HAUSER interpretando o Andante do Concerto para Piano nº 21 em Dó maior, K. 467,
de Wolfgang Amadeus Mozart.
HAUSER interpretando o Andante do Concerto para Piano nº 21 em Dó maior, K. 467,
de Wolfgang Amadeus Mozart.
O amor não é um ponto de chegada, mas o próprio caminho que se escolhe trilhar, passo a passo, batida a batida. Falar de Ana Maria Tourinho e Euderson Kang Tourinho é, antes de tudo, pronunciar a palavra "amor" em sua acepção mais sagrada e resiliente. Hoje, 30 de março, o Focus Portal Cultural não apenas relata um fato, mas celebra um monumento vivo: o enlace matrimonial que alcança a magnífica marca de 52 anos.
Cinquenta e dois anos de uma entrega que transita entre o lírico e o cotidiano, transformando cada amanhecer em uma renovada promessa de presença. Não se trata apenas da soma de dias, mas da multiplicação de afetos, da paciência que se tornou sabedoria e do carinho que, com o tempo, lapidou a alma de ambos até que se tornassem um espelho fiel do outro.
Diz-se que os 52 anos de casados celebram as Bodas de Argila. Há uma metáfora profunda nessa escolha: a argila é o elemento que se molda, que aceita o toque das mãos, que se adapta e que, sob o fogo das experiências, torna-se eterna e resistente. Ana Maria e Euderson são os artesãos dessa obra. Ao longo de mais de meio século, eles não apenas viveram juntos; eles se moldaram mutuamente.
O amor deles é como um rio que corta a paisagem da vida. Começou como um riacho impetuoso, cheio de sonhos e promessas da juventude em um 30 de março que agora brilha com a luz dourada da memória. Com o passar das décadas, recebeu os afluentes da cumplicidade, do perdão e da admiração mútua. Hoje, é um rio largo, profundo e calmo, cujas águas refletem o céu e alimentam as margens de uma família que é o seu maior legado. Um rio que flui com a certeza de quem sabe exatamente para onde está indo, porque conhece a força da fonte de onde veio.
Neste altar do tempo, as décadas não pesam; elas sustentam. Elas são as fundações de um templo onde o sagrado é o bem-estar do outro. Ana Maria, com sua luz própria e sensibilidade, e Euderson, com sua presença firme e cavalheirismo sereno, construíram um refúgio contra as intempéries do mundo. Ali, o amor é o ar que se respira, e a lealdade é a luz que ilumina cada detalhe dessa existência compartilhada.
Quando observamos a trajetória deste casal, a realidade se transfigura em pura poesia. O casamento de Ana Maria e Euderson é a prova viva de que o romance não é um clichê passageiro, mas uma construção diária. É a beleza de envelhecer juntos, descobrindo novas camadas de afeto em rostos que já se conhecem de cor, em silêncios que dizem tudo e em risos que ecoam a história de uma vida inteira.
Eles nos ensinam que o amor verdadeiro é a habilidade de caminhar sob o mesmo guarda-chuva durante as tempestades e de celebrar, com a mesma intensidade, as flores que surgem na primavera. É a arte de somar forças e dividir fardos. Nesses 52 anos, o "eu" de cada um não se apagou, mas expandiu-se, encontrando sua melhor expressão no abraço do outro.
Para ilustrar a magnitude desse sentimento que desafia a brevidade das coisas, buscamos abrigo na voz de uma das maiores mentes da nossa literatura, alguém que compreendeu como poucos o mistério do sentir. Como bem afirmou Clarice Lispector: "O amor é quando não é dado o direito de escolher o que sentir."
Esta frase impactante define a jornada de Ana Maria e Euderson. O amor que os une é uma força irresistível, um imperativo do coração que não pediu licença para se instalar e que não dá o direito de sentir menos do que o infinito. Não é um amor de conveniência, mas um amor de essência. Eles se amam porque suas almas reconheceram, há mais de cinco décadas, que a vida só faria sentido se fosse escrita a quatro mãos.
