sábado, 27 de junho de 2026

27 DE JUNHO DE 2026 – CELEBRAMOS OS 118 ANOS DO NASCIMENTO DE GUIMARÃES ROSA, A VOZ DO SERTÃO QUE ENCANTOU O MUNDO.

No quadro EFEMÉRIDES do Focus Portal Cultural, sob a curadoria do jornalista Alberto Araújo, celebramos hoje, 27 de junho, uma data que se funde com a própria identidade literária do Brasil. Há exatos 118 anos, na pacata Cordisburgo, nascia João Guimarães Rosa. Médico, diplomata e, acima de tudo, um artífice da palavra, Rosa não apenas registrou o Brasil em suas obras; ele alterou para sempre a arquitetura da língua portuguesa, transformando o "sertão mineiro" em um palco universal onde se debatem as questões mais profundas da condição humana. 

A trajetória de Guimarães Rosa é marcada por uma polifonia rara. Filho de comerciantes, cedo demonstrou uma inclinação voraz para o conhecimento, nutrindo uma biblioteca mental que abarcava quase duas dezenas de idiomas. Essa erudição, longe de distanciá-lo de suas raízes, serviu como lente para ampliar a riqueza do falar popular. Rosa coletava arcaísmos, inventava neologismos e tensionava a sintaxe com a audácia de quem entendia que a língua é um organismo vivo, capaz de ser recriado pela sensibilidade do artista. Ao ler Sagarana ou mergulhar na vastidão de Grande Sertão: Veredas, percebemos que o autor não transcrevia o dialeto sertanejo, ele o elevava à categoria de alta literatura. 

Sua vida pública foi um espelho de sua ética. Como médico, conheceu as dores do interior de Minas Gerais, vivências que sedimentaram o humanismo presente em seus contos. Como diplomata, exerceu uma função que beirava o heroísmo. Entre 1938 e 1942, em Hamburgo, na Alemanha, Rosa e sua esposa, Aracy de Carvalho, enfrentaram o horror do regime nazista. Em um gesto de coragem silenciada pela modéstia, Aracy emitiu vistos que salvaram centenas de judeus da perseguição, tornando-se, anos mais tarde, a única brasileira honrada no memorial Yad Vashem, em Jerusalém. Essa dimensão de Rosa, o homem que enfrentou a barbárie enquanto escrevia sobre o eterno combate entre o bem e o mal, é essencial para compreendermos a densidade de sua obra. 

A relação de Guimarães Rosa com a Academia Brasileira de Letras é, talvez, um dos capítulos mais singulares da cultura brasileira. Eleito por unanimidade em 1963, o escritor adiou sua posse por quatro anos, em um jogo de suspensão com o próprio destino. Quando finalmente assumiu a Cadeira 2, em 16 de novembro de 1967, entregou um discurso que soava como um testamento existencial. Foi ali que deixou a frase que hoje se imortalizou como o resumo de sua entrega ao mundo: "a gente morre é para provar que viveu". Três dias depois, como se a palavra tivesse dado o veredito final ao seu coração, o escritor partiu, deixando um vazio que é preenchido, até hoje, por cada leitor que se aventura por suas páginas. 

Ler Guimarães Rosa hoje, 118 anos após seu nascimento, é um exercício de resistência. Em tempos de comunicação imediata e descartável, ele nos convoca à lentidão da reflexão, ao "rever" das veredas. Sua escrita não é meramente uma sucessão de acontecimentos no sertão; é uma metafísica. Ao descrever a paisagem árida, Rosa descrevia a alma humana em seus embates mais viscerais. Ele nos provou que o regional é, na verdade, um caminho para o universal.

O Focus Portal Cultural, ao relembrar este gigante, não presta apenas uma homenagem ao passado. Propomos, através do olhar de Alberto Araújo, um convite ao reencontro com a obra de um homem que fez da vida um laboratório de significados. Guimarães Rosa não apenas viveu para escrever; ele escreveu para provar que a vida, apesar de perigosa, é o único caminho possível para quem busca a transcendência. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 

















Nenhum comentário:

Postar um comentário