O Prefácio de Cromwell (1827), de Victor Hugo, é considerado o manifesto inaugural do Romantismo francês. Mais célebre que a própria peça, o texto estabelece os fundamentos do drama moderno ao romper com a rigidez do classicismo. A tese central de Hugo é a complementaridade entre o sublime e o grotesco, elementos que, em sua visão, definem a literatura moderna. Este artigo busca analisar como Hugo articula essa dualidade por meio das figuras de Don Juan e Fausto, demonstrando que o drama romântico é a representação mais fiel da condição humana.
Don Juan - Criado pelo dramaturgo espanhol Tirso de Molina em 1630, na peça El burlador de Sevilla y convidado de piedra. Ele é o arquétipo do sedutor libertino, que dedica sua vida à conquista amorosa e ao prazer sensorial. A figura de Don Juan foi posteriormente adaptada em diversas obras, como a ópera Don Giovanni de Mozart, consolidando-se como símbolo do sublime da sedução, sempre acompanhado pelo grotesco representado por seu criado, Sganarello.
Fausto - Originário de uma lenda popular alemã baseada na figura histórica do médico e alquimista Johann Georg Faust (1480–1540), que teria feito um pacto com o demônio em troca de conhecimento e poder. A versão mais célebre é a de Johann Wolfgang von Goethe, que transformou o mito em um poema dramático publicado em duas partes (1808 e 1832). Na obra, Fausto busca o absoluto pelo saber, mas é constantemente confrontado por Mefistófeles, que encarna o grotesco irônico e maldoso.
No contexto mediterrâneo, a busca pelo absoluto se dá pelo encanto sensorial. Don Juan encarna o sublime do charme, mas sua figura só se concretiza pela presença de Sganarello, que representa o grotesco materialista, o cômico e o medo físico. Ao ridicularizar o sedutor, Sganarello o humaniza, trazendo-o de volta às necessidades básicas e à moralidade comum. Assim, o sublime só ganha densidade dramática quando confrontado com o grotesco.
No universo germânico, a busca pelo absoluto assume caráter intelectual e metafísico. Fausto procura o infinito pelo conhecimento, mas sua pretensão é ironicamente desestabilizada por Mefistófeles. Este não é apenas um servo, mas a personificação demoníaca do grotesco, que ridiculariza a ambição humana de saber tudo, transformando a tragédia em ironia sombria. A dualidade entre Fausto e Mefistófeles revela a tensão entre o sublime da sabedoria e o grotesco da dúvida corrosiva.
Hugo demonstra que tanto Don Juan quanto Fausto necessitam de um contraponto grotesco para se tornarem personagens dramáticos. Sem Sganarello ou Mefistófeles, seriam abstrações épicas; com eles, tornam-se figuras reais, enraizadas na condição humana. O grotesco, portanto, não é mero acessório, mas elemento essencial que evidencia os limites da busca pelo infinito.
A literatura moderna, segundo Hugo, deve abraçar essa totalidade. O sublime e o grotesco não se anulam, mas se complementam, revelando o homem como ser ambíguo, suspenso entre céu e terra. Ao articular essas forças, o drama romântico se torna a representação mais fiel da vida.
O Prefácio de Cromwell é considerado um marco estético e ideológico. Nele, Hugo defende a liberdade artística contra as regras clássicas, propondo a fusão entre o feio e o belo como expressão da verdade. Inspirado em Shakespeare e Milton, rejeita as três unidades clássicas, o tempo, lugar e ação e apresenta o drama moderno como síntese da dualidade humana. Além disso, traça uma evolução histórica da literatura: da ode, primitiva, à epopeia, antiga, até o drama, cristão/moderno.
O Prefácio de Cromwell consolida-se como guia estético da juventude romântica francesa ao propor uma arte livre, variada e realista. A dualidade entre o sublime e o grotesco, exemplificada nas figuras de Don Juan e Fausto, revela que o drama moderno é a forma mais autêntica de representar a complexidade da existência humana. Hugo, ao defender essa complementaridade, inaugura uma nova concepção de literatura, capaz de refletir a totalidade da vida em sua beleza e em sua deformidade.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
CITAÇÕES DIRETAS
· Sobre a função do grotesco no drama moderno:
“O feio existe ao lado do belo, o
grotesco ao lado do sublime; e ambos são necessários” (HUGO, 2017, p. 45).
· Sobre a liberdade artística contra o classicismo:
“O drama deve ser a pintura completa da
natureza. O verdadeiro deve substituir o ideal” (HUGO, 2017, p. 52).
· Sobre Don Juan como arquétipo:
“Don Juan é o burlador de Sevilha, criado
por Tirso de Molina em 1630, símbolo do sedutor libertino” (TIRSO DE MOLINA,
1630, p. 12).
· Sobre Fausto e sua busca pelo absoluto:
“Fausto deseja conhecer tudo, mas sua ambição é ironicamente ridicularizada por Mefistófeles” (GOETHE, 1808, p. 88).
CITAÇÕES INDIRETAS - PARÁFRASES
· Hugo (2017) afirma que o drama moderno deve unir
o sublime e o grotesco, pois apenas dessa forma é possível representar a
totalidade da condição humana.
· Segundo Butler (1952), a tradição faustiana
revela a tensão entre a busca pelo saber absoluto e os limites impostos pela
ironia demoníaca.
· Tirso de Molina (1630) apresenta Don Juan como
arquétipo do sedutor, cuja figura só se concretiza pela contraposição grotesca
de Sganarello.
· Para Goethe (1808), Fausto encarna a ambição intelectual infinita, mas sua trajetória é constantemente desestabilizada pela presença corrosiva de Mefistófeles.
REFERÊNCIAS
- BUTLER, E. M. The
Fortunes of Faust. Cambridge: Cambridge University Press, 1952.
- FRANÇA NETO, José Américo. O
sublime e o grotesco no Prefácio de Cromwell. São Paulo: Edusp, 2010.
- FRIEDRICH, Hugo. Estrutura
da Lírica Moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.
- GOETHE, Johann Wolfgang von.
Fausto. Parte I. Stuttgart: Cotta, 1808.
- GOETHE, Johann Wolfgang von.
Fausto. Parte II. Stuttgart: Cotta, 1832.
- HUGO, Victor. Prefácio a
Cromwell e outros prefácios. Tradução e notas de Pedro Eiras; prefácio
de Joana Matos Frias. Porto: Instituto de Literatura Comparada Margarida
Losa (FLUP); Edições Afrontamento, 2017.
- HUGO, Victor. Préface de
Cromwell. Paris: 1827.
- MOZART, Wolfgang Amadeus. Don
Giovanni. Libreto de Lorenzo Da Ponte. Viena: 1787.
- PONGE, Robert. Victor
Hugo, a literatura engajada e a arte pela arte. Porto Alegre: UFRGS,
2002.
- TIRSO DE MOLINA. El
burlador de Sevilla y convidado de piedra. Madrid: 1630.







.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário