domingo, 5 de abril de 2026

18 - A DIALÉTICA DO RECOMEÇO: UMA ODISSEIA DA CRUZ À RESSURREIÇÃO - ENSAIO ACADÊMICO-LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

A frase "Ele vive! A cruz não foi o fim. Foi o recomeço" carrega em si a síntese de uma das transições metafísicas mais potentes da história da humanidade. No contexto cultural e literário, a Páscoa não se encerra no rito; ela se manifesta como a narrativa definitiva sobre a resiliência do espírito. 

Historicamente, a cruz era o símbolo máximo do silenciamento e da finitude. Na literatura clássica e no imaginário antigo, o herói que sucumbia ao martírio encerrava ali sua jornada. No entanto, a perspectiva pascal subverte essa lógica. A madeira da cruz deixa de ser um "ponto final" para tornar-se uma elipse, uma pausa necessária para que o sentido da existência ganhe uma nova profundidade. Culturalmente, isso moldou a mentalidade ocidental para compreender que a dor não é um estado permanente, mas um processo de purificação.

Dizer que "Ele vive" ultrapassa a barreira do tempo cronológico (chros) e adentra o tempo das oportunidades (kairos). Na literatura, esse "viver" ressoa como o mito da fênix: a vida que não apenas retorna, mas que retorna transfigurada, mais forte e portadora de um novo pacto com a realidade. O "recomeço" citado na frase é a celebração do inalcançável: a ideia de que a morte, em suas várias formas, como o fracasso, a perda ou a desilusão é incapaz de deter a força da renovação.

A imagem que contempla a cruz vazia sob uma luz crepuscular, adornada pela frase "Ele vive! A cruz não foi o fim. Foi o recomeço", não é apenas um registro de fé, mas a síntese de um dos arquétipos mais resilientes da história da civilização ocidental. Ao celebrarmos a Páscoa, somos convidados a mergulhar em uma narrativa que desafia a lógica da finitude e subverte o conceito de tragédia. No cenário da cultura e da literatura, a transição do martírio para a vida nova representa a vitória do sentido sobre o absurdo, um tema que ecoa desde as escrituras sagradas até as mais complexas reflexões filosóficas contemporâneas.


Para compreendermos a profundidade dessa "não-finitude", é preciso olhar para a cruz como um símbolo cultural. Historicamente, o patíbulo romano era o ponto final absoluto, o selo do silenciamento. No entanto, a poética pascal transforma esse instrumento de dor em um ponto de inflexão. Como bem explorou Joseph Campbell em sua obra seminal O Herói de Mil Faces, a jornada do herói exige uma descida ao abismo, uma "morte" simbólica no ventre da baleia ou no topo de uma montanha de sacrifício. Para Campbell, esse estágio é fundamental para que o indivíduo retorne transfigurado. A cruz, portanto, não é o encerramento da biografia de Cristo, mas o "limiar" necessário para que a humanidade acesse uma nova dimensão de existência. A cruz foi o meio, o recomeço foi o fim último.

 

Essa ideia de que o sofrimento não é um beco sem saída encontra um eco poderoso na psicologia existencial de Viktor Frankl. Em Em Busca de Sentido, Frankl argumenta que o ser humano é capaz de suportar qualquer "cruz" desde que vislumbre um propósito que ultrapasse a dor imediata. Quando a imagem afirma que "Ele vive", ela oferece ao observador um fundamento para a esperança: a prova de que a vida possui uma última palavra que não é o túmulo. Na perspectiva de Frankl, a ressurreição pode ser lida culturalmente como o triunfo do espírito sobre a biologia; é a capacidade humana de dizer "sim" à vida, apesar de tudo.

 

Na literatura russa, Fiódor Dostoiévski utilizou a metáfora do grão de trigo em Os Irmãos Karamázov para ilustrar essa mesma tensão. A frase "a cruz não foi o fim" ressoa com a epígrafe do romance: se o grão não cai na terra e morre, ele permanece só, mas se morre, produz muito fruto. Aqui, o recomeço é condicionado ao sacrifício. Não há Páscoa sem Sexta-feira Santa. Culturalmente, essa lição nos ensina que os períodos de "morte", sejam eles crises pessoais, sociais ou institucionais, são, muitas vezes, o terreno fértil para uma renovação que jamais ocorreria em condições de estagnação.

