Nota
do Autor: Este texto configura-se como uma réplica literária à postagem de
Marina Zarvos. Ao resgatar a carta de Pessoa como eco à efeméride que
publiquei, Marina permitiu que este pesquisador mergulhasse mais fundo no
"abraço de fogo" que une os poetas e o Criador.
A
era digital possui delicadezas irônicas: verdades eternas costumam surgir em
meio ao fluxo de notificações efêmeras. Foi em um desses momentos de
"rolagem" distraída que meus olhos pararam em uma postagem de Marina
Zarvos, no grupo da Rede Sem Fronteiras. O texto, denso e solene, destoava do
imediatismo ruidoso das redes; era Fernando Pessoa debruçado sobre a morte de
Mário de Sá-Carneiro.
A
escritora publicou o texto como uma réplica vibrante à efeméride que eu acabara
de lançar, marcando os 110 anos do encantamento de Sá-Carneiro, no dia 26 de
abril de 2026. A coincidência não foi casual; foi um chamado. Como pesquisador
e eterno entusiasta do universo pessoano, senti o impacto familiar daquelas
palavras, mas algo me impeliu a ir além do print de tela.
Fui
buscar a fonte original, o rastro de tinta que sobreviveu ao século para
entender o peso real daquele tributo publicado na revista Athena, em 1924, oito
anos após o fatídico suicídio de Sá-Carneiro em um hotel em Paris. O que Pessoa
nos entrega ali não é um mero elogio fúnebre; é uma tese definitiva sobre a
maldição de ser excepcional.
Pessoa
abre o texto evocando um preceito da sabedoria antiga: "Morre jovem o que
os Deuses amam". Mas ele, o mestre do desdobramento, logo refina essa
ideia. Para Pessoa, a morte não é apenas a cessação do pulso, mas o fim do
"instinto natural com que se vive".
Nesta
perspectiva, Sá-Carneiro não morreu apenas quando ingeriu o veneno no Hotel
Nice; ele já vinha "morrendo a vida" desde que a flor fatal do gênio
desabrochou nele. O pesquisador que habita em mim não pode deixar de notar a
crueldade desta lógica: os Deuses, ao amarem um homem, tornam-no seu par
através da arte. Mas o homem, sendo finito, não suporta o peso da eternidade. O
resultado é o que Pessoa chama de "doente da sua ficção". Sá-Carneiro
era esse doente. Alguém que "fingia" mundos com tamanha intensidade
que o mundo real tornou-se uma roupa apertada, um cenário cinzento e
insuportável.
A
crônica de Pessoa estabelece uma hierarquia fascinante sobre como o divino toca
o humano. O Herói: Recebe o auxílio dos Deuses por sorte. A luz não está nele,
mas sobre ele.
O
Santo: É um cego por misericórdia. Os Deuses o poupam do sofrimento ao não
deixarem que ele veja a operação do Destino.
O
Gênio: Este é o único que os Deuses verdadeiramente amam. E, por isso, é o
único que eles destroem.
O
amor dos Deuses, explica Pessoa, não é humano. Ele se manifesta como um
"abraço de fogo". Ao dar ao gênio a sua própria essência, a
capacidade de criar, os Deuses condenam o homem a ser um exilado permanente:
"par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, exilado ao mesmo
tempo em duas terras".
Ao
ler isso, compreendemos a angústia de Sá-Carneiro. Ele não pertencia a Lisboa,
não pertencia a Paris, e certamente não pertencia ao cotidiano burocrático dos
mortais. Ele habitava o interstício, o vácuo entre a criação e a criatura.
A
parte final do texto de Pessoa, resgatada pela postagem de Marina Zarvos, ganha
contornos proféticos se lida em 2026. Pessoa lamenta que, para Sá-Carneiro,
além da dor do gênio, houve o peso de ser um inovador.
Ele
compara o amigo a Cassandra, a profetisa que dizia verdades que todos tomavam
por mentiras. Pessoa escreve sobre a "barbara terra" e sobre como
"as plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do
que foi grande". É uma crítica feroz à mediocridade que, já em 1924,
engolia o mundo.
Pessoa
diz que a glória, na modernidade, pertence aos "gladiadores e aos
mimos". Em tempos de influenciadores e de busca frenética por curtidas, a
frase ecoa com uma força assustadora. O circo, diz ele, alargou seus muros até
os confins da terra. Para o gênio autêntico, resta apenas o isolamento ou a
morte jovem.
A
citação de Catulo que abre a carta, "Atque in perpetuum, frater, ave atque
vale!" (E para sempre, irmão, saudações e adeus) A famosa citação é o
verso final do Carmen 101 do poeta romano Caio Valério Catulo, c. 84–54 a.C.. resume
o sentimento de Pessoa. Ele sabia que Sá-Carneiro era o mais brilhante de sua
geração, aquele que levou o "fingimento" poético às últimas
consequências.
Ao
redigir esta crônica, movido pela provocação de um post em rede social, percebo
que a pesquisa do original não foi apenas um exercício acadêmico, mas uma
necessidade de resgate. Em um mundo que insiste no barulho, o silêncio de
Sá-Carneiro e a análise cirúrgica de Pessoa nos lembram de que a arte não é um
entretenimento, mas um "abraço de fogo" que, embora queime, é a única
coisa que nos torna verdadeiramente pares dos Deuses.
Sá-Carneiro
morreu jovem porque os Deuses o amaram demais. E nós, que ficamos, continuamos
a ler seus escombros, tentando entender como alguém pôde ser tanto deus e tanto
homem ao mesmo tempo.
A
verdade que Fernando Pessoa nos expele em sua crônica sobre Sá-Carneiro não é
uma consolação, mas um diagnóstico implacável. Ao afirmar que o gênio é um
"êxul em duas terras", Pessoa define a condição humana de quem se
recusa a ser apenas um reflexo do seu tempo. Trazer essa verdade para o
presente, para este 2026 onde a imagem precede a essência e o algoritmo dita a
relevância, é confrontar o quanto nos tornamos eficientes em ignorar o "abraço
de fogo" que Pessoa descreveu.
Pessoa
foi profético ao dizer que o circo romano havia se expandido para os confins da
terra. Hoje, vivemos a apoteose dessa previsão. Se em 1924 ele lamentava que a
glória pertencia aos "gladiadores e mimos", hoje assistimos à
consagração do entretenimento vazio sobre a profundidade do espírito. A
"maré morta" das plebes de todas as classes, que Pessoa menciona,
manifesta-se agora na homogeneização do pensamento pelas redes sociais. Onde
está o espaço para o inovador que, como Sá-Carneiro, traz verdades que todos
têm por mentira?
O
atual cenário é hostil àquilo que Pessoa chama de "privilégio como
castigo". Ser genial, ou mesmo buscar a autenticidade radical, tornou-se
um ato de resistência quase suicida. Em um mundo que exige a visibilidade
constante, o "instinto natural" com que se vive, aquele que os Deuses
tiram dos que amam, foi substituído por uma performance de vida. Morremos a
vida não mais por excesso de espírito, como Sá-Carneiro, mas por excesso de
fachada.
A
crônica nos ensina que o amor dos Deuses é isolamento. Ao pesquisar a fundo a
carta que Marina Zarvos trouxe à tona no grupo da Rede Sem Fronteiras,
percebemos que o sofrimento de Sá-Carneiro era a impossibilidade de ser
compreendido por uma terra que lhe era "bárbara".
Trazendo
isso para o agora, percebemos uma ironia cruel: nunca estivemos tão conectados
e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil encontrar ressonância para o que é
verdadeiramente profundo. O gênio atual não sofre apenas a indiferença, ele
sofre o cancelamento ou o soterramento pelo volume de dados. A maldição de ser
"par dos Deuses sendo homem" é, hoje, a angústia de carregar uma
verdade eterna em um formato de quinze segundos.
A
conclusão definitiva de Pessoa é que Sá-Carneiro morreu porque era amado pelos
Deuses, e esse amor se traduz na incapacidade de suportar a feiura e a
ignorância universal. No contexto contemporâneo, essa lição serve como um
alerta para a nossa saúde espiritual. Estamos sacrificando os nossos "gênios",
as nossas capacidades criativas mais puras, no altar da produtividade e da
aceitação social.
O
texto de Pessoa, resgatado do passado e jogado na nossa timeline, funciona como
um choque de realidade. Ele nos lembra de que a arte não é um luxo, mas uma
necessidade orgânica que pode, inclusive, consumir quem a produz. A verdade de
Pessoa é que a vida, despida de transcendência, é apenas uma "morte
vivida".
Ao
encerrarmos esta crônica, fica a provocação: quantos Sá-Carneiros estamos perdendo
hoje para a "maré morta"? Quantas vezes os Deuses abraçam alguém com
o seu fogo e nós, por estarmos distraídos com os gladiadores do circo digital,
não percebemos a luz que se apaga? A carta de 1924 não é um adeus apenas a um
poeta português; é um manifesto eterno contra a banalização da alma. Pessoa e
Sá-Carneiro continuam vivos, não porque venceram o Destino, mas porque tiveram
a coragem de ser "doentes de sua própria ficção" em um mundo que
prefere a saúde anestesiada do senso comum. Que o "ave atque vale" de
Pessoa nos inspire a buscar, entre as ruínas do que foi grande, os alicerces do
que ainda pode vir a ser.
Para
além da literatura, das análises estéticas e do fado dos poetas, existe uma
verdade que não se encerra no papel: a nossa conexão inalienável com o Senhor
do Universo. Se Fernando Pessoa via no gênio um exilado entre dois mundos, a fé
nos ensina que não precisamos viver como estrangeiros. Quando elevamos nossas
reflexões para as "coisas do alto", como nos exorta a sabedoria
espiritual, o peso da existência transfigura-se em propósito.
Nós,
seres humanos, em nossa busca incessante por sentido, muitas vezes nos perdemos
nos labirintos da intelectualidade ou nas dores da incompreensão mundana.
Esquecemos que a palavra de Deus é o alicerce que permanece quando todas as
outras vozes se calam. Colocar as reflexões sob a luz do Criador é entender que
a nossa inteligência e a nossa sensibilidade não são fardos destinados ao
sofrimento, mas dons para honrar Aquele que nos deu o sopro da vida.
O
amor a Deus deve ser o centro gravitacional de tudo o que somos.
Independentemente da literatura, dos títulos ou das glórias humanas, que Pessoa
tão bem descreveu como "fumo passageiro", o que realmente nos define
é a capacidade de levar no coração a presença do Senhor. É nesse amor que
encontramos o equilíbrio para sermos "par dos homens" sem nos
perdermos na mediocridade, e "par do divino" sem sucumbirmos ao
orgulho ou ao desespero.
Ao
olharmos para o "encantamento" de Sá-Carneiro e para a lucidez
dolorida de Pessoa, compreendemos que o intelecto sozinho pode ser um abismo.
Mas, quando ancoramos nossa alma nas promessas do Altíssimo, o abismo dá lugar
ao horizonte. Que saibamos, acima de tudo, direcionar o nosso olhar para o
alto, reconhecendo que a beleza que buscamos na arte é apenas um pálido reflexo
da Glória Eterna. Que o nosso coração esteja sempre preenchido por esse Amor
Soberano, pois só Ele é capaz de transformar o "abraço de fogo" da
vida em uma luz que guia, acolhe e salva.
Neste
banquete da existência, onde as palavras humanas são o pão, o amor a Deus é o
vinho da vida eterna a única força capaz de nos manter íntegros na travessia
rumo ao Infinito.
©
Alberto Araújo
CRÔNICA DE FERNANDO PESSOA
MÁRIO
DE SÁ-CARNEIRO (1890-1916)
Atque
in perpetuum, frater, ave atque vale!
CAT
Morre
jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a
imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os
sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que
sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual,
porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos
Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor
divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não
morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o
acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a
constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam
jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos
outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte,
morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor
fatal e única, que começam a sua morte vivida.
No
herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem
como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que
lhe estreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos
de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia,
cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses
melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o
cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do
Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio,
porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não
é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao
génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição
fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu
atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a
ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna
limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou
da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao
génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a
universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo
homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras.
Génio
na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte,
que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que
os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a
glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da
incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe
tiveram muito amor.
Mas
para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à
indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores,
profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua
scribebat, barbara terrafuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o
destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje,
mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes
cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces
desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a
vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é
dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a
guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce
de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o
quiseram assim.
1924
Textos
de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. -149. 1ª
publ. in “Athena”, nº 2. Lisboa: Nov. 1924.
Fernando Pessoa e Mario de Sá-Carneiro
Marina Zarvos