06 - O RELICÁRIO DOS INSTANTES
Existem dias em que o amor se revela não na grandiosidade das declarações, mas na arquitetura minuciosa das coisas pequenas. Ele habita o modo como o café é servido na xícara favorita, o tom de voz que amansa a pressa do mundo ao final de uma tarde, ou a forma despretensiosa como dois olhares se cruzam no meio de uma conversa trivial, selando um segredo que só os dois conhecem.
Costumamos esperar o amor como quem espera um vendaval, algo que nos derrube, que nos leve para longe. Contudo, o amor verdadeiro é o contrário: ele é a âncora que nos mantém inteiros. É a arte de construir um relicário com o que parece ser banal. Guardamos o som de uma risada, a marca de uma mão sobre o ombro, o silêncio compartilhado durante uma chuva que cai lá fora.
São esses fragmentos que sustentam a estrutura de uma vida a dois. Eles formam a tapeçaria invisível que nos protege do esquecimento. No fim, amar não é apenas um verbo, é um território. Um lugar onde, finalmente, não precisamos mais provar nada a ninguém, porque, no simples ato de estar, já encontramos a nossa morada definitiva.
Nº 06 DA SÉRIE: O AMOR EM DOZE ATOS:
UMA JORNADA LITERÁRIA
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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