sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O CORAÇÃO QUE ENVELHECE DEVAGAR - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Há dias em que o coração fala mais alto do que qualquer relógio. Não é o tic-tac que nos lembra da passagem do tempo, mas um murmúrio interno, uma espécie de confidência silenciosa que insiste em nos acompanhar. O coração, esse velho companheiro, não se deixa enganar por calendários: ele sabe que a velhice não começa nos cabelos brancos, mas na maneira como olhamos para o mundo. 

A velhice, afinal, é uma estação que chega sem anúncio. Não há trombetas, não há placas na estrada. Um dia, você percebe que já não corre para pegar o ônibus; prefere esperar o próximo. Descobre que o jornal da manhã traz mais lembranças do que novidades. E, sobretudo, nota que o coração já não dispara por qualquer coisa: ele escolhe, com uma sabedoria que só os anos dão, os momentos em que vale a pena se acelerar. 

O meu mestre cronista dizia que escrever era como conversar com um amigo invisível. Talvez seja isso que faço agora: converso com você, leitor, como quem abre a janela ao entardecer e deixa o vento entrar. O coração, nesse instante, é o narrador. Ele fala de momentos felizes que ficaram na infância,  de ruas que mudaram de nome, de árvores que cresceram sem que percebêssemos. Fala também da velhice como quem fala de uma visita esperada: não é inimiga, é apenas alguém que chega para nos lembrar de que o tempo tem seu ritmo. 

O coração envelhece devagar. Ele guarda memórias como quem guarda cartas antigas em uma caixa de sapatos. Cada batida é uma lembrança: o primeiro beijo, o medo da guerra, o nascimento de um filho, o silêncio de uma despedida. E, no entanto, continua pulsando com uma teimosia bonita, como se dissesse: “Permaneço aqui, apesar de tudo.” 

A velhice é feita de pequenas descobertas. Descobrimos que o corpo já não obedece como antes, mas também que a alma se torna mais leve. Há uma liberdade estranha em aceitar que não precisamos mais provar nada a ninguém. O coração, cansado de correr, aprende a caminhar. E nessa caminhada lenta, há uma beleza que só quem envelhece pode compreender.

Lembro-me de um velho sentado na praça, olhando as crianças brincarem. Ele não sorria nem chorava; apenas observava, como quem guarda um segredo. Talvez seu coração estivesse contando histórias que ninguém mais podia ouvir. Talvez estivesse apenas agradecendo por ainda estar ali, testemunha silenciosa da vida que continua. 

O coração, quando envelhece, aprende a ouvir. Já não se apressa em julgar, já não se irrita com bobagens. Ele sabe que cada pessoa carrega sua própria dor, e que não há tempo a perder com ressentimentos. A velhice nos ensina a perdoar, não por virtude, mas por economia: guardar rancor dá trabalho, e o coração prefere descansar. 

Há quem tema a velhice como se fosse um inimigo. Eu a vejo como uma paisagem nova. É como chegar a uma cidade desconhecida: no começo, estranhamos as ruas, os sotaques, os cheiros. Depois, percebemos que há beleza em cada esquina. A velhice é essa cidade: exige paciência, mas oferece recompensas inesperadas. O coração, turista experiente, sabe que não adianta correr; é preciso andar devagar, apreciar o caminho. 

O coração também se torna mais sábio no amor. Já não se ilude com paixões repentinas, mas valoriza os gestos pequenos: um café compartilhado, uma conversa sem pressa, um silêncio confortável. A velhice nos mostra que o amor não precisa de fogos de artifício; basta uma chama discreta, que aquece sem queimar. O coração, nesse ponto, é como uma lamparina antiga: ilumina pouco, mas ilumina o suficiente. 

E há a solidão. A velhice traz consigo uma solidão inevitável, como uma sombra que nos acompanha. Amigos se vão, familiares se afastam, o mundo parece correr em outra velocidade. Mas o coração aprende a conviver com essa sombra. Descobre que a solidão não é ausência, mas presença de si mesmo. É nesse silêncio que ouvimos melhor o coração, e ele nos conta coisas que antes não tínhamos tempo de escutar. 

O coração envelhece, mas não se rende. Ele continua batendo, mesmo quando o corpo já não responde. É como um pássaro que insiste em cantar, mesmo em dias de chuva. E esse canto, ainda que frágil, é uma prova de resistência. A velhice, afinal, não é o fim: é apenas uma etapa, um capítulo que se escreve com mais calma.

O meu mestre cronista gostava de falar das coisas simples: uma flor na janela, um gato dormindo, um amigo que chega sem avisar. Talvez seja isso que a velhice nos ensina: a valorizar o simples. O coração, cansado de grandes aventuras, encontra alegria em pequenos detalhes. E é nessa simplicidade que descobrimos uma forma de felicidade que não conhecíamos. 

O coração, quando envelhece, se torna mais humano. Ele aceita suas falhas, reconhece seus limites, mas também celebra suas vitórias. Cada cicatriz é uma medalha, cada batida é um testemunho. A velhice é o palco onde o coração se apresenta sem máscaras, sem ilusões. E nesse espetáculo discreto, há uma beleza que não se encontra na juventude. 

Talvez seja isso que significa “ouvir o coração”: aceitar que ele tem sua própria música, que não segue modas nem tendências. É uma música antiga, feita de lembranças e esperanças. E, mesmo na velhice, essa música continua. O coração, maestro paciente, rege a orquestra da vida até o último acorde.

No fim, o coração nos ensina que envelhecer não é perder, mas ganhar outra perspectiva. É como subir uma montanha: lá embaixo, tudo parecia urgente; lá em cima, vemos que o mundo é maior do que nossas pressas. A velhice é esse mirante, e o coração é o guia que nos mostra a paisagem. E, se ouvirmos com atenção, perceberemos que há beleza em cada detalhe, mesmo nos mais discretos.

O coração envelhece devagar, mas nunca deixa de ser jovem em algum canto escondido. Há sempre uma batida que lembra um amor antigo, uma aventura esquecida, uma esperança que resiste. A velhice não apaga a juventude; apenas a transforma em memória. E o coração, guardião fiel, continua a pulsar, lembrando-nos de que estamos vivos. 

Assim, ouvindo o coração, aprendemos que a velhice não é um peso, mas uma dádiva. É a chance de olhar para trás com serenidade, de olhar para frente com humildade, e de olhar para dentro com gratidão. O coração, velho e sábio, nos conduz por esse caminho. E, ao final, descobrimos que envelhecer é apenas outra forma de amar a vida. 

© Alberto Araújo

 




 

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