sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O CORAÇÃO QUE ENVELHECE DEVAGAR - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Há dias em que o coração fala mais alto do que qualquer relógio. Não é o tic-tac que nos lembra da passagem do tempo, mas um murmúrio interno, uma espécie de confidência silenciosa que insiste em nos acompanhar. O coração, esse velho companheiro, não se deixa enganar por calendários: ele sabe que a velhice não começa nos cabelos brancos, mas na maneira como olhamos para o mundo. 

A velhice, afinal, é uma estação que chega sem anúncio. Não há trombetas, não há placas na estrada. Um dia, você percebe que já não corre para pegar o ônibus; prefere esperar o próximo. Descobre que o jornal da manhã traz mais lembranças do que novidades. E, sobretudo, nota que o coração já não dispara por qualquer coisa: ele escolhe, com uma sabedoria que só os anos dão, os momentos em que vale a pena se acelerar. 

O meu mestre cronista dizia que escrever era como conversar com um amigo invisível. Talvez seja isso que faço agora: converso com você, leitor, como quem abre a janela ao entardecer e deixa o vento entrar. O coração, nesse instante, é o narrador. Ele fala de momentos felizes que ficaram na infância,  de ruas que mudaram de nome, de árvores que cresceram sem que percebêssemos. Fala também da velhice como quem fala de uma visita esperada: não é inimiga, é apenas alguém que chega para nos lembrar de que o tempo tem seu ritmo. 

O coração envelhece devagar. Ele guarda memórias como quem guarda cartas antigas em uma caixa de sapatos. Cada batida é uma lembrança: o primeiro beijo, o medo da guerra, o nascimento de um filho, o silêncio de uma despedida. E, no entanto, continua pulsando com uma teimosia bonita, como se dissesse: “Permaneço aqui, apesar de tudo.” 

A velhice é feita de pequenas descobertas. Descobrimos que o corpo já não obedece como antes, mas também que a alma se torna mais leve. Há uma liberdade estranha em aceitar que não precisamos mais provar nada a ninguém. O coração, cansado de correr, aprende a caminhar. E nessa caminhada lenta, há uma beleza que só quem envelhece pode compreender.

Lembro-me de um velho sentado na praça, olhando as crianças brincarem. Ele não sorria nem chorava; apenas observava, como quem guarda um segredo. Talvez seu coração estivesse contando histórias que ninguém mais podia ouvir. Talvez estivesse apenas agradecendo por ainda estar ali, testemunha silenciosa da vida que continua. 

O coração, quando envelhece, aprende a ouvir. Já não se apressa em julgar, já não se irrita com bobagens. Ele sabe que cada pessoa carrega sua própria dor, e que não há tempo a perder com ressentimentos. A velhice nos ensina a perdoar, não por virtude, mas por economia: guardar rancor dá trabalho, e o coração prefere descansar. 

Há quem tema a velhice como se fosse um inimigo. Eu a vejo como uma paisagem nova. É como chegar a uma cidade desconhecida: no começo, estranhamos as ruas, os sotaques, os cheiros. Depois, percebemos que há beleza em cada esquina. A velhice é essa cidade: exige paciência, mas oferece recompensas inesperadas. O coração, turista experiente, sabe que não adianta correr; é preciso andar devagar, apreciar o caminho. 

O coração também se torna mais sábio no amor. Já não se ilude com paixões repentinas, mas valoriza os gestos pequenos: um café compartilhado, uma conversa sem pressa, um silêncio confortável. A velhice nos mostra que o amor não precisa de fogos de artifício; basta uma chama discreta, que aquece sem queimar. O coração, nesse ponto, é como uma lamparina antiga: ilumina pouco, mas ilumina o suficiente. 

E há a solidão. A velhice traz consigo uma solidão inevitável, como uma sombra que nos acompanha. Amigos se vão, familiares se afastam, o mundo parece correr em outra velocidade. Mas o coração aprende a conviver com essa sombra. Descobre que a solidão não é ausência, mas presença de si mesmo. É nesse silêncio que ouvimos melhor o coração, e ele nos conta coisas que antes não tínhamos tempo de escutar. 

O coração envelhece, mas não se rende. Ele continua batendo, mesmo quando o corpo já não responde. É como um pássaro que insiste em cantar, mesmo em dias de chuva. E esse canto, ainda que frágil, é uma prova de resistência. A velhice, afinal, não é o fim: é apenas uma etapa, um capítulo que se escreve com mais calma.

O meu mestre cronista gostava de falar das coisas simples: uma flor na janela, um gato dormindo, um amigo que chega sem avisar. Talvez seja isso que a velhice nos ensina: a valorizar o simples. O coração, cansado de grandes aventuras, encontra alegria em pequenos detalhes. E é nessa simplicidade que descobrimos uma forma de felicidade que não conhecíamos. 

O coração, quando envelhece, se torna mais humano. Ele aceita suas falhas, reconhece seus limites, mas também celebra suas vitórias. Cada cicatriz é uma medalha, cada batida é um testemunho. A velhice é o palco onde o coração se apresenta sem máscaras, sem ilusões. E nesse espetáculo discreto, há uma beleza que não se encontra na juventude. 

Talvez seja isso que significa “ouvir o coração”: aceitar que ele tem sua própria música, que não segue modas nem tendências. É uma música antiga, feita de lembranças e esperanças. E, mesmo na velhice, essa música continua. O coração, maestro paciente, rege a orquestra da vida até o último acorde.

No fim, o coração nos ensina que envelhecer não é perder, mas ganhar outra perspectiva. É como subir uma montanha: lá embaixo, tudo parecia urgente; lá em cima, vemos que o mundo é maior do que nossas pressas. A velhice é esse mirante, e o coração é o guia que nos mostra a paisagem. E, se ouvirmos com atenção, perceberemos que há beleza em cada detalhe, mesmo nos mais discretos.

O coração envelhece devagar, mas nunca deixa de ser jovem em algum canto escondido. Há sempre uma batida que lembra um amor antigo, uma aventura esquecida, uma esperança que resiste. A velhice não apaga a juventude; apenas a transforma em memória. E o coração, guardião fiel, continua a pulsar, lembrando-nos de que estamos vivos. 

Assim, ouvindo o coração, aprendemos que a velhice não é um peso, mas uma dádiva. É a chance de olhar para trás com serenidade, de olhar para frente com humildade, e de olhar para dentro com gratidão. O coração, velho e sábio, nos conduz por esse caminho. E, ao final, descobrimos que envelhecer é apenas outra forma de amar a vida. 

© Alberto Araújo

 




 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

05 DE FEVEREIRO DE 2026 CELEBRAMOS OS 139 ANOS DA ESTREIA DA ÓPERA “OTELLO” DE GIUSEPPE VERDI - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL

A ópera é uma das mais complexas e fascinantes expressões artísticas criadas pelo ser humano. Nela, música, poesia, teatro e artes visuais se entrelaçam para dar forma a uma experiência estética total, capaz de tocar profundamente o espírito. Desde o seu nascimento no século XVII, a ópera tornou-se um espelho da humanidade, refletindo paixões, dilemas, conquistas e tragédias. Mais do que entretenimento, ela é um espaço de encontro entre culturas, épocas e sensibilidades, onde o poder da voz humana se eleva ao sublime e nos lembra da nossa capacidade de criar beleza mesmo diante das adversidades. Celebrar a estreia de uma obra como Otello, de Giuseppe Verdi, é celebrar também a força da ópera como linguagem universal, que atravessa fronteiras e séculos para nos falar sobre aquilo que é essencialmente humano. 

No dia 5 de fevereiro de 1887, o mundo da música testemunhou um dos momentos mais grandiosos da história da ópera: a estreia de “Otello”, penúltima obra de Giuseppe Verdi, no célebre Teatro alla Scala de Milão. A noite foi marcada por expectativa, emoção e pela consagração de uma parceria artística que redefiniu os rumos da ópera italiana: Verdi e o libretista Arrigo Boito. 

Giuseppe Verdi já era, àquela altura, um mito vivo. O compositor de Busseto havia conquistado fama internacional com obras como Rigoletto, La Traviata e Aida. Contudo, após a estreia de Aida em 1871, Verdi parecia inclinado a se afastar da composição operística. Muitos acreditavam que sua carreira havia chegado ao fim. Foi nesse cenário que surgiu Boito, poeta e músico, que conseguiu despertar em Verdi o desejo de enfrentar um novo desafio: transformar em música uma das tragédias mais intensas de William Shakespeare, o dramaturgo que Verdi venerava. 

A escolha de Othello, the Moor of Venice não foi casual. Shakespeare havia sido, desde sempre, uma fonte de inspiração para Verdi. O compositor já havia se aventurado com Macbeth em 1847 e sonhava em dar vida a King Lear, projeto que nunca se concretizou. Com Otello, Verdi encontrou o terreno ideal para explorar os dilemas humanos mais profundos: o ciúme, a manipulação, a honra e a tragédia da destruição de um amor puro. 

Arrigo Boito foi decisivo. Seu libreto condensou a peça shakespeariana sem perder a densidade dramática. Boito soube respeitar o espírito do original, mas também deu espaço para que Verdi criasse uma música que não fosse mero acompanhamento, mas sim protagonista da narrativa. O resultado foi uma obra em quatro atos que se tornou um marco da ópera moderna, pela fusão perfeita entre texto e música. 

Na noite de 5 de fevereiro de 1887, o Teatro alla Scala estava lotado. A elite cultural europeia aguardava com ansiedade o retorno de Verdi aos palcos. Quando o maestro levantou a batuta, o público foi arrebatado por uma abertura que dispensava a tradicional sinfonia inicial: Verdi preferiu começar com uma tempestade em alto mar, um recurso ousado que mergulhava imediatamente os espectadores no drama. A recepção foi apoteótica. Críticos e público reconheceram que estavam diante de uma obra-prima. 

Ambientada na ilha de Chipre, no final do século XV, a ópera narra a ascensão e queda do mouro Otello, general veneziano que, enredado pelas intrigas de Iago, é consumido pelo ciúme contra sua esposa Desdêmona. A música de Verdi amplifica cada nuance psicológica: o lirismo dos duetos amorosos, a tensão crescente das manipulações de Iago, o desespero final de Otello. É uma tragédia musical que não dá respiro, conduzindo o público ao abismo da emoção.

Considerada por muitos como a maior tragédia de Verdi, Otello não apenas reafirmou o gênio do compositor, mas também abriu caminho para sua última obra, Falstaff, igualmente baseada em Shakespeare. Juntas, essas duas óperas demonstram a vitalidade criativa de Verdi em sua maturidade, quando muitos já o julgavam aposentado. 

Hoje, 139 anos após sua estreia, Otello continua a ser encenada nos principais teatros do mundo, desafiando cantores e regentes, emocionando plateias e reafirmando a universalidade da música de Verdi. É uma obra que transcende o tempo, lembrando-nos de que o ciúme, a manipulação e a fragilidade humana são temas eternos.

Celebrar a estreia de Otello é celebrar não apenas uma efeméride musical, mas um marco da cultura universal. Verdi, ao lado de Boito e inspirado por Shakespeare, deu ao mundo uma obra que permanece viva, vibrante e necessária. No palco da Scala, em 1887, nasceu uma tragédia que ainda hoje nos ensina sobre os limites da paixão e os abismos da alma humana.

A ópera permanece, ainda hoje, como um dos pilares da cultura mundial. Sua importância não se limita ao palco: ela nos ensina sobre a condição humana, sobre os abismos da emoção e sobre a grandeza da imaginação artística. Obras como Otello demonstram que a ópera é mais do que espetáculo; é uma herança espiritual que nos conecta ao passado e nos projeta para o futuro. Ao unir música e drama em uma síntese arrebatadora, Verdi nos lembra de que a arte tem o poder de iluminar nossas sombras e de revelar, em cada nota, a profundidade da alma humana. Celebrar a ópera é celebrar a própria humanidade, pois nela encontramos não apenas beleza, mas também a verdade de quem somos. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



















 

 


 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

20 DE JANEIRO DE 2026 EFEMÉRIDES – 160 ANOS DE EUCLIDES DA CUNHA - FOCUS PORTAL CULTURAL, POR ALBERTO ARAÚJO

 


O quadro Efemérides do Focus Portal Cultural celebra nesta data, 20 de janeiro de 2026, os 160 anos do nascimento de Euclides da Cunha, escritor, jornalista e engenheiro que se tornou um dos maiores intérpretes do Brasil profundo. Nascido em Cantagalo, interior do Rio de Janeiro, Euclides marcou a história da literatura nacional com sua obra monumental Os Sertões (1902), síntese de ciência, arte e denúncia social. Sua trajetória, marcada por inquietação intelectual, engajamento político e tragédia pessoal, permanece viva como testemunho da busca por compreender o país em sua complexidade.

