Neste 2 de maio de 2026, a música brasileira faz uma pausa para reverenciar um dos artistas mais emblemáticos. Há exatos 117 anos, em Miraí, nascia Ataulfo Alves de Sousa, o homem que transformaria a vivência simples da Zona da Mata mineira em uma sofisticação rítmica que conquistaria os palcos da Europa.
Ataulfo não foi apenas um compositor prolífico com mais de 320 obras; ele foi o arquiteto de uma estética. Se hoje o samba de estúdio possui camadas e diálogos vocais, muito se deve à sua visão vanguardista ao criar "Ataulfo Alves e Suas Pastoras". Ao transpor o coro orgânico das ruas para o rigor dos microfones, ele conferiu ao gênero uma textura aveludada e profissional que definiu a sonoridade de uma era.
A trajetória de Ataulfo é a síntese da
resiliência artística brasileira. Antes de trajar seus impecáveis ternos
brancos no Rio de Janeiro, ele foi a criança que conciliava versos com o
trabalho de leiteiro e engraxate. O talento, contudo, estava no DNA: filho de
um violeiro e repentista, o "Capitão" Severino, Ataulfo trouxe de
Minas a nostalgia e o lirismo que desaguariam em clássicos imortais.
Ao chegar à capital fluminense aos 18 anos, o jovem ajudante de farmácia não demorou a ser absorvido pelo efervescente cenário do samba. Sua ascensão foi meteórica:
A "Era de Ouro": Carmen Miranda, a Pequena Notável, logo validaria seu talento gravando "Tempo Perdido". Ao lado de nomes como Mário Lago e Wilson Batista, lapidou hinos como "Ai! Que saudade da Amélia" e "O bonde de São Januário".
Ataulfo Alves compreendeu, como poucos, que o samba era o melhor produto de exportação do Brasil. Sob a égide da Lei Humberto Teixeira, ele liderou caravanas que levaram o balanço nacional para além do Atlântico. Em 1961, jornais da época registravam sua passagem triunfal por Lisboa e Madri, seguindo em uma turnê que atravessaria a Cortina de Ferro e os principais centros europeus.
"Ataulfo era o equilíbrio entre a malandragem urbana do Rio e a doçura do interior mineiro. Ele colocou o morro na vitrine do mundo com a elegância de um lorde."
Suas composições não ficaram restritas ao rádio. Invadiram o cinema como no filme Meus Amores no Rio e as vozes de gerações posteriores, de Clara Nunes ao MPB4. Ao celebrarmos seu centésimo décimo sétimo aniversário, não celebramos apenas o passado. Ouvir "Meus tempos de criança" hoje ainda é sentir o cheiro da terra molhada de Minas e o calor do asfalto carioca um retrato atemporal da alma brasileira.
Ataulfo Alves permanece como o mestre da cadência, provando que a verdadeira sofisticação reside na capacidade de transformar a vida comum em poesia cantada.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural






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Desde que me entendo por gente sou fã número um do Ataulfo Alves. Minha mãe gostava de cantar e ouvíamos sempre Ataulfo Alves, Nelson Gonçalves, Clara Nunes e muitos outros.
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