O quadro Efemérides do Focus Portal
Cultural celebra nesta data, 20 de janeiro de 2026, os 160 anos do nascimento
de Euclides da Cunha, escritor, jornalista e engenheiro que se tornou um dos
maiores intérpretes do Brasil profundo. Nascido em Cantagalo, interior do Rio
de Janeiro, Euclides marcou a história da literatura nacional com sua obra
monumental Os Sertões (1902), síntese de ciência, arte e denúncia social. Sua
trajetória, marcada por inquietação intelectual, engajamento político e
tragédia pessoal, permanece viva como testemunho da busca por compreender o
país em sua complexidade.
No dia 20 de janeiro de 2026,
celebramos os 160 anos do nascimento de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha em Cantagalo,
RJ, 20 de janeiro de 1866 e falecido no Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909,
escritor, jornalista, engenheiro e pensador que se tornou um dos maiores nomes
da cultura brasileira. Sua obra, marcada pela inquietação intelectual e pela
busca de compreender o Brasil em sua complexidade, permanece como referência
incontornável na literatura e na historiografia nacional.
Euclides nasceu na Fazenda Saudade, em
Santa Rita do Rio Negro, município de Cantagalo, interior do Rio de Janeiro.
Filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira da Cunha,
enfrentou desde cedo as dificuldades da vida. Sua mãe faleceu de tuberculose
quando ele tinha apenas três anos, deixando o pai viúvo com dois filhos
pequenos. A infância de Euclides foi marcada por deslocamentos constantes entre
cidades como São Fidélis, Teresópolis e Nova Friburgo, vivendo em casas de
parentes e experimentando a instabilidade que moldaria sua visão crítica sobre
a sociedade brasileira.
Em 1883, ingressou no Colégio Aquino,
onde foi aluno de Benjamin Constant, figura central na difusão do positivismo
no Brasil. Constant exerceu grande influência sobre o jovem Euclides,
introduzindo-o às ideias republicanas e ao pensamento científico. Dois anos depois,
Euclides entrou na Escola Politécnica e, em 1886, na Escola Militar da Praia
Vermelha, onde novamente encontrou Benjamin Constant como professor.
Na Escola Militar, Euclides
destacou-se não apenas pelo talento intelectual, mas também pelo espírito
contestador. Em um episódio célebre, durante uma revista às tropas, lançou sua
espada aos pés do ministro da Guerra, Tomás Coelho, como gesto de protesto
contra o regime monárquico. Esse ato de rebeldia lhe custou um processo
disciplinar e, em 1888, seu desligamento do Exército.
Apesar disso, Euclides manteve-se
ativo na propaganda republicana, escrevendo para o jornal A Província de S.
Paulo (atual O Estado de S. Paulo). Com a Proclamação da República em 1889, foi
reintegrado ao Exército e chegou a ocupar o posto de primeiro-tenente, além de
obter o título de bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais.
Casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Sólon Ribeiro, um dos líderes
da proclamação republicana.
Em 1897, Euclides foi enviado como
correspondente de guerra para cobrir a Guerra de Canudos, conflito que opôs o
Exército Brasileiro aos sertanejos liderados por Antônio Conselheiro, na Bahia.
Inicialmente, como muitos republicanos, acreditava que o movimento tinha
caráter monarquista e representava uma ameaça à jovem República.
No entanto, sua experiência em campo
transformou sua visão. Ao observar a realidade dos sertanejos, Euclides
percebeu que se tratava de uma sociedade marginalizada, profundamente distinta
da vida litorânea e urbana. Essa descoberta foi decisiva para a elaboração de
sua obra-prima, Os Sertões, publicada em 1902.
OS SERTÕES: CIÊNCIA, LITERATURA E
DENÚNCIA
Os Sertões é dividido em três partes:
A Terra, O Homem e A Luta.
Em A Terra, Euclides descreve a
geografia, a flora, a fauna e o clima do sertão nordestino, utilizando
linguagem científica e detalhada.
Em O Homem, analisa os costumes, a
religiosidade e a vida social dos sertanejos, revelando um Brasil profundo e
esquecido.
