domingo, 21 de junho de 2026

MACHADO DE ASSIS, 187 ANOS: UMA CELEBRAÇÃO CRÍTICA POR INTERMÉDIO DA OBRA: “DOM CASMURRO – O ROMANCE” DE MAXIMIANO DE CARVALHO E SILVA

Em celebração aos 187 anos de nascimento de Machado de Assis, o Focus Portal Cultural, sob a curadoria do jornalista Alberto Araújo, presta uma homenagem ao maior nome da literatura brasileira por meio da obra Dom Casmurro, em edição crítica organizada por Maximiano de Carvalho e Silva. 

Esta iniciativa busca destacar não apenas o gênio criativo de Machado, fundador da Academia Brasileira de Letras, mas também o rigor filológico e a dedicação acadêmica de Maximiano, que revisitou o romance em sua versão princeps de 1899 e o comparou a edições posteriores. 

Ao unir literatura e crítica textual, esta homenagem reafirma o papel de Machado como intérprete da sociedade burguesa do século XIX e celebra a contribuição de Maximiano para a preservação e atualização da obra. Trata-se de um tributo que conecta passado e presente, reafirmando a vitalidade de Dom Casmurro e sua permanência como espelho da cultura brasileira. 

Celebrar os 187 anos de nascimento de Machado de Assis significa revisitar não apenas o escritor, mas também o crítico da sociedade brasileira do século XIX. Nascido em 21 de junho de 1839, Machado atravessou o Império e a República, testemunhando transformações políticas, sociais e culturais que se refletem em sua obra. Entre seus romances, Dom Casmurro (1899) ocupa lugar central, tanto pela força estética quanto pela polêmica interpretativa que suscita até hoje. 

A edição crítica organizada por Maximiano de Carvalho e Silva, publicada pela FAPERJ e pela UFF, oferece uma oportunidade singular de compreender o romance em sua materialidade textual e em sua historicidade. Ao comparar a edição princeps de 1899, revisada pelo próprio Machado, com as versões de 1900 e 1969, Maximiano ilumina não apenas o texto, mas também o processo editorial e a recepção da obra. 

Maximiano, professor emérito da Universidade Federal Fluminense, foi pioneiro na consolidação da disciplina de Crítica Textual no Brasil. Sua edição de Dom Casmurro não é apenas uma reprodução atualizada do romance, mas um exercício de rigor filológico. 

Correção tipográfica: o crítico identifica e corrige falhas da edição original, sem alterar o estilo machadiano. Atualização gráfica: a ortografia é modernizada, mas preservam-se as construções sintáticas e a pontuação original. Comparação de edições: o cotejo entre 1899, 1900 e 1969 revela nuances da transmissão textual e da recepção crítica. 

Esse trabalho insere-se na tradição da Ecdótica, ciência dedicada ao estudo e à edição crítica de textos, que Maximiano ajudou a consolidar no Brasil. 

Maximiano propõe a leitura de Dom Casmurro como obra realista, voltada para a representação da sociedade burguesa carioca do século XIX. Mais do que a eterna dúvida sobre a fidelidade de Capitu, o romance expõe: 

Ambiente doméstico: a casa de Bento Santiago simboliza o espaço burguês, marcado por valores de propriedade e tradição. Concepções sociais: casamento, herança e honra são pilares da narrativa. Psicologia do narrador: a subjetividade de Bentinho reflete a tensão entre desejo individual e normas sociais. 

Assim, Dom Casmurro ultrapassa a questão da suposta traição e se afirma como documento literário de uma época. 

Na introdução da edição, Maximiano explica detalhadamente os critérios de correção e atualização. Esse esforço não é mero preciosismo: trata-se de garantir que o leitor contemporâneo tenha acesso ao texto em sua integridade, sem perder o sabor da linguagem original. 

O apêndice da obra, com informações complementares, reforça o caráter pedagógico da edição. Ao mesmo tempo, insere-se no projeto maior da UFF de valorizar a crítica textual como disciplina autônoma, formando gerações de estudiosos capazes de lidar com os desafios da transmissão literária. 

A edição de Maximiano não substitui outras leituras de Dom Casmurro, mas acrescenta uma camada de compreensão. Ela mostra que o texto não é estático: cada edição, cada revisão, cada atualização gráfica é também uma interpretação.

Celebrar os 187 anos de Machado, portanto, é reconhecer que sua obra continua viva, aberta a novas leituras e debates. A edição crítica é uma forma de homenagem, pois devolve ao público o Machado que escreveu, revisou e pensou sua própria obra. 

Nascido em 1926, Maximiano dedicou sua vida ao ensino e à pesquisa. Como diretor do Instituto de Letras da UFF e membro da Academia Brasileira de Filologia, contribuiu decisivamente para o desenvolvimento dos estudos linguísticos e literários no Brasil. 

ENTRE SUAS REALIZAÇÕES DESTACAM-SE: 

Edição crítica de Dom Casmurro (1966, 1975, e a versão ampliada pela FAPERJ/UFF). Edições de José de Alencar (Ubirajara, Til, O Sertanejo, O Tronco do Ipê). Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco, com fac-símile do manuscrito autógrafo.

Sua trajetória mostra que editar criticamente é também um ato de criação, de reconstrução da memória literária. 

Ao celebrarmos os 187 anos de Machado de Assis, reconhecemos não apenas o gênio literário, mas também o trabalho dos críticos e filólogos que mantêm sua obra viva. Maximiano de Carvalho e Silva, com sua edição crítica de Dom Casmurro, oferece ao leitor contemporâneo uma ponte entre o texto original e a leitura atualizada. 

Essa homenagem é dupla: ao escritor que fundou a Academia Brasileira de Letras e ao professor que consolidou a crítica textual no Brasil. Ambos nos lembram que a literatura é sempre diálogo entre passado e presente, entre autor e leitor, entre texto e interpretação. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 










MACHADO DE ASSIS: 187 ANOS DO ARQUITETO DA ALMA BRASILEIRA

 

O Focus Portal Cultural dedica o seu quadro Efemérides, nesta data memorável de 21 de junho de 2026, à celebração do 187º aniversário de nascimento de Joaquim Maria Machado de Assis. 

Falar de Machado não é apenas revisitar uma efeméride cronológica; é mergulhar na fundação mesma da psique literária brasileira. Nascido no Morro do Livramento, em 1839, o "Bruxo do Cosme Velho" transcendeu as limitações de sua origem modesta para erguer um edifício intelectual que, até hoje, serve como espelho e bússola para a compreensão do Brasil. Machado de Assis não apenas escreveu o seu tempo; ele o interrogou. Com uma ironia cirúrgica e um domínio técnico que desafiou o Romantismo vigente, ele pavimentou, através do Realismo, o caminho para uma literatura que não teme as ambivalências da alma humana. 

Sua obra é um convite constante ao exercício crítico, uma lição de humanismo que atravessa fronteiras linguísticas e temporais. Ao celebrá-lo, celebramos a própria capacidade humana de transformar a precariedade da vida em arte perene. Convidamos o leitor a percorrer conosco as linhas de um gênio que, mesmo 187 anos após seu nascimento, continua a ser o mais contemporâneo dos nossos autores. 

O Gênio que Traduziu a Complexidade Humana. Nascido no Morro do Livramento, Rio de Janeiro, em 21 de junho de 1839, e falecido na mesma cidade em 29 de setembro de 1908, Machado não é apenas um nome da literatura brasileira; é a própria definição da maestria intelectual em língua portuguesa. 

Machado de Assis emergiu de uma origem humilde, filho de um descendente de negros alforriados e de uma portuguesa da ilha de São Miguel, para se tornar o maior expoente de nossa literatura. Sem o acesso às universidades formais de seu tempo, forjou sua educação na leitura voraz, na observação atenta da sociedade carioca e na prática jornalística. Sua ascensão social, pautada por uma inteligência prodigiosa e um refinamento ímpar, permitiu que ocupasse cargos públicos relevantes, como no Ministério da Agricultura, do Comércio e das Obras Públicas, conciliando o dever burocrático com a produção artística incessante. Para o crítico literário Harold Bloom, Machado é o maior escritor negro de todos os tempos, uma afirmação que ressoa tanto pela sua genialidade técnica quanto pela sua capacidade de dissecar a condição humana com uma perspicácia sem precedentes. 

A vida de Machado de Assis foi um observatório privilegiado das transformações históricas brasileiras. Ele testemunhou a Abolição da Escravatura, o ocaso do Império e a instauração da República. Mais do que registrar esses eventos, Machado os interpretou. Em suas crônicas, romances e contos, ele não se limitou a relatar o cotidiano; ele o subverteu, revelando as contradições, a hipocrisia e a profundidade da alma brasileira no final do século XIX e início do XX. 

O legado machadiano é monumental: dez romances, 205 contos, dez peças teatrais, cinco coletâneas de poemas e inúmeras crônicas. É impossível falar de literatura brasileira sem citar a revolução trazida por Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra que marca a introdução do Realismo no Brasil. A ironia cáustica, o pessimismo filosófico e a quebra da linearidade narrativa colocaram o "Bruxo do Cosme Velho" em pé de igualdade com gigantes como Shakespeare, Dante e Camões.

Sua produção é frequentemente dividida entre uma fase "convencional" (romântica), com obras como Ressurreição e Helena, e a sua fase madura e realista, a "Trilogia Realista", Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro. Nesta segunda fase, o autor desnudou a elite carioca, desafiando convenções sociais com uma elegância que ainda hoje fascina leitores e acadêmicos ao redor do globo.

Além de escritor, Machado foi fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, consolidando seu papel de mentor e líder intelectual. Sua influência atravessa gerações, moldando autores como Lima Barreto, Drummond de Andrade e ecoando em nomes internacionais. Hoje, sua obra é traduzida para dezenas de idiomas, de línguas europeias ao esperanto, atestando a universalidade de sua voz. 

Ao completarmos 187 anos de seu nascimento, relembramos não apenas um gênio que o Brasil deu ao mundo, mas um herói nacional cujas palavras continuam a ser o espelho mais preciso de nossa própria identidade. Machado de Assis, eterno em sua lucidez, permanece vivo em cada página que nos convida a questionar, sentir e compreender a complexidade do ser humano. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural












ENTRE VERSOS E SABORES: A TARDE JUNINA QUE AQUECEU O NÚCLEO DA REDE SEM FRONTEIRAS NO RIO DE JANEIRO

Rio de Janeiro, 19 de junho de 2026. Enquanto o inverno carioca insistia em suas notas frias, o sol rompeu o cinza dos últimos dias para abençoar um encontro que foi pura confraternização. O Núcleo Rio de Janeiro da Rede Sem Fronteiras (RSF) reuniu-se no restaurante Império Nordestino para celebrar a tradição junina em uma tarde marcada pelo lirismo, pela memória e pelo afeto. 

O evento contou com a presença ilustre de Ana Maria Tourinho, Vice-presidente Cultural Mundial da RSF, que prestigiou o encontro liderado com maestria por Angela Guerra, presidente do núcleo carioca. A atmosfera, já naturalmente acolhedora pela amizade, foi elevada a um patamar artístico memorável com a performance primorosa do repentista Miguel Bezerra, uma indicação certeira do professor Ivan Proença. 

Miguel Bezerra não apenas ocupou o espaço; ele o transformou. Com uma destreza criativa que honra a tradição nordestina, o repentista entrelaçou homenagens individuais a cada um dos 18 presentes, demonstrando domínio em métricas complexas como o "galope" e o "martelo". Em um exercício de improviso, desafiou os participantes a sugerirem motes, como o inspirado "Sonhando no meu jardim", que foi prontamente devolvido em versos de pura sensibilidade. 

Uma alegria especial foi contar também com a presença de Helena Tourinho. Engenheira brilhante, Helena atravessou fronteiras e está de férias no Rio, e aproveitou para prestigiar o evento: ela reside em Calgary, uma das metrópoles mais modernas e fascinantes do mundo, na província de Alberta, oeste do Canadá. Localizada aos pés das imponentes Montanhas Rochosas e consolidada como um dinâmico centro financeiro global, Calgary reflete bem a mente visionária e a trajetória admirável de Helena, cuja elegância iluminou ainda mais o encontro. 

O ponto alto da celebração foi o momento de comunhão à distância. Em uma homenagem que atravessou o oceano, o poeta rendeu tributos ao professor Ivan Proença e, de forma especial, à Presidente Mundial da RSF, Dyandreia Portugal. O gesto, articulado por Ana Maria Tourinho, celebrou o aniversário de Dyandreia, que reside em Lisboa. A distância física tornou-se invisível diante da emoção da homenageada, que recebeu a dedicatória em vídeo como um presente inestimável, fortalecendo os laços que unem a rede em diferentes continentes.

Entre rimas e recordações, o paladar também foi honrado. Em um ambiente que respira autenticidade, os participantes degustaram o tradicional Baião de Dois, sintetizando o espírito do encontro: a descoberta e o compartilhamento. 

Nas fotos que registram esse dia especial, destacam-se a presença das acadêmicas Juçara Valverde e Helena Tourinho, sobrinha extremamente querida pelo casal Ana Maria e Euderson Tourinho. A tarde provou que, mesmo sob o frio, a cultura é o calor que mantém viva a chama da amizade. Com o coração repleto de versos, o grupo encerra o semestre com a promessa de novos horizontes. O Núcleo RJ já prepara uma surpresa que, seguindo o padrão de excelência desta tarde, promete marcar, novamente, a agenda cultural dos associados. Aguardem, pois a rede não para de tecer seus laços. 

Créditos das fotos e vídeo:

Compartilhados por Ana Maria Tourinho. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural









O INVERNO SOB O MANTO DO CORCOVADO - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Hoje, o calendário girou a página e anunciou: o inverno chegou. É 21 de junho de 2026, e a estação que convida ao recolhimento, à introspecção e ao café quente nas mãos, estende seu domínio até o dia 22 de setembro. Olho para fora, aqui em Icaraí, e a manhã se veste de um cinza aveludado, uma paleta suave que descansa os olhos e acalma o espírito. 

A paisagem diante de mim, como bem registra a foto, é um convite ao silêncio. A praia, em sua curva mansa, parece esperar pelo movimento lento desta nova estação. A vida segue, pontuada por passantes apressados, pelo desenho geométrico das faixas de pedestres e pela sentinela atenta de uma viatura que vigia a esquina. Mas há algo de solene no ar. Lá ao fundo, do outro lado da baía, a montanha que abraça a cidade se esconde. O tempo, com sua cortina de nuvens brancas e densas, velou a imagem do Cristo Redentor. 

Há uma beleza quase mística nessa cortina de névoa. Quem caminha pela orla, quem olha para o horizonte, compreende que a visibilidade limitada não altera a realidade. O Cristo está lá. Podemos não ver os traços de seu rosto ou a envergadura de seus braços abertos sob o manto do tempo, mas a alma de Niterói, e de toda essa gente que transita sob a garoa fina, sente o seu amparo. É um conforto secreto saber que, mesmo quando o mundo parece obscurecido pelas brumas ou pelas tempestades da vida, a proteção permanece constante, inabalável, silenciosa.

O inverno não é o fim do sol, é apenas uma pausa necessária. É o tempo de diminuir o passo, de olhar mais para dentro e de valorizar o abraço que, embora envolto pela névoa deste início de estação, permanece ali, abençoando a todos nós.

Que este inverno que hoje se inicia seja, para cada um de nós, um período de paz. Que saibamos encontrar serenidade mesmo quando as nuvens, por força da natureza, nos privam da vista do horizonte. Que o frio seja apenas um pretexto para aquecer o coração, e que o branco da névoa seja, na verdade, um manto de tranquilidade sobre os nossos dias. Ele permanece ali, de braços abertos, abençoando a todos nós. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

21 de junho de 2026 – início do inverno.



ESPELHO QUE QUEBRA O REFLEXO - UMA RÉPLICA À PROFUNDIDADE MACHADIANA - RÉPLICA DE ALBERTO ARAÚJO AO PROFESSOR MARCO ANTÔNIO PEREIRA.

"Machado de Assis introduz na ficção brasileira a dimensão reflexiva que incluiu no texto ficcional a crítica da própria reflexão que ele realiza."  

Professor Marco Antônio 


“Prezado Professor Marco Antônio, sua provocação sobre a dimensão reflexiva em Machado de Assis não é apenas um comentário literário; é um convite para mergulharmos no abismo mais fascinante da nossa língua. Aceito o desafio de responder, não para discordar, mas para celebrar essa constatação que, de tão verdadeira, chega a ser vertiginosa.

Dizer que Machado introduz a "crítica da própria reflexão" é tocar no coração da modernidade. Enquanto seus contemporâneos, mergulhados no realismo ou no romantismo clássico, buscavam na literatura um espelho fiel da realidade uma janela clara por onde se via o mundo, Machado construiu um espelho deformante, daqueles de parques de diversões, onde o objeto refletido percebe, subitamente, que o vidro tem ondulações próprias. 

O que me fascina e me causa uma alegria quase indescritível ao ler sua afirmação é pensar na coragem intelectual de Machado. Ele não se contenta em ser o "escritor-deus" que dita verdades. Ele é o escritor que duvida do próprio punho. Quando Brás Cubas ou Bento Santiago discursam, Machado, nas entrelinhas, já está rindo da pretensão deles. Ele nos ensina que o pensamento é sempre um terreno movediço. Ao incluir a crítica da reflexão no corpo do texto, ele antecipa a psicanálise e a filosofia da linguagem, mostrando-nos que a consciência é, acima de tudo, um exercício de autossabotagem bem-humorada. 

É um prazer ler um autor que não nos subestima. Machado de Assis exige que sejamos cúmplices, não apenas receptores. Ele nos convida para o banquete da dúvida, onde a ironia não é apenas um recurso estilístico, mas uma ferramenta de sobrevivência ética. Se o texto ficcional é o corpo, essa camada reflexiva é a alma inquietante que o habita, sempre pronta a questionar se o que está sendo dito faz algum sentido, ou se o sentido é apenas um delírio necessário. 

Essa 'subjetividade hipertrofiada' que você tão bem descreveu em sua análise sobre Brás Cubas é, precisamente, o motor dessa reflexão. Quando o narrador-defunto assume o leme da história, ele não apenas narra: ele escava a própria consciência, tornando a subjetividade não um limite, mas um universo a ser explorado.

Sua reflexão, professor, acende em mim a certeza de que Machado não pertence apenas ao século XIX. Ele é o contemporâneo de todos nós que, diante das telas e dos textos atuais, ainda tentamos entender o que é a "verdade" por trás das narrativas. Obrigado por essa provocação; ela reafirma que ler Machado é, antes de tudo, um eterno exercício de acordar para a complexidade da própria mente. Que venham mais dessas reflexões que, ao invés de fechar o tema, abrem novos caminhos para a nossa curiosidade.”

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 



CONSAGRAÇÃO ACADÊMICA E HOMENAGENS NO CENÁCULO FLUMINENSE DE HISTÓRIA E LETRAS – PRESIDENTE MATILDE CARONE SLAIBI CONTI


Sob a égide da erudição e do espírito imortal das artes, a Academia Fluminense de Letras – Presidente Márcia Pessanha foi palco no dia 20 de junho de 2026, sábado, de uma solenidade que ultrapassou o protocolo, convertendo-se em um verdadeiro tributo à cultura fluminense e luso-brasileira. 

O cenário, o Salão Nobre da centenária instituição, em Niterói, abriu suas portas para receber o Cenáculo Fluminense de História e Letras, sob a batuta de sua ilustre presidente, Matilde Carone Slaibi Conti. O evento, marcado por uma atmosfera de refinamento intelectual, teve como mote central a posse da nova acadêmica, Idalina da Purificação Andrade Gonçalves, e a outorga da prestigiosa Comenda Waldenir de Bragança – 2026. 

A abertura da solenidade foi marcada por um momento de profunda espiritualidade e humanismo, conduzido pela presidente Matilde Carone Slaibi Conti. Com a sensibilidade própria dos que cultivam o espírito, Matilde acolheu os presentes não apenas como convidados, mas como uma verdadeira irmandade reunida pelo apreço às letras. Em um discurso que transformou o ambiente, a presidente observou a transição da manhã, que superara a chuva para se revelar em um dia outonal de luz singular. Ao citar a estação do ano como o refúgio por excelência dos poetas, Matilde teceu uma analogia comovente entre o calor que despontava do lado de fora e o calor humano que aquecia o Salão Nobre, ressaltando que a fraternidade era, ali, o fio condutor de toda a celebração. 

Em um ápice de reflexão metafísica e amorosa, a presidente recorreu à sabedoria apostólica, invocando a epístola de São Paulo aos Coríntios: "Ainda que eu falasse a língua dos anjos e dos santos, se eu não tiver amor, eu nada serei". Com essa premissa, ela justificou a presença de cada um naquela manhã gloriosa, um público unido, acima de tudo, pelo amor à educação e à cultura. Num gesto de acolhida que tocou a alma da neófita, Matilde saudou Idalina, chamando-a de "Rainha dos Açores" e manifestando a convicção de que sua presença não apenas enriqueceria o Cenáculo, mas despertaria nos acadêmicos o mesmo amor profundo que a comunidade dedicava à sua cidade. Foi um prelúdio magistral, que converteu a solenidade num verdadeiro santuário da amizade e do intelecto. 

O cerimonial, conduzido com elegância por Irma Lasmar Sirieiro, iniciou-se com a formação da mesa de honra, reunindo personalidades que simbolizam o vigor da cooperação cultural. Ao lado de Matilde Carone Slaibi Conti, compuseram o assento a presidente da Academia Fluminense de Letras, Márcia Maria de Jesus Pessanha; a Embaixadora Joana Gaspar, Cônsul Geral de Portugal no Rio de Janeiro; Ana Maria Tourinho, vice-presidente Cultural Mundial da Rede Sem Fronteiras; Álvaro Neves da Silva Mendonça, Vice-presidente da Casa dos Açores; e Heliane Abicalil, presidente da Casa da Amizade de Niterói. 

A entrada da neoacadêmica no recinto, conduzida pelo jornalista Alberto Araújo e pelo Desembargador André Fontes, foi o prenúncio de uma manhã-tarde de reconhecimento. O patriotismo ecoou pelas paredes seculares com a execução dos hinos nacionais brasileiro e português, regido pelo técnico de som Carlinhos unindo as nações pelo idioma e pela história. 

Um dos momentos de maior emoção foi a entrega da Comenda Waldenir de Bragança – 2026. A distinção, que perpetua o nome de um dos maiores entusiastas da cultura fluminense, foi conferida a Rafael Lemes Sabino categoria: Literatura e André Neves Abreu categoria: Artes. Ladeados por seus familiares, os jovens talentos receberam a honraria das mãos do acadêmico e idealizador do projeto, Levy Pinto de Castro Filho, e da professora Flávia Margarida, mentora de André no Espaço Perspectiva. 

A solenidade atingiu seu ápice com a posse formal de Idalina da Purificação Andrade Gonçalves. A entrega da medalha, conduzida por Álvaro Neves da Silva Mendonça, e do diploma, pelas mãos da Embaixadora Joana Gaspar, selaram o compromisso da nova integrante com a imortalidade acadêmica. 

Após a leitura do Termo de Posse por Márcia Pessanha, seguiu-se a saudação oficial, em um discurso magistral que entrelaçou a trajetória literária da neófita com a relevância do Cenáculo. O rito de investidura alcançou seu momento de sublime lirismo quando Márcia Pessanha assumiu a tribuna para proferir a saudação oficial à neoacadêmica. Com uma oratória que se poderia definir como encantatória, Márcia Pessanha teceu um painel vivo sobre a trajetória literária de Idalina da Purificação Andrade Gonçalves. 

Suas palavras, permeadas por uma felicidade contagiante, revelaram com precisão a importância do ingresso de Idalina na Cadeira 48, cuja patronímica recai sobre o gênio Martins Pena, sucedendo o notável Julio Cezar Vanni. Num movimento de rara erudição, Márcia convocou a presença imortal de Antero de Quental, homenageando a especialidade de Idalina pela obra do pensador açoriano. 

A oradora costurou com maestria os vínculos luso-brasileiros, rememorando nomes fundamentais como Vitorino Nemésio e a conexão profunda de Machado de Assis, filho de açoriana, e a lírica de Cecília Meireles, neta de açorianos. Ao discorrer sobre o vasto currículo de Idalina, Márcia Pessanha destacou não apenas as honrarias conquistadas, mas a relevância de sua atuação no Real Gabinete Português de Leitura e seu estreito diálogo com o Consulado Português, reafirmando que sua posse é um tributo à cultura que une os dois lados do Atlântico.

Outro ponto alto de indescritível emoção na tarde ocorreu quando a neoacadêmica Idalina da Purificação Andrade Gonçalves assumiu a palavra. Em sua alocução, um misto de gratidão e reverência, Idalina dirigiu-se primeiramente à presidente Matilde Carone Slaibi Conti e à sua paraninfa, Márcia Pessanha, com palavras que transbordaram reconhecimento e afeto. Ao evocar a presença de seu Patrono, Martins Pena, o precursor do teatro nacional, e saudar a memória de seu antecessor, o acadêmico Julio Cezar Vanni, Idalina não apenas relembrou o passado; ela teceu um fio condutor invisível, unindo a tradição que agora recebia com a missão de futuro que, a partir daquele instante, passava a projetar. Seu discurso, marcado por um humanismo profundo e uma erudição lapidada, tocou os corações presentes, convertendo o Salão Nobre em um espaço de comunhão intelectual. 

Para o encerramento, Idalina reservou um momento de puro lirismo poético, declamando palavras que ficaram gravadas na memória dos que puderam testemunhar a sua consagração: “A história de vida do meu Patrono Martins Pena tem o encanto da Flor Selvagem, que surge inesperadamente, despertando em nós um deslumbramento do qual não percebemos o gênero ou a espécie de flora à qual pertence, ou de onde deriva a Semente, que produziu este Maravilhoso Encantamento. Inebriando-nos com o Lirismo Poético do Brasil e Portugal.” 

Ao finalizar, a voz de Idalina, embargada pela emoção e sustentada pela beleza das imagens que criou, foi recebida por um auditório arrebatado, cujos aplausos efusivos e demorados selaram o seu ingresso definitivo no Cenáculo Fluminense de História e Letras. 

Também um momento impregnado de uma beleza etérea, desenhou-se quando a neoacadêmica Idalina, num gesto que uniu a doçura à gratidão, reverenciou os jovens talentos Rafael Lemes Sabino e André Neves Abreu. Em meio a sorrisos que iluminavam o Salão Nobre, os dois artistas, símbolos vivos da renovação das artes, foram envolvidos por uma atmosfera de ternura. Idalina, movida por uma sensibilidade que tocou a todos, confiou-lhes um buquê de orquídeas, flores que, em sua rara e delicada vivacidade, pareciam espelhar o próprio espírito daquela celebração.   

Com elegância contida, André entregou a sua parte à presidente Matilde Carone Slaibi Conti, enquanto Rafael ofertou a sua à paraninfa Márcia Maria de Jesus Pessanha. O gesto de entrega, realizado com a reverência de quem reconhece o legado e a promessa do futuro, transformou-se numa cena de rara beleza poética. Ao verem-se ladeados pelas ilustres damas, sob o olhar atento e enternecido da assembleia, o salão foi tomado por um instante de silêncio contemplativo, que logo se rompeu em uma salva de palmas estrondosa. 

A plateia, arrebatada pela magnitude do momento, levantou-se em um uníssono de respeito e admiração. Ali, naquele abraço florido entre a experiência das mestras e a esperança da juventude, a cultura fluminense não apenas honrou o passado, através da Comenda Waldenir de Bragança, mas celebrou, com inegável lirismo, a perenidade das artes que, pelas mãos daqueles jovens, encontrará sempre novos campos para florescer. 

A celebração da juventude e do talento encontrou seu compasso lírico quando o professor Henrique Vianna tomou o violão, envolvendo o Salão Nobre em uma atmosfera de nostálgica reverência. Ao entoar os acordes de Garota de Ipanema, o mestre dedicou a inesquecível obra de Vinicius e Jobim aos jovens Rafael Lemes Sabino e André Neves Abreu, conferindo ao momento um brilho de consagração cultural. Foi, sem dúvida, um dos instantes de maior comoção da tarde: enquanto as notas flutuavam pelo ar, a plateia, tomada por um sentimento coletivo de pertencimento, uniu-se a Henrique em um coro vibrante e espontâneo. O Cenáculo transformou-se, então, em uma grande voz, onde cada verso cantado era um testemunho vivo do amor pela música brasileira e da fraternidade que ali se consolidava. Aquele gesto singelo, porém profundo, elevou a solenidade a um patamar de rara harmonia, onde passado e presente se fundiram em um hino de alegria e esperança.

O encerramento do evento foi abrilhantado pela Tuna Açoriana, grupo que preserva a alma musical de Portugal e das terras d'além-mar. Composta por Carlos Henrique Alves, Maria Clara Rocha, Pedro Henrique Fagundes, Francisco Gonçalves, Alexandre Fagundes e João Victor Fagundes, a Tuna emocionou a todos com um repertório que incluiu "Olhos Negros", "Tocando em Frente" e "Ilhas Bruma". O toque de genialidade coube à execução de uma modinha, composta sobre um poema de autoria da própria Idalina, num momento que harmonizou a palavra poética à nota musical.

No crepúsculo desta jornada inesquecível, a presidente Matilde Carone Slaibi Conti tomou a palavra para o encerramento, numa fala que fluiu como um rio de gratidão e ternura. Com olhar sereno, expressou a alegria imensa de ter compartilhado da música da Tuna Açoriana e do encanto contagiante dos artistas que ali trouxeram o frescor da arte, abençoando a pureza de cada um, para selar a sua gratidão, conferiu-lhes uma “Moção de Aplausos e Reconhecimento” ao grupo musical.    

Assim, em um gesto de rara generosidade, Matilde declarou que a casa da Academia era, de fato, a casa de todos os presentes, transbordando uma hospitalidade que espelhava a grandeza do Cenáculo. 

Ao dirigir-se à sua assembleia de amigos, companheiros de uma vida de lutas e ideais, sua voz carregou-se de uma emoção profunda. Reconheceu que a força de sua trajetória não residia em isolamentos, mas no amparo constante e na solidariedade que recebia de cada um daqueles que sempre lhe estenderam a mão, impedindo-a de sentir a solidão. Agradeceu às instituições parceiras, como a Rede Sem Fronteiras, em um Núcleo portentoso em Niterói, Matilde é a sua presidente, Rotary e a Casa da Amizade, com a reverência de quem compreende que a cultura é um esforço coletivo e fraterno. 

Para selar a despedida, Matilde invocou a sabedoria telúrica de Guimarães Rosa. Ao rememorar o mestre de Cordisburgo, que decifrou as veredas do sertão e da alma humana, ela deixou aos presentes a sua última e mais vital lição: a de que, diante dos desafios da existência e da nobre missão de preservar o legado das letras, o que a vida, afinal, quer de nós é CORAGEM. 

Com essa palavra-oráculo pairando sobre o salão, a solenidade encerrou-se, deixando nos corações a semente de um otimismo inabalável e a promessa de novos encontros sob o signo do saber e do amor. Uma tarde para a história, onde a pena e a arte caminharam lado a lado, sob o olhar atento da tradição e a esperança do renovo cultural. 

Ao término das celebrações, os presentes foram convidados a um coquetel assinado pela Chef Valéria Gervásio. Entre taças e conversas, a intelectualidade niteroiense reafirmou o papel vital de instituições como o Cenáculo Fluminense na manutenção da nossa memória e na promoção das artes. Uma tarde para a história, onde a pena e a arte caminharam lado a lado, sob o olhar atento da tradição e a esperança do renovo cultural. 

A solenidade foi prestigiada por uma expressiva e distinta assembleia de convidados, cujas presenças selaram o brilho desta tarde memorável. Entre os nomes que abrilhantaram o Salão Nobre, destacamos Matilde Carone Slaibi Conti, Márcia Maria de Jesus Pessanha, André Ricardo Fontes, Otávio Cesar de Queiroz, Rosangela Moraes Serpa, Levy Pinto de Castro Filho, Francisco Amaro Gonçalves, Damila Ayres Lemos, Rafael Sabino, Alberto Araújo, Shirley Araújo, Dulce Rocha Mattos, Angela Riccomi, Flavia Margarida, André Neves Abreu, Ana Paula R. Neves, Riva Maria Leite Costa, Ernesto Guadalupe, F. Mendonça, Paulo André L. Rabello, Ana L. Mendonça, Brigitta Monteiro, Henrique Vianna, Rivo Giannini, Alexandre da Motta Campanelli, Cleide Villela Abib, Irma Lasmar, Heliane Abicalil, Fernanda de Medeiros Nunes, Edir Meirelles, Ernesto Maier Rymer, Carlos Henrique, Sue Hellen Barbosa Oliveira, Nágela Moura de Barros, Patrícia Rangel Araújo, Vera Regina de Carvalho Silva, Ana Regina Seixas, Manoel Augusto de Azevedo Neto, Ana Maria Tourinho, Euderson Kang Tourinho, Zeneida Apolônio Seixas, Carlos Frederico G. C. Silveira, Bernardo Correia L. Junior, Maria Gabriela Lopes, Ana Paula C. N. Alcântara, Yuri Rocha Brum, Maria Otilia Camillo, Lucília Dowslley, Carlos Henrique Alves, Maria Clara Rocha, Pedro Henrique Fagundes, Francisco Gonçalves, Alexandre Fagundes e João Victor Fagundes. 

Esta vasta lista de ilustres amigos e entusiastas da cultura, somada a tantos outros admiradores que ali se fizeram presentes, reforçou o caráter de fraternidade e o profundo apreço que a comunidade fluminense dedica às letras e às artes, tornando o evento um marco de união sob o teto acolhedor desta Academia. 

Créditos das fotos:

Alberto Araújo

Aldo da Silva Pessanha

Euderson Kang Tourinho 

Editorial © Alberto Araújo

Focus Portal Cultural