segunda-feira, 6 de abril de 2026

A ESCRITA DO AMANHÃ – A ARTE DE COMEÇAR

Começamos mais um ciclo, e a literatura nos lembra de que cada dia é uma página em branco aguardando o rigor da nossa vontade. Em um mundo de ruídos, o otimismo é um ato de resistência intelectual. 

Iniciar a semana é, acima de tudo, um exercício de redação sobre o próprio destino. Se Guimarães Rosa nos lembra de que "o que a vida quer da gente é coragem", é na prática diária que essa bravura se manifesta. Afinal, a existência exige fôlego, pois Machado de Assis já advertia: "A vida sem luta é um mar morto". 

Para navegar esses dias, adotemos a postura de Ariano Suassuna, sendo sempre esse "realista esperançoso". É preciso ter em mente que a produtividade sem propósito é vazia; como ensinou Fernando Pessoa, "para ser grande, sê inteiro". Não se trata apenas de cumprir agenda, mas de entender, com Cecília Meireles, que "a vida só é possível reinventada". 

Se o peso das responsabilidades aumentar, recorra à delicadeza de Mario Quintana: "O segredo não é correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você". E se algo não sair como planejado, acolha a lição de Clarice Lispector de que "recomeçar é dar-se uma nova chance", mantendo a firmeza de Cora Coralina: "Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar".

Que o seu roteiro semanal não aceite amarras, pois, como dizia Jorge Amado, "não se pode colocar limites aos nossos sonhos". 

No fim, a qualidade da nossa história dependerá de como a percebemos, lembrando que para García Márquez, a vida é o que recordamos para contar. Que você faça, portanto, uma semana que valha a pena ser narrada, pois como bem sintetizou Drummond, para ganhar um tempo novo que mereça este nome, você tem de merecê-lo.


Crônica de © Alberto Araújo

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EXPOSIÇÃO “GRANDE SERTÃO” CHEGA À ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS

A Academia Brasileira de Letras recebe a exposição “Grande Sertão” para comemorar os 70 anos de lançamento da obra-prima do imortal da ABL João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”. A abertura da mostra, na qual a artista visual Graça Craidy retrata os principais personagens do romance surgido em 1956, será na terça-feira dia 31 às 17h, e ficará até 29 de maio de 2026. 

Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo e necessário que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”. Assim escreveu o Acadêmico Eduardo Giannetti, titular da Cadeira 2, que já pertenceu a Guimarães Rosa. 

Graça Craidy apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz. 

O próprio Guimarães Rosa (1908/1967), mineiro de Cordisburgo, aparece, em uma das pinturas, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros - a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra. 

Natural de Ijuí (RS) e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” - sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks, especialista na obra literária. A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad. 

Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à Academia por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária marcante e ao seu grande autor”, diz a artista. 

Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse monumental romance”, acrescenta ela.

“Experiência transpsíquica” 

O livro, escrito por Rosa quando morava na Rua Francisco Otaviano, 33, ap. 501, em Copacabana, teve seus originais entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty Azeredo da Silveira, o escritor e diplomata relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”. 

O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande sertão: veredas” constou da lista dos "100 melhores livros de todos os tempos" organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). Destacou-se principalmente por suas inovações linguísticas.



O OLHAR DA ETERNIDADE: ONDE A FÉ ENCONTRA A HISTÓRIA - TEXTO REFLEXIVO DE © ALBERTO ARAÚJO

(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)

O vídeo que você assistiu não é apenas uma performance musical; é o encontro entre o clamor humano e a presença divina. 

A primeira parte nos submerge na energia do Sunday Service. O coral não canta apenas palavras; eles proclamam uma soberania que atravessa eras. Quando as vozes se unem para dizer que "Ele reina para sempre", há uma quebra na barreira do tempo. É o reconhecimento de que, acima do caos do mundo, existe um trono inabalável. 

A transição para a reconstrução facial de Jesus, baseada no Sudário de Turim, muda o tom da experiência. Saímos do som para o silêncio, da multidão para o indivíduo. 

O Sudário é um dos mistérios mais estudados da história. Ver aquelas marcas ancestrais se transformarem em um rosto humano nos lembra de que a fé cristã não é baseada em mitos, mas em uma pessoa que caminhou sobre a terra, sentiu dor e olhou nos olhos de seus contemporâneos. 

A imagem final apresenta um Jesus que não é uma estátua distante, mas alguém com um olhar de profunda compaixão e autoridade. É a face Daquele que o coral acabou de proclamar como "Rei dos Reis". 

Este vídeo nos convida a uma reflexão profunda: se Ele é o Rei que reina para sempre, e se Sua face carrega tamanha serenidade e verdade, qual é a nossa resposta diante disso? 

É um lembrete visual e sonoro de que a majestade, o Rei e a humanidade, o rosto se beijam na figura de Cristo. É um chamado para tirar a fé do campo das ideias e colocá-la diante de um olhar que nos conhece por inteiro. 

"O nosso Deus reina para sempre, e a Sua face é o espelho da nossa esperança."

