"Machado de Assis introduz na ficção brasileira a dimensão reflexiva que incluiu no texto ficcional a crítica da própria reflexão que ele realiza."
Professor Marco Antônio
“Prezado Professor Marco Antônio, sua provocação sobre a dimensão reflexiva em Machado de Assis não é apenas um comentário literário; é um convite para mergulharmos no abismo mais fascinante da nossa língua. Aceito o desafio de responder, não para discordar, mas para celebrar essa constatação que, de tão verdadeira, chega a ser vertiginosa.
Dizer que Machado introduz a "crítica da própria reflexão" é tocar no coração da modernidade. Enquanto seus contemporâneos, mergulhados no realismo ou no romantismo clássico, buscavam na literatura um espelho fiel da realidade uma janela clara por onde se via o mundo, Machado construiu um espelho deformante, daqueles de parques de diversões, onde o objeto refletido percebe, subitamente, que o vidro tem ondulações próprias.
O que me fascina e me causa uma alegria quase indescritível ao ler sua afirmação é pensar na coragem intelectual de Machado. Ele não se contenta em ser o "escritor-deus" que dita verdades. Ele é o escritor que duvida do próprio punho. Quando Brás Cubas ou Bento Santiago discursam, Machado, nas entrelinhas, já está rindo da pretensão deles. Ele nos ensina que o pensamento é sempre um terreno movediço. Ao incluir a crítica da reflexão no corpo do texto, ele antecipa a psicanálise e a filosofia da linguagem, mostrando-nos que a consciência é, acima de tudo, um exercício de autossabotagem bem-humorada.
É um prazer ler um autor que não nos subestima. Machado de Assis exige que sejamos cúmplices, não apenas receptores. Ele nos convida para o banquete da dúvida, onde a ironia não é apenas um recurso estilístico, mas uma ferramenta de sobrevivência ética. Se o texto ficcional é o corpo, essa camada reflexiva é a alma inquietante que o habita, sempre pronta a questionar se o que está sendo dito faz algum sentido, ou se o sentido é apenas um delírio necessário.
Essa 'subjetividade hipertrofiada' que você tão bem descreveu em sua análise sobre Brás Cubas é, precisamente, o motor dessa reflexão. Quando o narrador-defunto assume o leme da história, ele não apenas narra: ele escava a própria consciência, tornando a subjetividade não um limite, mas um universo a ser explorado.
Sua reflexão, professor, acende em mim a certeza de que Machado não pertence apenas ao século XIX. Ele é o contemporâneo de todos nós que, diante das telas e dos textos atuais, ainda tentamos entender o que é a "verdade" por trás das narrativas. Obrigado por essa provocação; ela reafirma que ler Machado é, antes de tudo, um eterno exercício de acordar para a complexidade da própria mente. Que venham mais dessas reflexões que, ao invés de fechar o tema, abrem novos caminhos para a nossa curiosidade.”
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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