quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O ALTAR DA VARANDA ONDE O CÉU TOCA O CHÃO DE BOTAFOGO @ ALBERTO ARAÚJO



Minha Shirley disse: "Muito lindo, amigo Euderson. Obrigada por filmar o movimento e transformação da natureza. Esse momento é imperdível. Assisto todos os dias o amanhecer e o anoitecer daqui da janela da minha casa." 

Essas palavras não são apenas um agradecimento; são um testemunho de fé perante o ritmo do mundo. Shirley, com a sensibilidade de quem sabe que a beleza é a única coisa que realmente nos salva da rotina, já reviu o vídeo inúmeras vezes. E quem poderia culpá-la? Cada vez que o play é acionado, a magia se renova, e o que era apenas um registro digital se transforma em uma oração silenciosa sobre a grandiosidade da vida. 

O vídeo, capturado pela lente atenta do amigo Euderson Kang Tourinho, não nasceu em um estúdio, mas no altar doméstico de sua varanda, em Botafogo. Dali, onde o asfalto encontra o sonho e a montanha vigia o mar, Euderson não apenas filmou; ele colheu um fragmento do tempo. 

No início, há uma expectativa suspensa no ar de Botafogo. O céu não é apenas cinza; é uma tela de chumbo carregada de segredos. O Pão de Açúcar, esse gigante de granito que define a silhueta da alma carioca, parece observar o horizonte com a paciência dos milênios. Ele sabe o que vem. 

A transformação começa com um sussurro de vento, mas logo o céu decide falar mais alto. Um relâmpago rasga o véu da manhã, um traço de luz branca, elétrica, que por um milésimo de segundo revela as costuras do universo. O trovão, então, faz o chão de Botafogo vibrar. Não é um barulho assustador, mas a voz da natureza reivindicando seu espaço na metrópole. É o som do imperdível de que Shirley fala.

A chuva chega primeiro como uma cortina de gaze, transparente e delicada, para logo se transformar em uma muralha de água. O movimento é coreografado: as nuvens baixas começam a abraçar as encostas, e o Pão de Açúcar, num jogo de esconde-esconde metafísico, vai desaparecendo. Primeiro some a base, depois o contorno, até que o gigante se torna um espectro, uma memória gravada no horizonte, envolta pela névoa que Euderson capturou com tanta precisão. 

Há uma cultura profunda no ato de contemplar. No Japão, existe o conceito de Mono no aware, a sensibilidade para o efêmero, a capacidade de se emocionar com a transitoriedade das coisas. O conceito representa a empatia pelas coisas. Valoriza a beleza efêmera, como as cerejeiras que caem reconhecendo que a brevidade torna a existência mais preciosa. 

Ao assistir a este vídeo repetidas vezes, Shirley pratica essa filosofia com precisão. Ela entende que aquele exato movimento da nuvem, aquele brilho específico do raio sobre o mar de Botafogo, nunca mais se repetirá da mesma forma. 

Euderson, de sua varanda, tornou-se o resguardador desse instante. No vídeo, vemos a cidade ser lavada, não apenas da poeira, mas da urgência. Os prédios, que costumam parecer tão sólidos e imponentes, tornam-se frágeis diante da força atmosférica. As luzes das janelas, que começam a se acender, são pequenos luzeiros de humanidade em meio ao oceano de cinza e água. 

É um momento de introspecção. Enquanto o mundo lá fora se dissolve em chuva e mistério, quem assiste é convidado a silenciar. A transformação da natureza a que Shirley se refere é, também, uma transformação interna. É impossível observar o céu de Botafogo se curvando à tempestade sem sentir que somos parte de algo imensamente maior.

O registro da vida urbana muitas vezes se perde no caos do trânsito e na pressa dos prazos marcados. Mas, de vez em quando, um amigo como o Euderson aponta a câmera para o lugar certo. Ele nos lembra de que a varanda de um apartamento pode ser o melhor lugar do mundo se soubermos para onde olhar. 

A Shirley sabe. Por isso ela revê. Ela busca naquelas imagens a confirmação de que o ciclo continua: o amanhecer que ela vigia de sua residência, o anoitecer que ela saúda, e essa tempestade que, no meio do caminho, veio para lembrar que a natureza é viva, soberana e, acima de tudo, belíssima em seu furor. 

Quando o vídeo termina e o Pão de Açúcar está  totalmente oculto pela bruma, não sentimos vazio. Sentimos plenitude. O espetáculo não precisa de final feliz; ele precisa apenas existir. E, graças ao olhar de Euderson e à devoção de Shirley, esse momento imperdível agora pertence a todos nós. Botafogo, sob a chuva, não é apenas um bairro; é um estado de espírito. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



O vídeo da inspiração da crônica: 
O ALTAR DA VARANDA  
ONDE O CÉU TOCA O CHÃO DE BOTAFOGO 
de Alberto Araújo 
(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)




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