 

Além disso, a temporalidade da Páscoa nos remete à obra de T.S. Eliot, especialmente em seus Quatro Quartetos. Eliot reflete sobre a interseção entre o tempo cronológico e o tempo eterno, afirmando que "no meu fim está o meu começo". A imagem da cruz com o pano branco ao vento simboliza exatamente essa ruptura do tempo linear. O "recomeço" mencionado não é uma volta ao passado, mas a inauguração de um novo tempo (kairos), onde a morte é despojada de seu aguilhão. Para a cultura ocidental, essa noção moldou a ideia de progresso e regeneração: a crença de que é possível reconstruir sobre as ruínas, de que o amanhã não é apenas uma repetição do hoje, mas uma possibilidade de transcendência.

 

Dizer que "Ele vive" é afirmar que os valores do amor, da fraternidade e da entrega são indestrutíveis. A cruz foi a tentativa do sistema de encerrar uma mensagem; o recomeço foi a explosão dessa mensagem para além das fronteiras da Judeia, alcançando a universalidade.

Essa mensagem reverbera na arte, na poesia e na filosofia como o fundamento da esperança. A Páscoa nos ensina que o amanhecer só é possível porque houve uma noite; que o recomeço só tem valor porque houve a coragem de enfrentar o fim. Ao celebrarmos o "Ele vive", celebramos a nossa própria capacidade humana de se reinventar após o caos. 

"A ressurreição é o protesto da vida contra a fatalidade; é a afirmação de que a última palavra nunca pertence ao túmulo, mas ao fôlego que insiste em recomeçar."

Neste sentido, a Páscoa deixa de ser um evento estático no calendário para se tornar um estado de espírito: a constante transição da cruz para a luz, do encerramento para a eterna possibilidade de ser novo, outra vez.

 

Em suma, a frase que acompanha a imagem da cruz banhada pelo sol é um convite à reflexão sobre a resiliência. Ela nos lembra de que, literária e filosoficamente, somos seres feitos para o recomeço. A Páscoa, despida de seus adornos comerciais, permanece como o grande monumento à esperança. Ela nos ensina que a luz que atravessa os braços da madeira no topo do monte não é um clarão passageiro, mas o sinal de que toda ferida pode se tornar uma cicatriz de vitória. "Ele vive" é, acima de tudo, o grito de liberdade de uma humanidade que se recusa a aceitar o fim como destino, celebrando a eterna e gloriosa oportunidade de começar de novo.

TRÊS PILARES DESSE SIGNIFICADO

1. A Morte como Metamorfose

A cruz vazia e o pano ao vento simbolizam que o sofrimento não foi um "ponto final", mas uma "vírgula". Na literatura e na vida, isso significa que momentos de crise e dor são, na verdade, processos de transformação. Para algo novo nascer (o recomeço), algo antigo precisa ser deixado para trás (a cruz).

2. A Esperança como Força Ativa

Dizer "Ele vive" é uma afirmação cultural de que o amor, a justiça e a vida são invencíveis. Não é apenas um dogma religioso; é a crença de que, não importa quão escura seja a noite ou quão pesado seja o fardo, existe uma força interna (e divina) capaz de restaurar a alegria e o propósito.

3. O Convite ao Recomeço Humano

O ensaio e as referências bibliográficas (como Frankl e Campbell) mostram que essa história é a nossa história. A Páscoa significa que nenhum ser humano está condenado ao seu pior momento. Sempre há a possibilidade de "ressuscitar" projetos, sonhos e relações que pareciam perdidos.

Em uma frase: Significa que o fim é apenas o cenário necessário para que o novo capítulo comece com mais luz e força.

Feliz Páscoa! Que essa ideia de recomeço saia do papel e se torne realidade na sua caminhada.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Tradução de Adail Sobral. 1. ed. São Paulo: Pensamento, 1990.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2008.

