
Antes que o tempo nos ensinasse a
medir as horas, o mundo era feito de puro espanto, o deslumbramento de quem
descobre o mundo pela primeira vez. O sobressalto bonito diante das coisas
simples: a surpresa, o impacto do novo, a curiosidade sem filtros. Não havia
distância entre o desejo e a imaginação: bastava fechar os olhos para voar,
erguer as mãos para tocar as estrelas e inventar um universo inteiro no quintal
de casa. Olhar para a vida com os olhos de uma criança é resgatar essa
capacidade de se maravilhar com o invisível e de encontrar poesia onde o mundo
adulto vê apenas pressa.
Guardamos no peito a memória de um
tempo em que os dias pareciam infinitos e o abraço de quem amávamos era um
abrigo inexpugnável contra qualquer tempestade. Um tempo de pés descalços na
terra, gargalhadas sem motivo e sonhos tão altos que desafiavam a própria
gravidade. Relembrar a infância não é olhar para o passado com nostalgia, mas
reacender a chama do encanto no presente.
Neste Dia 12 de outubro, celebramos
esse território sagrado chamado infância. Mais do que uma simples fase da vida
registrada em fotografias amareladas pelo tempo, a infância é um estado de
espírito, uma sabedoria límpida que o mundo, na sua afobação diária, muitas
vezes nos faz esquecer.
Ser criança é carregar na alma a
nobreza da simplicidade. É ter os joelhos ralados como medalhas de coragem e o
sorriso solto, sem a maquiagem da etiqueta. A criança não calcula o tempo pelo
relógio, mas pelo tamanho do entusiasmo; não mede o valor das coisas pelo
preço, mas pela alegria que elas despertam. Para ela, o vento não é sopro de
ar, é mistério; uma joaninha na mão é um milagre vivo; e o abraço de quem ama é
o refúgio mais seguro contra qualquer tempestade. As crianças nos ensinam,
diariamente, que a vida não precisa ser complicada para ser extraordinária.
Mas a magia não para quando crescemos.
O maior segredo da existência, aquele que os poetas sussurram e os sábios buscam
nos livros, é que a infância nunca realmente vai embora. Ela não morre com a
chegada da maturidade; apenas adormece quietinha em um canto quentinho do nosso
peito, esperando pelo momento certo de despertar.
A criança que fomos continua viva
dentro de cada um de nós. Ela está lá quando a gente ri até a barriga doer por
uma bobagem qualquer; quando sentimos aquele arrepio gostoso de expectativa
antes de uma surpresa; quando olhamos para as nuvens no céu e, por um breve
segundo, voltamos a enxergar nelas dragões, castelos e passarinhos. É a nossa
criança interior que nos devolve a capacidade de se indignar contra as
injustiças, de amar com pureza desarmada e de recomeçar do zero sem carregar o
peso do passado.
Quando abafamos a nossa criança
interna, a vida fica cinzenta, pesada e mecânica. Viramos prisioneiros das
certezas e esquecemos a beleza das perguntas. Por isso, neste dia tão especial,
o convite não é apenas para presentear os pequenos que correm pela casa com
seus risos cristalinos e pés descalços. O convite é também para estender a mão à
sua própria criança interior.
Abrace a sua história. Perdoe seus
tropeços com a mesma leveza com que a criança se levanta após uma queda no
parque, limpa a poeira da roupa e volta a correr. Permita-se ter momentos de
puro encanto despretensioso. Corra na chuva sem medo de se molhar, coma o seu
doce favorito sem culpa, olhe para as estrelas e faça um pedido de coração
aberto, acreditando, nem que seja por um instante, que o impossível é apenas
uma questão de imaginação.
Que hoje possamos proteger as crianças
do nosso presente, garantindo-lhes amor,
segurança, brincadeiras e o direito sagrado de sonhar. E que, ao mesmo tempo,
possamos libertar a criança do nosso passado, deixando que ela ilumine os
nossos passos de adultos com a sua luz interminável, sua curiosidade bonita e
sua fé inabalável no amanhã.
Feliz Dia das Crianças a todas as
infâncias: as que florescem lá fora e a que brilha eternamente do lado de
dentro.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
A HISTÓRIA POR TRÁS DO DIA
DAS CRIANÇAS: DA CONSCIENTIZAÇÃO AO CALENDÁRIO AFETIVO
A
celebração da infância é um gesto universal, mas a forma de registrá-la no
calendário revela particularidades históricas e culturais em cada canto do
planeta. Enquanto no português europeu convencionou-se dizer “Dia da Criança” e
no Brasil predomina o plural “Dia das Crianças”, a escolha das datas reflete
caminhos que mesclam diplomacia internacional, políticas públicas e estratégias
comerciais.
O
compromisso global com a proteção dos pequenos ganhou força em 1925, quando a
Conferência Mundial para o Bem-Estar da Criança, realizada em Genebra,
proclamou o Dia Internacional da Criança. Desde então, nações como
Portugal, Angola e Moçambique adotaram o dia 1º de junho para marcar a
ocasião.
Décadas
mais tarde, as Nações Unidas (ONU) estabeleceram o 20 de novembro como o
Dia Mundial da Criança. A escolha remete a marcos fundamentais dos
direitos humanos: a aprovação da Declaração Universal dos Direitos da Criança,
em 1959, e a promulgação da Convenção sobre os Direitos da Criança, em 1989.
No
Brasil, o 12 de outubro possui uma trajetória singular. A ideia original
partiu do deputado federal Galdino do Valle Filho em 1924, sendo oficializada
pelo presidente Arthur Bernardes por meio do Decreto nº 4.867. Contudo, durante
décadas, a data permaneceu praticamente esquecida no cotidiano da população.
Em 1940,
no Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas tentou remanejar a celebração para 25
de março, vinculando-a às políticas estatais de assistência à maternidade,
saúde e educação juvenil. Mais do que uma festa, a intenção era "trazer à
memória" e avivar a consciência pública para o dever de proteção social à
família.
A virada
definitiva do 12 de outubro como grande celebração popular só ocorreu a partir
da década de 1950. Movidos pelo sucesso de campanhas publicitárias como a
"Semana do Bebê Robusto", promovida em conjunto pela Fábrica de
Brinquedos Estrela e pela Johnson & Johnson, os fabricantes do setor
infantil decidiram resgatar o antigo decreto de 1924. A estratégia comercial
unificou a data, transformando o dia das crianças em um dos momentos mais
aguardados do ano.