O cosmos não é um amontoado
indiferente de matéria, mas um logos, uma ordem dotada de sentido, onde a
natureza exterior ecoa as verdades profundas do espírito. O dia 22 de agosto
carrega essa espessura ontológica. Nele, cruzam-se o apogeu da luz visível do
mundo e a realeza silenciosa daquela que a teologia e a poesia mística nomeiam
como Rainha.
Para
apreendermos a grandiosidade deste momento à luz de uma reflexão rigorosa, é
preciso abandonar tanto o literalismo ingênuo quanto o ceticismo utilitário. A
linguagem dos símbolos, longe de ser mero ornamento literário, constitui a
única via adequada para expressar realidades que escapam aos conceitos
puramente cartesianos. Quando a tradição contempla o Sol, historicamente
erigido como arquétipo do centro, do fulgor, da inteireza e da majestade
soberana, ela reconhece o princípio da irradiação e da autoridade benfazeja. E
é precisamente no enquadramento temporal em que esse eixo solar coroa o seu
ciclo de maior intensidade que a Igreja Católica celebra a festa de Nossa
Senhora Rainha, selando o encerramento da oitava da Assunção.
Trata-se
de uma sintaxe metafísica. Maria não é Rainha por força de um poder secular ou
de uma dominação geopolítica; a sua realeza subverte os cânones do poder
terreno. Ela reina a partir da kenosis, o esvaziamento do ego em favor do
serviço integral, fundando a sua soberania na doação, no amor radical e na
maternidade espiritual que acolhe a totalidade da condição humana.
Para
adensar a compreensão desta festividade, é fundamental afastar a ilusão de que
nos encontramos perante uma inovação devocional efêmera. Embora a formalização
litúrgica tenha ocorrido em meados do século XX, mais precisamente em 1954,
quando o Papa Pio XII promulgou a encíclica Ad Caeli Reginam, a intuição
subjacente remonta às raízes mais profundas da patrística e da contemplação
cristã.
A
escolha original da data, inicialmente fixada em maio, mês arquetípico do
florescimento e do despertar vital, e posteriormente transposta para 22 de
agosto, na vizinhança imediata da Assunção, obedece a uma rigorosa coerência
teológica. Ao situar a celebração da Realeza logo após o triunfo da Assunção,
momento em que a criatura humana é integralmente assumida na glória divina em
corpo e alma, a liturgia postula uma tese fulcral: a realeza de Maria não é
extrínseca, mas participativa. Ela coroa a história humana porque participa da
glória de Cristo, o Rei do Universo.
Neste
sentido, a soberania de Maria opera como um espelho invertido das estruturas de
dominação do mundo. Se os reinos terrenos se sustentam pela coerção e pela
espada, o reino de Maria sustenta-se pela intercessão, pela escuta e pela
graça. Ela é Rainha porque soube fazer-se, antes de tudo, a serva perfeita, a
ancilla Domini cuja liberdade se consumou na entrega irrestrita ao mistério.
A
reflexão filosófica teológica sobre esta figura alcança o seu zênite quando
confrontada com uma das imagens mais potentes do cânone bíblico: a "mulher
revestida do sol", imortalizada no Apocalipse.
Longe
de qualquer reducionismo, a exegese tradicional e mística vê nesta figura a
síntese da Igreja e o arquétipo de Maria. Os atributos que a cercam, a lua sob
os pés, a coroa de doze estrelas na fronte, desenham a geometria de uma
soberania que transcende as contingências do tempo histórico. Contudo, o
elemento central que define a sua vestimenta é de uma densidade ímpar: ela está
revestida de Sol.
Na
topografia dos símbolos espirituais, o Sol não denota aqui o astro da mecânica
celeste, mas a analogia da Luz Increada, o reflexo do Absoluto que envolve a
criatura como um manto nupcial. Maria é o receptáculo virginal e
ontologicamente puro que acolheu o Sol da Justiça, o próprio Logos encarnado, e
o introduziu na história dos homens. No contexto, a Razão Suprema, a Palavra, o
Princípio Inteligente que rege e dá sentido a todo o universo. Maria é o portal
sagrado pelo qual a Luz maior e a Inteligência do universo, Jesus Cristo
assumiram uma face humana e pisaram na terra.
Quando
o ciclo da luz atinge o seu cume no final de agosto, a ordem sensível e a ordem
inteligível convergem. A natureza externa parece exteriorizar uma verdade
interior: o fulgor do Absoluto e a delicadeza maternal da Virgem de Nazaré
fundem-se num abraço indissolúvel. A majestade deixa de ser sinônimo de
distância inalcançável e passa a manifestar-se como calor, proteção e
iluminação.
Na
tradição simbólica que articula o crepúsculo de agosto com o esplendor solar,
apreendemos o ritmo das transições essenciais. É o instante em que a força
máxima da energia geradora começa a decantar-se na maturidade dos frutos, na
serenidade da colheita e na preparação para o recolhimento interior.
Da
mesma forma, a realeza de Maria opera como uma presença imanente na travessia
humana. Ela recusa a frieza dos tronos distantes; o seu trono é o próprio
coração materno, dilatado pela compaixão. Numa contemporaneidade frequentemente
assolada pelo niilismo, pela fragmentação analítica e pela apatia espiritual, a
contemplação de Maria revestida de Sol atua como um corretivo filosófico e
existencial. Ela reitera que a nossa procedência e o nosso destino participam
de uma linhagem régia, inibindo a resignação perante as trevas da mediocridade.
Que
esta reflexão, marcando o fecho augusto de um ciclo solar e a exaltação da
Rainha do Céu, nos revigore o pensamento e a sensibilidade. Que possamos
absorver a irradiação dessa luz arquetípica.
Que
esta grande Mãe ilumine a TODOS NÓS, dissipando as névoas do cinismo
intelectual e do desespero, aquecendo os espíritos e reconduzindo-nos à clareza
do Bem, da Verdade e da Paz. Salve a Rainha, a Mulher revestida de Sol, cuja
soberania silencia os impérios e governa o mundo pelo primado absoluto do amor.
© Alberto Araújo
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