Em A Luta, narra as quatro expedições
militares contra Canudos, culminando na destruição do arraial e no massacre da
população.
A obra combina rigor científico,
estilo literário vigoroso e denúncia social. Ao mesmo tempo em que descreve a
tragédia de Canudos, Euclides revela a violência do Estado contra uma população
marginalizada. Os Sertões tornou-se um marco do pré-modernismo brasileiro,
antecipando o regionalismo e influenciando o modernismo.
O sucesso de Os Sertões projetou
Euclides da Cunha internacionalmente. Em 1903, foi eleito para a Academia
Brasileira de Letras e também para o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Sua reputação como intelectual engajado consolidou-se, e ele passou
a ser visto como uma voz crítica da República.
Entre 1904 e 1905, Euclides chefiou
uma missão de demarcação de fronteiras na Amazônia, experiência que resultou em
escritos de denúncia sobre as condições da região e sobre a exploração dos trabalhadores.
Ao retornar ao Rio de Janeiro, trabalhou no gabinete do Barão do Rio Branco,
ministro das Relações Exteriores.
A vida pessoal de Euclides foi marcada
por conflitos. Seu casamento com Ana Emília Ribeiro tornou-se conturbado devido
ao relacionamento extraconjugal dela com o jovem militar Dilermando de Assis.
Em 15 de agosto de 1909, Euclides tentou confrontar Dilermando, mas acabou
morto a tiros, episódio que ficou conhecido como a Tragédia da Piedade.
Essa morte violenta encerrou
precocemente a trajetória de um dos maiores intelectuais brasileiros, mas
também contribuiu para a aura trágica que envolve sua figura.
Apesar de sua vida breve, Euclides da
Cunha deixou um legado duradouro. Sua obra continua a ser estudada em
universidades e inspira eventos culturais, como a Semana Euclidiana, realizada
em cidades ligadas à sua trajetória, especialmente em São José do Rio Pardo,
onde escreveu Os Sertões.
No centenário de sua morte, em 2009,
diversas homenagens foram realizadas, incluindo o projeto “100 Anos Sem
Euclides”, com exposições e atividades culturais em sua cidade natal. Hoje, aos
160 anos de seu nascimento, sua obra permanece atual, revelando um Brasil que
ainda luta contra desigualdades e invisibilidades.
Celebrar Euclides da Cunha é celebrar
a força da literatura como instrumento de denúncia e de revelação da realidade
nacional. Sua escrita, marcada por neologismos, vigor estilístico e
profundidade analítica, continua a ecoar como testemunho da luta de um povo e
da inquietação de um intelectual que buscou compreender o Brasil em sua
totalidade.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
Primos Arnaldo, Euclides e Nestor Pimenta da Cunha c. 1900
Casa de Zinco em São José do Rio Pardo onde Euclides da Cunha escreveu "Os Sertões"
Homenagem filatélica do Correio do Brasil em 1965.
Folha de rosto de Os Sertões (1902)
Missão de Euclides da Cunha a Amazônia
A
MORTE DE EUCLIDES DA CUNHA
Na
manhã chuvosa de 15 de agosto de 1909, o escritor Euclides da Cunha, aos 43
anos, foi morto em circunstâncias dramáticas na Estrada Real de Santa Cruz nº
214, atual Avenida Dom Élder Câmara. O episódio ocorreu por volta das 10h de um
domingo, após uma noite de insônia em que Euclides fumou cinco maços de
cigarros.
Às
6h, deixou sua residência em Copacabana e seguiu até Botafogo, onde buscou um
revólver calibre 22, velho e enferrujado, emprestado por seus primos Arnaldo e
Nestor. Às 9h, chegou à casa de Dilermando de Assis, na Piedade. Ao entrar,
declarou: “Vim para matar ou morrer”. Disparou sete vezes contra o rival, mas
Dilermando, armado com um Nagant, respondeu com cinco tiros. Euclides caiu
mortalmente ferido ao sair da casa, encerrando de forma trágica a trajetória de
um dos maiores nomes da literatura brasileira.