“Dizes que o tempo passa.../ Eu digo que o tempo fica.” Como nos ensinou Cecília Meireles, há momentos em que a cronologia se suspende para que a arte instale o seu domicílio eterno.
A fotografia não é apenas um registro de outubro de 2018, no palco do Theatro Municipal de Niterói; é um espelho onde o tempo, teimosamente, decidiu estacionar. Ali, antes que o silêncio se partisse pela primeira nota do "Concerto Lírico", Alice Fontanella já detinha a imensidão da música em seu olhar, um olhar que o querido João Cláudio, com sua lente sensível, soube eternizar.
Alice, a mezzo-soprano que a nossa Niterói viu nascer e o mundo passou a admirar, é, em essência, essa constelação que habita os intervalos. Se há vozes que apenas ecoam no espaço físico, a sua atua como a luz que atravessa o vitral: ela nos atravessa, altera a nossa cor interior, toca o invisível que carregamos no peito.
Sua trajetória, iniciada aos há anos sob a égide do mestre Romeo Savastano, não é uma sucessão de datas, mas uma colheita de estados de alma. Desde a juventude, já se percebia que aquela técnica lírica e camerística não era um simples aprendizado, mas um destino. O Salão Nobre do Municipal, a Fundação Cultural Avatar e o Conservatório de Niterói foram os primeiros altares onde ela depositou sua voz grave, aveludada, capaz de traduzir a angústia de Tchaikovsky ou a densidade de Rachmaninoff com a mesma naturalidade com que respira.
A busca pelo essencial levou Alice além-mar. Ser a única brasileira escolhida para a masterclass de Montserrat Caballé, em Zaragoza, não foi um diploma, foi um rito de passagem. E em Milão, sob a batuta de Vittorio Terranova, no Conservatório Giuseppe Verdi, ela compreendeu que a ópera, antes de ser um espetáculo, é uma forma de filosofia.
Em 2022, ao interpretar o Stabat Mater de Pergolesi, em Santa Catarina, Alice confirmou que sua voz é a ponte entre a carne e o espírito. Ela canta como quem faz uma prece. Ela habita os silêncios, e é neles que reside a sua força.
Para o Focus Portal Cultural, tê-la como Foculista é nutrir-se dessa luz. Alice não apenas transita pela arte; ela a consagra com a generosidade de quem entende que a beleza é a única forma de suportar a finitude. Que esta imagem, guardada na memória do palco, continue a nos lembrar que, enquanto houver música, nunca estaremos sós.
©Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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