Ele olhou para as próprias mãos e, pela primeira vez, não enxergou apenas calos ou poeira. Enxergou o mapa de uma vida que se faz útil. Aquelas mãos, rudes pelo esforço, eram na verdade ferramentas de precisão divina, capazes de transformar o vazio em abrigo e o silêncio em cidade.
Antes, ele via o tijolo como argila cozida. Hoje, ele entende que cada bloco é um pedaço de segurança, o alicerce onde uma família guardará seus sonhos. Ele não apenas empilha materiais; ele organiza o caos, dando forma ao que antes era apenas pensamento e chão bruto.
Há uma beleza solene no ato de erguer.
Não é a beleza efêmera das coisas que
brilham, mas a beleza sólida da permanência.
O operário percebeu que, ao construir
a casa, ele se construía.
Ao nivelar a viga, ele equilibrava a
própria existência.
Cada gota de suor vertida no cimento não se perdia na terra, mas se tornava parte da liga invisível que mantém os homens unidos em sociedade.
Ele compreendeu que sua missão é
sagrada.
Que o seu ofício é o elo entre a
necessidade e a realização.
Se a mesa está posta, foi porque sua
mão forjou o caminho.
Se a luz se acende, foi porque seu
passo desbravou a escuridão.
Se a nação caminha, é porque seus pés, firmes e cansados, sustentam o peso do progresso.
O operário agora sabe: ele não é um
acessório da máquina, mas o coração que a faz pulsar.
Ele descobriu que a verdadeira poesia não está apenas nos livros de rimas ricas, mas na curva perfeita de um arco bem feito, na precisão de um encaixe, na honestidade de um telhado que protege contra a chuva.
Sua dignidade não vem do que ele
possui, mas da consciência do que ele é capaz de criar.
Ele olha para a cidade ao entardecer e, em cada janela iluminada, ele vê um reflexo de si mesmo.
Ele é o autor anônimo de uma obra
monumental chamada realidade.
E, nesse instante de clareza, ele
sorri.
Pois sabe que, enquanto houver um homem disposto a transformar o mundo com o trabalho, o mundo nunca deixará de ser novo.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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