O relógio marcava o compasso da
eternidade na tarde de 05 de abril de 2026. Em Niterói, onde o mar de Icaraí
sempre sussurra preces às areias, a Paróquia e Santuário São Judas Tadeu abriu
suas portas não apenas para uma celebração litúrgica, mas para um encontro vivo
com o Mistério.
Cruzar o umbral da igreja como de
praxe, junto à minha Shirley, nesta Páscoa, foi como deixar para trás as
poeiras do tempo comum para mergulhar na clareza do Dia que não conhece o
ocaso.
A celebração ganhou uma alma vibrante
sob a presidência do Padre Carlos Alberto Mesquita de Andrade. Vindo de sua
missão na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Manilha, ele trouxe consigo o
vigor de quem celebra o altar com o corpo e o espírito. No presbitério, sua
imagem não era apenas a de um celebrante, mas a de um regente de almas. No
momento do canto, ao elevar os braços, Padre Carlos Alberto parecia conduzir
uma invisível orquestra celestial, transformando a assembleia em um coro de
anjos que entoava a vitória da vida com uma entonação impecável, rara de se
ouvir, onde cada voz era um fio de luz tecido na tapeçaria do louvor.
O rito iniciou-se com a Aspersão da
Água Benta. Enquanto o sacerdote percorria a nave central com o aspergilo, as
gotas cristalinas que tocavam os fiéis não eram apenas símbolos; eram o orvalho
da ressurreição. Cada gota lembrava o nosso Batismo, purificando os sentidos e
renovando a promessa de proteção contra o mal, preparando o coração para o que
os olhos da fé estavam prestes a contemplar.
A liturgia da palavra nos conduziu
pelo testemunho corajoso de Pedro. Ouvimos, nos Atos dos Apóstolos, a síntese
do caminho de Jesus de Nazaré: aquele que passou fazendo o bem, ungido pelo
Espírito, e que, embora morto no madeiro da cruz, foi erguido por Deus ao
terceiro dia. "Nós comemos e bebemos
com Ele", dizia todo o contexto, e naquelas palavras sentíamos a mesma
fome de eternidade que movia as primeiras comunidades.
O Salmo Responsorial (117) ecoou como
o grito de liberdade de um povo: "Este
é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!".
Não era um convite opcional, mas uma constatação que transbordava das fileiras
de bancos. Logo após, a exortação de São Paulo aos Colossenses nos elevou: se
ressuscitamos com Cristo, nosso olhar deve se voltar para o alto, para o
triunfo, para a glória que já nos habita, embora ainda escondida nos mistérios
de Deus.
Não se pode narrar o crepúsculo desta
Páscoa sem mergulhar na beleza acústica que transbordou da nave central,
envolvendo cada fiel em um manto de harmonia. Com um repertório escolhido a
dedo, a corolista e cantora litúrgica Poliana Arantes, detentora de uma técnica
e sensibilidade ímpares, não apenas cantou; ela emprestou sua voz para que os
hinos de glória ganhassem corpo e transcendência. Cada nota que partia de seus
lábios carregava o peso de séculos de fé, elevando as preces da assembleia até
as abóbadas da paróquia.
Ao seu lado, ao órgão, a talentosa
Isadora tornava-se uma extensão do próprio instrumento. De seus dedos ágeis,
brotavam notas que pareciam descer diretamente das esferas celestiais,
preenchendo os vácuos do silêncio com uma majestade divina. O entrosamento
entre as irmãs, uma simbiose de sangue e espírito, transformou a música em
oração em estado puro. O "Cristo Venceu, Aleluia!" deixou de ser um
cântico comum para tornar-se uma experiência mística avassaladora, uma vibração
que reverberava em cada vitral colorido e fazia o ar vibrar com a certeza da
vida. Naquele instante, o som não era apenas ouvido; era sentido como um abraço
do Ressuscitado, provando que, onde a palavra silencia, a música das irmãs fala
diretamente ao coração do Pai.
No momento do Ofertório, o altar foi
preparado com as nossas humildes ofertas, e o canto de consagração preparou o
espírito para o "Santo, Santo, Santo". Mas foi na hora da Comunhão
que o tempo pareceu parar. Enquanto os fiéis se aproximavam para receber a
Eucaristia, os sinos da Paróquia São Judas Tadeu começaram a dobrar. O som do
bronze batendo contra o ar misturava-se ao canto de comunhão:
"Ressurgiremos por crer, nesta vida escondida no pão". Era o ponto
alto. O encontro do Criador com a criatura, selado pelo repique festivo que
anunciava ao bairro de Icaraí: O túmulo está vazio! Ele está vivo entre nós!
É justo destacar a trajetória do Padre
Carlos Alberto. Com dez anos de sacerdócio completados em 2024, ele é um operário
da fé que, desde 2021, conduz com zelo a comunidade de Manilha, em Itaboraí.
Sua presença em nossa paróquia foi um presente pascal, um testemunho de que a
Igreja é uma só, unida pelo mesmo Espírito e pela mesma missão de curar e
pregar o perdão.
Ao término da celebração, o átrio da
igreja tornou-se um cenário de afetos. Encontramos amigos queridos, Licia
Lucas, a nossa Dama do Piano, com sua aura artística, o empresário e
pesquisador Marne Serrano e a incansável Vera Lúcia da Pastoral da Paróquia.
Ali, nos sorrisos trocados e nos abraços de "Feliz Páscoa",
percebemos que a ressurreição se faz carne também na amizade e na comunhão dos
santos que caminham no cotidiano.
