segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

O SOL DE PONTA NEGRA - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO



Em Ponta Negra, o céu se veste de laranja como quem se prepara para uma festa silenciosa. O sol, majestoso e paciente, desce devagar atrás das montanhas, como se soubesse que sua despedida é aguardada por todos. Há algo de ritual nesse instante: os pescadores recolhem suas redes, os moradores diminuem o ritmo das conversas, os turistas param para fotografar, e até os pássaros parecem ajustar o voo para não perder o espetáculo. É como se a cidade inteira respirasse mais leve, suspensa entre o fim e o começo.

O mar, que durante o dia é inquieto e cheio de vozes, agora se aquieta. As ondas se tornam mais compassadas, como se acompanhassem o ritmo lento do sol que se despede. O horizonte se pinta em camadas: primeiro o dourado, depois o vermelho intenso, e por fim o violeta que anuncia a noite. Cada cor é uma promessa, cada nuance é uma lembrança. Quem observa entende, sem precisar de palavras, que a vida é feita de ciclos, e que cada pôr do sol é uma nova chance de tentar de novo.

Há quem diga que o pôr do sol em Ponta Negra é diferente de todos os outros. Talvez seja exagero, talvez seja verdade. Mas quem já esteve ali sabe que há uma energia única, uma espécie de convite silencioso para agradecer. Agradecer por estar vivo, por ter chegado até aquele momento, por poder testemunhar a beleza gratuita que a natureza oferece. Não é preciso muito: basta estar presente, basta deixar-se tocar pela luz que se desfaz no mar.

Enquanto o sol se esconde, a cidade parece se transformar. As ruas ganham um tom mais íntimo, os bares começam a se encher de vozes, e os primeiros acordes de violão ecoam de alguma varanda. É o prenúncio da noite, mas também é o prolongamento do dia. Em Maricá, o tempo não se divide em horas exatas: ele se mede em sensações. O dia termina quando o sol se despede, e a noite começa quando os olhos se acostumam ao brilho das estrelas.

E é nesse instante, entre o fim e o começo, que surge a reflexão inevitável: quantas vezes deixamos de perceber a beleza que nos cerca? Quantas vezes nos esquecemos de que estar vivo já é motivo suficiente para agradecer? O pôr do sol em Ponta Negra parece nos lembrar disso. Ele nos ensina que não é preciso grandes conquistas para sentir plenitude. Basta estar ali, diante do espetáculo gratuito, e deixar que a luz nos atravesse.

Talvez seja por isso que tantos escolhem esse lugar para recomeçar. Ponta Negra é mais do que uma praia: é um símbolo de esperança. Cada fim de tarde é como uma página em branco, pronta para ser escrita com novos sonhos, novas promessas, novas conquistas. Quem observa o sol se despedindo entende que a vida é feita de tentativas, e que sempre haverá uma nova oportunidade de fazer diferente.

O vento que sopra do mar traz consigo histórias antigas. Fala dos pescadores que desafiam as ondas, das famílias que se reúnem para celebrar, dos jovens que descobrem o amor à beira da praia. Cada sopro é uma memória, cada brisa é um segredo. E quem se deixa envolver por esse vento percebe que a vida é feita de encontros: encontros com pessoas, com lugares, com momentos. O pôr do sol é um desses encontros, talvez o mais democrático de todos, porque pertence a todos e não cobra nada em troca.

E assim, enquanto o céu se apaga lentamente, nasce dentro de cada um a certeza de que o amanhã pode ser melhor. Que este seja, oficialmente ou não, o começo de um ano maravilhoso. Com mais paz, mais conquistas, mais saúde e muitos fins de tarde assim, daqueles que lembram a gente de agradecer só por estar aqui. Porque, no fundo, é isso que importa: estar presente, sentir, viver. O resto é detalhe.

O sol se despede, mas deixa sua marca. O céu guarda o laranja como lembrança, o mar reflete o dourado como promessa, e a cidade se prepara para a noite com a leveza de quem sabe que amanhã tudo recomeça. Em Ponta Negra, cada pôr do sol é um convite: viver mais devagar, sentir mais profundamente, agradecer mais intensamente. E quem aceita esse convite descobre que a vida, afinal, é feita de instantes. Instantes que, como o sol, se repetem todos os dias, mas nunca são iguais.

 

Foto de Lúcio Azevedo, extraída de sua página no Facebook.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





 

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