O Focus Portal Cultural celebra este casal não apenas pelo tempo transcorrido, mas pela qualidade da luz que emanam. Alguns chamam esta data também de Bodas de Estrela, e essa definição parece perfeita. O amor de Ana Maria e Euderson é, de fato, uma estrela guia que serve de inspiração para os nossos filhos, netos, amigos e para todos que conhecem o amor. Em um mundo que muitas vezes valoriza o efêmero, a história deles ergue-se como uma luz sagrada de esperança.
Ana Maria, com seu sorriso que acolhe; Euderson, com sua nobreza que conforta. Juntos, eles são a definição de completude. A passagem deste 30 de março é uma celebração da vitória do afeto sobre o tempo. É a prova de que o "para sempre" não é um mito, mas um destino que se alcança com respeito, dedicação e, acima de tudo, com muito amor.
Que a estrada à frente continue sendo pavimentada com a mesma ternura que os trouxe até aqui. Que a luz dessa união continue a brilhar intensamente, lembrando-nos a todos que o amor, quando cultivado com a alma, é a única coisa que realmente permanece.
Felizes 52 anos de um amor eterno.
Com admiração e carinho,
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
A atmosfera solene da Academia Fluminense de Letras (AFL) costuma ser palco de grandes discursos e posses memoráveis, mas, recentemente, foi o eco de uma harmonia secular que resgatou uma das memórias mais profundas da pianista, cantora, acadêmica Gisela Peçanha. Durante a apresentação do Coral Carpe Diem, regido pelo Maestro Joabe Ferreira, um anúncio específico no repertório funcionou como uma chave de ouro capaz de abrir as portas da infância: o Ave Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Para quem observava Gisela na plateia, talvez não fosse possível mensurar a tempestade de emoções que aquela partitura evocava. No entanto, o brilho no olhar e a postura de quem conhece cada nota revelavam que ali não estava apenas uma espectadora, mas uma artista cuja trajetória profissional foi selada por aquela exata composição, há décadas, sob a batuta de outros tempos e mestres.
A história de Gisela com o canto coral começou cedo, nos corredores do Centro Educacional de Niterói. Dos 8 aos 18 anos, ela integrou o corpo vocal da instituição, sob a regência do saudoso Maestro Ermano Soares de Sá. O que começou com a simplicidade lúdica dos cânones a três vozes e as canções do folclore brasileiro logo se transformou em um desafio que moldaria seu destino.
Aos 12 anos, a maturidade vocal de Gisela já não passava despercebida. Foi quando o Maestro Ermano, reconhecendo um talento acima da média, tomou uma decisão audaciosa: transferiu a menina diretamente para o coro juvenil. O aviso do mestre foi claro: "Agora você irá cantar músicas muito mais difíceis, porque você já está preparada".
Entre jovens de 15 a 17 anos, a pequena Gisela, com apenas 12, viu-se diante do deslumbramento e da complexidade da partitura de Mozart. Sem ainda dominar a leitura técnica de partituras, ela valeu-se da percepção auditiva e de uma dedicação rara, gravando a melodia e decorando cada nuance da obra em apenas dois dias.
O divisor de águas na vida da cantora tem data, hora e local: uma apresentação às 18 horas na Igreja Porciúncula de Santana. Gisela recorda aquele momento como algo místico. A acústica perfeita do templo, o som dos sinos e a magnitude da composição de Mozart criaram o cenário ideal para uma revelação pessoal.
Naquele dia, enquanto seu coração parecia pulsar no ritmo das vozes, a decisão foi tomada: ela seria cantora. O Ave Verum Corpus não era apenas uma música de repertório, era o seu batismo artístico. A partir dali, a voz que se destacava no coral infantil ganharia o mundo, levando-a aos bancos da Faculdade de Canto na Escola de Música da UFRJ e a uma carreira profissional sólida, onde a obra de Mozart a acompanharia como solista em inúmeras cerimônias e recitais.
No último sábado, na Academia Fluminense de Letras, o ciclo parecia se fechar, ou melhor, se renovar. Ao ver o Coral Carpe Diem prestes a executar a peça que definiu sua vida, Gisela sentiu o impulso legítimo de quem deseja retornar às origens. De forma discreta, ela solicitou ao regente a oportunidade de se juntar ao grupo, no fundo do coral, apenas para rememorar a vivência da infância.
