A sabedoria das esferas sempre nos disse que, quando o Arquiteto da Existência decidiu plasmar sua obra mais desafiadora, um silêncio profundo tomou conta das oficinas celestiais. Não se tratava da criação de um novo sol ou da regência de uma constelação distante. O projeto era muito mais sutil e, por isso, imensamente mais complexo: tratava-se de fundir, em um único ser, a fragilidade da flor e a resiliência do carvalho.
Um observador angélico, ao notar o esmero com que o Criador trabalhava as fibras invisíveis daquela nova alma, indagou sobre a necessidade de tamanha perfeição. O Criador, sem interromper o fluxo da luz que moldava, explicou que aquele ser teria a missão de ser o elo entre o divino e o terreno. Ela precisaria carregar em si um algoritmo de amor que não admite erros de cálculo, uma capacidade de entrega que ignora o cansaço e uma intuição que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço.
Para cumprir tal destino, este modelo de criatura deveria possuir uma engenharia emocional sem precedentes. Suas mãos não seriam apenas instrumentos de trabalho, mas extensões de sua própria alma. Deveriam ser capazes de suturar feridas invisíveis com um carinho, de transformar o ordinário em extraordinário e de sustentar o peso do mundo alheio sem permitir que o próprio semblante revelasse a carga. Seriam mãos de artesã, de mestre e de operária, agindo em uníssono para garantir que o ninho estivesse sempre aquecido, mesmo sob as nevascas mais rigorosas da vida.
O Criador dotou-a de uma visão multidimensional. Não bastariam dois olhos comuns. Ela necessitaria de um olhar que atravessasse as máscaras da bravura para enxergar o medo escondido no coração de um filho; um olhar que percebesse a necessidade de um abraço antes mesmo que o pedido fosse formulado; e uma percepção quase profética para guiar passos vacilantes por caminhos seguros. Seria uma visão que não julga, mas que acolhe, que vê a luz onde outros só enxergam sombras e que aposta na semente quando todos só veem o deserto.
Em sua constituição, foi inserido um coração que funciona como um conversor alquímico: capaz de transformar a dor em aprendizado, o sacrifício em alegria e a escassez em abundância de afeto. Sua voz deveria ter a frequência exata da paz, sendo o único som capaz de reorganizar o caos interior de quem a escuta.
O Criador deu-lhe também o segredo do "Beijo de Luz", uma medicina sagrada que, aplicada com ternura, tem o poder de curar desde as quedas da infância até as grandes decepções que a maturidade impõe.
Ao notar uma certa umidade que brotava desse ser, o anjo questionou se haveria alguma falha na vedação daquela alma. O Criador sorriu e esclareceu que aquelas eram as "Gotas da Eternidade", lágrimas que não seriam apenas sinal de sofrimento, mas um “exsudato” de pura empatia. Elas serviriam para lavar as mágoas do mundo, para celebrar vitórias silenciosas e para renovar o pacto de amor a cada novo amanhecer. Seria a única substância capaz de limpar o espírito sem deixar cicatrizes.
Esta obra-prima teria a resistência dos metais mais nobres, suportando tempestades, noites insones e renúncias que fariam sucumbir qualquer outro ser. No entanto, por fora, manteria a suavidade de uma brisa, para que aqueles que dela dependessem nunca se sentissem intimidados pela sua força. Ela seria o porto seguro, a enciclopédia dos afetos e a luz que nunca se apaga.
Saberia ensinar sobre a imensidão do universo através de uma canção de ninar e explicaria a bondade de Deus apenas pelo modo como prepara a mesa.
Ao soprar o fôlego final, o Universo compreendeu que ali estava a síntese de toda a criação. Não era apenas um modelo de mulher, nem apenas uma arqueira da vida. Era o próprio amor que tomava forma, voz e mãos para caminhar entre os homens, provando que o milagre não é algo que acontece longe, mas algo que nos abraça todos os dias, que nos perdoa sem perguntas e que acredita em nós quando ninguém mais o faz.
Após eras de observação, o mundo aprendeu que toda a complexidade, toda a força e toda a ternura do cosmos podem ser resumidas em uma presença que é, ao mesmo tempo, simples e infinita.
E assim, o Artífice do Inefável concluiu sua obra: a gênese do cuidado supremo manifestada em uma presença única... Uma doce e meiga Mãe!
© Alberto Araújo

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