A história cultural de uma cidade não se constrói apenas com monumentos, livros ou instituições; ela se edifica sobretudo na presença viva de pessoas que, com delicadeza e força, tornam-se símbolos de convivência e memória. Entre essas presenças, Dulce Rocha Mattos ocupa um lugar singular. Sua trajetória é marcada por uma rara combinação de sensibilidade estética, altruísmo social e compromisso com a cultura, atributos que a transformam em referência incontornável para Niterói e além.
Em nosso círculo de convivência, no grupo de WhatsApp, Dulce é carinhosamente chamada de “Rainha dos Olhos Azuis”. O título não é mero ornamento: traduz a intensidade de um olhar que acolhe, compreende e transmite serenidade. É um olhar que guarda histórias de alegria, arte e amizade, e que se tornou metáfora de sua própria essência, uma mulher que ilumina os espaços por onde passa.
Sua atuação em instituições como a ANE (Associação Niteroiense de Escritores), a UBT - Niterói (União Brasileira de Trovadores), o Rotary Club, entre tantas outras, revela uma presença que não se limita à participação formal. Dulce é agente transformadora, capaz de imprimir humanidade em cada gesto. Sua delicadeza não é fragilidade, mas sim força revestida de ternura, uma forma de resistência cultural e afetiva.
Foi casada com João Mattos, um verdadeiro “gentleman” cuja memória permanece viva. Juntos construíram uma história de parceria que se reflete na forma como Dulce vê o mundo. A ausência física de João não apagou sua influência; ao contrário, Dulce continua a honrar esse legado com gestos de carinho e generosidade, perpetuando uma narrativa de amor e respeito.
Dulce foi atriz. O palco lhe ensinou a empatia, a escuta e a capacidade de se reinventar. Em uma de suas apresentações, caracterizou-se de palhaço, revelando que o riso e a leveza também fazem parte de sua essência. Essa experiência artística deixou marcas profundas, pois quem se entrega à cena aprende a olhar o outro com compaixão e Dulce leva essa lição para todos os espaços que ocupa, eternizando-a em sua trajetória.
Além disso, por muitas vezes declamou poesias no palco do Centro Cultural Maria Sabina, sob a direção da saudosa Neide Barros Rego, e realizou performances em diversas instituições, inclusive em sarau da UBT - Niterói e na UPPES – Sindicato, sob a presidência do professor Stelling. Recentemente, foi agraciada pela Academia Fluminense de Letras, presidida por Márcia Pessanha, por sua “performance” poética durante a solenidade de posse da Diretoria da AFL. São tantos momentos que seria necessário reservar uma página inteira para descrever suas atuações.
Também recentemente, foi homenageada pelo Focus Portal Cultural com uma arte belíssima, em que aparece caracterizada como palhaço, homenagem que ela confessou ter amado. Consideramos essa parte merecida, pois sua contribuição à arte e à cultura é fenomenal. Antes disso, o Rotary Club sob a presidência de Riva Costa já havia celebrado seu trabalho de altruísmo e afetividade, duas palavras que definem com precisão sua atuação. Dulce não pratica o bem por obrigação, mas por vocação. Seu olhar atento às pessoas, sua escuta generosa e sua capacidade de perceber o que há de melhor em cada um são dons que distribui com naturalidade.
Em reuniões, saraus e encontros literários, Dulce é aquela presença que suaviza o ambiente. Sua fala é sempre ponderada, seu sorriso acolhedor, sua postura transmite serenidade. É uma mulher que entende que cultura não é apenas conhecimento, mas convivência, partilha e afeto.
A convivência com Dulce ensina que a verdadeira elegância está na simplicidade dos gestos: oferecer uma palavra de incentivo, lembrar o nome de cada colega, celebrar as conquistas dos outros como se fossem suas. É transformar cada encontro em um momento de amizade genuína.
Dulce é também símbolo de continuidade. Em tempos em que tantas relações se tornam superficiais, ela preserva o valor da presença, da conversa, do abraço. Sua vida é uma coleção de histórias que se entrelaçam com as de tantos amigos e colegas, escritores, trovadores, rotarianos, artistas, todos tocados por sua generosidade.
É impossível falar de Dulce sem mencionar o impacto que ela causa. Impacto não pelo volume de suas ações, mas pela profundidade delas. Cada gesto seu tem significado. Cada palavra tem intenção. Cada sorriso tem verdade.
Por isso, esta homenagem é mais do que reconhecimento: é agradecimento. Agradecimento por ser exemplo de humanidade, por manter viva a chama da cultura niteroiense, por mostrar que a delicadeza é uma forma poderosa de resistência.
Dulce Rocha Mattos, nossa Rainha dos Olhos Azuis, é, em essência, uma artista da vida, alguém que transforma o cotidiano em poesia, o convívio em arte e a amizade em legado.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural


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