No calendário das efemérides lusófonas, o dia 17 de fevereiro marca o nascimento, em 1869, de Carlos Viegas Gago Coutinho. Geógrafo, cartógrafo, historiador e oficial da Marinha Portuguesa, Coutinho foi mais do que um aviador: foi o homem que transformou a arte ancestral da navegação marítima em ciência aplicada ao ar. Ao lado de Sacadura Cabral, protagonizou a epopeia da Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, em 1922, e deixou instrumentos que redefiniram o futuro da aviação.
A história da humanidade é, em grande medida, a história da superação de fronteiras que o olhar insiste em desenhar no horizonte. No dia 17 de fevereiro de 1869, em Santa Maria de Belém, Lisboa, nascia um homem que não apenas contemplaria essas fronteiras, mas as redesenharia com a precisão de um compasso e a coragem de um navegador de outrora.
Carlos Viegas Gago Coutinho, filho de José Viegas Gago Coutinho e Fortunata Maria Coutinho, emergiu de uma origem humilde na Calçada da Ajuda para se tornar, talvez, o último grande polímata da era dos descobrimentos modernos. Embora o desejo de cursar Engenharia na Alemanha tenha sido cerceado pela escassez de recursos da família, a Marinha Portuguesa ganhou, em 1886, um cadete cuja mente operava em frequências de exatidão matemática raramente vistas. Ao concluir o curso da Escola Naval em 1888, Coutinho iniciou uma trajetória que o levaria dos conveses dos navios de guerra às selvas impenetráveis da África e, finalmente, à imensidão azul do Atlântico Sul.
Sua formação como geógrafo e cartógrafo não foi apenas um título acadêmico, mas uma ferramenta de soberania. A partir de 1898, em Timor, ele demonstrou que a paz e a diplomacia dependem, antes de tudo, de um mapa bem traçado. Suas comissões em Niassa, Congo, Zambézia e Barotze não foram meros exercícios militares, mas missões científicas de rigor extremo, onde ele estabelecia vértices geodésicos em condições adversas, caminhando por milhares de quilômetros para definir a fronteira entre Angola e o Zaire. Foi nesse cenário de terra batida e sol inclemente que o destino operou seu encontro mais profícuo: conheceu Sacadura Cabral, o aviador que veria na mente analítica de Coutinho a solução para o maior problema da aviação incipiente: a navegação fora da vista de terra.
Enquanto a maioria dos aviadores da época voava "pelo olfato", Gago Coutinho transpôs a milenar sabedoria da navegação astronômica para o cockpit. Ele compreendeu que, para o avião ser um meio de transporte viável globalmente, o piloto precisava saber sua posição exata mesmo cercado por nuvens ou sobre o oceano infinito. Foi essa necessidade que deu luz ao Sextante de Horizonte Artificial, uma adaptação genial que permitia a observação dos astros sem a necessidade da linha do horizonte marinho, e ao "plaqué de abatimento", um corretor de rumos que vencia a deriva causada pelos ventos. Estas invenções não foram apenas acessórios; foram o DNA da navegação aérea moderna. O teste definitivo dessa tecnologia ocorreu em 1922, quando Portugal e Brasil se preparavam para celebrar o centenário da independência brasileira.
A bordo do hidroavião Lusitânia, Coutinho e Sacadura Cabral lançaram-se ao que muitos consideravam uma missão suicida: a primeira travessia aérea do Atlântico Sul. A jornada foi uma epopeia de resistência e engenho. Mesmo com a perda da aeronave original nos Penedos de São Pedro e São Paulo, a determinação da dupla e a precisão dos cálculos de Coutinho garantiram que o abraço entre Lisboa e o Rio de Janeiro fosse selado pelos céus. A chegada ao Brasil foi um fenômeno social sem precedentes, unindo as duas nações em um entusiasmo que reverberou em Salvador, Recife e São Paulo, consolidando Coutinho como um herói transatlântico e um místico da ciência.
Após a glória dos ares, a vida de Gago Coutinho não se estagnou no brilho das medalhas. Ele retornou às raízes da história, dedicando décadas ao estudo profundo das navegações portuguesas. Como historiador, ele não aceitava mitos; buscava na náutica dos descobrimentos a prova técnica da perícia de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. Sua obra "O Roteiro da Viagem de Vasco da Gama" e sua análise técnica de "Os Lusíadas" transformaram a literatura em dado geográfico, provando que Camões escrevera com a autoridade de quem conhecia as correntes e os ventos. Sua influência estendeu-se para além das fronteiras nacionais, correspondendo-se com gigantes como Alberto Santos Dumont e apoiando os novos voos de Sarmento de Beires. Membro do Grande Oriente Lusitano e da Sociedade de Geografia de Lisboa, ele transitava com a mesma elegância pelos salões da maçonaria e pelas salas de aula da Marinha. Mesmo quando a idade avançava, sua mente permanecia jovem e voltada ao futuro; em 1954, já octogenário, aceitou o convite da TAP para um voo experimental ao Rio de Janeiro, antecipando as rotas comerciais que hoje cruzamos com naturalidade.
Promovido a Almirante por decreto da Assembleia Nacional em 1958, ele recebeu as mais altas distinções do Estado, da Ordem da Torre e Espada à Grã-Cruz da Ordem de Camões, concedida postumamente em 2023 como reconhecimento eterno. Gago Coutinho faleceu em 18 de novembro de 1959, um dia após completar 90 anos, deixando como herança não descendentes de sangue, mas uma linhagem de navegantes que hoje cruzam os céus guiados pela lógica que ele ajudou a fundar. Seu túmulo no Cemitério da Ajuda guarda os restos mortais de um homem que, embora vivesse entre números e sextantes, nunca deixou de ser um sonhador que via o mundo não como ele era, mas como ele poderia ser mapeado e unido.
A TRAVESSIA QUE UNIU CONTINENTES. No Centenário da Independência do Brasil, Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram no hidroavião Lusitânia. A viagem enfrentou contratempos: o primeiro avião perdeu-se nos Penedos de São Pedro e São Paulo, obrigando ao uso de outras aeronaves (Pátria e Santa Cruz). Mas a navegação astronômica de Coutinho manteve-se infalível. Ao chegarem ao Brasil, foram recebidos como heróis em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. A façanha provava que o céu podia ser navegado com a mesma segurança que o mar.
Após o auge da aviação, Coutinho dedicou-se à História Náutica. Sua obra A Náutica dos Descobrimentos permanece referência para compreender as técnicas dos navegadores portugueses dos séculos XV e XVI. Defendeu com rigor científico a genialidade de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, iluminando textos como o Roteiro da Viagem de Vasco da Gama e Os Lusíadas.
Promovido a Almirante em 1958, Coutinho acumulou condecorações como a Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada (1922), da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1922), da Ordem Militar de Cristo (1947), da Ordem Militar de Avis (1926), da Ordem do Império Colonial (1943) e, postumamente, da Ordem de Camões (2023). Faleceu em 1959, um dia após completar 90 anos, solteiro e sem filhos, fiel apenas à ciência e à pátria.
Hoje, quando aviões cruzam oceanos guiados por GPS, é impossível não recordar o silêncio da cabine de Gago Coutinho, calculando rotas com sextante e papel. Ele não foi apenas um homem de seu tempo: foi o homem que deu ao tempo uma nova dimensão de espaço.
Hoje,
157 anos após seu nascimento, o Focus Portal Cultural celebra o Almirante que
transformou o vazio do oceano em uma estrada luminosa de conhecimento e
fraternidade entre os povos.
HOMENAGENS
ENTRE OUTRAS HOMENAGENS, VÁRIOS LUGARES HOMENAGEIAM GAGO COUTINHO:
Uma Rua em Recife, no bairro do Pina.
Uma Rua em Curitiba, no bairro Bacacheri, próximo ao
Cindacta II
Uma Rua no Rio de Janeiro, próxima ao Parque Guinle
Uma Rua em São José do Rio Preto, São Paulo, Brasil
Uma Rua em Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil
Uma Rua em Londrina, Paraná, Brasil
Uma Rua em São Paulo, São Paulo, Brasil
Uma Rua no bairro Jardim Chapadão, em Campinas, São
Paulo, Brasil.
Uma Rua em Uberlândia, Minas Gerais, Brasil
Avenida Gago Coutinho, em Montemor-o-Novo, Portugal
Praça onde localiza-se o Aeroporto Internacional de
Salvador, Salvador, Bahia, Brasil
Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, Portugal
Uma Avenida em Santo André, na Grande São Paulo
Uma Rua em Guarulhos, na Grande São Paulo
O edifício da Câmara Municipal de São Brás de Alportel,
Portugal, tem sede na rua Rua Gago Coutinho, n.º1
Uma Rua em Cuiabá, Mato Grosso, próximo a Av. CPA
Uma Rua em Praia Grande, no bairro campo da aviação
Uma Praça em Santos, próxima ao Ferry Boat, na Ponta da
Praia
Uma Rua no Montijo, Portugal
Uma Rua em Vendas Novas, Portugal
Uma Rua em Olhão, Portugal
Uma Rua e Travessa em Nisa, Portugal
Uma escola secundária em Alverca do Ribatejo, Portugal
Uma Rua perto do Aeroporto Internacional de Mavalane,
cidade de Maputo, Moçambique
Uma Rua em Buriti Sereno, Aparecida de Goiânia, Goiás,
Brasil
Nome do aeródromo que pertence ao Condomínio Fly-in em
Jaboticatubas, Minas Gerais, Brasil
Uma Rua em Barretos, São Paulo
Uma rua em Las Palmas de Gran Canaria, Ilhas Canárias
Nome na Galeria de Nomes Históricos da Loja Maçônica
"Refúgio do Guaporé"/Vilhena/Rondônia/Brasil
Foram impressas uma série de notas de 100$00 (com Artur
de Sacadura Freire Cabral), 500$00 e 1.000$00 de Moçambique e uma nota de 20$00
Chapa 9 de Portugal com a sua imagem.
Uma rua em Bairro de Fátima, na cidade de Serra, Espírito
Santo
Uma escola em Praia Grande na Cidade Ocean em São Paulo.
Uma rua no bairro Jóquei Club, em São Vicente, São Paulo.
CS-TTB, A319 da TAP AIR PORTUGAL, aquando da sua entrega
à companhia portuguesa em dezembro de 1997, foi baptizado com o nome do ilustre
historiador.
Uma Rua no Bairro do Paraíso, Portugal
Uma Rua em Moscavide, Loures





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