das raízes populares e da diversidade cultural do país. Mais do que um evento, a Semana foi um ponto de partida, um catalisador de mudanças que se espalhariam pelas décadas seguintes.

Celebrar os 104 anos da Semana de Arte Moderna é, portanto, celebrar a ousadia de um grupo de artistas que, em meio a vaias e incompreensão, ousou propor um novo caminho para a cultura brasileira. É também reconhecer suas limitações e contradições, entendendo que a modernidade não nasceu apenas ali, mas em múltiplos espaços e vozes. A Semana de 22 permanece como símbolo de ruptura e de busca por identidade, lembrando-nos que a arte, para ser viva, precisa sempre desafiar, questionar e reinventar. 

Capa do catálogo da exposição de arte da Semana de Arte Moderna, organizada por Mário de Andrade e Grupo dos Cinco. A ilustração é de Emiliano di Cavalcanti. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




Legenda da 2ª foto: Francesco Pettinati, Flamínio Ferreira, René Thiollier, Manuel Bandeira, Sampaio Vidal, Paulo Prado, Graça Aranha, Manuel Villaboim, Couto de Barros, Mário de Andrade, Cândido Mota Filho, Gofredo da Silva Teles, Rubens Borba de Moraes, Luís Aranha, Tácito de Almeida e, à frente, Oswald de Andrade.



11 DE FEVEREIRO - NO DIA INTERNACIONAL DAS MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA - HEDY LAMARR - A MUSA DO CINEMA QUE ANTECIPOU O FUTURO DIGITAL - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

Em cada data comemorativa, há histórias que merecem ser revisitadas não apenas pela memória, mas pela inspiração que carregam. No Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, uma personalidade se destaca como símbolo da união entre arte e tecnologia: Hedy Lamarr. Conhecida mundialmente como uma das grandes estrelas da Era de Ouro de Hollywood, Lamarr foi muito além dos holofotes. Sua genialidade como inventora abriu caminhos para tecnologias que hoje sustentam a vida digital, como o Wi-Fi, o Bluetooth e o GPS. Revisitar sua trajetória é reconhecer que a ciência também tem rosto feminino e que o futuro foi moldado por mentes que ousaram desafiar os limites impostos pelo tempo e pela sociedade. 

No calendário cultural, o 11 de fevereiro marca o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, uma data criada pela ONU em 2015 para lembrar ao mundo que o talento feminino não deve ser limitado por estereótipos ou preconceitos. Nesse dia, uma figura se destaca como símbolo de genialidade e ousadia: Hedy Lamarr, a atriz austríaca que brilhou em Hollywood e, ao mesmo tempo, deixou uma marca indelével na história da tecnologia. 

Nascida em 1914, em Viena, Hedwig Kiesler cresceu em meio ao privilégio, mas também às tensões de uma Europa marcada pelo antissemitismo. Desde cedo demonstrou curiosidade científica, embora a sociedade esperasse que sua vida fosse guiada por beleza e casamento. Aos 19 anos, estrelou o polêmico filme Êxtase (1933), que a catapultou para a fama internacional.

Seu casamento com Fritz Mandl, um poderoso negociante de armas ligado a regimes fascistas, foi sufocante, mas paradoxalmente lhe abriu portas para o universo da engenharia militar. Observando reuniões e conversas técnicas, Hedy absorveu conhecimentos que mais tarde se tornariam fundamentais para sua invenção. Em 1937, fugiu da Europa e reinventou-se nos Estados Unidos, onde Louis B. Mayer, da MGM, a transformou em Hedy Lamarr, a “deusa distante” das telas. 

Nos anos 1940, enquanto interpretava mulheres sedutoras em filmes como Argélia (1938) e Sansão e Dalila (1949), Lamarr dedicava suas noites a esboçar projetos tecnológicos. Sua mente inquieta buscava soluções para problemas reais: como impedir que os nazistas interceptassem sinais de rádio usados pelos Aliados para controlar torpedos? 

A resposta veio em parceria com o compositor George Antheil. Inspirados por pianos mecânicos, criaram um sistema de salto de frequência, em que transmissor e receptor mudavam de canal simultaneamente, tornando impossível a interceptação. Em 1942, registraram a patente de um “Sistema de Comunicações Secretas”. 

Na época, a invenção foi considerada “avançada demais” para a tecnologia disponível e acabou engavetada pela Marinha dos EUA. Décadas depois, porém, seus princípios se tornaram a base de sistemas modernos como Wi-Fi, Bluetooth e GPS. 

Lamarr e Antheil só foram reconhecidos em 1997, quando receberam o EFF Pioneer Award. Em 2014, Hedy foi incluída postumamente no Hall da Fama dos Inventores Nacionais, consolidando seu legado como pioneira da comunicação sem fio. 

A vida pessoal de Lamarr foi marcada por seis casamentos, divórcios e uma busca constante por independência. Nos bastidores, enfrentou o preconceito de uma época que não aceitava que uma mulher bela pudesse também ser brilhante. Sua trajetória mostra como o talento feminino foi muitas vezes silenciado, mas também como a persistência pode atravessar gerações. 

Hoje, cada vez que alguém conecta um notebook ao Wi-Fi, ativa o GPS no celular ou usa um fone Bluetooth, está, sem perceber, usufruindo da genialidade de Hedy Lamarr. Sua invenção, nascida em meio ao caos da Segunda Guerra Mundial, tornou-se parte essencial da vida digital contemporânea.

Hedy Lamarr é lembrada como a inventora que antecipou o futuro das telecomunicações, mas sua trajetória no cinema também merece ser celebrada. Entre os anos 1930 e 1940, ela protagonizou produções que se tornaram clássicos da Era de Ouro de Hollywood, consolidando sua imagem como ícone de beleza e talento. 

OS FILMES QUE MARCARAM SUA CARREIRA 

Êxtase (1933) – O polêmico longa europeu que a lançou ao estrelato mundial, famoso por retratar a primeira cena de orgasmo feminino no cinema. 

Argélia (1938) – Sua estreia em Hollywood, ao lado de Charles Boyer, que a transformou em estrela internacional. 


Fruto Proibido (Boom Town, 1940) – Dividindo a tela com Clark Gable e Spencer Tracy, Lamarr brilhou em uma trama sobre amizade e rivalidade no mundo do petróleo.

O Inimigo X (Comrade X, 1940) – Uma comédia romântica ambientada na União Soviética, novamente ao lado de Clark Gable. 

A Vida é um Teatro (Ziegfeld Girl, 1941) – Ao lado de Judy Garland e Lana Turner, viveu uma das aspirantes ao estrelato nos espetáculos da Broadway. 

Almas Boêmias (Tortilla Flat, 1942) – Baseado em obra de John Steinbeck, mostrou sua versatilidade em papéis dramáticos. 

Demônio do Congo (White Cargo, 1942) – Interpretou a ardente nativa Tondelayo, em uma trama que explorava tensões coloniais. 

Flor do Mal (The Strange Woman, 1946) – Um drama psicológico em que Lamarr encarna Jenny Hager, manipuladora e sedutora. 

Mulher Caluniada (Dishonored Lady, 1947) – Viveu uma editora de revista em crise existencial, em um papel que explorava fragilidade e força feminina. 

Sansão e Dalila (1949) – Seu maior sucesso comercial, dirigido por Cecil B. DeMille, onde interpretou Dalila em uma superprodução bíblica que se tornou um marco do cinema épico. 

Esses filmes não apenas consolidaram Hedy Lamarr como uma das atrizes mais requisitadas de sua época, mas também revelaram sua capacidade de transitar entre gêneros – do drama psicológico ao épico bíblico. Ainda que sua inteligência como inventora tenha sido ofuscada pelo brilho de Hollywood, sua filmografia permanece como testemunho de uma artista que soube unir beleza, talento e presença magnética. 

Celebrar Hedy Lamarr no Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência é reconhecer que ciência e arte podem coexistir em uma mesma pessoa. É também um lembrete de que o futuro tecnológico não seria o mesmo sem a ousadia de uma atriz que se recusou a ser apenas um rosto bonito.

A história de Hedy Lamarr é um lembrete poderoso de que talento não conhece fronteiras entre arte e ciência. Sua vida, marcada por glamour, desafios pessoais e genialidade, mostra como uma mulher pode transformar o mundo mesmo quando subestimada. Hoje, cada conexão sem fio que nos aproxima é também um tributo silencioso à sua visão. Ao celebrarmos o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, celebramos também Hedy Lamarr a estrela que brilhou nas telas, mas que iluminou ainda mais o futuro da tecnologia.

Texto e pesquisa

© Alberto Araújo

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