No dia 20 de janeiro de 2026, celebramos os 160 anos do nascimento de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha em Cantagalo, RJ, 20 de janeiro de 1866 e falecido no Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909, escritor, jornalista, engenheiro e pensador que se tornou um dos maiores nomes da cultura brasileira. Sua obra, marcada pela inquietação intelectual e pela busca de compreender o Brasil em sua complexidade, permanece como referência incontornável na literatura e na historiografia nacional.

Euclides nasceu na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, município de Cantagalo, interior do Rio de Janeiro. Filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira da Cunha, enfrentou desde cedo as dificuldades da vida. Sua mãe faleceu de tuberculose quando ele tinha apenas três anos, deixando o pai viúvo com dois filhos pequenos. A infância de Euclides foi marcada por deslocamentos constantes entre cidades como São Fidélis, Teresópolis e Nova Friburgo, vivendo em casas de parentes e experimentando a instabilidade que moldaria sua visão crítica sobre a sociedade brasileira. 

Em 1883, ingressou no Colégio Aquino, onde foi aluno de Benjamin Constant, figura central na difusão do positivismo no Brasil. Constant exerceu grande influência sobre o jovem Euclides, introduzindo-o às ideias republicanas e ao pensamento científico. Dois anos depois, Euclides entrou na Escola Politécnica e, em 1886, na Escola Militar da Praia Vermelha, onde novamente encontrou Benjamin Constant como professor. 

Na Escola Militar, Euclides destacou-se não apenas pelo talento intelectual, mas também pelo espírito contestador. Em um episódio célebre, durante uma revista às tropas, lançou sua espada aos pés do ministro da Guerra, Tomás Coelho, como gesto de protesto contra o regime monárquico. Esse ato de rebeldia lhe custou um processo disciplinar e, em 1888, seu desligamento do Exército. 

Apesar disso, Euclides manteve-se ativo na propaganda republicana, escrevendo para o jornal A Província de S. Paulo (atual O Estado de S. Paulo). Com a Proclamação da República em 1889, foi reintegrado ao Exército e chegou a ocupar o posto de primeiro-tenente, além de obter o título de bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais. Casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Sólon Ribeiro, um dos líderes da proclamação republicana. 

Em 1897, Euclides foi enviado como correspondente de guerra para cobrir a Guerra de Canudos, conflito que opôs o Exército Brasileiro aos sertanejos liderados por Antônio Conselheiro, na Bahia. Inicialmente, como muitos republicanos, acreditava que o movimento tinha caráter monarquista e representava uma ameaça à jovem República. 

No entanto, sua experiência em campo transformou sua visão. Ao observar a realidade dos sertanejos, Euclides percebeu que se tratava de uma sociedade marginalizada, profundamente distinta da vida litorânea e urbana. Essa descoberta foi decisiva para a elaboração de sua obra-prima, Os Sertões, publicada em 1902. 

OS SERTÕES: CIÊNCIA, LITERATURA E DENÚNCIA

Os Sertões é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. 

Em A Terra, Euclides descreve a geografia, a flora, a fauna e o clima do sertão nordestino, utilizando linguagem científica e detalhada. 

Em O Homem, analisa os costumes, a religiosidade e a vida social dos sertanejos, revelando um Brasil profundo e esquecido. 

Em A Luta, narra as quatro expedições militares contra Canudos, culminando na destruição do arraial e no massacre da população. 

A obra combina rigor científico, estilo literário vigoroso e denúncia social. Ao mesmo tempo em que descreve a tragédia de Canudos, Euclides revela a violência do Estado contra uma população marginalizada. Os Sertões tornou-se um marco do pré-modernismo brasileiro, antecipando o regionalismo e influenciando o modernismo. 

O sucesso de Os Sertões projetou Euclides da Cunha internacionalmente. Em 1903, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e também para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Sua reputação como intelectual engajado consolidou-se, e ele passou a ser visto como uma voz crítica da República. 

Entre 1904 e 1905, Euclides chefiou uma missão de demarcação de fronteiras na Amazônia, experiência que resultou em escritos de denúncia sobre as condições da região e sobre a exploração dos trabalhadores. Ao retornar ao Rio de Janeiro, trabalhou no gabinete do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores. 

