O vídeo apresenta a performance de
Magda Belloti, voz e Talitha Peres, piano para o clássico "The Man I
Love", de George e Ira Gershwin.
LETRA
Someday he'll come along
The man I love
And he'll be big and strong
The man I love
And when he comes my way
I'll do my best to make him stay
He'll look at me and smile
I'll understand
And in a little while
He'll take my hand
And though it seems absurd
I know we both won't say a word
Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good day
He'll build a little home
Just meant for two
From which I'll never roam
Who would? Would you?
And so all else above
I'm waiting for the man I love
Maybe I shall meet him Sunday
Maybe Monday, maybe not
Still I'm sure to meet him one day
Maybe Tuesday will be my good day
He'll build a little home
Just meant for two
From which I'll never roam
Who would? Would you?
And so all else above
I'm waiting for the man I love
Esta versão destaca-se pelo arranjo íntimo e sofisticado. A interpretação de Magda Belloti foca no controle emocional e na clareza da dicção, enquanto o acompanhamento de Talitha Peres traz harmonias ricas que remetem tanto ao cancioneiro americano o Great American Songbook, quanto a toques sutis de música de câmara.
GERSHWIN SOB A LENTE DE MAGDA BELLOTI E TALITHA PERES
A música, quando atinge o estado de arte pura, deixa de ser uma sucessão de notas para se tornar um documento do tempo. No vídeo em questão, o que testemunhamos não é apenas uma "cover" de um clássico, mas um encontro de linhagens. De um lado, o gênio que rompeu as barreiras entre o popular e o erudito no século XX; do outro, duas artistas brasileiras que tratam o som com a precisão de um cirurgião e a alma de um poeta.
GEORGE GERSHWIN - O ARQUITETO DO SONHO AMERICANO
Falar de George Gershwin é falar da própria invenção da modernidade musical. Nascido no Brooklyn, filho de imigrantes, Gershwin foi o alquimista que conseguiu fundir o ritmo sincopado do Jazz das ruas de Nova York com a sofisticação estrutural da música clássica europeia.
"The Man I Love", composta originalmente em 1924 para o musical Lady, Be Good, é o exemplo perfeito de sua maestria. A canção quase foi descartada após ser cortada de três produções diferentes antes de se tornar um standard global. O que Gershwin criou aqui não foi apenas uma melodia, mas uma atmosfera de expectativa. A harmonia de Gershwin é melancólica, mas carrega uma "blue note" de esperança. Ele não escrevia apenas para o ouvido; ele escrevia para a saudade de algo que ainda não aconteceu.
O DUO MAGDA BELLOTI E TALITHA PERES
Quando artistas do calibre de Magda Belloti (voz) e Talitha Peres (piano) se debruçam sobre uma obra dessas, o resultado é uma construção respeitosa e profunda.
MAGDA BELLOTI: A VOZ COMO INSTRUMENTO NARRATIVO
Magda não se limita a cantar as notas; ela as habita. Sua interpretação de "The Man I Love" foge do óbvio. Enquanto muitas cantoras de jazz optam pelo improviso virtuosístico excessivo (o scat), Belloti escolhe a economia do sentimento. Cada palavra é enunciada com uma clareza que revela a vulnerabilidade da letra de Ira Gershwin.
Sua técnica vocal é impecável, permitindo que ela transite por dinâmicas suaves sem perder o apoio ou a sustentação. Ela entende que, nesta canção, o silêncio e as pausas são tão importantes quanto o som. Ela canta como quem conta um segredo ao ouvinte, transformando o palco ou o estúdio em um confessionário íntimo.
TALITHA PERES: A MAESTRIA NAS TECLAS
Ao piano, Talitha Peres prova por que é uma das pianistas mais respeitadas em seu gênero. O piano de Talitha não é um mero acompanhamento; é uma segunda voz. Ela possui o toque "perolado" necessário para Gershwin, mas também a força rítmica para sustentar a estrutura da canção sem a necessidade de uma seção rítmica completa, baixo e bateria.
As harmonizações e os preenchimentos que Talitha insere entre as frases de Magda mostram uma profunda compreensão do vocabulário do piano jazzístico e erudito. Ela utiliza o pedal de sustentação para criar ressonâncias que envolvem a voz, criando uma "cama" harmônica onde a melodia pode flutuar com liberdade.
O IMPACTO DA INTERPRETAÇÃO: POR QUE ESTE VÍDEO É RELEVANTE?
Vivemos em uma era de saturação sonora, onde a música muitas vezes é produzida para ser descartável. O encontro de Magda Belloti e Talitha Peres é um antídoto para isso. Elas nos lembram de que a música de câmara, esse formato reduzido e focado na interação humana direta, ainda é a forma mais poderosa de comunicação artística.
Ao escolherem o repertório de Gershwin, elas estabelecem uma ponte entre o Brasil e o mundo. Elas mostram que a música brasileira, rica em sua essência, tem total afinidade com o Jazz de vanguarda, pois ambos bebem da mesma fonte: a liberdade de expressão através do rigor técnico.
A ausência de artifícios tecnológicos coloca o foco na qualidade do timbre e da interpretação. É possível notar a troca de olhares e a antecipação mútua. Elas respiram juntas. Ao interpretar Gershwin com tamanha qualidade, elas ajudam a manter viva a chama da música que exige escuta atenta.
George Gershwin ficaria orgulhoso. "The Man I Love" é uma promessa de encontro, e o encontro entre Magda Belloti e Talitha Peres é a realização dessa promessa no campo da música. Elas não apenas executam uma partitura; elas dão vida a um mito, provando que, enquanto houver artistas dessa magnitude, o "homem, ou a arte, que amamos" sempre estará presente.
O vídeo é, em última análise, uma aula de elegância, técnica e paixão. É a prova de que o talento, quando aliado ao estudo profundo, resulta em algo que o tempo não pode apagar. Incrivelmente belo!
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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