terça-feira, 16 de junho de 2026

O TAPETE DE CARMIM SOB O CÉU DE ICARAÍ - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO - INSPIRADA EM FOTOS DE ADALTO REIS RODRIGUES, NO FACEBOOK

Há uma elegância secreta na forma como o tempo decide se desfazer de suas vestes. Não é um adeus ruidoso, é uma rendição silenciosa, um despir-se melancólico e necessário. Aqui, na curva da Avenida Alberto Francisco Torres, onde o asfalto ainda guarda o eco das passagens e o olhar se perde na direção do Restaurante Tenore, próximo à minha residência a natureza resolveu estender um tapete. Um tapete de carmim, de brasa viva, de um outono que não conhece o frio, um chão que, de tão bordado de folhas vermelhas, parece querer proteger a terra das durezas do concreto com a própria pulsação da vida.

Caminhar por aqui é, quase que obrigatoriamente, um exercício de pausa. Como não deter o passo quando o chão nos convida a uma coreografia de texturas? O calçamento, esse mosaico de pedras portuguesas que a cidade insistentemente preserva, torna-se apenas a moldura para o verdadeiro espetáculo: a fragmentação da vida que cai. Cada folha é um pequeno manuscrito esquecido, um registro de um verão que se foi, agora transformado em tons de vermelho intenso, a cor de uma paixão que se espalha pelo caminho. 

Olho para cima, para os prédios que se alinham na orla, imponentes, vigiando o movimento do dia. Eles, em sua solidez de pedra e vidro, parecem alheios a essa chuva carmim que repousa sobre nós. Mas, na verdade, todos nós estamos sob a mesma égide do tempo. O instante é, por definição, uma eternidade que passa. E o que é este momento, se não a prova absoluta da fugacidade? 

Logo adiante, o Tenore acena com a promessa de luzes e conversas. A vida lá dentro, o aroma da comida, a vivacidade dos encontros... tudo isso resiste, numa sinfonia de luz e sombra, com a quietude deste momento em que me detenho. O carro que passa ao longe, cortando a cena com sua urgência metálica, mal nota que atropela o silêncio de mil outonos. É uma pressa vã, penso, diante da placidez dessas folhas que esperam, pacientes, o seu retorno à terra, a sua transformação final sob o olhar do sol leonino que rege os meus dias. 

É curioso como a cidade nos permite esses encontros. Vivemos entre o fluxo incessante, o sinal que abre, o trânsito que flui, a vida que exige produtividade, e o instante poético. Cecília, se por aqui passasse, talvez notasse que não são apenas folhas. São horas. São dias. São os restos de todas as conversas que já se perderam pelo caminho, agora compactadas nesta camada de carmim que cobre o calçamento de Icaraí. 

Há uma doçura quase dolorosa em contemplar esse cenário. A beleza não está no que floresce e se impõe, mas no que se entrega e descansa. O outono aqui não é frio, é uma introspecção solar. É um convite para que, também nós, possamos deixar cair o peso desnecessário, o que já não nos serve, e encontrar, na superfície do chão, o conforto de ser, simplesmente, parte da paisagem. 

Que bom que o tempo, em sua sabedoria, nos concede estas pausas. Que bom que a esquina de nossa casa, tantas vezes invisível na pressa da rotina, pode se transfigurar em um jardim de mistérios, onde o brilho das folhas vermelhas é, afinal, o brilho das memórias que a gente insiste em guardar, enquanto o mundo, indiferente e apressado, segue sua curva em direção ao horizonte. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 





 

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