ELIOT, Thomas Stearns. Quatro Quartetos. Tradução de Ivan Junqueira. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 45. ed. Petrópolis: Vozes, 2018.

 

1. O ARQUÉTIPO DA RENOVAÇÃO

Referência: CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces.

Relação: Campbell discute o ciclo do "monomito", onde o herói precisa passar por uma "morte" (simbólica ou real) para renascer transformado. A frase "a cruz não foi o fim" é a representação máxima dessa etapa do herói, onde o sacrifício é o preço pago para a obtenção de uma nova vida que beneficiará a coletividade.

2. A Esperança contra o Absurdo

Referência: FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido.

Relação: O psiquiatra e sobrevivente do holocausto argumenta que o homem pode suportar qualquer "como" se tiver um "porquê". A ideia de que "Ele vive" funciona como o sentido último que permite ao indivíduo encarar a sua própria "cruz" (o sofrimento) não como um desfecho trágico, mas como um terreno para um recomeço existencial.

3. A Poética do Instante e do Eterno

Referência: ELIOT, T.S. Quatro Quartetos.

Relação: Eliot explora a interseção do tempo com o eterno. No poema, ele sugere que "no meu fim está o meu começo". Esta é a exata dialética da imagem: a cruz, que deveria ser o selo da morte, torna-se o portal para a vida eterna. É o fim do tempo linear para o início do tempo espiritual. 

4. A Metáfora da Semente

Referência: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov (Epígrafe de João 12:24).

Relação: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto". Dostoiévski utiliza essa base para construir sua narrativa sobre redenção. A cruz na imagem é o "grão que cai na terra", e o "Ele vive" é o fruto que nasce desse processo de morte necessária.


Resumo da Conexão Bibliográfica

Autor

Obra

Conceito Chave

Relação com a Frase

Joseph Campbell

O Herói de Mil Faces

Ciclo de Morte e Renascimento

A cruz como a descida necessária para o retorno glorioso.

Viktor Frankl

Em Busca de Sentido

O Sentido no Sofrimento

O recomeço como a descoberta de um propósito maior.

T.S. Eliot

Quatro Quartetos

Interseção Fim/Início

A negação da finitude através do sagrado.

Dostoiévski

Os Irmãos Karamázov

A Semente que Morre

O sacrifício como pré-requisito para a abundância da vida.

 

NOTAS DE APLICAÇÃO METODOLÓGICA

 

No corpo do ensaio, essas referências foram articuladas da seguinte forma:

Simbologia do Sacrifício (Campbell): Utilizada para validar o movimento de descida e ascensão do herói, conectando a cruz ao "limiar" da jornada.

Logoterapia e Existencialismo (Frankl): Aplicada para justificar o "sentido" que transforma o sofrimento da cruz em um motor para o recomeço

Metáfora do Grão de Trigo (Dostoiévski): Empregada como suporte literário para a necessidade da morte simbólica como pré-requisito da vida nova

Temporalidade Poética (Eliot): Utilizada para explicar a natureza cíclica e eterna do "recomeço" em oposição ao tempo linear.



sábado, 4 de abril de 2026

SOLENIDADE DE POSSE DA DIRETORIA DA ACADEMIA NITEROIENSE DE LETRAS-GESTÃO 2025-2027 – PRESIDENTE NAGIB SLAIBI FILHO

 


(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)

17 - O TRIUNFO DA FORMA E DO ESPÍRITO - A RESSURREIÇÃO SOB O OLHAR DE RAFAEL - ENSAIO DE © ALBERTO ARAÚJO

 

A Páscoa, em sua essência, é a celebração da transcendência. Para além do rito religioso, ela marca o ponto de inflexão onde a finitude humana encontra a promessa da eternidade. É o simbolismo da vitória da luz sobre as trevas, um tema que, ao longo dos séculos, desafiou os maiores gênios da arte a traduzir o metafísico em imagem. Entre essas tentativas, destaca-se a "Ressurreição de Cristo", 1499-1502, de Rafael Sanzio, obra que não apenas ilustra o dogma cristão, mas define a harmonia estética do Alto Renascimento. 

Atualmente pertencente ao acervo do MASP, esta pintura é um testemunho da genialidade precoce de Rafael. Nascido em Urbino em 1483, o artista capturou nesta tábua de óleo a transição entre a rigidez medieval e a fluidez clássica. No centro da composição, Cristo surge triunfante sobre um sarcófago, portando a bandeira que simboliza a vitória sobre a morte, o fundamento central da fé cristã. A figura central de Jesus, envolta em uma serenidade quase geométrica, contrasta com o dinamismo e a confusão dos soldados romanos ao redor, uma metáfora visual do divino que interrompe a ordem terrena. 

Do ponto de vista técnico e histórico, a obra (inv. MASP.00017) é um tesouro nacional. Medindo 56,5 x 47 cm, a pintura demonstra a precisão de Rafael no uso da perspectiva e da luz. Sua chegada ao Brasil em 1958, por meio de uma doação coletiva liderada por figuras como Walther Moreira Salles e os Diários e Emissoras Associados, reforça o compromisso do país com a preservação da memória artística universal. 

Portanto, observar a "Ressurreição" de Rafael durante a Páscoa é realizar um exercício duplo: é reconhecer o triunfo da vida sobre a morte e, simultaneamente, o triunfo do engenho humano sobre o tempo. Através do pincel de Rafael, o evento da Páscoa deixa de ser apenas um relato textual para se tornar uma experiência visual eterna, onde a beleza da forma serve de ponte para a compreensão do sagrado. 

DADOS DA OBRA PARA REFERÊNCIA:

Título: Ressurreição de Cristo

Técnica: Óleo sobre madeira

Dimensões: 56,5 x 47 x 1,5 cm

Localização: Museu de Arte de São Paulo (MASP)

Créditos Fotográficos: João Musa

Referências Bibliográficas

Obra de Arte (Referência Principal)

SANZIO, Rafael. Ressurreição de Cristo. 1499-1502. 1 original de arte, óleo sobre madeira, 56,5 x 47 x 1,5 cm. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo. Doação Walther Moreira Salles e outros, 1958. (Número de Inventário: MASP.00017).

Catálogo e Base de Dados

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO (MASP). Acervo Online: Ressurreição de Cristo. São Paulo: MASP, 2026. 

Disponível em: https://masp.org.br/acervo/obra/ressurreicao-de-cristo.  

Acesso em: 04.abr. 2025. 

Referência Iconográfica (Fotografia)

MUSA, João. Ressurreição de Cristo (Rafael Sanzio). Créditos da fotografia para o Museu de Arte de São Paulo (MASP). São Paulo, 1958-2026.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




RAFAEL SANZIO - O MESTRE DO ENCANTO RENASCENTISTA 

Rafael Sanzio nasceu em Urbino, no dia 6 de abril de 1483, e faleceu em Roma, em 6 de abril de 1520. Frequentemente referido apenas como Rafael, foi um dos grandes mestres da pintura e da arquitetura da escola de Florença durante o Renascimento italiano. Celebrado pela perfeição e suavidade de suas obras, tornou-se símbolo da harmonia estética e da delicadeza artística que marcaram o período. 

Segundo historiadores e mestres da arte, o nome mais adequado para se referir a ele é Raffaello Santi, já que “Sanzio” fazia referência apenas ao seu local de nascimento, enquanto “Santi” era o sobrenome de seu pai, Giovanni Santi, pintor nascido em Lucca, na Toscana. Ao lado de Michelangelo Buonarroti e Leonardo da Vinci, Rafael forma a tríade de grandes mestres do Alto Renascimento, cada qual representando uma faceta única da genialidade artística. 

Urbino, capital do ducado homônimo, era na época um centro cultural vibrante. O duque Federico da Montefeltro, personificação do ideal renascentista do príncipe culto, incentivava todas as formas artísticas e transformara a cidade em um polo intelectual e artístico. Ali se reuniam nomes como Donato Bramante, Piero della Francesca e Leon Battista Alberti, que contribuíram para o florescimento de um ambiente criativo e inovador.

Foi nesse contexto que Rafael cresceu. Seu pai, Giovanni Santi, embora considerado um pintor de poucos méritos, era um homem culto e bem relacionado na corte. Transmitiu ao filho não apenas as primeiras lições de pintura, mas também o amor pela arte e pela cultura. Esse ambiente refinado e estimulante foi decisivo para o desenvolvimento precoce do talento de Rafael. 

Rafael destacou-se por uma característica singular: a suavidade e a harmonia de suas composições. Suas obras são marcadas por equilíbrio, proporção e delicadeza, qualidades que o tornaram admirado por contemporâneos e gerações posteriores. Enquanto Michelangelo impressionava pela força dramática e Leonardo pela profundidade intelectual, Rafael conquistava pela beleza serena e pela capacidade de transmitir emoções com naturalidade. 

Entre suas obras mais célebres estão os afrescos das Salas do Vaticano, como a “Escola de Atenas”, que sintetiza o espírito humanista do Renascimento ao reunir filósofos e pensadores da Antiguidade em uma composição grandiosa e equilibrada. Também se destacam suas Madonas, que se tornaram referência de ternura e perfeição formal. 

Além da pintura, Rafael também se dedicou à arquitetura. Foi nomeado arquiteto da Basílica de São Pedro em Roma após a morte de Bramante, e sua atuação contribuiu para o desenvolvimento da estética renascentista na arquitetura. Seu trabalho buscava unir funcionalidade e beleza, mantendo o ideal clássico de proporção e harmonia.

Rafael faleceu jovem, aos 37 anos, mas deixou um legado imenso. Sua obra influenciou não apenas seus contemporâneos, mas também artistas de séculos posteriores. Foi considerado o pintor da “graça” e da “beleza ideal”, e sua arte se tornou modelo de perfeição para academias e escolas de pintura. 

Sua vida curta, mas intensa, é lembrada como um dos capítulos mais brilhantes da história da arte. Rafael representa o ápice da pintura renascentista, e sua capacidade de unir técnica impecável, sensibilidade estética e profundidade cultural o consagra como um dos maiores artistas de todos os tempos.




sexta-feira, 3 de abril de 2026

16 - O PESO DO REALISMO DE A PAIXÃO DE CRISTO E A ESTÉTICA DO SAGRADO - ENSAIO LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

Lançado em 2004, o filme A Paixão de Cristo. Este ano completa 22 anos dessa obra cinematográfica que encantou o mundo. 

A obra dirigida por Mel Gibson não se oferece ao olhar como mero entretenimento, mas como um monumento erguido sobre as fundações da memória coletiva do Ocidente. Permanece, na contemporaneidade, como um dos marcos mais singulares da sétima arte, não apenas pelo seu sucesso comercial avassalador, que desafia as lógicas contábeis de uma Hollywood sedenta por fórmulas mas, fundamentalmente, por sua escolha radical em termos de imersão linguística e visual. Ao optar por rodar o filme inteiramente em aramaico, latim e hebraico, a produção não apenas rompeu a barreira do convencionalismo; ela convocou os mortos para que voltassem a falar.

Ao resgatar essas fonéticas esquecidas pelo tempo, o filme prioriza uma sonoridade histórica que se impõe sobre a acessibilidade imediata e, por vezes, estéril do inglês. Há ali um pacto com o arcaico. O espectador é lançado a uma Jerusalém de pedra e pó, onde o verbo se faz carne de forma dolorosa, obrigando-nos a ler a tragédia não apenas nas legendas, mas no som gutural de línguas que guardam o peso de milênios. 

Diferente de tantas representações hagiográficas que a história nos legou, imagens de um Jesus etéreo, de olhar azul e pele imaculada, que parecia pairar sobre a condição humana, esta versão debruça-se, com uma volúpia quase mística, sobre o sacrifício físico. A representação de Cristo é construída através de uma lente de realismo extremo. É a estética do sangue, onde o sofrimento não é uma metáfora, mas uma substância palpável. A violência daquela era, despida de filtros adocicados, revela-se como o território onde a divindade escolheu habitar para compreender a finitude. 

