sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

BRISA E VENTANIA - O MOVIMENTO DE SER - CRÔNICA-REFLEXIVA DE © ALBERTO ARAÚJO

Há momentos em que nos percebemos múltiplos, como se dentro de nós coexistissem diferentes versões que se revelam conforme o olhar do outro ou a circunstância que nos envolve. Somos, ao mesmo tempo, delicadeza e força, silêncio e tempestade. Essa dualidade não é contradição, mas sim a essência da vida que pulsa em cada um de nós. 

A vida não se resume a uma única face. Há dias em que somos brisa: leves, quase imperceptíveis, atravessando os espaços sem causar alarde, apenas deixando uma sensação de frescor. Nesses instantes, nossa presença é suave, como quem acaricia o mundo sem exigir nada em troca. É quando conseguimos sorrir sem motivo, quando a simplicidade nos basta, quando o silêncio se torna companhia agradável. 

Mas há também os dias em que somos ventania: intensos, transformadores, capazes de mover o que parecia imóvel. É quando a energia transborda, quando não conseguimos nos conter, quando precisamos nos afirmar diante da vida. A ventania não pede licença, ela chega e reorganiza o cenário. Assim também somos nós, quando decidimos mudar, quando ousamos, quando não aceitamos permanecer na mesmice. 

Essa alternância entre brisa e ventania revela que não somos estáticos. A identidade não é uma fotografia congelada, mas um filme em movimento. Cada experiência nos molda, cada encontro nos altera, cada desafio nos expande. O que hoje é leveza pode amanhã ser intensidade, e o que hoje é força pode amanhã se transformar em delicadeza. Não há incoerência nisso: há apenas humanidade. 

O olhar do outro também nos atravessa. Muitas vezes, não somos apenas aquilo que sentimos, mas também aquilo que refletimos nos olhos de quem nos vê. Para alguns, seremos sempre a brisa que conforta; para outros, a ventania que sacode. E talvez o segredo esteja em aceitar que não precisamos ser apenas uma coisa. Podemos ser várias, podemos ser todas. 

Essa consciência nos liberta da obrigação de caber em rótulos. Não precisamos ser sempre fortes, nem sempre frágeis. Não precisamos ser sempre alegres, nem sempre sérios. Podemos ser contraditórios, porque é na contradição que mora a riqueza da vida. A brisa nos ensina a suavidade, a ventania nos ensina a intensidade. Ambas são necessárias, ambas são partes do mesmo ciclo. 

O desafio é aprender a reconhecer em nós essas diferentes forças e permitir que elas se expressem sem culpa. Há quem se cobre por não ser sempre firme, há quem se culpe por não ser sempre leve. Mas a verdade é que não existe uma forma única de ser. O que existe é a possibilidade de se reinventar a cada instante, de se permitir ser o que o momento pede.

Quando aceitamos essa multiplicidade, passamos a viver com mais autenticidade. Não precisamos esconder nossa ventania para agradar, nem sufocar nossa brisa para parecer fortes. Podemos simplesmente existir, sabendo que cada versão de nós é legítima. E é nesse movimento que encontramos a verdadeira liberdade: a de não precisar escolher entre ser uma coisa ou outra, mas sim abraçar o todo. 

A vida é feita de contrastes. O dia precisa da noite, o silêncio precisa da palavra, a calma precisa da agitação. Nós também precisamos desses opostos para nos completar. Ser brisa nos conecta com a paz, ser ventania nos conecta com a transformação. E é nesse equilíbrio dinâmico que descobrimos quem realmente somos: não uma definição fixa, mas um fluxo constante.

Talvez o maior aprendizado seja perceber que não precisamos nos explicar. Quem nos vê pode interpretar de mil maneiras, mas o que importa é que estamos vivendo nossa verdade. Às vezes seremos lembrados pela leveza que oferecemos, outras vezes pela força que impusemos. E tudo bem. Porque cada gesto, cada presença, cada intensidade é parte de um mosaico maior que compõe nossa existência. 

No fim, ser brisa ou ventania não é uma escolha definitiva. É apenas o reflexo de um instante. E a beleza está justamente nisso: na possibilidade de ser diferentes versões de nós mesmos, sem perder a essência. Somos movimento, somos mudança, somos vida em constante reinvenção. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


 



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