quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

11 DE FEVEREIRO DE 2026, CELEBRAMOS OS 104 ANOS DO INÍCIO DA SEMANA DE ARTE MODERNA DE SÃO PAULO

A Semana de Arte Moderna, também chamada de Semana de 22, ocorreu em São Paulo, entre os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal da cidade. 

No dia 11 de fevereiro de 1922, São Paulo se preparava para viver um dos momentos mais emblemáticos da história cultural brasileira: a Semana de Arte Moderna. Realizada no Theatro Municipal entre os dias 13 e 17 daquele mês, a Semana foi concebida como um gesto de ruptura e ousadia, reunindo artistas de diferentes áreas em torno de um mesmo propósito: questionar o academicismo vigente e propor uma arte que fosse, ao mesmo tempo, moderna e brasileira. Hoje, ao celebrarmos 104 anos desse marco, é fundamental compreender não apenas o evento em si, mas também o contexto que o tornou possível, os protagonistas que o conduziram e os desdobramentos que se seguiram. 

O Brasil das primeiras décadas do século XX vivia sob a República Velha, marcada pela política do café com leite e pela hegemonia das oligarquias de São Paulo e Minas Gerais. A capital paulista, enriquecida pelo café e pela industrialização nascente, tornava-se o centro econômico e cultural do país. A elite cafeeira, que financiou a Semana, buscava afirmar São Paulo como capital cultural, rivalizando com o Rio de Janeiro, até então o polo artístico mais consolidado. Esse pano de fundo político e econômico é essencial para compreender a Semana: ela não foi apenas um movimento artístico, mas também uma afirmação de poder e protagonismo regional. 

O espírito da Semana era o da renovação. Os artistas envolvidos estavam cansados das regras rígidas do parnasianismo e da reprodução realista do naturalismo. Inspirados por movimentos como o futurismo, o cubismo, o dadaísmo e o expressionismo, defendiam a liberdade criativa, a experimentação e a busca por uma arte que dialogasse com o Brasil real, suas paisagens, sua gente, sua cultura popular. A Semana reuniu pintura, escultura, música, literatura e arquitetura em um mesmo espaço, criando um ambiente de choque estético e intelectual. Não se tratava apenas de mostrar obras, mas de provocar, de desafiar o público e de abrir caminho para novas formas de expressão. 

Entre os protagonistas, destacam-se nomes que se tornariam centrais na história da arte brasileira. Anita Malfatti, cuja exposição de 1917 já havia causado polêmica, trouxe pinturas que rompiam com o convencional e escancaravam influências das vanguardas europeias. Mário de Andrade, escritor e intelectual, foi o grande articulador das ideias modernistas, defendendo uma literatura que refletisse a alma brasileira. Oswald de Andrade, irreverente e provocador, lançaria pouco depois as bases da antropofagia cultural, propondo que o Brasil devorasse as influências estrangeiras para criar algo novo. Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida, poetas, ajudaram a consolidar o grupo, enquanto Victor Brecheret, escultor, trouxe novas formas e materiais. Manuel Bandeira, mesmo ausente fisicamente, foi representado por seus poemas, e Heitor Villa-Lobos, com sua música, deu o tom sonoro da revolução.

Curiosamente, o impacto imediato da Semana foi restrito. O público reagiu com vaias, críticas e incompreensão. A imprensa paulista registrou o evento mais como uma curiosidade do que como uma revolução. Muitos consideraram os artistas “extravagantes” ou “desconectados da realidade”. No entanto, o tempo se encarregaria de dar à Semana o lugar que ela merecia. Ao longo da década de 1920, as ideias lançadas ali foram aprofundadas, dando origem a movimentos como o Verde-Amarelismo e, sobretudo, a Antropofagia, que se tornaria um dos pilares do modernismo brasileiro. Após a morte de Mário de Andrade em 1945, iniciou-se um movimento de recuperação de seu legado, e a Semana passou a ser vista como o marco fundador do modernismo nacional. 

É importante, contudo, reconhecer que essa visão consagrada não é unânime. Muitos estudiosos contemporâneos apontam que a Semana foi um evento da elite para a elite, desconsiderando artistas populares e movimentos de renovação que já existiam antes de 1922. Nomes como Pixinguinha, Donga, João da Baiana, João do Rio e Benjamim Costallat, por exemplo, já promoviam transformações significativas na música e na literatura, mas foram ignorados pelo cânone modernista. Essa crítica não diminui a importância da Semana, mas nos lembra que ela foi apenas um dos marcos de um processo mais amplo, complexo e plural de construção da modernidade artística no Brasil.

O legado da Semana de Arte Moderna é vasto. Ela abriu caminho para uma arte que buscava ser brasileira em essência, sem deixar de dialogar com o mundo. Nas artes plásticas, rompeu com a dependência da estética europeia e incentivou o uso de temas nacionais. Na literatura, estimulou a experimentação formal e a valorização da linguagem coloquial. Na música, aproximou-se das raízes populares e da diversidade cultural do país. Mais do que um evento, a Semana foi um ponto de partida, um catalisador de mudanças que se espalhariam pelas décadas seguintes.

Celebrar os 104 anos da Semana de Arte Moderna é, portanto, celebrar a ousadia de um grupo de artistas que, em meio a vaias e incompreensão, ousou propor um novo caminho para a cultura brasileira. É também reconhecer suas limitações e contradições, entendendo que a modernidade não nasceu apenas ali, mas em múltiplos espaços e vozes. A Semana de 22 permanece como símbolo de ruptura e de busca por identidade, lembrando-nos que a arte, para ser viva, precisa sempre desafiar, questionar e reinventar. 

Capa do catálogo da exposição de arte da Semana de Arte Moderna, organizada por Mário de Andrade e Grupo dos Cinco. A ilustração é de Emiliano di Cavalcanti. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




Legenda da 2ª foto: Francesco Pettinati, Flamínio Ferreira, René Thiollier, Manuel Bandeira, Sampaio Vidal, Paulo Prado, Graça Aranha, Manuel Villaboim, Couto de Barros, Mário de Andrade, Cândido Mota Filho, Gofredo da Silva Teles, Rubens Borba de Moraes, Luís Aranha, Tácito de Almeida e, à frente, Oswald de Andrade.



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