Saímos da Paróquia São Judas Tadeu com
a alma lavada e o passo mais leve. A Páscoa de 2026 ficará gravada não apenas
como um registro jornalístico, mas como um poema escrito pelo próprio Deus no
coração de cada fiel. O Senhor de fato ressuscitou. Ele não é uma imagem de
gesso ou uma metáfora literária; Ele é a presença que aquece as manhãs, tardes
e noites de domingo e que nos envia de volta ao mundo com a certeza de que a
morte não tem a última palavra.
Icaraí hoje não é apenas um bairro de
Niterói; é um território de esperança, onde o Cristo Vivo caminha entre os
prédios, as árvores e o mar, sussurrando a cada um de nós: "Eu estou
convosco todos os dias, até o fim dos tempos". Amém. Aleluia!
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HOMILIA DE PÁSCOA - O TESTEMUNHO DO
RESSUSCITADO
Pelo Padre Carlos Alberto Mesquita de
Andrade
"Por
isso nós podemos dizer e vivemos isso hoje, neste dia: Cristo ressuscitou!
Cristo está vivo, Cristo está entre nós. As Sagradas Leituras de hoje nos
colocam exatamente nesse caminho.
Na primeira leitura, vimos o anúncio
da Igreja que proclama Cristo morto e ressuscitado. Pedro proclamou que Ele foi
morto, mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia, indicando que a iniciativa é
divina. Aquele Jesus que morreu é, verdadeiramente, o Filho de Deus; Ele é o
próprio Deus. Por isso, o Pai o ressuscitou. Pedro não apresenta apenas um
'contar de histórias' ou uma narrativa vazia; ele proclama um fato: 'Ele foi
morto, mas Deus o ressuscitou'. E quem viu? Nós! Nós, os apóstolos; nós, que
comemos e bebemos com Ele. Ele se manifestou a nós e nos mandou anunciar.
Portanto, a nossa missão é fruto do testemunho; é fruto de uma fé testemunhada.
O Evangelho de hoje nos mostra o que
eles viram e experimentaram. Maria Madalena vai dizer aos discípulos a Pedro e
ao discípulo que Jesus amava o que encontrou. Eles foram ao sepulcro e viram. É
bonito notar os detalhes que João coloca: há sinais claros da Ressurreição. Por
que o evangelista detalha que os panos estavam no chão, mas o sudário que
cobria o rosto estava enrolado à parte? Ele indica que não houve fraude. Se
alguém tivesse roubado o corpo, teria a preocupação de enrolar o pano do rosto
e colocá-lo em outro lugar? Seria mais coerente levar tudo ou deixar tudo
jogado.
A Escritura nos dá esse sinal. E
diante dele, o que João escreve? 'O discípulo viu e creu'. No lugar do medo,
nasce a fé. No lugar da escuridão, do desespero e da dor da cruz, nasce agora a
esperança neste Senhor que está vivo. E essa Ressurreição, amados irmãos e
irmãs, transforma a nossa existência. É o que São Paulo nos diz: somos um povo
de ressuscitados. A Ressurreição aconteceu no tempo, mas ela nos alcança hoje
pelo nosso batismo.
E como viver essa ressurreição? São
Paulo ensina: 'Buscai as coisas do alto'.
Viver como ressuscitado é buscar os valores de Cristo, os valores da Escritura.
Por isso, amado povo da Paróquia São Judas de Icaraí, hoje somos chamados a
proclamar Cristo vivo com o nosso testemunho. Não sejamos meros espectadores;
entremos neste mistério de vida. Despojemo-nos do homem velho e busquemos o que
nos une a Deus.
Não gastem suas energias com coisas
que não levam a nada, que não nos elevam. Não fiquem presos ao egoísmo, aos
ressentimentos ou aos valores deste mundo, que tantas vezes são a desunião, o
apego ao poder e a sede desenfreada de ter. Hoje somos chamados a nos elevar!
Busquem valores, busquem relacionamentos saudáveis, busquem uma fé viva que os
faça crescer, que os torne pessoas melhores e cristãos melhores.
Não fiquem apegados às suas
limitações, mas busquem aquilo que realmente dá sentido à vida. A Ressurreição
que hoje nos toca nos projeta para o futuro, para a vida eterna. Essa vida que
recebemos do Ressuscitado será plena quando estivermos nela, mas ela precisa
ser vívida aqui e agora. Como dizemos na Santa Missa: 'O nosso coração está em
Deus'. Sim, o coração em Deus, enquanto estamos aqui com nossas mãos e pés em
missão, testemunhando o Senhor com o coração já no céu. Porque sabemos que tudo
o que vivemos pela fé se tornará pleno e claro quando estivermos, finalmente,
diante do Senhor Ressuscitado. Por isso, amados irmãos e irmãs, vivamos como
homens e mulheres verdadeiramente ressuscitados!"
ORAÇÃO
AO FINAL - A GRAÇA DA RESSURREIÇÃO
"Senhor, o que buscamos é a
Ressurreição que faz as trevas cederem lugar à Luz. Pedimos agora a coragem de
poder anunciar o Verbo e ressaltar a Tua presença em nós. Hoje, pedimos essa
graça, Senhor: não deixes que o desânimo ou os cargos do mundo nos envenenem.
Tira-nos, Senhor, do sepulcro de nossa existência; do sepulcro da vaidade
humana; do sepulcro do conflito e da desunião entre a gente. Tira-nos do sepulcro
da falta de fé e da falta de esperança.
Preenche-nos, Senhor, com a certeza de
que Deus nos ajudará. O Senhor não nos abandonará! Diante das nossas
dificuldades, dá-nos esta certeza e este auxílio para cuidarmos do mundo e
enfrentarmos as incertezas. Que o nosso testemunho seja a prova de que Tu estás
vivo. Amém!"
© Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
05 de abril de 2026 – Domingo de
Páscoa.