Hoje,
13 de junho de 2026, a cristandade volta seus olhos para uma marca histórica de
profunda espiritualidade: completam-se 795 anos do trânsito de Santo Antônio
para a eternidade. Mais do que um intercessor popular, ele é um gigante da fé
cuja voz, mesmo após quase oito séculos, continua a ecoar com a força de um "Doutor
Evangélico".
A
história deste santo universal começa em Lisboa, no dia 13 de setembro de 1191.
Nascido Fernando de Bulhões, em uma família de linhagem ilustre, seu berço era
um convite ao conforto e ao status. Contudo, desde cedo, o jovem Fernando
sentiu o chamado para algo que o mundo material não poderia oferecer. Aos 15
anos, renunciou às conveniências sociais para ingressar na Ordem dos Cônegos
Regulares de Santo Agostinho.
Sua
busca pela contemplação pura o levou ao Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra,
centro de saber e fervor religioso na época. Foi ali que, entre a filosofia e a
teologia, sua alma foi moldada pela Sagrada Escritura, preparando-o para a
missão que, ele ainda não sabia, transformaria o curso da história da Igreja.
O
destino de Fernando mudou drasticamente com a chegada das relíquias dos
primeiros mártires franciscanos, que haviam tombado em Marrocos. Ao contemplar
o sacrifício daqueles homens, algo despertou no coração de Fernando: o desejo
ardente de entregar a vida por Cristo.
Em
1220, o cônego agostiniano tomou uma decisão radical: ingressou na Ordem dos
Frades Menores, adotando o nome de Antônio, em homenagem ao padroeiro da capela
onde os mártires haviam sido velados. Partiu para a África, mas a Providência
Divina tinha outros planos. Uma grave enfermidade o forçou a retornar, e os
ventos, soprando de forma misteriosa, desviaram seu navio para as costas da
Itália.
Após
um encontro providencial com São Francisco de Assis no Capítulo Geral de 1221,
Antônio revelou-se ao mundo não apenas como um frade humilde, mas como um
orador de brilho arrebatador. Sua estreia em Forlì, onde pregou quase por
acaso, deixou os teólogos presentes em um estado de assombro: onde estava um
homem de tamanha sabedoria?
Daquele
momento em diante, ele se tornou a voz da ortodoxia contra as heresias que
assolavam o norte da Itália e o sul da França. Sua pregação era um fogo que
consumia as dúvidas; seu conhecimento das Escrituras era tão profundo que ele
se tornou conhecido como o "Martelo dos Hereges". Fatos lendários,
como a pregação aos peixes em Rimini, quando os homens se recusaram a ouvi-lo,
demonstram a autoridade que o Espírito Santo conferia à sua palavra: se o homem
não escutava, a criação de Deus inclinava-se diante da Verdade.
Santo
Antônio foi o primeiro mestre de teologia da Ordem Franciscana, nomeado
diretamente por São Francisco. No entanto, ele nunca permitiu que o saber
acadêmico fosse um muro entre ele e o povo. Em seu apostolado, ele uniu a
profundidade doutrinária à caridade prática.
Foi
durante seus anos de pregação incessante, especialmente na quaresma, que ele se
tornou um defensor dos pobres, dos oprimidos e das famílias. A tradição de
"santo casamenteiro" nasceu de sua compaixão profunda por jovens que,
sem recursos para o dote, eram impedidas de realizar o sacramento do
matrimônio. Antônio não apenas pregava a caridade; ele a exercia, encontrando
meios de dignificar a vida de quem estava à margem.
Os
últimos anos de sua vida, passados em Camposampiero e, finalmente, em Arcella,
perto de Pádua, foram marcados por um desgaste físico acentuado. A hidropisia
consumia seu corpo, mas seu espírito ardia em devoção. Foi ali, escrevendo
sermões de uma beleza teológica ímpar, que ele preparou seu último retorno.
Na
sexta-feira, 13 de junho de 1231, com apenas 36 anos, Santo Antônio entregou
sua alma a Deus. O luto foi coletivo, e os milagres, incontáveis, começaram a
ocorrer antes mesmo de seu sepultamento. O povo de Pádua clamava: "O santo
morreu!". O reconhecimento de sua santidade foi tão evidente que o Papa
Gregório IX o canonizou em tempo recorde, apenas onze meses após sua morte.
Um
dos sinais mais fascinantes da santidade de Antônio veio à luz em 1263, durante
a exumação de seu corpo, na presença de São Boaventura. Enquanto tudo era pó,
sua língua permanecia intacta, corada e fresca, como se ainda estivesse pronta
para proclamar as maravilhas de Deus. Aquele órgão, que havia combatido o erro
e anunciado a paz, tornava-se o símbolo eterno de sua missão.
Em
1946, a Igreja consolidou sua importância ao proclamá-lo Doutor da Igreja com o
título de Doctor Evangelicus (Doutor Evangélico), reconhecendo que seus
escritos e sua vida são pilares fundamentais da fé cristã.
Ao
celebrarmos 795 anos de sua partida para o Céu, Santo Antônio não é apenas um
nome do passado. Ele continua presente:
Na
proteção dos que buscam o que foi perdido: Não apenas objetos, mas a esperança,
a fé e o sentido da vida.
Na
intercessão pelo amor: Como o santo que abençoa as famílias e os corações que
desejam o matrimônio.
Na
inspiração intelectual e espiritual: Como um modelo de quem uniu, com
perfeição, a inteligência da mente com o fervor do coração.
Santo
Antônio de Lisboa e de Pádua, o "santo do mundo todo", permanece como
um farol. Que, neste aniversário de quase oito séculos de sua páscoa, possamos
reencontrar em seus ensinamentos a coragem de ser, como ele, uma voz viva do
Evangelho nos tempos atuais.
SOBRE
A PINTURA
O
POLÍPTICO DE SANTO ANTÓNIO é um conjunto de nove pinturas a óleo sobre madeira
pintadas cerca de 1460-70 pelo pintor italiano do Quattrocento Piero della
Francesca que constituía supostamente o elemento central do Retábulo da Igreja
de S. António de Perúgia, desconhecida no presente e que se encontra atualmente
na Galeria Nacional da Úmbria nesta mesma cidade.
A
obra foi iniciada pouco depois do regresso de Piero della Francesca de Roma,
cerca de 1460, e completada cerca de 1470. O único registro documental relativo
à encomenda da obra consta da última parcela do pagamento a Marco, irmão de
Piero, que agia frequentemente como agente deste, de 15 fiorini em 21 de junho
de 1468.
Tal
como o Políptico da Misericórdia, é uma obra de composição arcaica, certamente
a pedido dos clientes, com as figuras principais pintadas sobre um precioso
fundo de ouro com um motivo que imita tecidos finos talvez inspirado em modelos
ibéricos que o pintor possa ter visto durante a sua estada em Roma.
Decididamente
inovadora e típica do estilo do artista é a Anunciação, a parte superior do
Políptico, situada num claustro luminoso cuja visão ilusionista é considerada
entre as expressões máximas de perspectiva da arte do Renascimento.
A
ESTRUTURA ORIGINAL É DIVIDIDA EM TRÊS NÍVEIS PRINCIPAIS:
Registro
Central: Apresenta a Virgem com o Menino Jesus, rodeada por São João Baptista e
os santos franciscanos: Santo António de Pádua, São Francisco de Assis e Santa
Isabel da Turíngia.
Registro
Superior (Cimasa): Destaca-se pelo uso magistral da perspetiva linear,
retratando a Anunciação num pórtico clássico.
Predella
e Painéis Inferiores: Contém pequenas cenas noturnas detalhadas, como Os
Estigmas de São Francisco e os milagres dos santos, exibindo um virtuosismo no
uso da luz.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural