10 - O COMPASSO DAS ESTAÇÕES
Costumamos medir o amor pelo calendário, pela contagem dos dias que se empilham em gavetas ou pelas datas que sublinhamos no papel. Contudo, há uma outra contagem que nos escapa: o tempo que o amor leva para criar raízes no solo invisível de duas existências. Não é um tempo linear, de horas e minutos; é um tempo geológico, feito de sedimentos de conversas, de olhares trocados e da paciência necessária para atravessar os invernos um do outro.
O amor é, acima de tudo, a capacidade de habitar o agora sem o medo do depois. É a estranha e maravilhosa certeza de que, mesmo que o mundo lá fora insista em girar mais rápido, aqui dentro existe um eixo. Um eixo de silêncio, de mãos dadas e de presenças que não precisam se explicar.
Cada gesto de cuidado é, na verdade, uma pequena oferenda ao tempo que virá. Quando aprendemos a celebrar o banal, transformamos o comum em eterno. Amar é saber que, enquanto o mundo se altera lá fora, entre nós, o tempo se suspende para que possamos, enfim, apenas ser, um o refúgio do outro, na impermanência de todas as coisas.
Nº 10 DA SÉRIE: O AMOR EM DOZE ATOS:
UMA JORNADA LITERÁRIA
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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