sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

DON JUAN TENÓRIO - ENTRE SEDUÇÕES E SEDIÇÕES DO DESEJO RESENHA DE © ALBERTO ARAÚJO - A DALMA NASCIMENTO


Prelúdio do Desejo 

O célebre Don Juan Tenório atravessa séculos como um espectro inquietante, um mito que se reinventa e se multiplica em cada época, em cada linguagem, em cada cultura que o acolhe. Desde Tirso de Molina, que lhe deu forma dramática no teatro barroco espanhol, até as releituras contemporâneas que o inserem em cenários urbanos, carnavalescos ou cinematográficos, Don Juan permanece como arquétipo do desejo insaciável, do sedutor que nunca se sacia, do finório que joga com as regras sociais apenas para subvertê-las. 

Dalma Nascimento, em Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório (2024), nos convida a revisitar esse mito com olhar renovado, articulando erudição e sensibilidade, crítica e poesia, para revelar como o personagem continua a nos interpelar e a nos provocar. A autora percorre tanto os caminhos históricos e literários do mito quanto sua ressignificação diante da ascensão da mulher como sujeito histórico e literário. Don Juan é apresentado como caçador de afetos, mas também como fugitivo da completude, sempre em busca de uma mulher mítica que lhe devolva o paraíso perdido. Essa busca, porém, é marcada pela frustração, pela impossibilidade de fixar o objeto do desejo, pela eterna tensão entre ideal e realidade. Dalma Nascimento ilumina essa dimensão ao aproximar Don Juan da poesia de Vinicius de Moraes, especialmente em “A mulher que passa”, onde o desejo se revela como promessa e ausência, como sonho e desencanto. 

A introdução da obra já anuncia a multiplicidade de Don Juan: ele é o boto sedutor do folclore amazônico, o personagem das marchinhas carnavalescas, o protagonista das óperas europeias, o anti-herói das montagens teatrais contemporâneas. Essa polifonia é explorada com rigor e leveza, mostrando como o mito se adapta às vestes de cada época sem perder sua essência transgressora. Dalma Nascimento destaca ainda a fortuna crítica que acompanha Don Juan, das leituras teológicas às psicanalíticas, das culturais às desconstrutivistas, revelando como o personagem se mantém vivo justamente por sua capacidade de reinvenção. 

Mas o livro não se limita a revisitar o mito: ele o confronta com as transformações sociais e culturais do século XX e XXI, especialmente com a emergência da mulher como sujeito ativo da narrativa. Se antes Don Juan encontrava terreno fértil em uma sociedade que relegava à mulher o papel de objeto passivo, agora ele se vê diante de resistências, de vozes que não se deixam capturar. Essa mudança é analisada com profundidade, revelando como o mito se ressignifica diante da nova mulher, consciente de seu valor e de sua autonomia. Nesse sentido, Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório é mais do que uma leitura crítica: é uma reflexão sobre o desejo, sobre o amor, sobre a condição humana em sua busca incessante por sentido.

Com toda essa “finura” que somente Dalma Nascimento carrega em sua trajetória literocultural que a especialista em conhecimentos medievos nos convida a revisitar um dos mitos mais inquietantes da cultura ocidental: Don Juan Tenório, em sua obra Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório. Publicado em 2024 pela H.P. Comunicação Associados, com projeto gráfico do talentoso editor Paulo França, Rio de Janeiro, o livro reúne 200 páginas de reflexões, análises e provocações sobre o eterno sedutor, o “gatuno de corações” que atravessa séculos e linguagens, da literatura à música, do teatro ao cinema. 

Dividido em duas partes, o livro articula conferências e ensaios sobre o mito donjuanesco com uma leitura sensível de obras clássicas brasileiras, como Missa do Galo, de Machado de Assis, e Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade. O fio condutor é o amor, ora como enigma, ora como transgressão, e a figura de Don Juan como símbolo de uma busca incessante por completude, que se revela sempre frustrada, mas nunca abandonada.

A primeira parte da obra é dedicada à figura de Don Juan como arquétipo do desejo insaciável. Dalma Nascimento percorre os caminhos históricos, literários e simbólicos do personagem, desde suas raízes mitológicas em Zeus até sua cristalização no teatro barroco espanhol com Tirso de Molina. Don Juan é apresentado como um ser em perpétua fuga da completude, um caçador de afetos que jamais se sacia, pois sua busca é, na verdade, por uma mulher mítica que lhe revele o paraíso perdido. 

Essa leitura é enriquecida por referências à poesia de Vinicius de Moraes, especialmente ao poema "A mulher que passa", que sintetiza o donjuanismo poético: o desejo por uma mulher que pacifique a angústia existencial, mas que, paradoxalmente, nunca permanece. A autora traça paralelos entre o poeta e o mito, revelando como ambos encarnam a tensão entre o ideal e o real, entre o sonho e a frustração. 

O texto das orelhas já antecipa a multiplicidade de Don Juan, ele aparece nas marchinhas carnavalescas brasileiras, no folclore amazônico como o boto sedutor, nas óperas europeias, nas artes plásticas, no cinema e na literatura. Dalma Nascimento explora essa polifonia com erudição e leveza, mostrando como o personagem se adapta às vestes e ademanes de cada época, mantendo, contudo, sua essência sedutora e transgressora. 

A autora destaca a fortuna crítica de Don Juan, que inclui abordagens teológicas, psicanalíticas, culturais e até desconstrutivistas. A montagem de Gerald Thomas é citada como exemplo de releitura contemporânea que subverte o mito sem perder sua força simbólica. Essa capacidade de reinvenção é, segundo Dalma, o que torna Don Juan uma figura transtemporal, sempre atual e provocadora. 

Um dos méritos da obra é a análise da ascensão da mulher como sujeito histórico e literário. Dalma Nascimento observa que, com o avanço dos movimentos feministas e a valorização da voz feminina, o poder de sedução de Don Juan encontra resistência. A mulher deixa de ser objeto passivo e passa a ser agente de sua própria narrativa. Essa mudança é abordada com sensibilidade e profundidade, revelando como o mito se transforma diante das novas configurações sociais.

A autora também resgata a presença da mulher na poesia de Vinicius de Moraes, como figura alegórica e fonte de inspiração. A mulher é ponte entre o desejo e a realização, entre o sonho e a concretude. Essa leitura é ampliada com referências a Ariadne, Eurídice e outras figuras míticas que simbolizam a salvação, a harmonia e a transcendência.

Dalma Nascimento discute o conceito de emulação, conforme proposto por João Cezar de Castro Rocha, como forma de recriação literária que respeita a obra original. Don Juan, nesse sentido, é um personagem que gera múltiplas versões sem perder sua identidade. A autora cita exemplos como Confissões de Narciso, de Autran Dourado, e Boquinhas Pintadas, de Manuel Puig, que retomam o mito em contextos distintos, revelando sua plasticidade e potência simbólica. 

A análise de Boquinhas Pintadas é particularmente rica, destacando o uso de técnicas cinematográficas, colagens narrativas e paródias de clichês românticos. Manuel Puig dessacraliza o mito e o insere em um universo cotidiano, revelando suas contradições e fragilidades. Essa abordagem dialoga com a proposta de Dalma Nascimento de pensar Don Juan como figura que seduz e é seduzida por sua própria ficção. 

Outro ponto alto da obra é a comparação entre Don Juan e Fausto, dois personagens que fazem pactos, um com o Diabo, outro com o desejo. Dalma Nascimento explora as afinidades entre os dois mitos, mostrando como ambos expressam dilemas existenciais e filosóficos. A autora cita Victor Hugo, que coloca Sganarello ao redor de Don Juan e Mefistófeles ao redor de Fausto, evidenciando a complementaridade entre os dois. 

Essa análise é enriquecida por referências a Mircea Eliade e à ideia de que mitos expressam situações arcaicas e universais. Don Juan e Fausto são, assim, figuras que encarnam o pathos humano, a tensão entre o desejo e a ética, entre a liberdade e a responsabilidade. A leitura de Dalma é profunda e instigante, revelando como esses personagens continuam a seduzir o imaginário contemporâneo. 

Na segunda parte do livro, Dalma Nascimento analisa a transformação da mulher ao longo do século XX e sua emergência como sujeito literário e histórico. A autora traça um panorama das mudanças culturais, políticas e filosóficas que permitiram à mulher romper com os silêncios e assumir seu lugar na narrativa. Essa análise é feita com entusiasmo e rigor, revelando como a mulher passou das matinatas domésticas ao esplendor da participação plena na vida pública. 

A autora celebra a nova mulher como figura antenada, consciente de seu valor e capaz de dialogar com os mitos sem se submeter a eles. Essa leitura é essencial para compreender como o mito de Don Juan se ressignifica diante da presença feminina, que não mais se deixa capturar pelas armadilhas do sedutor. 

Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório é uma obra rica, multifacetada e provocadora. Dalma Nascimento oferece ao leitor uma viagem pelas múltiplas faces do desejo, da sedução e da busca por sentido. Don Juan emerge como figura que transcende o tempo, os gêneros e as linguagens, revelando tanto os abismos do amor quanto as possibilidades de reinvenção.

A autora alia erudição e sensibilidade, construindo uma narrativa que é ao mesmo tempo crítica e poética. Sua leitura de Don Juan é profunda, abrangente e atual, revelando como o mito continua a nos interpelar, a nos seduzir e a nos desafiar. Uma obra indispensável para quem deseja compreender as tramas do desejo e os enigmas da condição humana. 

Epílogo das Sedições. Ao final da leitura, o que se impõe é a percepção de que Don Juan Tenório não é apenas um personagem literário, mas um espelho das inquietações humanas. Ele encarna o pathos do desejo, a tensão entre liberdade e responsabilidade, entre sonho e frustração, entre sedução e sedução de si mesmo. Dalma Nascimento nos mostra que Don Juan é, ao mesmo tempo, arquétipo e metáfora, mito e realidade, figura que atravessa o tempo porque traduz uma experiência universal: a busca por completude em um mundo marcado pela falta, pela ausência, pela impossibilidade de fixar o objeto do desejo. 

A comparação com Fausto, explorada pela autora, reforça essa dimensão existencial. Ambos fazem pactos, um com o Diabo, outro com o desejo, e ambos revelam dilemas filosóficos que continuam a nos assombrar. Don Juan, como Fausto, é figura transtemporal, capaz de se reinventar em cada contexto, de dialogar com cada geração, de provocar cada leitor. Essa plasticidade é o que garante sua permanência, sua atualidade, sua força simbólica. 

Mas o mérito maior da obra de Dalma Nascimento está em articular essa leitura com a transformação da mulher como sujeito histórico e literário. Ao mostrar como a mulher deixa de ser objeto e passa a ser agente, a autora revela não apenas uma mudança social, mas também uma ressignificação do mito. Don Juan já não pode seduzir impunemente; ele se vê diante de resistências, de vozes que o desafiam, de presenças que o obrigam a se reinventar. Essa tensão é o que torna o mito ainda mais instigante, pois revela como o desejo se transforma diante das novas configurações sociais.

Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório é, assim, uma obra indispensável para quem deseja compreender não apenas o mito de Don Juan, mas também as tramas do desejo e os enigmas da condição humana. Dalma Nascimento alia erudição e sensibilidade, crítica e poesia, para construir uma narrativa que é ao mesmo tempo análise e celebração, reflexão e provocação. Ao revisitar Don Juan, a autora nos convida a refletir sobre nós mesmos, sobre nossas buscas, nossas frustrações, nossas seduções e nossas seduções de si. Don Juan emerge, ao final, como figura que nos desafia a pensar o amor não como completude, mas como movimento, não como posse, mas como travessia, não como fim, mas como eterno recomeço. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


Imagem Don Juan Tenório - Pintura de Manet 
lendo a obra de Dalma Nascimento





Nenhum comentário:

Postar um comentário