O longa-metragem abraça as últimas doze horas da vida de Jesus de Nazaré com uma intensidade claustrofóbica. Desde a agonia no Jardim do Getsêmani, onde o suor de sangue se mistura à umidade da noite até a traição de Judas, o beijo que sela o destino do mundo, somos convidados a testemunhar a queda de um homem que carrega em seus ombros o peso insustentável da redenção. No meio daquela noite densa, o silêncio do Monte das Oliveiras é quebrado pelo tilintar das moedas e pelo aço das espadas, dando início a uma jornada de humilhação e glória.

Entregue a Pôncio Pilatos, o governador romano que lava as mãos em uma bacia de indiferença política, Jesus percorre o caminho do flagelo. O açoitamento no pilar, a coroação de espinhos e o carregamento da cruz sob o sol impiedoso da Judeia não são apenas cenas; são estações de uma via-sacra que busca, na dor excruciante, o sentido da ressurreição. A narrativa, entretanto, não se perde apenas no suplício. Com a maestria de quem conhece os labirintos da memória, o filme intercala o martírio com fragmentos de luz: a Última Ceia, o Sermão da Montanha, a doçura da vida inicial. São esses "flashbacks" que conferem humanidade ao mito, lembrando-nos de que sob as feridas bate um coração que pregou o amor. 

A produção, filmada nas texturas históricas da Itália, é um prodígio de valores técnicos. A fotografia, indicada ao Oscar, captura a luz de Caravaggio, enquanto a maquiagem transforma Jim Caviezel em um ícone de carne lacerada. Maia Morgenstern, como a Maria mãe, e Monica Bellucci, como Madalena, emprestam ao filme uma dignidade silenciosa, um sofrimento feminino que é, ao mesmo tempo, universal e particular. A base literária do filme é vasta: não se limita aos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, mas bebe das visões místicas de Anna Catarina Emmerich e da tradição da Sexta-feira das Dores, fundindo teologia e devoção popular em uma única torrente emocional. 

Mesmo sendo um filme de nicho, rotulado por muitos como uma obra de arte hermética devido ao seu ritmo denso e às suas línguas arcaicas, ele desafiou todas as previsões da indústria cinematográfica. Contra todas as probabilidades, alcançou a marca de 611 milhões de dólares, tornando-se o filme independente de maior bilheteria da história e o longa de classificação restrita mais bem-sucedido dos Estados Unidos por duas décadas. Tal fenômeno prova que a humanidade ainda está ávida por narrativas que tratem o sagrado com uma gravidade sem precedentes. O público não buscou o conforto, mas a catarse. 

Gerou controvérsias, é verdade. Polarizou críticos entre o êxtase religioso e o horror diante da violência gráfica. Houve quem visse antissemitismo onde outros enxergaram fidelidade histórica. Contudo, para além das polêmicas, resta o fato cinematográfico: o filme não busca apenas contar uma história, mas transportar o espectador para o epicentro de um evento que moldou as vigas mestras da civilização ocidental.

Utilizando a dor e a fé como as principais linguagens da tela, esta obra é um convite ao abismo e à ascensão. Enquanto aguardamos a sequência, "The Resurrection", voltamos a este filme para entender que, na visão de Gibson e na tradição que ele evoca, a redenção não é um conceito abstrato, mas um processo que passa inexoravelmente pelo corpo, pela língua e pelo sacrifício. É o triunfo da estética do sagrado sobre a banalidade do cotidiano. 

ELENCO 

Jim Caviezel como Jesus de Nazaré

Maia Morgenstern como Maria de Nazaré

Hristo Jivkov como João

Francesco De Vito como Pedro

Monica Bellucci como Maria Madalena

Mattia Sbragia como Caifás

Toni Bertorelli como Anás

Luca Lionello como Judas Iscariotes

Hristo Naumov Shopov como Pôncio Pilatos

Claudia Gerini como Cláudia Prócula

Fabio Sartor como Abenadar

Giacinto Ferro como José

Olek Mincer como Nicodemos

Roberto Bestazoni como Malco

Sergio Rubini como Dimas

Francesco Cabras como Gesmas

Giovanni Capalbo como Cassius

Rosalinda Celentano como Satanás

Jarreth Merz como Simão de Cirene

Luca De Dominicis como Herodes Antipas

Chokri Ben Zagden como Tiago

Sabrina Impacciatore como Verônica de Jerusalém

Pietro Sarubbi como Barrabás

Giuseppe Loconsole e Dario D'Ambrosi como soldados romanos que açoitam Jesus


Um texto crítico-expositivo de análise cinematográfica

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural















 

15 - PAIXÃO DE CRISTO - ARTE E REDENÇÃO ENSAIO DEVOCIONAL-CULTURAL DE © ALBERTO ARAÚJO

01 – Jesus prestes a ser flagelado 
Caravaggio - Pintor barroco italiano (1571-1610)

A Paixão de Cristo é mais do que um relato bíblico: é um acontecimento que atravessa séculos e culturas, inspirando artistas, fiéis e comunidades inteiras. Cada pincelada, cada traço e cada expressão artística se tornam testemunhos vivos da dor e da esperança que brotam do sacrifício de Jesus. A arte, nesse contexto, não é apenas estética, mas uma ponte entre fé e cultura, capaz de traduzir o mistério da redenção em imagens que falam diretamente ao coração humano. 

A Paixão de Cristo não é apenas um episódio da fé cristã: é um acontecimento que moldou culturas, tradições e sensibilidades ao longo dos séculos. Cada gesto de Jesus, do silêncio no Jardim das Oliveiras ao último suspiro no Gólgota, tornou-se símbolo universal de entrega e esperança. A arte, em sua força criadora, traduz esse mistério em imagens que falam ao coração humano, revelando a dor e a glória da redenção.

Nesta Sexta-Feira Santa de 2026, convidamos você a contemplar oito obras que traduzem em cores e formas o clamor da humanidade diante da Paixão. Elas não são apenas representações visuais, mas verdadeiros ícones que nos ajudam a meditar sobre o sofrimento e a vitória do amor. 

Jesus prestes a ser flagelado – Caravaggio (1571-1610)

A flagelação de Cristo – Peter Paul Rubens (1577-1640)

Jesus recebe a coroa de espinhos – Matthias Stom (c. 1615-1650)

Jesus carrega a Cruz – Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770)

O momento dos pregos – Gustave Doré (1832-1883)

Cristo e os espinhos – Matthias Grünewald (1470-1528)

Jesus é descido da Cruz – Peter Paul Rubens (1577-1640)

Ecce Homo – Anatoly Shumkin 

Das procissões populares no Brasil às encenações medievais na Europa, das liturgias africanas às meditações silenciosas na Ásia, a Paixão de Cristo é vivida como um rito que ultrapassa fronteiras. Cada cultura imprime sua marca, mas todas convergem no mesmo mistério: o Deus que se faz homem e assume a dor do mundo.

Na agonia de Cristo, reconhecemos as dores dos marginalizados, dos migrantes, dos famintos e dos injustiçados. Sua cruz é o abraço que acolhe toda a humanidade. Sua coroa de espinhos é o reflexo das divisões que ainda nos ferem. Seu perdão é a ponte que nos conduz à ressurreição coletiva. 

A arte, ao retratar a Paixão de Cristo, não apenas preserva a memória de um acontecimento central da fé, mas também nos convida a uma experiência espiritual e cultural profunda. Cada obra é um espelho que reflete tanto o sofrimento humano quanto a esperança divina. Ao contemplarmos essas imagens, somos chamados a unir devoção e cultura, oração e solidariedade, fé e humanidade. Que esta reflexão nos inspire a viver a Páscoa como um tempo de reconciliação, amor e renovação, onde a dor se transforma em esperança e a cruz se torna caminho de redenção.

 

02 -  A flagelação de Cristo 

Peter Paul Rubens - Pintor flamengo (1577-1640)


03 – Jesus recebe a coroa de espinhos 

Matthias Stom Pintor holandês (c. 1615-1650)

04 – Jesus carrega a Cruz 

Giovanni Battista Tiepolo - Pintor italiano barroco 

(1696-1770)

05 – O momento dos pregos - Gustave Dore - Pintor e ilustrador gravurista francês (1832-1883)


06 – Cristo e os espinhos - Matthias Grunewald - 

Pintor renascentista alemão (1470-1528)


07 – Jesus é descido da Cruz - Peter Paul Rubens

Pintor barroco flamengo (1577-1640)

08 - “Ecce Homo” de Anatoly Shumkin

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BROWN, Raymond E. A Morte do Messias: Do Getsêmani ao Sepulcro. São Paulo: Paulus, 1999.

GOMBRICH, Ernst. A História da Arte. Rio de Janeiro: LTC, 2013.

RODRIGUES, José Carlos. O Corpo da Paixão: A morte de Jesus na cultura ocidental. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2000.

SCHÖKEL, Luis Alonso. A Bíblia e sua interpretação. São Paulo: Loyola, 1990.

ZALUSKA, Anna. Cristo na Arte: Iconografia e Simbolismo. Lisboa: Editorial Estampa, 2005.

PELIKAN, Jaroslav. Jesus através dos séculos: Sua imagem e impacto na história. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

ROUAULT, Georges. Miserere. Paris: Éditions de l’Art Sacré, 1948.

RUBENS, Peter Paul. Obras Completas. Antuérpia: Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, 1985.


© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

   


quinta-feira, 2 de abril de 2026

ELOS UNIVERSITÁRIO ITAIPU LEVA A GRACIOSIDADE DA PÁSCOA PARA UMEI OLGA BENÁRIO EM ITAIPU


A responsabilidade social ganhou um novo fôlego em Niterói sob a liderança do Elos Universitário Itaipu. Em uma mobilização que uniu o vigor acadêmico ao compromisso humanitário, o grupo, conduzido pelo presidente Everton Siqueira, transformou o início de abril em um marco de afeto e cidadania na creche UMEI Olga Benário Prestes em Itaipu. 

O que poderia ser apenas uma entrega formal de doações tornou-se um espetáculo de ludicidade. O ponto alto da celebração foi a visita surpresa de uma jovem caracterizada como Coelho da Páscoa. Ao cruzar o limiar das salas de aula, a personagem desfez qualquer barreira: o que se viu foi uma explosão de sorrisos, abraços calorosos e a pureza de crianças que, entre beijos e gargalhadas, redescobriram o encanto da data. 

Esta ação singular provou que o impacto real vai além do chocolate; reside na criação de memórias afetivas que os pequenos levarão para a vida toda. O gesto de entregar em mãos cada caixa de bombom humanizou o serviço voluntário e fortaleceu os laços entre a juventude universitária e a comunidade local. 

O evento reafirma o vigor do Elos Universitário Itaipu como uma célula elista essencial, um braço vibrante e renovador do Elos Internacional. Essa integração institucional é espelhada na atuação da Dra. Matilde Carone Slaibi Conti, que com sua vasta experiência, une os propósitos do Elos Internacional, o qual preside, à vice-presidência do Rotary Club de Niterói. 

Sue Oliveira, que a sua filha se caracterizou de Coelho disse: Boa noite!!!  Tudo bem querida, estou passando aqui para compartilhar da ação do Elos Clube Universitário na Umei Olga Benário Prestes em Itaipu. Que emoção ver as crianças recebendo carinho, alegria e amor. Foi lindo demais!

Para Matilde, ver o florescer deste projeto é motivo de profunda emoção: 

"Sinto o coração a cantar ao ver que o Elos Universitário, fruto de um ideal que plantamos, está gerando resultados tão belos. Ver essa alegria brotar nas mãos da juventude e das crianças me traz uma felicidade que transborda", destacou a líder, celebrando a entrega de cerca de 140 caixas de bombons.

Mais do que o doce sabor da Páscoa, a iniciativa promoveu o acolhimento através de atividades ao ar livre, essenciais para que os alunos desenvolvam confiança e prazer no ambiente escolar. O encontro entre a experiência de líderes consolidados e o entusiasmo dos universitários de Itaipu demonstra que, quando o propósito é o bem comum, o futuro se constrói agora, um sorriso por vez.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural