sábado, 21 de novembro de 2015

O ESPAÇO CULTURAL CORREIOS NITERÓI E O FOCUS PORTAL CULTURAL JUNTOS CELEBRAM O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA. CONFIRA.

 
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O ESPAÇO CULTURAL CORREIOS E O
FOCUS PORTAL CULTURAL
JUNTOS HOMENAGEIAM
O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.



20 DE NOVEMBRO é hoje o dia de celebração da Consciência Negra! Viva Zumbi dos Palmares, viva a herança africana, na terra “onde canta o sabiá”, como dizia o poeta Gonçalves Dias.


ARTE AFRICANA EM EXPOSIÇÃO EM NITERÓI.
 
 

Na semana em que se comemora o Dia da Consciência Negra, o Espaço Cultural Correios Niterói, apresenta a exposição O Corpo na Arte Africana, reunindo peças de cerca de vinte povos. Amostra é fruto de dez anos de incursões de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) por diversos países africanos, como Zimbabué, Tunísia, Mali e Moçambique.

Wilson Savino, um dos pesquisadores e curador da mostra, conta que a estética artística do continente conhecido como berço da humanidade chamou a atenção dos pesquisadores que, informalmente, começaram a adquirir algumas peças por serem diferentes da arte contemporânea.

“Trata-se de obras, esculturas na maioria, confeccionadas a partir de materiais como argila, madeira e metal, que reproduzem corpos femininos e masculinos a partir de diversos povos africanos”, conta Savino.

A mostra poderá ser vista até 19 de dezembro, de segunda a sábado, de 10h às 19h. O espaço não funciona aos domingos e feriados. Av. Visconde do Rio Branco 481, Centro/Niterói.
 
 


 
 
CAROLINA MARIA DE JESUS

O jornalista AUDÁLIO DANTAS foi fazer uma reportagem na Favela do Canindé,  em abril de 1958. Soube que aquela mulher negra,carregando sacos de papel na cabeça e nos ombros, estava escrevendo um livro sobre as mazelas da favela. Ficou curioso, quis ler. 

        APRESENTAÇÃO

'Quando vi CAROLINA a primeira vez foi em 1958 na Favela do Canindé. Cheguei lá, repórter, para saber o que haviam feito sobre umas balanças que a prefeitura mandou botar na favela. Carolina estava perto da balança dos meninos que os grandes tomaram. E protestava, dizendo: 'deixa estar que vou botar todos vocês no meu livro'. 
Perguntei sobre o livro, ela respondeu: 'o livro que estou escrevendo as coisas da favela'.
Fui ver o livro. E vi os cadernos no guarda-comida escuro de fumaça. Eu vi, eu senti. Ninguém melhor do que a negra Carolina para escrever histórias tão negras. Nem escritor transfigurador poderia arrancar tanta beleza triste daquela miséria toda. Nem repórter de exatidão poderia retratar tudo aquilo no seco escrever. 
Foi por isso que eu prometi publicar seu livro. 
'QUARTO DE DESPEJO', título do livro, foi sugerido pela imagem que CAROLINA criou para a favela. Imagem perfeita e exata. Selecionei trechos, sem alterar uma palavra. 
CAROLINA, Você gritou tão alto que o grito terminou ferindo ouvidos. A porta do QUARTO DE DESPEJO está aberta. Por ela sai um pouco da angústia favelada. É a primeira porta que se abre. Foi preciso abri-la por dentro e você encontrou a chave. Agora, vamos esperar que os cá de fora olhem para dentro e vejam melhor o QUARTO DE DESPEJO. 
Vejam o sol que entra agora no QUARTO DE DESPEJO. Aqueçam-se, irmãos, que a porta está aberta. CAROLINA MARIA DE JESUS achou a chave. Aqueçam-se!

            AUDÁLIO DANTAS (apresentação à edição original, 1960) 

Assim começa QUARTO DE DESPEJO:

'15 DE JULHO DE 1955. Aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu pretendia compara um par de sapatos para ela. Mas o custo dos gêneros alimentícios nos impede a realização dos nossos desejos. Atualmente, somos escravos do custo de vida. Eu achei um par de sapatos no lixo, lavei e remendei para ela calçar.
Eu não tinha um tostão para comprar pão. Então, lavei 3 litros e troquei com o Arnaldo. Ele ficou com os litros e deu-me pão. Fui receber o dinheiro do papel. Recebi 65 cruzeiros. Comprei 20 de carne, 1 quilo de toucinho e 1 quilo de açúcar e 6 cruzeiros de queijo. E o dinheiro acabou-se. 
Passei o dia indisposta. Percebi que estava resfriada. À noite, o peito doía-me.  Comecei a tossir.  Resolvi não sair à noite para catar papel. Procurei meu filho João José. Ele estava na Rua Felisberto de Carvalho, perto do mercadinho.  O ônibus atirou um garoto na calçada e a turba afluiu-se. Ele estava no núcleo. Dei-lhe uns tapas e em cinco minutos ele estava em casa. 
Abluí as crianças, aleitei-as e abluí-me e aleitei-me. Esperei até as 11 horas por um certo alguém. Ele não veio. Tomei um melhoral e deitei-me novamente. Quando despertei o astro rei deslizava no espaço! A minha filha Vera Eunice dizia: 'vai buscar água, mamãe!'
16 de julho. Levantei-me. Obedeci a Vera Eunice. Fui buscar água. Fiz o café. Avisei as crianças que não tinha pão. Que tomassem café simples e comessem carne com farinha. Eu estava indisposta, resolvi benzer-me'. Abri a boca duas vezes, certifiquei-me que estava com mau olhado. A indisposição desapareceu, saí e fui ao seu Manuel levar umas latas para vender. Tudo que encontro no lixo eu cato para vender. Deu 13 cruzeiros. Fiquei pensando que precisava comprar sabão e leite para a Vera Eunice. E os 13 cruzeiros não dava! 
Cheguei em casa, aliás, no meu barraco, nervosa e exausta. Pensei na vida atribulada que eu levo. Cato papel, lavo roupa, permaneço na rua o dia todo. E estou sempre em falta. A Vera não tem sapatos. Ela não gosta de andar descalça. Faz uns dois anos que pretendo comprar uma máquina de moer carne. E uma máquina de costura.
17 DE JULHO. Domingo. Um dia maravilhoso. O céu azul sem nuvens. O Sol está tépido. Deixei o leito às 6h30. Fui buscar água. Fiz café. Tenho só um pedaço de pão e 3 cruzeiros. Dei um pedaço de pão a cada um, pus feijão no fogão que ganhei ontem do Centro Espírita da Rua Vergueiro 103. Fui lavar minhas roupas. 
Quando retornei do rio o feijão estava cozido. Os filhos pediram pão. Hoje é a Nair Mathias quem conseguiu implicar com meus filhos. Estou revoltada com o que as crianças presenciam. Ouvem palavras de baixo calão. Oh! se eu pudesse mudar daqui para um núcleo mais decente!
Saí à noite, fui catar papel. Quando passava perto do campo do São Paulo, havia várias pessoas saindo. Todas brancas, só um preto. E o preto começou a insultar-me: 'Vai catar papel, minha tia? Olha o buraco, minha tia!' 
Aqui é assim. A gente não gasta luz, mas tem que pagar. Saí e fui catar papel. 
Estive revendo os aborrecimentos que tive estes dias. Suporto as contingências da vida resoluta. E não consigo armazenar para viver, resolvi armazenar paciência'. 
... O que eu aviso aos pretendentes à política é que o povo não tolera a fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la.
Eu cato papel, mas não gosto. Então eu penso: faz de conta que estou sonhando! 
26 de AGOSTO. A pior coisa do mundo é a fome! 
31 de DEZEMBRO. Espero que 1960 seja melhor do que 1959. Sofremos tanto, que dá para a gente dizer: 
'Vai, vai mesmo! Eu não quero você mais. Nunca mais!'

1 de JANEIRO de 1960.
Levantei às 5 horas e fui carregar água'. 
 


A escritora brasilei Carolina Maria de Jesus
durante noite de autógrafos do lançamento
de seu livro "Quarto de Despejo",
em uma livraria na rua Marconi,
em São Paulo, em 1960
 
Nascida em Sacramento (MG), Carolina mudou-se para a capital paulista em 1947, momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade. Apesar do pouco estudo, tendo cursado apenas as séries iniciais do primário, ela reunia em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano da favela, um dos quais deu origem ao livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicado em 1960. Após o lançamento, seguiram-se três edições, com um total de 100 mil exemplares vendidos, tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países.

Carolina de Jesus publicou ainda o romance Pedaços de Fome e o livro “Provérbios”, ambos em 1963. De acordo com Audálio, todos esses títulos foram custeados por ela e não tiveram vendas significativas.

Após a morte da escritora, em 1977, foram publicados o Diário de Bitita, com recordações da infância e da juventude; Um Brasil para Brasileiros (1982); Meu Estranho Diário; e Antologia Pessoal (1996).
Ficou famosíssima, publicada no Brasil e no exterior, traduzida para vários idiomas. Mas no dia seguinte aos festejos, foi catar papel no lixo.  Se não fosse AUDÁLIO DANTAS, como teríamos conhecido CAROLINA?  Quantas 'carolinas' haverá ao nosso redor que não sabemos olhar e ver?  Essa é a verdadeira LITERATURA BRASILEIRA.
 
Texto enviado por e-mail pela escritora e professora CYANA LEAHY em 20 de novembro de 2015 e esta revista o publica em homenagem ao Dia da Consciência Negra.
 
 
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Um comentário:

Blog do Manuel disse...

Meu caro Alberto, como as oportunidades surgem de uma hora para a outra! Nunca li" Quarto de Despejo" e, graças a você e Cyana pude ler esse resumo que me levou ao desejo de ler o livro por inteiro. Esses são os valores que não conhecemos e estão aí, nos esperando. Seu blog sempre nos brindando com boa leitura. Um abração do amigo,
Manuel.