SOBRE O VÍDEO

Jesus is King - Jesus es Rey" - Jesus é Rei 

Esse vídeo é uma montagem poderosa que une a performance musical do coral Sunday Service, de Kanye West, a uma representação visual impressionante da face de Jesus Cristo, baseada no Santo Sudário. 

A música transita para uma harmonia etérea e solene. Surge o texto: "El Rostro Real de Jesucristo", O Rosto Real de Jesus Cristo. Uma animação começa a partir das marcas do Santo Sudário de Turim, reconstruindo digitalmente as feições de um homem até revelar um rosto vívido, sereno e de olhar profundo. 

© Alberto Araújo

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domingo, 5 de abril de 2026

O TRIUNFO DA VIDA NA NAVE DE SÃO JUDAS - UMA CRÔNICA DA PÁSCOA EM ICARAÍ © ALBERTO ARAÚJO - AO PADRE CARLOS ALBERTO MESQUITA DE ANDRADE

O relógio marcava o compasso da eternidade na tarde de 05 de abril de 2026. Em Niterói, onde o mar de Icaraí sempre sussurra preces às areias, a Paróquia e Santuário São Judas Tadeu abriu suas portas não apenas para uma celebração litúrgica, mas para um encontro vivo com o Mistério. 

Cruzar o umbral da igreja como de praxe, junto à minha Shirley, nesta Páscoa, foi como deixar para trás as poeiras do tempo comum para mergulhar na clareza do Dia que não conhece o ocaso.

A celebração ganhou uma alma vibrante sob a presidência do Padre Carlos Alberto Mesquita de Andrade. Vindo de sua missão na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Manilha, ele trouxe consigo o vigor de quem celebra o altar com o corpo e o espírito. No presbitério, sua imagem não era apenas a de um celebrante, mas a de um regente de almas. No momento do canto, ao elevar os braços, Padre Carlos Alberto parecia conduzir uma invisível orquestra celestial, transformando a assembleia em um coro de anjos que entoava a vitória da vida com uma entonação impecável, rara de se ouvir, onde cada voz era um fio de luz tecido na tapeçaria do louvor. 

O rito iniciou-se com a Aspersão da Água Benta. Enquanto o sacerdote percorria a nave central com o aspergilo, as gotas cristalinas que tocavam os fiéis não eram apenas símbolos; eram o orvalho da ressurreição. Cada gota lembrava o nosso Batismo, purificando os sentidos e renovando a promessa de proteção contra o mal, preparando o coração para o que os olhos da fé estavam prestes a contemplar. 

A liturgia da palavra nos conduziu pelo testemunho corajoso de Pedro. Ouvimos, nos Atos dos Apóstolos, a síntese do caminho de Jesus de Nazaré: aquele que passou fazendo o bem, ungido pelo Espírito, e que, embora morto no madeiro da cruz, foi erguido por Deus ao terceiro dia. "Nós comemos e bebemos com Ele", dizia todo o contexto, e naquelas palavras sentíamos a mesma fome de eternidade que movia as primeiras comunidades. 

O Salmo Responsorial (117) ecoou como o grito de liberdade de um povo: "Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!". Não era um convite opcional, mas uma constatação que transbordava das fileiras de bancos. Logo após, a exortação de São Paulo aos Colossenses nos elevou: se ressuscitamos com Cristo, nosso olhar deve se voltar para o alto, para o triunfo, para a glória que já nos habita, embora ainda escondida nos mistérios de Deus. 

Não se pode narrar o crepúsculo desta Páscoa sem mergulhar na beleza acústica que transbordou da nave central, envolvendo cada fiel em um manto de harmonia. Com um repertório escolhido a dedo, a corolista e cantora litúrgica Poliana Arantes, detentora de uma técnica e sensibilidade ímpares, não apenas cantou; ela emprestou sua voz para que os hinos de glória ganhassem corpo e transcendência. Cada nota que partia de seus lábios carregava o peso de séculos de fé, elevando as preces da assembleia até as abóbadas da paróquia. 

Ao seu lado, ao órgão, a talentosa Isadora tornava-se uma extensão do próprio instrumento. De seus dedos ágeis, brotavam notas que pareciam descer diretamente das esferas celestiais, preenchendo os vácuos do silêncio com uma majestade divina. O entrosamento entre as irmãs, uma simbiose de sangue e espírito, transformou a música em oração em estado puro. O "Cristo Venceu, Aleluia!" deixou de ser um cântico comum para tornar-se uma experiência mística avassaladora, uma vibração que reverberava em cada vitral colorido e fazia o ar vibrar com a certeza da vida. Naquele instante, o som não era apenas ouvido; era sentido como um abraço do Ressuscitado, provando que, onde a palavra silencia, a música das irmãs fala diretamente ao coração do Pai. 

No momento do Ofertório, o altar foi preparado com as nossas humildes ofertas, e o canto de consagração preparou o espírito para o "Santo, Santo, Santo". Mas foi na hora da Comunhão que o tempo pareceu parar. Enquanto os fiéis se aproximavam para receber a Eucaristia, os sinos da Paróquia São Judas Tadeu começaram a dobrar. O som do bronze batendo contra o ar misturava-se ao canto de comunhão: "Ressurgiremos por crer, nesta vida escondida no pão". Era o ponto alto. O encontro do Criador com a criatura, selado pelo repique festivo que anunciava ao bairro de Icaraí: O túmulo está vazio! Ele está vivo entre nós! 

É justo destacar a trajetória do Padre Carlos Alberto. Com dez anos de sacerdócio completados em 2024, ele é um operário da fé que, desde 2021, conduz com zelo a comunidade de Manilha, em Itaboraí. Sua presença em nossa paróquia foi um presente pascal, um testemunho de que a Igreja é uma só, unida pelo mesmo Espírito e pela mesma missão de curar e pregar o perdão. 

Ao término da celebração, o átrio da igreja tornou-se um cenário de afetos. Encontramos amigos queridos, Licia Lucas, a nossa Dama do Piano, com sua aura artística, o empresário e pesquisador Marne Serrano e a incansável Vera Lúcia da Pastoral da Paróquia. Ali, nos sorrisos trocados e nos abraços de "Feliz Páscoa", percebemos que a ressurreição se faz carne também na amizade e na comunhão dos santos que caminham no cotidiano. 

Saímos da Paróquia São Judas Tadeu com a alma lavada e o passo mais leve. A Páscoa de 2026 ficará gravada não apenas como um registro jornalístico, mas como um poema escrito pelo próprio Deus no coração de cada fiel. O Senhor de fato ressuscitou. Ele não é uma imagem de gesso ou uma metáfora literária; Ele é a presença que aquece as manhãs, tardes e noites de domingo e que nos envia de volta ao mundo com a certeza de que a morte não tem a última palavra. 

Icaraí hoje não é apenas um bairro de Niterói; é um território de esperança, onde o Cristo Vivo caminha entre os prédios, as árvores e o mar, sussurrando a cada um de nós: "Eu estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos". Amém. Aleluia! 

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HOMILIA DE PÁSCOA - O TESTEMUNHO DO RESSUSCITADO

Pelo Padre Carlos Alberto Mesquita de Andrade 

"Por isso nós podemos dizer e vivemos isso hoje, neste dia: Cristo ressuscitou! Cristo está vivo, Cristo está entre nós. As Sagradas Leituras de hoje nos colocam exatamente nesse caminho.

Na primeira leitura, vimos o anúncio da Igreja que proclama Cristo morto e ressuscitado. Pedro proclamou que Ele foi morto, mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, indicando que a iniciativa é divina. Aquele Jesus que morreu é, verdadeiramente, o Filho de Deus; Ele é o próprio Deus. Por isso, o Pai o ressuscitou. Pedro não apresenta apenas um 'contar de histórias' ou uma narrativa vazia; ele proclama um fato: 'Ele foi morto, mas Deus o ressuscitou'. E quem viu? Nós! Nós, os apóstolos; nós, que comemos e bebemos com Ele. Ele se manifestou a nós e nos mandou anunciar. Portanto, a nossa missão é fruto do testemunho; é fruto de uma fé testemunhada. 

O Evangelho de hoje nos mostra o que eles viram e experimentaram. Maria Madalena vai dizer aos discípulos a Pedro e ao discípulo que Jesus amava o que encontrou. Eles foram ao sepulcro e viram. É bonito notar os detalhes que João coloca: há sinais claros da Ressurreição. Por que o evangelista detalha que os panos estavam no chão, mas o sudário que cobria o rosto estava enrolado à parte? Ele indica que não houve fraude. Se alguém tivesse roubado o corpo, teria a preocupação de enrolar o pano do rosto e colocá-lo em outro lugar? Seria mais coerente levar tudo ou deixar tudo jogado. 

A Escritura nos dá esse sinal. E diante dele, o que João escreve? 'O discípulo viu e creu'. No lugar do medo, nasce a fé. No lugar da escuridão, do desespero e da dor da cruz, nasce agora a esperança neste Senhor que está vivo. E essa Ressurreição, amados irmãos e irmãs, transforma a nossa existência. É o que São Paulo nos diz: somos um povo de ressuscitados. A Ressurreição aconteceu no tempo, mas ela nos alcança hoje pelo nosso batismo. 

E como viver essa ressurreição? São Paulo ensina: 'Buscai as coisas do alto'. Viver como ressuscitado é buscar os valores de Cristo, os valores da Escritura. Por isso, amado povo da Paróquia São Judas de Icaraí, hoje somos chamados a proclamar Cristo vivo com o nosso testemunho. Não sejamos meros espectadores; entremos neste mistério de vida. Despojemo-nos do homem velho e busquemos o que nos une a Deus.

Não gastem suas energias com coisas que não levam a nada, que não nos elevam. Não fiquem presos ao egoísmo, aos ressentimentos ou aos valores deste mundo, que tantas vezes são a desunião, o apego ao poder e a sede desenfreada de ter. Hoje somos chamados a nos elevar! Busquem valores, busquem relacionamentos saudáveis, busquem uma fé viva que os faça crescer, que os torne pessoas melhores e cristãos melhores. 

Não fiquem apegados às suas limitações, mas busquem aquilo que realmente dá sentido à vida. A Ressurreição que hoje nos toca nos projeta para o futuro, para a vida eterna. Essa vida que recebemos do Ressuscitado será plena quando estivermos nela, mas ela precisa ser vívida aqui e agora. Como dizemos na Santa Missa: 'O nosso coração está em Deus'. Sim, o coração em Deus, enquanto estamos aqui com nossas mãos e pés em missão, testemunhando o Senhor com o coração já no céu. Porque sabemos que tudo o que vivemos pela fé se tornará pleno e claro quando estivermos, finalmente, diante do Senhor Ressuscitado. Por isso, amados irmãos e irmãs, vivamos como homens e mulheres verdadeiramente ressuscitados!" 

ORAÇÃO AO FINAL -  A GRAÇA DA RESSURREIÇÃO

"Senhor, o que buscamos é a Ressurreição que faz as trevas cederem lugar à Luz. Pedimos agora a coragem de poder anunciar o Verbo e ressaltar a Tua presença em nós. Hoje, pedimos essa graça, Senhor: não deixes que o desânimo ou os cargos do mundo nos envenenem. Tira-nos, Senhor, do sepulcro de nossa existência; do sepulcro da vaidade humana; do sepulcro do conflito e da desunião entre a gente. Tira-nos do sepulcro da falta de fé e da falta de esperança. 

Preenche-nos, Senhor, com a certeza de que Deus nos ajudará. O Senhor não nos abandonará! Diante das nossas dificuldades, dá-nos esta certeza e este auxílio para cuidarmos do mundo e enfrentarmos as incertezas. Que o nosso testemunho seja a prova de que Tu estás vivo. Amém!" 

© Alberto Araújo

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05 de abril de 2026 – Domingo de Páscoa.



 

O PÃO E A PROMESSA - UM GESTO DE AMOR NA TERRA - CRÔNICA © ALBERTO ARAÚJO - INSPIRADA EM VÍDEO COM NÉLIDA PIÑON


O PÃO, O AMOR E CRISTO

Em sintonia com o espírito da Páscoa, assisti um registro de rara delicadeza na página oficial da nossa eterna Nélida Piñon. No vídeo, a escritora, que sempre manejou as palavras com a precisão de um mestre e a alma de uma artesã, debruça-se sobre um pão rústico, dividindo-o com a alegria de quem celebra a própria existência. Inspirados por esse gesto e pela frase que ela nos deixou:  'O Amor é e sempre será o teu melhor gesto na terra', partilhamos a crônica a seguir, que busca traduzir a mística desse encontro entre o sagrado e o cotidiano. 

O PÃO E A PROMESSA - UM GESTO DE AMOR NA TERRA

Crônica © Alberto Araújo

A faca, gasta pelo tempo e pelo uso em punho. Diante dela, o pão. Não um pão qualquer, mas um gigante generoso, dourado e rústico, com a casca que sussurrava histórias de forno e farinha. Seus olhos, emoldurados pelos óculos, fixaram-se naquela massa sagrada, e um sorriso, tão autêntico quanto o sabor que se anunciava, iluminou seu rosto. 

Com as mãos firmes, marcadas pela sabedoria dos anos, ela impôs a faca. O primeiro corte foi uma revelação. A resistência inicial da casca, o estalo surdo que indicava a quebra de um lacre, a revelação do miolo amarelo e aerado. Certamente, o aroma, um perfume de lar e de vida, preencheu o ar, penetrando em cada canto da sala, em cada poro da alma. 

A cada fatia, a escritora não estava apenas dividindo um alimento. Estava encenando uma parábola milenar. O pão, símbolo universal da subsistência, da partilha, da comunhão, transformava-se em algo mais. Em suas mãos, ele se tornava uma metáfora viva de Jesus Cristo, o Pão da Vida. 

Assim como Cristo se entregou para nutrir a humanidade, ela, com aquele gesto simples, entregava um pedaço de si, de sua essência, de sua história. O miolo, macio e acolhedor, representava a compaixão e o amor incondicional. A casca, forte e protetora, simbolizava a fé e a resiliência diante das intempéries da vida. 

A divisão do pão não era um ato de subtração, mas de multiplicação. A cada pedaço que se separava do todo, a promessa de fartura e de união se renovava. Era como se a escritora, ao cortar o pão, estivesse espalhando sementes de esperança e de fraternidade. 

Em outro momento, em um registro diferente, ela proferira palavras que ecoavam como um mantra: "O Amor é e sempre será o teu melhor gesto na terra". Naquele instante, diante do pão, aquela frase ganhava uma nova dimensão. O amor não era apenas um sentimento, mas uma ação, um gesto concreto, uma doação. E cortar o pão, dividi-lo com o próximo, era, sem dúvida, um dos gestos mais puros e autênticos de amor. 

A faca continuava seu trabalho, o pão diminuía de tamanho, mas a sensação de plenitude aumentava. Não era apenas a fome física que estava sendo saciada, mas uma fome mais profunda, a fome de conexão, de pertencimento, de significado. Naquele pequeno ritual, a escritora nos lembrava de que a vida é feita de momentos simples, de gestos cotidianos que, se realizados com amor e consciência, podem se transformar em experiências transcendentais. 

O pão, enfim, foi totalmente fatiado. Os pedaços, dispostos sobre a mesa, eram como convites para a ceia, para a comunhão. E ela, com a satisfação estampada no rosto, parecia dizer: "Tomai e comei, este é o meu corpo, que é dado por vós". 

A cena, imortalizada pelo vídeo, transborda o tempo e o espaço. Ela nos convida a refletir sobre a importância da partilha, da compaixão, do amor ao próximo. Lembra-nos de que, mesmo diante das maiores dificuldades, a esperança e a fé podem nos nutrir e nos guiar. E que, no final, o que realmente importa não são as obras que realizamos, mas o amor que colocamos em cada gesto, em cada palavra, em cada fatia de pão que dividimos. 

O pão, uma vez inteiro, agora estava fragmentado. Mas, em cada fragmento, a promessa de unidade e de renovação permanecia viva. E a escritora, com sua sabedoria e generosidade, nos ensinava que, ao dividirmos o pão, não estamos apenas alimentando o corpo, mas também a alma, e, acima de tudo, perpetuando o legado de Amor que Cristo nos deixou. 

© Alberto Araújo




 

18 - A DIALÉTICA DO RECOMEÇO: UMA ODISSEIA DA CRUZ À RESSURREIÇÃO - ENSAIO ACADÊMICO-LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO

A frase "Ele vive! A cruz não foi o fim. Foi o recomeço" carrega em si a síntese de uma das transições metafísicas mais potentes da história da humanidade. No contexto cultural e literário, a Páscoa não se encerra no rito; ela se manifesta como a narrativa definitiva sobre a resiliência do espírito. 

Historicamente, a cruz era o símbolo máximo do silenciamento e da finitude. Na literatura clássica e no imaginário antigo, o herói que sucumbia ao martírio encerrava ali sua jornada. No entanto, a perspectiva pascal subverte essa lógica. A madeira da cruz deixa de ser um "ponto final" para tornar-se uma elipse, uma pausa necessária para que o sentido da existência ganhe uma nova profundidade. Culturalmente, isso moldou a mentalidade ocidental para compreender que a dor não é um estado permanente, mas um processo de purificação.

Dizer que "Ele vive" ultrapassa a barreira do tempo cronológico (chros) e adentra o tempo das oportunidades (kairos). Na literatura, esse "viver" ressoa como o mito da fênix: a vida que não apenas retorna, mas que retorna transfigurada, mais forte e portadora de um novo pacto com a realidade. O "recomeço" citado na frase é a celebração do inalcançável: a ideia de que a morte, em suas várias formas, como o fracasso, a perda ou a desilusão é incapaz de deter a força da renovação.

A imagem que contempla a cruz vazia sob uma luz crepuscular, adornada pela frase "Ele vive! A cruz não foi o fim. Foi o recomeço", não é apenas um registro de fé, mas a síntese de um dos arquétipos mais resilientes da história da civilização ocidental. Ao celebrarmos a Páscoa, somos convidados a mergulhar em uma narrativa que desafia a lógica da finitude e subverte o conceito de tragédia. No cenário da cultura e da literatura, a transição do martírio para a vida nova representa a vitória do sentido sobre o absurdo, um tema que ecoa desde as escrituras sagradas até as mais complexas reflexões filosóficas contemporâneas.


Para compreendermos a profundidade dessa "não-finitude", é preciso olhar para a cruz como um símbolo cultural. Historicamente, o patíbulo romano era o ponto final absoluto, o selo do silenciamento. No entanto, a poética pascal transforma esse instrumento de dor em um ponto de inflexão. Como bem explorou Joseph Campbell em sua obra seminal O Herói de Mil Faces, a jornada do herói exige uma descida ao abismo, uma "morte" simbólica no ventre da baleia ou no topo de uma montanha de sacrifício. Para Campbell, esse estágio é fundamental para que o indivíduo retorne transfigurado. A cruz, portanto, não é o encerramento da biografia de Cristo, mas o "limiar" necessário para que a humanidade acesse uma nova dimensão de existência. A cruz foi o meio, o recomeço foi o fim último.

 

Essa ideia de que o sofrimento não é um beco sem saída encontra um eco poderoso na psicologia existencial de Viktor Frankl. Em Em Busca de Sentido, Frankl argumenta que o ser humano é capaz de suportar qualquer "cruz" desde que vislumbre um propósito que ultrapasse a dor imediata. Quando a imagem afirma que "Ele vive", ela oferece ao observador um fundamento para a esperança: a prova de que a vida possui uma última palavra que não é o túmulo. Na perspectiva de Frankl, a ressurreição pode ser lida culturalmente como o triunfo do espírito sobre a biologia; é a capacidade humana de dizer "sim" à vida, apesar de tudo.

 

Na literatura russa, Fiódor Dostoiévski utilizou a metáfora do grão de trigo em Os Irmãos Karamázov para ilustrar essa mesma tensão. A frase "a cruz não foi o fim" ressoa com a epígrafe do romance: se o grão não cai na terra e morre, ele permanece só, mas se morre, produz muito fruto. Aqui, o recomeço é condicionado ao sacrifício. Não há Páscoa sem Sexta-feira Santa. Culturalmente, essa lição nos ensina que os períodos de "morte", sejam eles crises pessoais, sociais ou institucionais, são, muitas vezes, o terreno fértil para uma renovação que jamais ocorreria em condições de estagnação.

 

Além disso, a temporalidade da Páscoa nos remete à obra de T.S. Eliot, especialmente em seus Quatro Quartetos. Eliot reflete sobre a interseção entre o tempo cronológico e o tempo eterno, afirmando que "no meu fim está o meu começo". A imagem da cruz com o pano branco ao vento simboliza exatamente essa ruptura do tempo linear. O "recomeço" mencionado não é uma volta ao passado, mas a inauguração de um novo tempo (kairos), onde a morte é despojada de seu aguilhão. Para a cultura ocidental, essa noção moldou a ideia de progresso e regeneração: a crença de que é possível reconstruir sobre as ruínas, de que o amanhã não é apenas uma repetição do hoje, mas uma possibilidade de transcendência.

 

Dizer que "Ele vive" é afirmar que os valores do amor, da fraternidade e da entrega são indestrutíveis. A cruz foi a tentativa do sistema de encerrar uma mensagem; o recomeço foi a explosão dessa mensagem para além das fronteiras da Judeia, alcançando a universalidade.

Essa mensagem reverbera na arte, na poesia e na filosofia como o fundamento da esperança. A Páscoa nos ensina que o amanhecer só é possível porque houve uma noite; que o recomeço só tem valor porque houve a coragem de enfrentar o fim. Ao celebrarmos o "Ele vive", celebramos a nossa própria capacidade humana de se reinventar após o caos. 

"A ressurreição é o protesto da vida contra a fatalidade; é a afirmação de que a última palavra nunca pertence ao túmulo, mas ao fôlego que insiste em recomeçar."

Neste sentido, a Páscoa deixa de ser um evento estático no calendário para se tornar um estado de espírito: a constante transição da cruz para a luz, do encerramento para a eterna possibilidade de ser novo, outra vez.

 

Em suma, a frase que acompanha a imagem da cruz banhada pelo sol é um convite à reflexão sobre a resiliência. Ela nos lembra de que, literária e filosoficamente, somos seres feitos para o recomeço. A Páscoa, despida de seus adornos comerciais, permanece como o grande monumento à esperança. Ela nos ensina que a luz que atravessa os braços da madeira no topo do monte não é um clarão passageiro, mas o sinal de que toda ferida pode se tornar uma cicatriz de vitória. "Ele vive" é, acima de tudo, o grito de liberdade de uma humanidade que se recusa a aceitar o fim como destino, celebrando a eterna e gloriosa oportunidade de começar de novo.

TRÊS PILARES DESSE SIGNIFICADO

1. A Morte como Metamorfose

A cruz vazia e o pano ao vento simbolizam que o sofrimento não foi um "ponto final", mas uma "vírgula". Na literatura e na vida, isso significa que momentos de crise e dor são, na verdade, processos de transformação. Para algo novo nascer (o recomeço), algo antigo precisa ser deixado para trás (a cruz).

2. A Esperança como Força Ativa

Dizer "Ele vive" é uma afirmação cultural de que o amor, a justiça e a vida são invencíveis. Não é apenas um dogma religioso; é a crença de que, não importa quão escura seja a noite ou quão pesado seja o fardo, existe uma força interna (e divina) capaz de restaurar a alegria e o propósito.

3. O Convite ao Recomeço Humano

O ensaio e as referências bibliográficas (como Frankl e Campbell) mostram que essa história é a nossa história. A Páscoa significa que nenhum ser humano está condenado ao seu pior momento. Sempre há a possibilidade de "ressuscitar" projetos, sonhos e relações que pareciam perdidos.

Em uma frase: Significa que o fim é apenas o cenário necessário para que o novo capítulo comece com mais luz e força.

Feliz Páscoa! Que essa ideia de recomeço saia do papel e se torne realidade na sua caminhada.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. Tradução de Adail Sobral. 1. ed. São Paulo: Pensamento, 1990.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora 34, 2008.

ELIOT, Thomas Stearns. Quatro Quartetos. Tradução de Ivan Junqueira. 1. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

FRANKL, Viktor Emil. Em Busca de Sentido: um psicólogo no campo de concentração. Tradução de Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 45. ed. Petrópolis: Vozes, 2018.

 

1. O ARQUÉTIPO DA RENOVAÇÃO

Referência: CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces.

Relação: Campbell discute o ciclo do "monomito", onde o herói precisa passar por uma "morte" (simbólica ou real) para renascer transformado. A frase "a cruz não foi o fim" é a representação máxima dessa etapa do herói, onde o sacrifício é o preço pago para a obtenção de uma nova vida que beneficiará a coletividade.

2. A Esperança contra o Absurdo

Referência: FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido.

Relação: O psiquiatra e sobrevivente do holocausto argumenta que o homem pode suportar qualquer "como" se tiver um "porquê". A ideia de que "Ele vive" funciona como o sentido último que permite ao indivíduo encarar a sua própria "cruz" (o sofrimento) não como um desfecho trágico, mas como um terreno para um recomeço existencial.

3. A Poética do Instante e do Eterno

Referência: ELIOT, T.S. Quatro Quartetos.

Relação: Eliot explora a interseção do tempo com o eterno. No poema, ele sugere que "no meu fim está o meu começo". Esta é a exata dialética da imagem: a cruz, que deveria ser o selo da morte, torna-se o portal para a vida eterna. É o fim do tempo linear para o início do tempo espiritual. 

4. A Metáfora da Semente

Referência: DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os Irmãos Karamázov (Epígrafe de João 12:24).

Relação: "Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas se morrer, dá muito fruto". Dostoiévski utiliza essa base para construir sua narrativa sobre redenção. A cruz na imagem é o "grão que cai na terra", e o "Ele vive" é o fruto que nasce desse processo de morte necessária.


Resumo da Conexão Bibliográfica

Autor

Obra

Conceito Chave

Relação com a Frase

Joseph Campbell

O Herói de Mil Faces

Ciclo de Morte e Renascimento

A cruz como a descida necessária para o retorno glorioso.

Viktor Frankl

Em Busca de Sentido

O Sentido no Sofrimento

O recomeço como a descoberta de um propósito maior.

T.S. Eliot

Quatro Quartetos

Interseção Fim/Início

A negação da finitude através do sagrado.

Dostoiévski

Os Irmãos Karamázov

A Semente que Morre

O sacrifício como pré-requisito para a abundância da vida.

 

NOTAS DE APLICAÇÃO METODOLÓGICA

 

No corpo do ensaio, essas referências foram articuladas da seguinte forma:

Simbologia do Sacrifício (Campbell): Utilizada para validar o movimento de descida e ascensão do herói, conectando a cruz ao "limiar" da jornada.

Logoterapia e Existencialismo (Frankl): Aplicada para justificar o "sentido" que transforma o sofrimento da cruz em um motor para o recomeço

Metáfora do Grão de Trigo (Dostoiévski): Empregada como suporte literário para a necessidade da morte simbólica como pré-requisito da vida nova

Temporalidade Poética (Eliot): Utilizada para explicar a natureza cíclica e eterna do "recomeço" em oposição ao tempo linear.



sábado, 4 de abril de 2026

SOLENIDADE DE POSSE DA DIRETORIA DA ACADEMIA NITEROIENSE DE LETRAS-GESTÃO 2025-2027 – PRESIDENTE NAGIB SLAIBI FILHO

 


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17 - O TRIUNFO DA FORMA E DO ESPÍRITO - A RESSURREIÇÃO SOB O OLHAR DE RAFAEL - ENSAIO DE © ALBERTO ARAÚJO

 

A Páscoa, em sua essência, é a celebração da transcendência. Para além do rito religioso, ela marca o ponto de inflexão onde a finitude humana encontra a promessa da eternidade. É o simbolismo da vitória da luz sobre as trevas, um tema que, ao longo dos séculos, desafiou os maiores gênios da arte a traduzir o metafísico em imagem. Entre essas tentativas, destaca-se a "Ressurreição de Cristo", 1499-1502, de Rafael Sanzio, obra que não apenas ilustra o dogma cristão, mas define a harmonia estética do Alto Renascimento. 

Atualmente pertencente ao acervo do MASP, esta pintura é um testemunho da genialidade precoce de Rafael. Nascido em Urbino em 1483, o artista capturou nesta tábua de óleo a transição entre a rigidez medieval e a fluidez clássica. No centro da composição, Cristo surge triunfante sobre um sarcófago, portando a bandeira que simboliza a vitória sobre a morte, o fundamento central da fé cristã. A figura central de Jesus, envolta em uma serenidade quase geométrica, contrasta com o dinamismo e a confusão dos soldados romanos ao redor, uma metáfora visual do divino que interrompe a ordem terrena. 

Do ponto de vista técnico e histórico, a obra (inv. MASP.00017) é um tesouro nacional. Medindo 56,5 x 47 cm, a pintura demonstra a precisão de Rafael no uso da perspectiva e da luz. Sua chegada ao Brasil em 1958, por meio de uma doação coletiva liderada por figuras como Walther Moreira Salles e os Diários e Emissoras Associados, reforça o compromisso do país com a preservação da memória artística universal. 

Portanto, observar a "Ressurreição" de Rafael durante a Páscoa é realizar um exercício duplo: é reconhecer o triunfo da vida sobre a morte e, simultaneamente, o triunfo do engenho humano sobre o tempo. Através do pincel de Rafael, o evento da Páscoa deixa de ser apenas um relato textual para se tornar uma experiência visual eterna, onde a beleza da forma serve de ponte para a compreensão do sagrado. 

DADOS DA OBRA PARA REFERÊNCIA:

Título: Ressurreição de Cristo

Técnica: Óleo sobre madeira

Dimensões: 56,5 x 47 x 1,5 cm

Localização: Museu de Arte de São Paulo (MASP)

Créditos Fotográficos: João Musa

Referências Bibliográficas

Obra de Arte (Referência Principal)

SANZIO, Rafael. Ressurreição de Cristo. 1499-1502. 1 original de arte, óleo sobre madeira, 56,5 x 47 x 1,5 cm. Acervo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), São Paulo. Doação Walther Moreira Salles e outros, 1958. (Número de Inventário: MASP.00017).

Catálogo e Base de Dados

MUSEU DE ARTE DE SÃO PAULO (MASP). Acervo Online: Ressurreição de Cristo. São Paulo: MASP, 2026. 

Disponível em: https://masp.org.br/acervo/obra/ressurreicao-de-cristo.  

Acesso em: 04.abr. 2025. 

Referência Iconográfica (Fotografia)

MUSA, João. Ressurreição de Cristo (Rafael Sanzio). Créditos da fotografia para o Museu de Arte de São Paulo (MASP). São Paulo, 1958-2026.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




RAFAEL SANZIO - O MESTRE DO ENCANTO RENASCENTISTA 

Rafael Sanzio nasceu em Urbino, no dia 6 de abril de 1483, e faleceu em Roma, em 6 de abril de 1520. Frequentemente referido apenas como Rafael, foi um dos grandes mestres da pintura e da arquitetura da escola de Florença durante o Renascimento italiano. Celebrado pela perfeição e suavidade de suas obras, tornou-se símbolo da harmonia estética e da delicadeza artística que marcaram o período. 

Segundo historiadores e mestres da arte, o nome mais adequado para se referir a ele é Raffaello Santi, já que “Sanzio” fazia referência apenas ao seu local de nascimento, enquanto “Santi” era o sobrenome de seu pai, Giovanni Santi, pintor nascido em Lucca, na Toscana. Ao lado de Michelangelo Buonarroti e Leonardo da Vinci, Rafael forma a tríade de grandes mestres do Alto Renascimento, cada qual representando uma faceta única da genialidade artística. 

Urbino, capital do ducado homônimo, era na época um centro cultural vibrante. O duque Federico da Montefeltro, personificação do ideal renascentista do príncipe culto, incentivava todas as formas artísticas e transformara a cidade em um polo intelectual e artístico. Ali se reuniam nomes como Donato Bramante, Piero della Francesca e Leon Battista Alberti, que contribuíram para o florescimento de um ambiente criativo e inovador.

Foi nesse contexto que Rafael cresceu. Seu pai, Giovanni Santi, embora considerado um pintor de poucos méritos, era um homem culto e bem relacionado na corte. Transmitiu ao filho não apenas as primeiras lições de pintura, mas também o amor pela arte e pela cultura. Esse ambiente refinado e estimulante foi decisivo para o desenvolvimento precoce do talento de Rafael. 

Rafael destacou-se por uma característica singular: a suavidade e a harmonia de suas composições. Suas obras são marcadas por equilíbrio, proporção e delicadeza, qualidades que o tornaram admirado por contemporâneos e gerações posteriores. Enquanto Michelangelo impressionava pela força dramática e Leonardo pela profundidade intelectual, Rafael conquistava pela beleza serena e pela capacidade de transmitir emoções com naturalidade. 

Entre suas obras mais célebres estão os afrescos das Salas do Vaticano, como a “Escola de Atenas”, que sintetiza o espírito humanista do Renascimento ao reunir filósofos e pensadores da Antiguidade em uma composição grandiosa e equilibrada. Também se destacam suas Madonas, que se tornaram referência de ternura e perfeição formal. 

Além da pintura, Rafael também se dedicou à arquitetura. Foi nomeado arquiteto da Basílica de São Pedro em Roma após a morte de Bramante, e sua atuação contribuiu para o desenvolvimento da estética renascentista na arquitetura. Seu trabalho buscava unir funcionalidade e beleza, mantendo o ideal clássico de proporção e harmonia.

Rafael faleceu jovem, aos 37 anos, mas deixou um legado imenso. Sua obra influenciou não apenas seus contemporâneos, mas também artistas de séculos posteriores. Foi considerado o pintor da “graça” e da “beleza ideal”, e sua arte se tornou modelo de perfeição para academias e escolas de pintura. 

Sua vida curta, mas intensa, é lembrada como um dos capítulos mais brilhantes da história da arte. Rafael representa o ápice da pintura renascentista, e sua capacidade de unir técnica impecável, sensibilidade estética e profundidade cultural o consagra como um dos maiores artistas de todos os tempos.