Réplica de Márcia Pessanha sobre o ensaio
“A Borboletranda da razão - O voo de Márcia Pessanha - Ensaio Literário © Alberto Araújo”
A “borboletranda” da razão amanheceu liberta do casulo, voando célere no azul do texto de Alberto Araújo, onde se encontrou mulher-palavra no corpo do poema. Poema feito de carne, de sensações vividas, metamorfoseadas em palavras, palavras aladas, dançando ao vento como as multicoloridas asas das borboletas.
Linguagem que não se traduz em uma simples metamorfose, em um efêmero reconhecimento, mas requer do neófito conhecer os estágios da metamorfose, os ritos de passagem e as travessias da vida. E Alberto soube com as luzes mágicas de sua sensibilidade e do encantamento pelo universo artístico e dos saberes apreender a essência anímica da borboletranda.
E foi além, ao seguir o voo/fases do borboletrar de Márcia, bordando seu texto com fios dourados, mesclando conhecimentos filosóficos, culturais e outros, tendo como corolário uma apoteose de expressões bem elaboradas, à semelhança de um panapaná, ou seja de uma nuvem, uma revoada de borboletas pousando nas árvores da Floresta Encantada das Letras.
A você, Alberto, digno habitante desta simbólica floresta, sempre buscando preservá-la, mantê-la viva, e que tão bem traduziu o borboletrar poético-vivencial de minha poesia, desejo que chegue até você o perfume das palavras- flores e das palavras-frutos, com a esperança que as sementes irão germinar em sua escrita. E as borboletas! Ah! As borboletas irão sempre alegrar e colorir sua vida.
Que assim seja! Com meu fraternal abraço de agradecimento.
Márcia Pessanha
A
BORBOLETRANDA DA RAZÃO O VOO DE MÁRCIA PESSANHA
Ensaio Literário © Alberto Araújo
Ao observarmos a delicadeza iconográfica presente na imagem, somos confrontados com uma coreografia que supera o biológico: o voo das borboletas que ornam o vestido desta jovem não é apenas um adorno, é uma linguagem. É nessa dimensão, onde a erudição encontra a leveza, que situamos Márcia Pessanha, nossa "borboletranda" da intelectualidade.
A metáfora da borboleta, frequentemente reduzida ao lugar-comum da metamorfose, exige, sob a lente da análise, uma revisão. A borboleta não muda apenas de forma; ela altera sua relação ontológica com o mundo. O processo de "borboletar" de Márcia, este neologismo que cunhamos para descrever seu trânsito fluido entre ideias, campos do saber e profundidades reflexivas, guarda uma semelhança intrínseca com o cromatismo vibrante e a diversidade das asas que compõem sua veste intelectual.
Márcia Pessanha não habita o pensamento como quem ocupa um território estático; ela o habita como quem voa.
Assim como as criaturas que habitam o vestido da jovem na imagem, cuja luminescência irradia um encanto absoluto, a produção intelectual de Márcia atua como um feixe de luz em meio à névoa das certezas dogmáticas. Ela pratica uma intelectualidade que se recusa a ser pesada. Ela é, em essência, uma "borboletranda": aquela em cujo processo de aprendizagem e construção de saber vive um constante estado de emergência, um eterno tornar-se.
Assim como cada asa de borboleta é estruturada por uma geometria invisível que garante o sustento do voo, o discurso de Márcia é sustentado por uma rigorosa arquitetura lógica, ainda que apresentada com a fluidez de uma intuição poética. O colorido intenso que emana de seu pensamento, como uma trilha de pó luminoso, espelha o legado que Márcia deixa em cada debate. É uma marca que não pressiona o intelecto com o peso da autoridade, mas que o ilumina de dentro para fora, transformando a audiência.
A figura na imagem, envolta em sua própria miríade de vida alada, não tenta aprisionar o voo; ela o contempla em sua totalidade. Esta é a postura de Márcia perante o conhecimento. Ela compreende que, para ser uma pensadora livre, é preciso oferecer ao pensamento o espaço necessário para a sua manifestação. O seu "borboletar" intelectual é, na verdade, uma forma de hospitalidade: ela acolhe as ideias, permite que orbitem o seu centro e, eventualmente, as libera para que transformem o ambiente ao redor.
A intelectualidade, quando exercida com a profundidade de Márcia, torna-se uma arte da transição. Ela transita entre o rigor acadêmico e a sensibilidade lírica com a mesma naturalidade com que as cores transbordam da imagem, desafiando as fronteiras físicas e os limites impostos pelo senso comum. Ao compararmos Márcia Pessanha a esta miríade de cores, não buscamos apenas um elogio estético, mas uma definição de sua práxis. Ela é a prova viva de que a inteligência não precisa ser um fardo de pedra; ela pode ser um fenômeno aéreo, uma força da natureza que eleva a todos que a rodeiam.
Ao celebrarmos a trajetória de Márcia Pessanha, é impossível não evocar a figura de Vladimir Nabokov. O autor de Lolita e Pálido Fogo, que dedicou grande parte de sua vida ao estudo rigoroso das borboletas, afirmava que a curiosidade intelectual é, em última instância, uma forma de arte. Para Nabokov, observar uma borboleta exigia a precisão de um cientista e a alma de um poeta, exatamente o que observamos na práxis de Márcia. Assim como Nabokov via na diversidade das asas a própria complexidade da experiência humana, Márcia compreende que o saber não é uma coleção de fatos fixos em alfinetes, mas um organismo vivo que precisa de espaço para alçar voo. Ela nos lembra de que, como diria o mestre da escrita e da lepidopterologia, o maior prazer do intelecto reside na "deliciosa surpresa" do próximo movimento.
Márcia é, portanto, a nossa borboletranda nabokoviana: alguém que, entre a ciência do rigor e a arte da intuição, entende que o pensamento, para ser verdadeiramente livre, deve ser, acima de tudo, uma celebração da luz. Ela jamais se sente completa no casulo das definições prontas; está sempre pronta para o próximo voo, disposta a transformar a quietude da estagnação em um espetáculo de luz intelectual. Que seu voo continue sendo essa nota vibrante no horizonte, um lembrete constante de que, no pensamento, como na natureza, o mais belo é o movimento que nos liberta.
©
Alberto Araújo
Focus
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