Prelúdio do Desejo
O célebre Don Juan Tenório atravessa
séculos como um espectro inquietante, um mito que se reinventa e se multiplica
em cada época, em cada linguagem, em cada cultura que o acolhe. Desde Tirso de
Molina, que lhe deu forma dramática no teatro barroco espanhol, até as
releituras contemporâneas que o inserem em cenários urbanos, carnavalescos ou
cinematográficos, Don Juan permanece como arquétipo do desejo insaciável, do
sedutor que nunca se sacia, do finório que joga com as regras sociais apenas
para subvertê-las.
Dalma Nascimento, em Seduções e
Sedições do Finório Don Juan Tenório (2024), nos convida a revisitar esse mito
com olhar renovado, articulando erudição e sensibilidade, crítica e poesia,
para revelar como o personagem continua a nos interpelar e a nos provocar. A
autora percorre tanto os caminhos históricos e literários do mito quanto sua
ressignificação diante da ascensão da mulher como sujeito histórico e
literário. Don Juan é apresentado como caçador de afetos, mas também como
fugitivo da completude, sempre em busca de uma mulher mítica que lhe devolva o
paraíso perdido. Essa busca, porém, é marcada pela frustração, pela
impossibilidade de fixar o objeto do desejo, pela eterna tensão entre ideal e
realidade. Dalma Nascimento ilumina essa dimensão ao aproximar Don Juan da
poesia de Vinicius de Moraes, especialmente em “A mulher que passa”, onde o
desejo se revela como promessa e ausência, como sonho e desencanto.
A introdução da obra já anuncia a
multiplicidade de Don Juan: ele é o boto sedutor do folclore amazônico, o
personagem das marchinhas carnavalescas, o protagonista das óperas europeias, o
anti-herói das montagens teatrais contemporâneas. Essa polifonia é explorada
com rigor e leveza, mostrando como o mito se adapta às vestes de cada época sem
perder sua essência transgressora. Dalma Nascimento destaca ainda a fortuna
crítica que acompanha Don Juan, das leituras teológicas às psicanalíticas, das
culturais às desconstrutivistas, revelando como o personagem se mantém vivo
justamente por sua capacidade de reinvenção.
Mas o livro não se limita a revisitar
o mito: ele o confronta com as transformações sociais e culturais do século XX
e XXI, especialmente com a emergência da mulher como sujeito ativo da narrativa.
Se antes Don Juan encontrava terreno fértil em uma sociedade que relegava à
mulher o papel de objeto passivo, agora ele se vê diante de resistências, de
vozes que não se deixam capturar. Essa mudança é analisada com profundidade,
revelando como o mito se ressignifica diante da nova mulher, consciente de seu
valor e de sua autonomia. Nesse sentido, Seduções e Sedições do Finório Don
Juan Tenório é mais do que uma leitura crítica: é uma reflexão sobre o desejo,
sobre o amor, sobre a condição humana em sua busca incessante por sentido.
Com toda essa “finura” que somente Dalma
Nascimento carrega em sua trajetória literocultural que a especialista em conhecimentos
medievos nos convida a revisitar um dos mitos mais inquietantes da cultura
ocidental: Don Juan Tenório, em sua obra Seduções e Sedições do Finório Don Juan
Tenório. Publicado em 2024 pela H.P. Comunicação Associados, com
projeto gráfico do talentoso editor Paulo França, Rio de Janeiro, o livro reúne
200 páginas de reflexões, análises e provocações sobre o eterno sedutor, o
“gatuno de corações” que atravessa séculos e linguagens, da literatura à
música, do teatro ao cinema.
Dividido em duas partes, o livro
articula conferências e ensaios sobre o mito donjuanesco com uma leitura
sensível de obras clássicas brasileiras, como Missa do Galo, de Machado de
Assis, e Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade. O fio condutor é o
amor, ora como enigma, ora como transgressão, e a figura de Don Juan como
símbolo de uma busca incessante por completude, que se revela sempre frustrada,
mas nunca abandonada.
A primeira parte da obra é dedicada à
figura de Don Juan como arquétipo do desejo insaciável. Dalma Nascimento
percorre os caminhos históricos, literários e simbólicos do personagem, desde
suas raízes mitológicas em Zeus até sua cristalização no teatro barroco
espanhol com Tirso de Molina. Don Juan é apresentado como um ser em perpétua
fuga da completude, um caçador de afetos que jamais se sacia, pois sua busca é,
na verdade, por uma mulher mítica que lhe revele o paraíso perdido.
Essa leitura é enriquecida por
referências à poesia de Vinicius de Moraes, especialmente ao poema "A
mulher que passa", que sintetiza o donjuanismo poético: o desejo por uma
mulher que pacifique a angústia existencial, mas que, paradoxalmente, nunca
permanece. A autora traça paralelos entre o poeta e o mito, revelando como
ambos encarnam a tensão entre o ideal e o real, entre o sonho e a frustração.
O texto das orelhas já antecipa a
multiplicidade de Don Juan, ele aparece nas marchinhas carnavalescas
brasileiras, no folclore amazônico como o boto sedutor, nas óperas europeias,
nas artes plásticas, no cinema e na literatura. Dalma Nascimento explora essa
polifonia com erudição e leveza, mostrando como o personagem se adapta às
vestes e ademanes de cada época, mantendo, contudo, sua essência sedutora e transgressora.
A autora destaca a fortuna crítica de
Don Juan, que inclui abordagens teológicas, psicanalíticas, culturais e até
desconstrutivistas. A montagem de Gerald Thomas é citada como exemplo de
releitura contemporânea que subverte o mito sem perder sua força simbólica.
Essa capacidade de reinvenção é, segundo Dalma, o que torna Don Juan uma figura
transtemporal, sempre atual e provocadora.
Um dos méritos da obra é a análise da
ascensão da mulher como sujeito histórico e literário. Dalma Nascimento observa
que, com o avanço dos movimentos feministas e a valorização da voz feminina, o
poder de sedução de Don Juan encontra resistência. A mulher deixa de ser objeto
passivo e passa a ser agente de sua própria narrativa. Essa mudança é abordada
com sensibilidade e profundidade, revelando como o mito se transforma diante
das novas configurações sociais.
A autora também resgata a presença da
mulher na poesia de Vinicius de Moraes, como figura alegórica e fonte de
inspiração. A mulher é ponte entre o desejo e a realização, entre o sonho e a
concretude. Essa leitura é ampliada com referências a Ariadne, Eurídice e
outras figuras míticas que simbolizam a salvação, a harmonia e a
transcendência.
Dalma Nascimento discute o conceito de
emulação, conforme proposto por João Cezar de Castro Rocha, como forma de
recriação literária que respeita a obra original. Don Juan, nesse sentido, é um
personagem que gera múltiplas versões sem perder sua identidade. A autora cita
exemplos como Confissões de Narciso, de Autran Dourado, e Boquinhas Pintadas,
de Manuel Puig, que retomam o mito em contextos distintos, revelando sua
plasticidade e potência simbólica.
A análise de Boquinhas Pintadas é
particularmente rica, destacando o uso de técnicas cinematográficas, colagens
narrativas e paródias de clichês românticos. Manuel Puig dessacraliza o mito e
o insere em um universo cotidiano, revelando suas contradições e fragilidades.
Essa abordagem dialoga com a proposta de Dalma Nascimento de pensar Don Juan
como figura que seduz e é seduzida por sua própria ficção.
Outro ponto alto da obra é a
comparação entre Don Juan e Fausto, dois personagens que fazem pactos, um com o
Diabo, outro com o desejo. Dalma Nascimento explora as afinidades entre os dois
mitos, mostrando como ambos expressam dilemas existenciais e filosóficos. A
autora cita Victor Hugo, que coloca Sganarello ao redor de Don Juan e
Mefistófeles ao redor de Fausto, evidenciando a complementaridade entre os
dois.
Essa análise é enriquecida por
referências a Mircea Eliade e à ideia de que mitos expressam situações arcaicas
e universais. Don Juan e Fausto são, assim, figuras que encarnam o pathos
humano, a tensão entre o desejo e a ética, entre a liberdade e a
responsabilidade. A leitura de Dalma é profunda e instigante, revelando como
esses personagens continuam a seduzir o imaginário contemporâneo.
Na segunda parte do livro, Dalma
Nascimento analisa a transformação da mulher ao longo do século XX e sua
emergência como sujeito literário e histórico. A autora traça um panorama das
mudanças culturais, políticas e filosóficas que permitiram à mulher romper com
os silêncios e assumir seu lugar na narrativa. Essa análise é feita com
entusiasmo e rigor, revelando como a mulher passou das matinatas domésticas ao
esplendor da participação plena na vida pública.
A autora celebra a nova mulher como
figura antenada, consciente de seu valor e capaz de dialogar com os mitos sem
se submeter a eles. Essa leitura é essencial para compreender como o mito de
Don Juan se ressignifica diante da presença feminina, que não mais se deixa
capturar pelas armadilhas do sedutor.
Seduções e Sedições do Finório Don
Juan Tenório é uma obra rica, multifacetada e provocadora. Dalma Nascimento
oferece ao leitor uma viagem pelas múltiplas faces do desejo, da sedução e da
busca por sentido. Don Juan emerge como figura que transcende o tempo, os
gêneros e as linguagens, revelando tanto os abismos do amor quanto as
possibilidades de reinvenção.
A autora alia erudição e
sensibilidade, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo crítica e
poética. Sua leitura de Don Juan é profunda, abrangente e atual, revelando como
o mito continua a nos interpelar, a nos seduzir e a nos desafiar. Uma obra
indispensável para quem deseja compreender as tramas do desejo e os enigmas da
condição humana.
Epílogo das Sedições. Ao final da
leitura, o que se impõe é a percepção de que Don Juan Tenório não é apenas um
personagem literário, mas um espelho das inquietações humanas. Ele encarna o pathos
do desejo, a tensão entre liberdade e responsabilidade, entre sonho e
frustração, entre sedução e sedução de si mesmo. Dalma Nascimento nos mostra
que Don Juan é, ao mesmo tempo, arquétipo e metáfora, mito e realidade, figura
que atravessa o tempo porque traduz uma experiência universal: a busca por
completude em um mundo marcado pela falta, pela ausência, pela impossibilidade
de fixar o objeto do desejo.
A comparação com Fausto, explorada
pela autora, reforça essa dimensão existencial. Ambos fazem pactos, um com o
Diabo, outro com o desejo, e ambos revelam dilemas filosóficos que continuam a
nos assombrar. Don Juan, como Fausto, é figura transtemporal, capaz de se
reinventar em cada contexto, de dialogar com cada geração, de provocar cada
leitor. Essa plasticidade é o que garante sua permanência, sua atualidade, sua
força simbólica.
Mas o mérito maior da obra de Dalma
Nascimento está em articular essa leitura com a transformação da mulher como
sujeito histórico e literário. Ao mostrar como a mulher deixa de ser objeto e
passa a ser agente, a autora revela não apenas uma mudança social, mas também
uma ressignificação do mito. Don Juan já não pode seduzir impunemente; ele se
vê diante de resistências, de vozes que o desafiam, de presenças que o obrigam
a se reinventar. Essa tensão é o que torna o mito ainda mais instigante, pois
revela como o desejo se transforma diante das novas configurações sociais.
Seduções e Sedições do Finório Don
Juan Tenório é, assim, uma obra indispensável para quem deseja compreender não
apenas o mito de Don Juan, mas também as tramas do desejo e os enigmas da
condição humana. Dalma Nascimento alia erudição e sensibilidade, crítica e
poesia, para construir uma narrativa que é ao mesmo tempo análise e celebração,
reflexão e provocação. Ao revisitar Don Juan, a autora nos convida a refletir
sobre nós mesmos, sobre nossas buscas, nossas frustrações, nossas seduções e
nossas seduções de si. Don Juan emerge, ao final, como figura que nos desafia a
pensar o amor não como completude, mas como movimento, não como posse, mas como
travessia, não como fim, mas como eterno recomeço.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural