segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O PIÃO E O CARRO DE BOIS UM TEXTO DO COLUNISTA DO JORNAL UNIDADE LOBO JOSÉ. CONFIRA.

 
O PIÃO E O CARRO DE BOIS
 
 
 
 

Neste fim de ano ganhei de uma amiga um pião e algumas caixinhas, contendo cada uma cinco marcadores de livros, ricamente ilustrados com desenhos apropriados aos temas, histórias, parlendas, trovinhas e cantigas, cujo objetivo é enlaçar o universo das histórias brasileiras ao universo das crianças.
 
 
 
 
Hoje, acordando muito cedo debrucei-me na janela do meu apartamento (16º andar) e olhei desolado o que a minha vista alcançava: prédios e mais prédios colados uns aos outros. Pequeninos espaços que chamamos de ruas, cheios de carros, chão impermeabilizado pelo asfalto ou pelo cimento. Fiquei triste, pois o meu horizonte, quando muito, não chegava a quinhentos metros, em alguns ângulos. Ainda bem que podia olhar para cima e ver o céu, azul e com algumas estrelinhas, no lusco-fusco matutino.
 
Fixando meu olhar numa estrelinha, lembrei-me do pião e das historias recebidos de presente e projetei o foco do meu pensamento na minha infância. Não parei, nem no pião, nem nas histórias e cantigas de roda, mas no carro de bois que tanto me encantou na meninice. Ah, o carro de bois me traz sempre um pouco de nostalgia, não sei se pelo ruído que suas rodas produziam se pelas cantigas dos carreiros ou por ambos os fatos.
 
 
 
 
O carro de bois, por isso me fascinava. Eu o aguardava no meu posto de guarda, sentado na parte mais alta da cancela da pequena fazenda dos meus avós sempre que ouvia o cantar lamuriante de suas rodas cuja sonoridade se espalhava por algumas léguas naquele universo de silencio.
 
O carro trazia o contraste entre a sua carga doce como o mel e o seu canto triste. Do alto da cancela aguardava ansiosamente sua passagem para correr atrás dele, envolvido pelos cânticos do carreiro e do carro e arrancar algumas canas para chupa-las tranquilamente sentado no meu posto.
 
 

 
 
Hoje, tudo se foi, aquele carro aquele som, aquele carreiro, aquelas juntas de bois, aquelas estradinhas enlameadas ou poeirentas já não existem. Lembro-me do carreiro e do seu auxiliar chamado de vagoeiro, o primeiro portando o garruchão que era um objeto destinado a alertar os bois em serviço a um simples toque no lombo do animal. Tratava-se de um galho reto de madeira, com aproximadamente três metros de comprimento em cuja ponta havia um Aguilhão preso por argolas de couro, algumas argolas de ferro e crinas de cavalo com quinze cm aproximadamente, cujos pelos ficavam  presos num anel junto ao aguilhão. Esse conjunto, aguilhão, argolas e pelos fixavam-se numa argola na ponta do garruchão e se chamava castoado.
 
O carro era todo em madeira. O seu piso era forrado com tábuas onde se colocavam as canas arrumadas em duas camadas, uma do meio do carro para trás e outra do meio para frente. As laterais do carro eram abertas e possuíam estacas verticais presas a cavidades no piso do carro. Essas estacas, com o nome de fueiros sustentavam a carga e ficavam amarradas de um lado ao outro do carro por corrente fina ou corda de couro trançado, chamada tamoeira. Os fueiros poderiam ser retirados se necessários, tornando o piso do carro plano como uma mesa. O interessante do carro é que as suas rodas eram feitas também em madeira. Existiam dois tipos de carros: um de roda fina, mais ou menos seis cm de largura e um, e meio a dois metros de diâmetro, construída com três tábuas, possuindo uma chapa de ferro, colocada a fogo em seu redor para aperto, proteção e menor desgaste da madeira junto ao chão. O eixo era feito em madeira única, geralmente em roxinho (madeira facilmente encontrada na região, naquela época).
 
 
 
 
Rodava sem rolamentos, untado com graxa e carvão, diretamente em outra madeira presa no fundo do carro. Transportava aproximadamente 100 arrobas de cana (um mil e quinhentos quilos).
 
O outro carro, mais robusto chamava-se Cambona, com características semelhantes, porém tinha as rodas mais largas (cerca de quinze cm), um metro e meio a dois de diâmetro e possuía também um grande anel em forma de chapa que a revestia. A grande vantagem é que o seu eixo já era de ferro e girava sob rolamentos, o que facilitava o deslocamento.
 
A Cambona podia transportar aproximadamente duzentas arrobas de cana (três mil quilos). Em ambos os casos, o diâmetro das rodas variava conforme o tipo de terreno que o carro percorria, se planície, morro, lamaçal, etc.
 
Tanto carro como a cambona  eram puxados por quatro juntas de bois (excepcionalmente cinco).
 
Uma junta ficava presa a uma peça única chamada varal com um boi de cada lado. O varal tinha preso na sua ponta uma argola de ferro que o ligava, com correntes, às demais juntas de bois que eram chamadas, respectivamente, a partir da primeira, de cabeçalho, contra-coice , contra-guia e guia. Todos os bois tinham nomes, normalmente tirados da sua cor, do tamanho, do tipo do chifre, etc, rochedo, pintado, fumaça, malhado, estrelinha.
 
 
 
 
Mas o carro de bois não servia só para transportar canas. Era, também, o único meio de transportes para mudanças, para casamentos, para enterros, para festas populares, quando era devidamente preparado e enfeitado para esses eventos. Esse meio de transporte, que tanta riqueza trouxe para o Brasil,  tinha seus sérios problemas em épocas de chuvas quando as estradas existentes ficavam cheias de água, com atoleiros, em cuja lama os bois se enterravam até acima da barriga, precisando muitas vezes serem puxados por outros bois ou pessoas. Mas era o meio de transporte do momento e ninguém se queixava.
 
Acordando desta visão, sonho, ou divagação tão saudosa, lembrei-me ainda dos versos...
 
“ai que saudades que tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais...”
 
Sai da minha janela agradecendo a Deus por tudo o que Ele fez.
 
...A vida continua e o progresso também!
 
 
Autor:
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Lobo José,
jornalista e acólito
da Paróquia São Judas Tadeu
em Niterói.
 
 
 
 
 
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COMENTÁRIOS


Nasci no interior de Campos e, também tive a oportunidade de conhecer de perto o que foi descrito pelo jornalista Lobo José. Valeu pela prazerosa recordação da infância.
 
Márcia.

Márcia Pessanha
é escritora e Intelectual do Ano 2015.



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Um texto magnífico, que faz a memória da gente "girar" feito o pião nas lembranças de Lobo José. Com o "giro" através do tempo, então somos levados a épocas nem tão distantes  -  porque conterrâneos desses tempos que fomos!  -  e trazemos no bojo dessas imagens o inexorável e conflituoso contraste entre a infância, passada sobre ruas que se abriam a "búlicas" com suas "bolinhas de gude", e o cotidiano moderno, tempos estes em que não se ouvem mais os "discursos dos carros de bois". 
 
Hilário.
 
 
 
Hilário Francisconi
é escritor e jornalista

 
 
 
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Um comentário:

Márcia Pessanha disse...

Nasci no interior de Campos e, também tive a oportunidade de conhecer de perto o que foi descrito pelo jornalista Lobo José. Valeu pela prazerosa recordação da infância.