A vida pessoal de Euclides foi marcada por conflitos. Seu casamento com Ana Emília Ribeiro tornou-se conturbado devido ao relacionamento extraconjugal dela com o jovem militar Dilermando de Assis. Em 15 de agosto de 1909, Euclides tentou confrontar Dilermando, mas acabou morto a tiros, episódio que ficou conhecido como a Tragédia da Piedade. 

Essa morte violenta encerrou precocemente a trajetória de um dos maiores intelectuais brasileiros, mas também contribuiu para a aura trágica que envolve sua figura.

Apesar de sua vida breve, Euclides da Cunha deixou um legado duradouro. Sua obra continua a ser estudada em universidades e inspira eventos culturais, como a Semana Euclidiana, realizada em cidades ligadas à sua trajetória, especialmente em São José do Rio Pardo, onde escreveu Os Sertões. 

No centenário de sua morte, em 2009, diversas homenagens foram realizadas, incluindo o projeto “100 Anos Sem Euclides”, com exposições e atividades culturais em sua cidade natal. Hoje, aos 160 anos de seu nascimento, sua obra permanece atual, revelando um Brasil que ainda luta contra desigualdades e invisibilidades. 

Celebrar Euclides da Cunha é celebrar a força da literatura como instrumento de denúncia e de revelação da realidade nacional. Sua escrita, marcada por neologismos, vigor estilístico e profundidade analítica, continua a ecoar como testemunho da luta de um povo e da inquietação de um intelectual que buscou compreender o Brasil em sua totalidade. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


Primos Arnaldo, Euclides e Nestor Pimenta da Cunha c. 1900

Casa de Zinco em São José do Rio Pardo onde Euclides da Cunha escreveu "Os Sertões"

Homenagem filatélica do Correio do Brasil em 1965.

Folha de rosto de  Os Sertões (1902)


Missão de Euclides da Cunha a Amazônia






04 DE FEVEREIRO DE 2026 – CELEBRAMOS OS 227 ANOS DO NASCIMENTO DE ALMEIDA GARRETT - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL


No Focus Portal Cultural, o quadro EFEMÉRIDES é o espaço onde a memória se transforma em celebração e reflexão. Aqui, revisitamos datas que marcaram a história, trazendo à luz os grandes nomes e acontecimentos que moldaram a cultura, a arte e o pensamento. Cada efeméride é mais do que uma lembrança, é um convite a mergulhar no legado de personalidades que, com sua obra e sua vida, continuam a inspirar gerações. É neste espírito que destacamos hoje 04 de fevereiro de 2026, um dos pilares da literatura e da cultura portuguesa, qual voz ecoa até os nossos dias, Almeida Garrett, o precursor do Romantismo em Portugal, que nasceu há 227 anos e permanece como símbolo da modernidade literária e da força transformadora da arte.

No dia 04 de fevereiro de 2026, celebramos os 227 anos do nascimento de Almeida Garrett, uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa e o grande precursor do Romantismo em Portugal. Nascido no Porto em 1799, João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett viria a tornar-se não apenas um escritor e dramaturgo de excelência, mas também um orador brilhante, político ativo, reformador cultural e verdadeiro arquiteto da modernidade literária portuguesa. A sua vida e obra atravessam o século XIX como um testemunho da luta pela liberdade, da afirmação da identidade nacional e da renovação estética que moldou a literatura e o teatro em Portugal. 

Garrett cresceu num tempo de instabilidade política, marcado pelas invasões napoleônicas e pelas tensões entre absolutistas e liberais. Essa atmosfera de mudança alimentou sua sensibilidade e sua vocação para a palavra. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde entrou em contato com ideias liberais e com o espírito romântico que já se espalhava pela Europa. Desde cedo, demonstrou inquietação contra os modelos clássicos e buscou uma nova forma de expressão literária, mais próxima da emoção, da liberdade e da exaltação patriótica. Em 1825, publicou o poema “Camões”, considerado o marco inicial do Romantismo em Portugal, obra que não apenas homenageava o poeta maior da língua, mas também simbolizava o despertar de uma nova estética literária. 

