PARTE
1
Em
1827, Franz Schubert, já debilitado pela doença e consciente da proximidade da
morte, encontrou nos poemas de Wilhelm Müller um espelho de sua própria
condição existencial. Müller havia publicado inicialmente doze textos sob o
título Winterreise em uma revista literária. Schubert, fascinado pela atmosfera
sombria e introspectiva, musicou-os em fevereiro daquele ano. Mais tarde, ao
ter acesso ao livro 77 poemas encontrados nos papéis póstumos de um trompista
ambulante, descobriu que o ciclo era composto de 24 poemas. Assim, em outubro
de 1827, completou a segunda metade da obra, criando um dos monumentos mais
intensos da literatura musical ocidental.
O
ciclo se tornou uma espécie de confissão artística. Diferente de Die Schöne
Müllerin (1823), em que o protagonista é um jovem apaixonado que se afoga em
desespero amoroso, Winterreise é marcado por uma atmosfera de despedida e pela
consciência da finitude. O pianista e estudioso Graham Johnson observa que,
para Schubert, o maior temor não era a morte em si, mas a possibilidade de
perder a capacidade de compor. A ideia de um mundo sem música era, para ele, a
mais trágica das perspectivas.
Estrutura
e atmosfera
O
protagonista do ciclo é um viajante solitário que, após ser abandonado pela
amada, parte em meio à noite. A narrativa não se desenvolve de forma linear,
mas como uma sequência de vinhetas emocionais, flashes de memória e estados de
espírito. A viagem é tanto física quanto interior: uma peregrinação pela dor,
pela nostalgia e pela alienação. O piano e a voz se entrelaçam em uma economia
de meios impressionante. Cada nota é necessária, cada gesto musical é carregado
de sentido. Não há ornamentos supérfluos; Schubert constrói um universo inteiro
com recursos mínimos, mas de impacto devastador.
A
primeira parte do ciclo, composta pelas canções 1 a 12, revela o processo de
transformação do viajante em andarilho errante. Ele oscila entre ternura,
raiva, melancolia e delírio. A música traduz estados psicológicos extremos, sem
nunca recorrer ao excesso. É uma síntese magistral de poesia e som.
AS
CANÇÕES DA PARTE 1
1.
Gute Nacht (Boa noite)
O
ciclo se abre com uma marcha contida. O viajante parte silenciosamente, sem
querer perturbar os sonhos da amada. Há ternura e resignação, mas também a
consciência de que o caminho é inevitável. O motivo repetitivo no piano sugere
o passo firme de quem caminha na escuridão. É uma despedida impregnada de
bondade, característica essencial da música de Schubert.
2.
Die Wetterfahne (O catavento)
Aqui
surge a amargura. O catavento simboliza a instabilidade e a superficialidade da
família da moça, que busca um partido mais vantajoso. A tonalidade menor
intensifica a raiva. É uma canção dramática, quase sarcástica, em que o vento
parece zombar do viajante.
3.
Gefror’ne Tränen (Lágrimas congeladas)
A
raiva dá lugar à tristeza pura. O viajante percebe que suas lágrimas se
transformam em gelo no rosto. O piano imita gotas que caem e se cristalizam. É
um momento de introspecção silenciosa, em que a dor se torna física.
4.
Erstarrung (Solidificação)
O
coração congelado guarda a imagem da amada. O texto sugere que, se o gelo
derreter, a lembrança também desaparecerá. A música é agitada, quase febril,
como se o viajante lutasse contra a própria imobilidade interior.
5.
Der Lindenbaum (A tília)
Talvez
a mais célebre canção do ciclo. Um flashback em Mi maior evoca a árvore sob a
qual o protagonista costumava descansar. O vento frio, porém, o traz de volta
ao presente, e a tonalidade menor reaparece com força dramática. É uma canção
de lembrança e perda, em que a natureza se torna testemunha da dor.
6.
Wasserflut (Inundação)
A
neve e as lágrimas se confundem. O viajante pede que a corrente siga o fluxo de
sua saudade. O piano cria uma atmosfera líquida, fluida, que sugere tanto o
movimento da água quanto o desespero interior.
7.
Auf dem Flusse (Sobre o rio)
O
ritmo de marcha aqui é lento, quase fúnebre. O protagonista grava no gelo o
nome da amada, como se quisesse eternizar sua dor. O Trio em Mi maior surge
como lembrança do passado, mas logo se dissolve na frieza do presente.
8.
Rückblick (Olhar para trás)
A
fuga da cena da humilhação é descrita em ritmo desenfreado. A desorientação é
reforçada pelo contraste entre o compasso da voz e o do piano. É uma canção de
turbulência emocional, marcada pela confusão.
9.
Irrlicht (Fogo fátuo)
Em
Si menor, tonalidade associada por Schubert à solidão e ao desespero, o
viajante segue uma luz enganadora. A última palavra do poema, Grab (túmulo),
sugere que a caverna é metáfora da morte. A música é fantasmagórica, como um delírio.
10.
Rast (Repouso)
Apesar
do título, não há repouso verdadeiro. O ritmo de marcha persiste, mas esvaziado
de energia. O paradoxo é revelador: a viagem é interior, e o protagonista
permanece inquieto mesmo quando tenta descansar. A música sugere que não há
pausa possível para quem carrega tamanha dor.
11.
Frühlingstraum (Sonho de Primavera)
Uma
valsinha inocente abre a canção, evocando flores e abraços em sonho. Mas o
despertar é cruel: o frio, a escuridão e o canto dos galos interrompem a
ilusão. O piano em registro agudo cria uma atmosfera de sonho desbotado, quase
alucinatório. O viajante deseja a primavera, mas sabe que ela não virá.
12.
Einsamkeit (Solidão)
Encerrando
a primeira parte, o protagonista se vê completamente isolado. A música é lenta,
pesada, marcada por um sentimento de abandono absoluto. É o ponto em que a
viagem se torna irreversível: não há retorno, apenas o caminho adiante.
Considerações
finais
A
primeira metade de Winterreise é um mergulho na psique de um homem devastado.
Schubert, consciente de sua própria fragilidade, transforma dor pessoal em arte
universal. Cada canção é uma janela para um estado emocional distinto, mas
todas se unem em um arco narrativo de rara intensidade. O viajante não é apenas
um personagem: é o próprio Schubert, é Müller, é qualquer ser humano que já
enfrentou a perda e a solidão.
O
ciclo não busca consolo. Ao contrário, expõe a ferida aberta e a transforma em
música. É por isso que Winterreise continua a nos tocar profundamente: porque
fala daquilo que é mais humano, a consciência da finitude e o desejo de
encontrar sentido mesmo na escuridão.
Schubert
– Winterreise (Viagem de Inverno): Parte 2
Se
a primeira metade de Winterreise já nos coloca diante de um viajante marcado
pela dor e pela solidão, a segunda parte aprofunda ainda mais esse mergulho na
escuridão. Aqui, não há mais espaço para ilusões de retorno ou reconciliação. O
protagonista se torna um andarilho errante, cada vez mais afastado da vida
social, caminhando em direção a um destino que parece ser a morte.
Schubert
compôs esta segunda parte em outubro de 1827, poucos meses antes de sua morte.
É como se estivesse escrevendo sua própria despedida. A música se torna mais
rarefeita, mais austera, e o piano assume um papel quase espectral, criando atmosferas
de vazio e desolação.
AS CANÇÕES DA PARTE 2
13.
Die Post (O correio)
O
som do correio desperta esperança: talvez uma carta da amada? Mas a expectativa
logo se desfaz. O ritmo animado contrasta com a realidade amarga. É um momento
de ilusão breve, que se dissolve em frustração.
14.
Der greise Kopf (A cabeça grisalha)
O
viajante percebe que a neve em seus cabelos o faz parecer velho. Por um
instante, sente que a morte está próxima, mas logo a neve derrete e ele volta a
ser jovem. A oscilação entre esperança e desespero é cruel. A música é lenta,
pesada, marcada por resignação.
15.
Die Krähe (A gralha)
Uma
gralha o acompanha desde que deixou a cidade. O pássaro é visto como presságio
de morte, talvez esperando pelo cadáver. O piano imita o voo circular da ave. É
uma canção de inquietação, em que o viajante se vê perseguido pela própria
mortalidade.
16.
Letzte Hoffnung (Última esperança)
O
protagonista observa as folhas caindo de uma árvore. Cada folha que cai é uma
esperança perdida. O piano cria um ambiente de suspensão, como se cada acorde
fosse uma folha que se desprende lentamente. A metáfora da natureza reforça a
sensação de fim inevitável.
17.
Im Dorfe (Na aldeia)
Enquanto
os aldeões dormem, o viajante continua sua jornada. O contraste entre o
descanso dos outros e sua própria vigília é doloroso. O piano sugere o som dos
cães que latem e das correntes que se agitam. É uma canção de exclusão: ele não
pertence mais ao mundo dos vivos.
18.
Der stürmische Morgen (Manhã tempestuosa)
Breve
e explosiva, esta canção retrata o amanhecer turbulento. O vento e as nuvens
são metáforas da tormenta interior. O piano é agitado, quase violento,
refletindo o estado emocional do protagonista.
19.
Täuschung (Ilusão)
Uma
luz distante parece prometer calor e acolhimento. Mas é apenas engano. O
viajante reconhece que está sendo iludido, mas mesmo assim segue a luz. A
música é mais leve, quase dançante, mas carrega ironia amarga.
20.
Der Wegweiser (O guia de caminhos)
O
protagonista encontra uma placa indicando caminhos. Ele escolhe sempre o mais
solitário, o que ninguém percorre. É uma metáfora clara de sua decisão de se
afastar definitivamente da vida social. O piano cria uma atmosfera de
resignação e inevitabilidade.
21.
Das Wirtshaus (A estalagem)
O
viajante chega a uma estalagem, mas percebe que é um cemitério. Os portões
convidativos são, na verdade, túmulos. Ele deseja descansar ali, mas não é
aceito. A música é lenta, quase um coral fúnebre, reforçando a ideia de
exclusão até mesmo da morte.
22.
Mut! (Coragem!)
Um
momento surpreendente: o viajante tenta se animar, cantarolando com energia.
Mas é uma coragem artificial, quase desesperada. O piano é vigoroso, mas
sabemos que é apenas uma máscara. A vitalidade aqui é ilusória, como um último
lampejo antes da escuridão.
23.
Die Nebensonnen (Os sóis ilusórios)
O
viajante vê três sóis no céu. Dois desaparecem, restando apenas um. Ele
interpreta como metáfora de sua vida: perdeu duas alegrias, resta apenas a dor.
A música é lenta, contemplativa, marcada por estranheza. É uma visão
alucinatória, quase mística.
24.
Der Leiermann (O tocador de realejo)
O
ciclo termina com uma imagem desoladora: um velho músico de rua, tocando seu
realejo sem que ninguém o escute. O viajante se aproxima e pergunta se pode
acompanhá-lo. O piano imita o som repetitivo do instrumento, criando uma
atmosfera hipnótica. Não há resolução, apenas o vazio. É o fim da jornada, mas
não há descanso: apenas a companhia da morte e da solidão.
Considerações
finais
A
segunda parte de Winterreise é ainda mais radical que a primeira. Se antes
havia lembranças e sonhos, agora resta apenas o confronto com a morte e a exclusão
definitiva. O protagonista não encontra consolo, nem na natureza, nem nas
pessoas, nem na própria morte.
Schubert
transforma essa desesperança em arte sublime. O ciclo inteiro é uma meditação
sobre a finitude, mas também sobre a capacidade da música de dar forma ao
indizível. Winterreise não oferece respostas, apenas nos coloca diante do
abismo. E é justamente por isso que continua a nos fascinar: porque fala
daquilo que todos, em algum momento, terão de enfrentar.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
Referências Bibliográficas
MÜLLER, Wilhelm. Winterreise: Ein Zyklus von Liedern. In: ______. 77 Gedichte aus den hinterlassenen Papieren eines reisenden Waldhornisten. Leipzig: Brockhaus, 1824–1827.
SCHUBERT, Franz. Winterreise, Op. 89, D. 911. Viena: 1827. Partitura.
JOHNSON, Graham. Franz Schubert: The Complete Songs. New Haven: Yale University Press, 2014.
YOUENS, Susan. Retracing a Winter’s Journey: Schubert’s Winterreise. Ithaca: Cornell University Press, 1991.
SCHAEFFER, Erwin. Schubert’s Winterreise. The Musical Quarterly, v. 34, n. 2, p. 151–168, 1948. Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/739292>.
WIKIPÉDIA. Winterreise. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Winterreise (pt.wikipedia.org in Bing). Acesso em: 9 mar. 2026.
P.Q.P. BACH. Franz Schubert (1797-1828): Winterreise (Mammel / Schoonderwoerd). Blog PQP Bach, 2022. Disponível em: https://pqpbach.sul21.com.br/ (pqpbach.sul21.com.br in Bing). Acesso em: 9 mar. 2026.
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