sexta-feira, 2 de outubro de 2026

A TRAMA DA DURAÇÃO: O PODER SUBVERSIVO E FORMATIVO DA LEITURA DOS CLÁSSICOS © ALBERTO ARAÚJO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

Vivemos sob a égide inegociável da aceleração. A modernidade líquida, para usar a célebre acepção de Zygmunt Bauman, impõe uma temporalidade efêmera onde a informação se consome na exata velocidade em que se desfaz. Nossas telas pulsam com estímulos fugazes, fragmentos de notícias que nascem e morrem no espaço de um scroll, narrativas descartáveis que mimetizam o ritmo frenético e vertiginoso do cotidiano urbano. É precisamente nesse cenário de ruído perpétuo e saturação sensorial que a figura do clássico literário ergue-se não como um monumento empoeirado de um passado obsoleto, mas como um fanal radical de resistência espiritual e estética. Ler os clássicos não é um mero exercício de erudição acadêmica, um passatempo nostálgico ou uma obrigação escolar; é um ato político, ético e existencial de soberania interior.

 

Para compreender a magnitude desse poder, é preciso primeiro desarmar a falsa premissa de que o clássico é aquilo que pertence ao cânone por mero elitismo histórico ou imposição acadêmica. Como de maneira irretocável definiu Italo Calvino em seu ensaio seminal Por que Ler os Clássicos?, o clássico é aquele livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer. Ele possui uma densidade semântica e polifônica inesgotável, resistindo estoicamente ao desgaste corrosivo do tempo. Enquanto a literatura utilitária ou de consumo responde às urgências efêmeras de uma época, o clássico debruça-se sobre a permanência da condição humana. Ele decifra os abismos da psique, as engrenagens implacáveis do poder, a tragédia do amor e a angústia da finitude com uma precisão cirúrgica que parece ignorar os séculos que nos separam de sua gênese.

 

É nesse diálogo trans-histórico que nomes basilares da civilização assumem o papel de verdadeiros arquitetos da nossa consciência. Quando abrimos as páginas da Ilíada e da Odisseia de Homero, somos imediatamente lançados ao solo primordial do heroísmo, da fúria e da errância humana; o mar Egeu e as muralhas de Troia tornam-se o espelho de nossas próprias batalhas cotidianas contra o destino e a fragilidade.

 

Essa imensidão épica encontra eco e contraponto na dramaturgia monumental de William Shakespeare, cujos dramas psicológicos sondam os recônditos mais escuros e complexos da alma. Em Hamlet, Macbeth ou Rei Lear, o bardo inglês mapeou com precisão insuperável a ânsia pelo poder, a traição, a culpa e a loucura, criando personagens cuja densidade é tão viva que parecem respirar fora das páginas.

 

Para completar essa tríade de pilares universais, a prosa monumental de Dostoiévsk,  culminando em obras como Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, mergulha nos porões do espírito moderno, tensionando a liberdade, a moral e a redenção diante do silêncio de Deus. O leitor contemporâneo que se aventura por esses universos descobre, com um sobressalto de espanto, que as suas próprias dores, dúvidas, contradições e epifanias já foram cartografadas séculos atrás por esses gênios. Esse reconhecimento mútuo opera uma cura sutil, porém profunda, contra a solidão ontológica que caracteriza o homem moderno. Percebemos que nunca estivemos isolados no labirinto da existência: há uma comunidade invisível de espíritos que, através da perenidade da palavra escrita, estende-nos a mão por entre as fendas do tempo.

 

Além disso, a imersão nos clássicos exerce um papel insubstituível de contrapeso cognitivo na era da dispersão: a restauração da profundidade. O cérebro contemporâneo, moldado pela fragmentação das redes sociais, corre o risco de atrofiar-se no micro-foco, incapacitado de sustentar a atenção prolongada, a contemplação ou o pensamento abstrato. Os exigentes clássicos possuem um ritmo próprio, irredutível ao imediatismo digital. Eles exigem que o leitor desacelere, decifre construções sintáticas complexas, deguste metáforas densas e mergulhe em monólogos interiores intrincados. Esse esforço não constitui uma punição pedagógica; é o equivalente estético ao cultivo da alma. Ele expande o nosso vocabulário emocional, refina o senso crítico e nos imuniza contra a retórica rasa, o maniqueísmo reducionista e o dogmatismo estéril que grassam no debate público atual.

 

Há, ademais, um caráter profundamente subversivo no hábito solitário da leitura clássica. Numa sociedade industrializada que mercantiliza a utilidade imediata, onde tudo deve obrigatoriamente render lucro, engajamento, aplauso ou produtividade, o clássico é radicalmente inútil no sentido econômico, mas absolutamente imprescindível no sentido formativo. Ele nos obriga a encarar a complexidade irredutível do real, estilhaçando certezas fáceis e fanatismos. Um espírito habituado à ambiguidade moral de um príncipe dinamarquês ou às agonias existenciais dos heróis trágicos torna-se impermeável aos discursos salvacionistas de líderes demagógicos e às falácias do pensamento único. Quem lê os clássicos desenvolve uma imunidade natural contra a manipulação, porque compreende, em sua carne, que a condição humana é um tecido delicado de luz e sombra, avesso a slogans políticos ou rótulos simplistas.

 

Em última instância, os clássicos configuram a nossa herança comum mais preciosa e o passaporte intransferível para a verdadeira liberdade. Eles nos permitem viver milhares de vidas num só fôlego, habitar eras remotas, contemplar o mundo através de lentes que a nossa biografia limitada jamais nos permitiria alcançar por conta própria. Como nos lembrava com tanta clareza Antonio Candido, a literatura é um direito humano inalienável, uma força organizadora do caos interno que nos humaniza em plenitude.

 

Retornar aos clássicos, portanto, nunca foi olhar para trás com a melancolia dos derrotados; é, ao contrário, armar-se para o futuro com a máxima lucidez. É recusar a desolação e a superficialidade do presente em troca da solidez luminosa da eternidade. É, em suma, o gesto mais urgente que um espírito livre pode realizar para resgatar a posse de si mesmo em um mundo que tenta, a cada instante, dispersá-lo.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 


















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