A vida de Garrett foi marcada pelo exílio. Em 1823, com o triunfo do absolutismo, partiu para Inglaterra, onde teve contato direto com o teatro shakespeariano e com o ambiente cultural britânico. Essa experiência foi decisiva para sua formação: ampliou sua visão estética, consolidou sua identidade liberal e lhe deu instrumentos para transformar a cena cultural portuguesa. Ao regressar, trouxe consigo não apenas novas ideias, mas também a convicção de que o teatro e a literatura poderiam ser motores de transformação social e política. 

No campo literário, Garrett deixou obras que se tornaram pilares do Romantismo português. Entre elas, destaca-se “Frei Luís de Sousa” (1843), considerada a obra-prima da dramaturgia nacional, onde a tragédia se une ao patriotismo e à reflexão sobre o destino humano. Também merece destaque “Folhas Caídas” (1853), livro de poesia intimista que revela sua sensibilidade lírica e sua capacidade de traduzir em versos as inquietações da alma. Garrett soube conjugar o amor, a pátria e a liberdade em uma escrita que permanece viva e atual, capaz de dialogar com diferentes gerações. 

Mas Almeida Garrett não foi apenas escritor. Foi também um homem público de grande relevância. Como deputado e orador, destacou-se pela eloquência e pela defesa dos ideais liberais. Como ministro e secretário de Estado honorário, envolveu-se em reformas institucionais que marcaram a vida política do país. E, sobretudo, como reformador cultural, foi responsável por iniciativas que mudaram para sempre o panorama artístico português. Foi ele quem propôs a construção do Teatro Nacional D. Maria II, inaugurado em 1846, símbolo da modernização cultural e da valorização da arte dramática. Também idealizou a criação do Conservatório de Arte Dramática, instituição fundamental para a formação de atores e dramaturgos, consolidando uma tradição teatral que perdura até hoje. 

O legado de Garrett transcende sua obra literária. Ele foi um verdadeiro construtor da identidade cultural portuguesa, resgatando figuras históricas e mitos nacionais, como Camões e Frei Luís de Sousa, e defendendo valores de liberdade e cidadania. Sua visão de cultura estava profundamente ligada à ideia de nação: para ele, a literatura e o teatro eram instrumentos de afirmação da identidade e de educação do povo. Nesse sentido, Garrett foi não apenas um romântico, mas também um pedagogo da pátria, alguém que soube unir estética e política em um projeto de modernização cultural. 

Hoje, ao celebrarmos os 227 anos de seu nascimento, reconhecemos a atualidade de sua obra e a importância de sua memória. O Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, continua a ser palco de grandes produções e símbolo da vitalidade cultural que ele impulsionou. A Biblioteca Almeida Garrett, no Porto, perpetua seu nome e sua contribuição para a difusão da cultura. E suas obras seguem sendo estudadas, encenadas e lidas, como testemunho de um tempo em que a literatura se fez instrumento de liberdade e de construção nacional. 

Almeida Garrett faleceu em Lisboa, a 09 de dezembro de 1854, mas sua presença permanece viva na história e na cultura de Portugal. Foi um homem de múltiplas dimensões: poeta, dramaturgo, político, reformador, patriota. Um espírito inquieto que soube transformar sua paixão pela palavra em ação concreta, deixando marcas indeléveis na literatura e nas instituições culturais do país. Celebrar sua efeméride é, portanto, celebrar a própria ideia de cultura como força transformadora, como espaço de liberdade e como expressão da identidade de um povo.

Assim, neste 04 de fevereiro de 2026, o Focus Portal Cultural, sob a curadoria do jornalista Alberto Araújo, coloca em destaque a memória de Almeida Garrett, lembrando que sua obra e seu legado continuam a iluminar o caminho da cultura portuguesa. Garrett é, ainda hoje, um farol que nos recorda que a literatura e o teatro não são apenas arte, mas também instrumentos de consciência, de liberdade e de construção de futuro.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 








 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

213 ANOS DE “ORGULHO E PRECONCEITO” - 28 DE JANEIRO DE 2026 - EFEMÉRIDE CULTURAL — FOCUS PORTAL CULTURAL | POR ALBERTO ARAÚJO

 

No dia 28 de janeiro de 1813, o mundo literário foi presenteado com uma obra que atravessaria séculos e se tornaria um dos pilares da literatura universal: Pride and Prejudice, traduzido para o português como Orgulho e Preconceito. Escrita por Jane Austen, uma jovem inglesa nascida em 1775, a obra foi publicada pela editora T. Egerton, em Londres, e rapidamente conquistou leitores pela sua sagacidade, ironia refinada e pela crítica social embutida em cada página. Hoje, celebramos 213 anos de sua publicação, um marco que merece ser lembrado como uma efeméride cultural de relevância mundial. 

Jane Austen não foi apenas uma escritora; foi uma observadora atenta da sociedade inglesa do final do século XVIII e início do XIX. Em Orgulho e Preconceito, ela nos apresenta a família Bennet, com suas cinco filhas em busca de casamento, mas sobretudo nos dá Elizabeth Bennet, uma protagonista que se recusa a ser moldada pelas convenções sociais. Elizabeth é inteligente, irônica e independente, e sua relação com Mr. Darcy se tornou um dos romances mais célebres da literatura. Mais do que uma história de amor, o livro é uma reflexão sobre orgulho, preconceito, status social e liberdade de escolha. 

O romance foi lançado em três volumes, como era costume na época, e rapidamente se tornou um sucesso editorial. Austen, que havia escrito o manuscrito originalmente sob o título First Impressions, revisou a obra e a transformou em um clássico atemporal. Desde então, Orgulho e Preconceito nunca deixou de ser publicado, sendo traduzido para dezenas de idiomas e lido em todos os continentes. No Brasil, ganhou edições cuidadosas de editoras como Penguin Companhia, Zahar e Martin Claret, que trouxeram versões comentadas, ilustradas e bilíngues. 

ADAPTAÇÕES -  O ROMANCE QUE NUNCA ENVELHECE 

A força de Orgulho e Preconceito não se limita às páginas impressas. O romance já foi adaptado em pelo menos seis grandes produções cinematográficas e em mais de dez adaptações televisivas, além de incontáveis releituras em teatro, rádio, literatura derivada e até mesmo na internet. 

Entre as versões mais marcantes estão:

O filme de 1940, estrelado por Greer Garson e Laurence Olivier, que trouxe o romance para o grande público. 

A minissérie da BBC de 1980, considerada uma das mais fiéis ao texto original. 

A série da BBC de 1995, com Colin Firth como Mr. Darcy, que se tornou um ícone cultural. 

O filme de 2005, dirigido por Joe Wright, com Keira Knightley e Matthew Macfadyen, indicado ao Oscar e responsável por apresentar Austen a uma nova geração. 

A releitura satírica Orgulho e Preconceito e Zumbis (2016), que mistura o clássico com elementos de terror. 

A websérie The Lizzie Bennet Diaries (2012), que transporta a trama para o universo digital e conquistou prêmios internacionais. 

Somando cinema, televisão, teatro e novas mídias, podemos afirmar que Orgulho e Preconceito já ultrapassou a marca de 20 adaptações oficiais, sem contar as releituras livres e inspirações em novelas e produções culturais ao redor do mundo.

O que explica a permanência de Orgulho e Preconceito por mais de dois séculos? A resposta está na universalidade de seus temas. O romance fala de amor, mas também de preconceito social, de julgamentos apressados, de independência feminina e da busca por autenticidade. Elizabeth Bennet continua sendo um símbolo de resistência e liberdade, enquanto Mr. Darcy permanece como arquétipo do herói romântico que aprende a se transformar. Cada geração encontra na obra algo que dialoga com seus dilemas contemporâneos, e por isso ela nunca envelhece.

Ao celebrarmos os 213 anos de publicação de Orgulho e Preconceito, o Focus Portal Cultural, sob a curadoria do jornalista Alberto Araújo, presta homenagem a Jane Austen e à sua obra imortal. Esta efeméride não é apenas uma lembrança de uma data histórica, mas um convite para que novos leitores descubram, e antigos leitores revisitem, as páginas de um romance que continua a nos ensinar sobre humanidade, escolhas e transformação.

Jane Austen, com sua pena afiada e sua visão crítica, nos legou um tesouro literário que se reinventa em cada leitura e em cada adaptação. Que esta celebração inspire a todos a mergulhar novamente em suas páginas e a reconhecer que, mesmo após 213 anos, Orgulho e Preconceito permanece vivo, pulsante e necessário. 

© Alberto Araújo

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