Apesar do rigor do protocolo, que impediu a participação oficial, a essência artística de Gisela Peçanha não aceitou o silêncio. Sentada estrategicamente próxima às sopranos e ao lado do teclado do maestro, ela não se conteve. Se não pôde estar formalmente no palco, sua voz profissional e experiente uniu-se ao coro de forma orgânica.
O Maestro Joabe Ferreira pôde ouvir, em alto e bom som, a performance de uma mulher que, embora tenha trilhado caminhos acadêmicos e palcos diversos, mantém intacta a pureza daquela menina de 12 anos que se encantou com Mozart. Muito feliz em está vivenciando tudo aquilo. Gisela não cantou, mas posou com o coral. Na ocasião, Gisela foi homenageada pela Academia Fluminense de Letras, onde recebeu pela sua apresentação pianística embelezando o evento em Homenagens às Mulheres, uma Moção de Reconhecimento das mãos da presidente Márcia Pessanha. O Focus registrou esses momentos.
O Focus Portal Cultural homenageia Gisela Peçanha não apenas pelo seu currículo como bacharel em canto pela UFRJ, mas pela sua sensibilidade. Sua trajetória nos ensina que a técnica se aprimora, mas o dom é uma chama que, uma vez acesa pela beleza de uma obra de arte, jamais se apaga. Naquele salão da Academia, através de uma foto e de muitos tons, o que se viu foi a celebração da música como fio condutor da própria existência.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
30 de março de 2026
Gisela Peçanha disse por intermédio de áudio: “Querido Alberto, tentei escrever diversas mensagens, mas a emoção não me permitiu digitar; por isso, prefiro enviar este áudio. Estou profundamente comovida com a homenagem que você me fez. É um texto impecável, sensível e belíssimo.
Posso dizer que você tocou o âmago do meu coração de menina. A profundidade da sua escrita é tamanha que parece que você viveu aquela situação comigo. Ao ler, pensei: 'Meu Deus, parece que fui eu quem escreveu', tamanha a perfeição com que você captou o que senti.
Aquele dia na Porciúncula de Santana,
aos meus 12 anos, ao cantar
o Ave Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart , foi de fato o meu batismo na música. Sua colocação foi perfeita; eu me senti exatamente assim, sendo batizada. Naquele momento, decidi que seria cantora e que queria cantar aquilo, mesmo sem saber ainda o que era ser uma cantora lírica.
A Porciúncula, os sinos tocando... foi
um momento mágico que você resgatou com uma sensibilidade extraordinária.
Reitero: você escreveu como se a história fosse sua, tamanha a profundidade e
perfeição do relato. Muito, muito obrigada.” Gisela.
Nesta terça-feira (31/3), o Metrópolis recebe a atriz Débora Lamm. Em conversa com Adriana Couto, a artista revisita sua trajetória e comenta sua nova peça, A Pediatra. O programa vai ao ar às 22h, na TV Cultura.
Débora Lamm iniciou sua carreira no teatro, na peça A Bruxinha que Era Boa, e, desde então, integrou espetáculos como Os Mamutes e A Ponte, pelos quais foi indicada ao Prêmio APTR de Melhor Atriz. Na televisão e no cinema, participou de produções como Zorra, Amor de Mãe, Junto e Misturado, Muita Calma Nessa Hora 2 e O Palestrante, entre outros trabalhos.
Durante o programa, a atriz fala sobre a peça A Pediatra, dirigida por Inez Viana, adaptação do livro da escritora Andrea Del Fuego. No espetáculo, Lamm interpreta Cecília, uma pediatra de personalidade ácida que não gosta de crianças.
A edição também traz uma reportagem sobre a abertura do Festival de Curitiba, com entrevista com o carnavalesco Milton Cunha, que comenta um espetáculo cujo eixo central é o samba. Por fim, o programa apresenta a exposição gratuita Amazônia Imersiva, em Belém, que celebra a arte da região amazônica por meio de uma experiência audiovisual em 360°.
@ Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
O salão da Academia Fluminense de Letras exalava aquela solenidade característica que as paredes centenárias guardam com zelo. Entre o brilho das medalhas, o murmúrio das conversas intelectuais e o protocolo da nova diretoria, o tempo parecia ditar um ritmo próprio, compassado e grave. Era 28 de março, e o ambiente estava repleto de amigos, de abraços e daquela euforia contida que enlaça a intelectualidade nos grandes ritos culturais.
Ao meu lado, Magda Belloti. Ela, que empresta à vida a mesma harmonia que dedica ao canto lírico, movia-se com a elegância de quem conhece as nuances das grandes árias. Mas, em um átimo de segundo, algo mudou na partitura do momento. O olhar dela, sempre atento e vívido, buscou um ponto de ancoragem no meio da multidão e não o encontrou.
— Perdi o Jairo... — ela disse, com uma voz que não carregava o peso da tragédia, mas o susto da lacuna.
Aquela frase, solta entre as mesas de guloseimas, os confrades e amigos, suspendeu o mundo por um instante. "Perdi o Jairo". Para quem ouve de fora, a frase pode soar como um lamento, uma despedida definitiva. Mas, no dicionário particular de quem ama, "perder" o outro em um salão lotado é, na verdade, um dos maiores atestados de presença que o coração pode emitir.
O que Magda sentiu naquele breve intervalo não foi o vazio da ausência, mas o "impulso do pertencimento". É um fenômeno curioso: passamos a vida ao lado de alguém, dividindo o café, os silêncios e os planos, e acabamos por acreditar que a presença do outro é uma constante física inabalável, como a gravidade. Até que, de repente, o Jairo não está ali. Ele foi ao banheiro, buscou um copo d’água ou parou para cumprimentar um confrade, e o cenário, antes completo, ganha uma moldura vazia.
Nesse instante, o coração dá um solavanco. É o lembrete de que aquela pessoa não é apenas uma companhia, mas a nota fundamental que dá sentido à melodia. Perder o Jairo, por metros de distância ou cinco minutos de relógio, é perceber que o "eu" se habituou tanto ao "nós" que a individualidade momentânea causa um estranhamento doce. É o susto de descobrir que o nosso centro de gravidade deu um passo para o lado.
Magda, com sua alma de artista, traduziu em palavras o que muitos sentem e poucos confessam. O medo da perda, transmutado em uma busca ansiosa pelos olhos. Não era uma perda real, era a saudade instantânea. Uma saudade de milímetros.
E então, o milagre do reencontro cotidiano aconteceu.
Lá estava ele. Surgindo entre os convidados, alheio ao pequeno drama lírico que sua ausência provocara. O Jairo apontou. Não houve necessidade de trombetas ou de grandes árias. Apenas o gesto simples, o braço erguido, o olhar que reencontra o seu par.
Naquele momento, o "perdi" se dissolveu em um "achei" iluminado. O rosto de Magda se iluminou com uma alegria que não era de alívio por um perigo evitado, mas de celebração por uma presença reafirmada. É nesse "reaparecer" que o amor se renova. Quando o marido retorna ao lado da esposa, ele não traz apenas a si mesmo; ele traz a confirmação de que o porto seguro continua ali, exatamente onde deveria estar.
Essa crônica de um desencontro de minutos na AFL nos ensina algo precioso sobre a essência dos afetos. Muitas vezes precisamos "perder o Jairo" por um instante para lembrar o quanto o Jairo nos preenche. Precisamos da breve ausência para que o retorno tenha o gosto de uma nova conquista.
O amor feliz não é aquele que nunca se perde, mas aquele que se busca com os olhos em cada salão, em cada esquina da vida, com a certeza de que, em algum momento, ele irá apontar de volta.
Que sorte a de Magda, que em meio à beleza da música e das letras, mantém o coração tão afinado a ponto de sentir falta de um abraço mesmo quando ele está apenas a uma porta de distância. E que sorte a do Jairo, que é tão amado a ponto de sua ausência ser notada como se faltasse o ar em uma sala cheia.
No final das contas, a solenidade continuou. Os convidados se deliciaram com as guloseimas da Valéria, os sorrisos ecoaram e a história da Academia ganhou mais uma página. Mas, para mim, a maior lição daquela tarde não estava nos livros ou nos cargos ocupados. Estava naquela frase curta, lírica e profundamente humana: o amor é o eterno exercício de nunca querer perder o outro de vista. Nem por um minuto.
E eu, enquanto continuava a registrar os momentos, tive a prova final dessa entrega. Por uma feliz "ironia" do destino, Jairo provou que jamais se perderia: ele e Magda fizeram questão de nos trazer em casa. Ali, no trajeto seguro de volta, ficou a confirmação de que o amor que cuida de si também transborda para os amigos, garantindo que eu também não perdesse, nem por um minuto, a companhia da minha amada.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
Existe um hiato
temporal e espiritual no calendário cristão, um espaço de dias que suspende a
realidade cotidiana para confrontar a humanidade com suas perguntas mais
incômodas. A Semana Santa um ritual de lembrança histórica, mas ao mesmo tempo:
um mergulho visceral nos abismos da traição, do sofrimento físico e,
paradoxalmente, de uma esperança que insiste em brotar da terra ressequida. Se
a teologia oferece palavras para explicar esses mistérios, a música clássica
oferece algo mais potente: uma ponte sensorial que permite ao ouvinte habitar a
tragédia e, ao mesmo tempo, vislumbrar a eternidade.
A música ocidental,
em sua gênese, é indissociável do sagrado. Mas é nas composições dedicadas à
Paixão que ela atinge seu ápice dramático e expressivo. Compositores de
diferentes séculos não apenas transpuseram o texto evangélico para notas
musicais; eles construíram catedrais sonoras onde o ouvinte pode tocar a
angústia de Cristo no Getsêmani, ouvir o chicote no Pretório e sentir o peso do
silêncio que se segue à última respiração na cruz.
Neste ensaio, não nos limitaremos a analisar fichas técnicas ou contextos históricos superficiais. Propomos uma imersão na essência de três obras-primas que definiram e redefiniram o que significa ouvir a Paixão: a arquitetura divina de Johann Sebastian Bach, o grito existencial de Krzysztof Penderecki e o minimalismo místico de Arvo Pärt. Elas são mais que partituras; são portais para o indizível.
JOHANN SEBASTIAN BACH
Para compreender a
Paixão segundo São João, estreada na Sexta-Feira Santa de 1724 em Leipzig, é
preciso despir-se da ideia de Bach como um mero artesão de música barroca. Bach
era um teólogo-músico. Para ele, a música não era entretenimento, mas Soli Deo
Gloria (Glória somente a Deus).
Sua Paixão segundo
São João é uma obra de arte total. Ela opera em múltiplos planos simultâneos,
como um fractal espiritual. O texto do Evangelho de João, que enfatiza a
soberania e a origem divina de Jesus mesmo em sua humilhação, dita o ritmo
narrativo através do Evangelista. Mas Bach não se contenta com o relato. Ele
insere o ouvinte na cena. Quando o coro (representando a multidão) grita
"Crucifica-o!", a dissonância não é apenas musical; é um ataque à
ordem moral, um caos rítmico que faz o ouvinte tremer em sua poltrona.
A genialidade de Bach
reside na sua capacidade de equilibrar o monumental e o íntimo. O coro de
abertura, “Herr unser Herrscher” (Senhor, nosso Governante), é uma das
introduções mais impactantes de toda a história da música. Imagine o impacto
dessa obra em 1724. O baixo contínuo e as cordas ondulantes criam uma sensação
de maré inevitável, um peso que se acumula. Sobre esse alicerce, os oboés tocam
dissonâncias suspensas que flutuam como sussurros de traição e dor antes mesmo
que a primeira palavra seja cantada. É uma música cósmica, que anuncia que o
que se segue não é um evento local, mas o eixo central do tempo e do espaço.
O texto canta:
“Senhor,
nosso governante, cuja glória é magnífica em toda parte!
Mostra-nos,
por meio da tua paixão, que tu, o verdadeiro Filho de Deus,
foste glorificado em todos os momentos, mesmo na mais humilde das coisas!”
Nesta abertura, Bach já resolve o paradoxo da Paixão: o sofrimento é, simultaneamente, glorificação. A beleza austeras da obra não é um enfeite; é a estrutura que sustenta o ouvinte diante do horror da crucificação. Através dos ariosos e das árias, os solistas fazem pausas na narrativa para meditar individualmente, como se o tempo parasse para que cada alma pudesse processar a tragédia. É uma técnica rebuscada, uma polifonia de vozes e instrumentos (incluindo o arcaico alaúde e a viola da gamba) que cria uma textura de intimidade profunda. A Paixão segundo São João não é ouvida; é vivida como um eterno presente, onde o sacrifício ocorre agora, e a redenção também.
KRZYSZTOF PENDERECKI
Se Bach construiu uma
catedral de ordem e teologia, o compositor polonês Krzysztof Penderecki, em
1966, deparou-se com as ruínas do sagrado. Escrevendo no rescaldo da Segunda
Guerra Mundial e no auge da Guerra Fria, em um contexto de repressão comunista
na Polônia, Penderecki não podia abordar a Paixão com a mesma serenidade de
Bach. Sua Paixão segundo São Lucas é uma resposta visceral ao sofrimento humano
do século XX, projetado no arquétipo do sofrimento de Cristo.
Esta obra é um choque
estético e espiritual. Quase inteiramente atonal, ela rasga os manuais de
harmonia tradicional para encontrar uma linguagem que dê voz ao indizível.
Penderecki utiliza uma orquestra gigantesca e múltiplos coros (mistos e de
meninos) não para criar texturas bonitas, mas para moldar o som como uma força
escultural e dramática.
O impacto emocional é
imediato. Penderecki utiliza técnicas de vanguarda que, na época, foram
revolucionárias. Há o uso de tone clusters (blocos de notas adjacentes tocadas
simultaneamente), técnicas vocais que beiram o grito, sussurros coletivos e uma
orquestração que evoca sons industriais e violência física. Em um momento
crucial, o coro parece mimetizar o canto monótono e gutural dos monges
tibetanos, criando um estranhamento geográfico e temporal que universaliza a
dor.
A Paixão segundo São Lucas é uma remodelagem modernista do modelo bachiano. Temos o narrador (aqui, o próprio Evangelista em um papel falado), vozes solistas e o coro representando a multidão (a turba). Mas tudo é transfigurado. O Cristo, cantado pelo barítono, não é o Rei soberano de João, mas o Homem de Dores de Lucas, frágil e humano.
O coro de abertura
estabelece o tom de desespero e esperança que permeia a obra:
“Ó
Cruz, salve, nossa única esperança
Neste
momento de sofrimento, sua graça aumenta e apaga as acusações.
Fonte de salvação, deixe todas as almas te louvarem.”
Embora a linguagem seja contemporânea e, para alguns, difícil, a simplicidade de sua mensagem dramática é devastadora. É a música que grita diante da crueldade e, no entanto, insiste em buscar um fragmento de graça no caos. O impacto visceral da Paixão de Penderecki não vem de sua complexidade teórica, mas de sua capacidade de traduzir a grandeza e a tragédia da Crucificação em uma linguagem que o homem moderno, habituado ao horror e ao ceticismo, possa compreender.
ARVO PÄRT. Após a
monumentalidade barroca de Bach e o grito atonal de Penderecki, chegamos à
terceira via: o silêncio místico do compositor estoniano Arvo Pärt. Escrevendo
sua Passio Domini Nostri Jesu Christi Secundum Joannem (simplesmente conhecida
como Passio) em 1982, Pärt oferece um refúgio contemplativo ao ouvinte
contemporâneo, saturado de informação e ruído.
Pärt é o arquiteto do
"minimalismo sagrado". Sua técnica, o tintinnabuli (do latim para
"sininhos"), é uma resposta à complexidade e ao caos da música de
vanguarda. É uma música que busca a essência, a pureza da tríade perfeita e a
relação entre cada nota e o silêncio que a cerca. A Passio é uma obra-prima
desse estilo, uma das maiores criações corais do final do século XX.
O que torna a Passio
tão única é sua simplicidade radical. Pärt não busca o drama grandioso ou o
impacto emocional imediato. Pelo contrário, sua música cria uma atmosfera
meditativa, um espaço sagrado onde o ouvinte pode encontrar seu próprio
silêncio interior.
De forma incomum,
Pärt não atribui o papel do Evangelista a um único solista, mas a um quarteto
vocal duplo (soprano, contralto, tenor e baixo) e a um quarteto de instrumentos
(violino, oboé, violoncelo e fagote). Essa instrumentação delicada e
transparente confere à narrativa uma qualidade etérea e despersonalizada, como
se o Evangelho fosse contado pelo próprio vento. Cristo é um baixo; Pilatos, um
tenor. O coro e o órgão são usados com sobriedade, muitas vezes representando a
"turba", mas com uma contenção que contrasta dramaticamente com as
multidões ensandecidas de Bach ou Penderecki.
A obra começa com o Exórdio, uma introdução coral breve e marcante em Lá menor, que estabelece a tonalidade sobre a qual toda a peça se baseia. A partir daí, a Passio segue uma composição direta e sóbria da narrativa latina do Evangelho de João, sem acréscimos, comentários ou omissões poéticas. É o puro Verbo revestido de som.
A peça caminha
inexoravelmente para a morte de Cristo. E então, o milagre musical acontece. A
obra termina imediatamente após a última respiração de Jesus. Mas em vez de
cair na escuridão, Pärt compõe a Conclusão na tonalidade de Ré maior. É um tom
resplandecente, não um triunfo barulhento, mas uma luz mansa e constante que
emerge do silêncio. As palavras finais e o "Amém" causam um impacto
poderosamente direto:
“Vós que sofrestes
por nós, tende piedade de nós. Amém.”
A Passio de Pärt não
é uma peça de concerto; é uma experiência de oração. Ela prova que, no vácuo de
um mundo ruidoso, a música mais impactante pode ser aquela que nos ensina a
ouvir o sagrado que habita no silêncio.
A Semana Santa sob o
despertar da música clássica não é um convite à nostalgia religiosa ou à
admiração estética passiva. É uma provocação. As obras de Bach, Penderecki e
Pärt, cada uma em sua linguagem única, nos confrontam com as mesmas perguntas
que ecoam há dois milênios: como lidar com a dor? Onde está o sagrado em um
mundo profano? Há esperança após o silêncio final?
Essas Paixões sonoras
nos oferecem uma oportunidade rara: a de suspender nossas certezas e nos
deixarmos levar por uma jornada sensorial que vai do horror à redenção. Elas
nos mostram que a Semana Santa é mais que uma data no calendário; é um estado
de espírito que a música clássica tem o poder, único e misterioso, de despertar
dentro de nós.
Ao ouvir essas obras,
não estamos apenas testemunhando a história da Paixão de Cristo. Estamos, de
certa forma, participando dela. Estamos confrontando nossas próprias fraquezas,
nossas próprias dores e, quem sabe, redescobrindo que a beleza e a esperança
podem, sim, brotar da escuridão mais profunda. Que a escuta dessas obras seja,
portanto, um ato de coragem, uma imersão na arquitetura da alma humana em sua
busca incessante pelo eterno.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
Paixão
segundo São João – Bach o Coro e Orquestra da Fundação J.S. Bach, Rudolf Lutz
(2022)
Tradução: BOA SEMANA SANTA
semana de silêncio,
semana de escuta,
semana de recolhimento,
semana de meditação,
semana de adoração,
semana de arrependimento,
semana de reparação...
Que seja para ti uma passagem
das trevas para a luz,
do ódio para o amor,
da tristeza para a alegria,
da Cruz para a glória,
da morte para a vida.
Boa Semana Santa a ti, que tens
um grande valor aos olhos de Deus.
Reflexão: O Caminho da Transformação
A Semana Santa não é apenas uma data no calendário, mas um convite para uma jornada interior. É o momento de silenciar o barulho do mundo para conseguir ouvir a voz que fala ao coração. Nestes dias, somos chamados ao recolhimento e à meditação, não como um isolamento triste, mas como um preparo para algo maior.
O objetivo dessa caminhada é a Páscoa, que significa "passagem". É o desejo de que cada um de nós consiga deixar para trás as sombras da mágoa e caminhar em direção à luz do perdão. Que possamos trocar o peso da tristeza pelo fôlego da alegria renovada.
Mesmo diante das nossas "cruzes" diárias, a mensagem final é de esperança: a dor não tem a última palavra, a vida sim. Lembre-se sempre de que você não é apenas mais um na multidão; para o Criador, você possui um valor imensurável. Que esta semana seja o degrau para a sua melhor versão.