terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

PRAÇA LUSITÂNIA – O OBELISCO QUE GUARDA O CÉU - GAGO COUTINHO EM TERRAS NITEROIENSES: UM ELO ETERNO NA PRAIA DE ICARAÍ - ENSAIO © ALBERTO ARAÚJO – FOCUS PORTAL CULTURAL

Há lugares que parecem pequenos demais para conter a grandeza da história, mas que, justamente por isso, se tornam guardiões silenciosos de feitos imensos. A Praça Lusitânia, em Niterói, é um desses lugares. Discreta, quase escondida no final da Praia de Icaraí, diante do mar que se abre em azul e espuma, ela abriga um monumento que não é apenas pedra e bronze: é memória condensada em forma de obelisco.

A história da aviação mundial não é feita apenas de hangares e pistas de asfalto, mas também de símbolos que resistem ao tempo em nossas praças. Em Niterói, a Praia de Icaraí guarda um desses marcos silenciosos: a Praça Lusitânia. O nome, que evoca as raízes portuguesas, é a moldura para um obelisco histórico que celebra um dos maiores feitos do século XX: a Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922. 

A epopeia protagonizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral foi um teste de limites. A bordo do hidroavião Lusitânia, os aeronautas percorreram mais de 8 mil quilômetros em uma jornada que durou 79 dias. O que hoje fazemos em poucas horas, na época exigiu 62 horas de voo sobre o oceano desconhecido, enfrentando contratempos técnicos e a imensidão do horizonte. A precisão de Coutinho, com seu sextante modificado, garantiu que a aeronave encontrasse o Brasil após escalas estratégicas. 

A relação dessa dupla com a "Cidade Sorriso" foi consolidada cinco anos após o feito. Em 1927, os próprios heróis do ar cruzaram a baía para inaugurar o monumento em Icaraí. Naquela ocasião, Niterói vestiu-se de gala. Os aviadores foram recebidos com honras de Estado no Palácio Arariboia, então sede do governo municipal, onde a diplomacia e a admiração popular se encontraram. 

Hoje, o obelisco da Praça Lusitânia é mais do que um marco geográfico; é um lembrete da audácia humana. Situado próximo à Igreja de São Judas Tadeu, o monumento convida moradores e turistas a olharem para o céu e recordarem que, sob aquelas mesmas estrelas, Gago Coutinho traçou o caminho que uniu definitivamente os continentes pelo ar. 

Inaugurada em 1923, a praça assinala a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada por Gago Coutinho e Sacadura Cabral. O feito, que uniu Portugal e Brasil pelos céus, encontra ali sua tradução simbólica: uma escadaria de granito que conduz a uma esfera coroada pela cruz de malta. O desenho é simples, mas carrega uma densidade cultural que ultrapassa a estética. É como se cada degrau fosse uma metáfora da ascensão humana rumo ao desconhecido, e cada face do monumento fosse uma página escrita no livro da coragem. 

A placa de bronze, com sua inscrição solene, não é apenas explicativa; é testemunho. Ela lembra que, em tempos em que voar era quase um ato de fé, dois portugueses ousaram transformar o céu em estrada. E Niterói, cidade voltada para o mar e para o horizonte, tornou-se guardiã desse gesto. A Praça Lusitânia não é monumental pela escala, mas pela ideia: ali se celebra a união de povos através da ciência e da audácia.

As comemorações de sua inauguração, com sessão solene no Teatro Municipal João Caetano e aclamação popular nas ruas, revelam o quanto o feito foi sentido como patrimônio coletivo. Não se tratava apenas de celebrar aviadores, mas de afirmar que o Atlântico, tantas vezes palco de travessias coloniais, podia agora ser ponte de fraternidade. O obelisco de Icaraí é, nesse sentido, um contra-discurso ao esquecimento: ele inscreve no espaço urbano a memória de que o céu também pode ser navegável. 

Hoje, quem passa pela praça talvez veja apenas um jardim modesto, um monumento antigo, uma referência geográfica. Mas quem se detém percebe que ali repousa uma narrativa maior: a de que a cidade guarda, em sua paisagem, um pedaço da epopeia lusitana. A Praça Lusitânia é, portanto, mais do que um ponto de encontro; é um lugar de memória, onde o Atlântico se faz presente não como barreira, mas como caminho. 

Celebrar seus 103 anos, em 2026, é celebrar também a permanência da história nos interstícios da vida urbana. É reconhecer que, entre prédios, restaurantes e igrejas, há um obelisco que nos lembra que o céu já foi conquistado por mãos que sabiam unir cálculo e coragem. E que, mesmo em uma pequena praça, cabe o infinito.

 










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