quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

20 DE JANEIRO DE 2026 EFEMÉRIDES – 160 ANOS DE EUCLIDES DA CUNHA - FOCUS PORTAL CULTURAL, POR ALBERTO ARAÚJO

 


O quadro Efemérides do Focus Portal Cultural celebra nesta data, 20 de janeiro de 2026, os 160 anos do nascimento de Euclides da Cunha, escritor, jornalista e engenheiro que se tornou um dos maiores intérpretes do Brasil profundo. Nascido em Cantagalo, interior do Rio de Janeiro, Euclides marcou a história da literatura nacional com sua obra monumental Os Sertões (1902), síntese de ciência, arte e denúncia social. Sua trajetória, marcada por inquietação intelectual, engajamento político e tragédia pessoal, permanece viva como testemunho da busca por compreender o país em sua complexidade.

No dia 20 de janeiro de 2026, celebramos os 160 anos do nascimento de Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha em Cantagalo, RJ, 20 de janeiro de 1866 e falecido no Rio de Janeiro, 15 de agosto de 1909, escritor, jornalista, engenheiro e pensador que se tornou um dos maiores nomes da cultura brasileira. Sua obra, marcada pela inquietação intelectual e pela busca de compreender o Brasil em sua complexidade, permanece como referência incontornável na literatura e na historiografia nacional.

Euclides nasceu na Fazenda Saudade, em Santa Rita do Rio Negro, município de Cantagalo, interior do Rio de Janeiro. Filho de Manuel Rodrigues Pimenta da Cunha e Eudóxia Alves Moreira da Cunha, enfrentou desde cedo as dificuldades da vida. Sua mãe faleceu de tuberculose quando ele tinha apenas três anos, deixando o pai viúvo com dois filhos pequenos. A infância de Euclides foi marcada por deslocamentos constantes entre cidades como São Fidélis, Teresópolis e Nova Friburgo, vivendo em casas de parentes e experimentando a instabilidade que moldaria sua visão crítica sobre a sociedade brasileira. 

Em 1883, ingressou no Colégio Aquino, onde foi aluno de Benjamin Constant, figura central na difusão do positivismo no Brasil. Constant exerceu grande influência sobre o jovem Euclides, introduzindo-o às ideias republicanas e ao pensamento científico. Dois anos depois, Euclides entrou na Escola Politécnica e, em 1886, na Escola Militar da Praia Vermelha, onde novamente encontrou Benjamin Constant como professor. 

Na Escola Militar, Euclides destacou-se não apenas pelo talento intelectual, mas também pelo espírito contestador. Em um episódio célebre, durante uma revista às tropas, lançou sua espada aos pés do ministro da Guerra, Tomás Coelho, como gesto de protesto contra o regime monárquico. Esse ato de rebeldia lhe custou um processo disciplinar e, em 1888, seu desligamento do Exército. 

Apesar disso, Euclides manteve-se ativo na propaganda republicana, escrevendo para o jornal A Província de S. Paulo (atual O Estado de S. Paulo). Com a Proclamação da República em 1889, foi reintegrado ao Exército e chegou a ocupar o posto de primeiro-tenente, além de obter o título de bacharel em Matemáticas, Ciências Físicas e Naturais. Casou-se com Ana Emília Ribeiro, filha do major Sólon Ribeiro, um dos líderes da proclamação republicana. 

Em 1897, Euclides foi enviado como correspondente de guerra para cobrir a Guerra de Canudos, conflito que opôs o Exército Brasileiro aos sertanejos liderados por Antônio Conselheiro, na Bahia. Inicialmente, como muitos republicanos, acreditava que o movimento tinha caráter monarquista e representava uma ameaça à jovem República. 

No entanto, sua experiência em campo transformou sua visão. Ao observar a realidade dos sertanejos, Euclides percebeu que se tratava de uma sociedade marginalizada, profundamente distinta da vida litorânea e urbana. Essa descoberta foi decisiva para a elaboração de sua obra-prima, Os Sertões, publicada em 1902. 

OS SERTÕES: CIÊNCIA, LITERATURA E DENÚNCIA

Os Sertões é dividido em três partes: A Terra, O Homem e A Luta. 

Em A Terra, Euclides descreve a geografia, a flora, a fauna e o clima do sertão nordestino, utilizando linguagem científica e detalhada. 

Em O Homem, analisa os costumes, a religiosidade e a vida social dos sertanejos, revelando um Brasil profundo e esquecido. 

Em A Luta, narra as quatro expedições militares contra Canudos, culminando na destruição do arraial e no massacre da população. 

A obra combina rigor científico, estilo literário vigoroso e denúncia social. Ao mesmo tempo em que descreve a tragédia de Canudos, Euclides revela a violência do Estado contra uma população marginalizada. Os Sertões tornou-se um marco do pré-modernismo brasileiro, antecipando o regionalismo e influenciando o modernismo. 

O sucesso de Os Sertões projetou Euclides da Cunha internacionalmente. Em 1903, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e também para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Sua reputação como intelectual engajado consolidou-se, e ele passou a ser visto como uma voz crítica da República. 

Entre 1904 e 1905, Euclides chefiou uma missão de demarcação de fronteiras na Amazônia, experiência que resultou em escritos de denúncia sobre as condições da região e sobre a exploração dos trabalhadores. Ao retornar ao Rio de Janeiro, trabalhou no gabinete do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores. 

A vida pessoal de Euclides foi marcada por conflitos. Seu casamento com Ana Emília Ribeiro tornou-se conturbado devido ao relacionamento extraconjugal dela com o jovem militar Dilermando de Assis. Em 15 de agosto de 1909, Euclides tentou confrontar Dilermando, mas acabou morto a tiros, episódio que ficou conhecido como a Tragédia da Piedade. 

Essa morte violenta encerrou precocemente a trajetória de um dos maiores intelectuais brasileiros, mas também contribuiu para a aura trágica que envolve sua figura.

Apesar de sua vida breve, Euclides da Cunha deixou um legado duradouro. Sua obra continua a ser estudada em universidades e inspira eventos culturais, como a Semana Euclidiana, realizada em cidades ligadas à sua trajetória, especialmente em São José do Rio Pardo, onde escreveu Os Sertões. 

No centenário de sua morte, em 2009, diversas homenagens foram realizadas, incluindo o projeto “100 Anos Sem Euclides”, com exposições e atividades culturais em sua cidade natal. Hoje, aos 160 anos de seu nascimento, sua obra permanece atual, revelando um Brasil que ainda luta contra desigualdades e invisibilidades. 

Celebrar Euclides da Cunha é celebrar a força da literatura como instrumento de denúncia e de revelação da realidade nacional. Sua escrita, marcada por neologismos, vigor estilístico e profundidade analítica, continua a ecoar como testemunho da luta de um povo e da inquietação de um intelectual que buscou compreender o Brasil em sua totalidade. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


Primos Arnaldo, Euclides e Nestor Pimenta da Cunha c. 1900

Casa de Zinco em São José do Rio Pardo onde Euclides da Cunha escreveu "Os Sertões"

Homenagem filatélica do Correio do Brasil em 1965.

Folha de rosto de  Os Sertões (1902)


Missão de Euclides da Cunha a Amazônia






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