Era uma vez em Nictheroy... Olhe atentamente para esta imagem, tem uma que data: Dezembro de 1920.
O que você vê hoje como um cenário urbano pulsante, há pouco mais de um século era um reduto de calmaria, moldado pelas águas e pela força da natureza.
Neste registro precioso do mestre Augusto Malta, capturamos o exato momento em que um bonde atravessa a antiga ponte do Canto do Rio. Ele segue seu destino rumo a São Francisco, prestes a virar à direita para serpentear a Estrada Leopoldo Fróes, contornando a imponência do Morro da Fazenda Cavalão.
O Tempo Passa, a História Fica. O que mais impressiona os olhos contemporâneos?
Ao fundo, o morro exibe uma vegetação completamente intacta, densa e soberana, antes de dar espaço à expansão da cidade. A ponte, elegante em seu arco, desafiava o tempo. Hoje, quem passa apressado pelo local talvez não imagine que, sob o asfalto e a modernidade, ainda resistem vestígios dessa mesma estrutura.
Mais do que um cartão-postal antigo, essa foto é um testemunho silencioso de como Icaraí cresceu. O bonde se foi, a paisagem mudou, mas a alma de Niterói permanece guardada em cada centímetro dessas memórias.
CICATRIZES DE CONCRETO: OS VESTÍGIOS INVISÍVEIS DA NITERÓI DE ONTEM
Há quem diga que as cidades esquecem o próprio passado, soterradas pelo asfalto e pela pressa do progresso. Mas, se olharmos com atenção mística, descobrimos que a história se recusa a desaparecer por completo. Ela deixa pistas, sussurros e, às vezes, cicatrizes físicas que insistem em permanecer bem debaixo dos nossos olhos. O Canto do Rio, em Icaraí, guarda um desses segredos.
Nas imagens que ilustram esta crônica urbana, capturadas no silêncio da noite contemporânea, a iluminação pública e os carros que cruzam a avenida parecem ditar o ritmo absoluto da modernidade. Uma grade amarela, gasta pelo tempo e pela maresia, delimita a calçada. Para a maioria dos pedestres que passam apressados, em busca do calçadão ou voltando do trabalho, ali existe apenas um canal, um recuo escuro. No entanto, aquele concreto antigo carrega o peso de um século.
Ali estão os vestígios reais da antiga ponte do Canto do Rio, aquela mesma estrutura elegante e arqueada que o mestre Augusto Malta fotografou em dezembro de 1920. É um choque de realidade perceber que, onde hoje vemos essa estrutura esquecida sob as sombras das árvores, outrora deslizavam os bondes barulhentos em direção a São Francisco, contornando a Estrada Leopoldo Fróes.
Tocar aquele parapeito ou observar a base que resiste ao fluxo das águas e do tempo é como tocar na pele de uma Niterói que já não existe mais na superfície. É a engenharia da década de 1920 servindo de fundação invisível para a cidade de 2026.
Niterói não é feita apenas de belas paisagens e praias imponentes; ela é feita de camadas. Cada passo que damos por Icaraí ecoa sobre o trilho de ontem, sobre as pedras moldadas por operários de outra era, sob o olhar de um morro cuja vegetação um dia foi completamente intacta.
Esses vestígios são um chamado ao pertencimento. Eles nos lembram de que a modernidade passa, as frotas mudam, as gerações se sucedem, mas a alma da cidade permanece ali, teimosa e resiliente, guardada no concreto que o progresso não conseguiu apagar. Da próxima vez que passar pelo Canto do Rio, diminua o passo. A história está viva, bem ali, sob as sombras da noite.
ÁGUAS OCULTAS DO CANTO DO RIO EM ICARAÍ
Eu não nasci embalado pelas ondas da Baía de Guanabara, nem trago na infância os passos pelas calçadas de Niterói. Sou nordestino, feito de outras terras, outras secas e outras belezas. Minha esposa também traz o Nordeste costurado em sua essência. Quando ela aportou e eu aqui em Icaraí, a cidade já se apresentava para nós com sua imponência contemporânea: o vaivém frenético dos automóveis, os edifícios altos que recortam o céu e o ritmo acelerado de quem corre pelo calçadão à beira-mar. Para quem vem de fora, o Canto do Rio parece apenas um belo e definitivo cartão-postal do presente, uma engrenagem urbana perfeitamente ajustada aos novos tempos.
No entanto, quem convive com a sensibilidade da arte e com o fôlego da literatura enxerga muito além do asfalto. Há dias, ao mostrar para minha esposa aquela fotografia icônica de dezembro de 1920, um registro precioso onde um bonde elegante cruzava uma ponte arqueada rumo a São Francisco, contornando a Estrada Leopoldo Fróes, ela me olhou com a sabedoria de quem repara nas entrelinhas da história. "Você sabia que os vestígios físicos dessa ponte ainda estão de pé?", ela me disse.
Aquilo acendeu em mim o faro do jornalista, o instinto do cronista que precisa documentar as permanências do tempo. Não esperei o sol nascer. Fui até lá na penumbra da noite, guiado pela indicação dela. Diante daquela grade amarela, gasta pelo tempo e salpicada pela maresia, apontei a lente da minha câmera. Sob as sombras densas das árvores, o que para muitos pedestres apressados é invisível ou apenas um recuo escuro na calçada, para nós revelou-se como uma cicatriz real. Uma estrutura centenária de concreto que resiste, teimosa, conectando a Nictheroy de Augusto Malta ao nosso caminhar de hoje.
Mas a revelação da minha esposa não parou na arquitetura da ponte. Ela me trouxe uma camada ainda mais profunda, resgatada das páginas da saudosa escritora e memorialista niteroiense Yara Vidal em sua obra: “A Casa do Portão Vermelho”. Em suas memórias, a autora reconstrói a crônica de uma cidade que existia antes de ser sufocada pela canalização e pelo concreto. Aquela vala que corre hoje sob a grade amarela e sob os nossos pés, frequentemente diminuída pela pressa urbana sob o rótulo de "valão", é, na verdade, o leito histórico do Rio Icaraí.
Houve um tempo em que o Rio Icaraí fazia jus ao seu nome indígena, que remete a "água santa" ou "rio sagrado". Antes de ser retificado e emparedado pelo crescimento imobiliário, ele era o coração pulsante do Jardim Icaraí. Suas águas límpidas desciam livremente, atravessavam o terreno que hoje abriga o Campo de São Bento, alimentando os seus lagos e banhando sua vegetação primitiva e seguiam seu curso natural até desaguar de forma sinuosa e bela ali, no Canto do Rio, exatamente onde a ponte de 1920 foi erguida para permitir que o progresso passasse por cima dele.
Como bem lembra a literatura local, aquele espaço hoje cinzento já foi um cenário de idílio romântico. Famílias inteiras se reuniam às suas margens. Adultos conversavam à sombra das árvores enquanto patos e marrecos deslizavam suavemente pela correnteza. O rio era um playground natural: crianças de pés descalços brincavam em suas águas, pescavam pequenos peixes e acompanhavam o ritmo natural da maré que subia e descia, integrando a natureza ao cotidiano do bairro. O Rio Icaraí era vivo, limpo e comunitário.
Olhar para as fotos noturnas que tirei, sabendo agora que aquele canal escuro guarda a memória dos patinhos de Yara Vidal e dos banhos de rio das crianças de outrora, muda completamente a nossa percepção de pertencimento. Niterói não é uma cidade feita apenas de cartões-postais estáticos; ela é um organismo vivo feito de camadas sobrepostas. O progresso escondeu o rio sob o concreto, transformou a ponte em um detalhe quase invisível na paisagem e substituiu o tilintar do bonde pelo ronco dos motores modernos. Mas a alma do lugar recusa-se a desaparecer.
Tocar naquele parapeito de ferro oxidado ou observar a base de concreto que resiste à força das marés no Canto do Rio é um exercício místico de arqueologia urbana. É perceber que o Nordeste que nos habita encontrou abrigo em uma terra que também sabe guardar suas próprias raízes. Os vestígios da ponte e o fluxo contínuo do rio sufocado são um chamado sutil para diminuirmos o passo. Eles provam que, por mais que a modernidade tente padronizar as metrópoles, a história real permanece ali, resiliente, teimosa e poética, esperando apenas por um olhar atento para voltar a fluir.
A ORIGEM DA FAZENDA CAVALÃO E O DONO IMPERIAL
Quando o bairro de Icaraí ainda era um vasto areal selvagem, coberto por pitangueiras, cactos e vegetação de restinga, a região foi dividida em grandes propriedades. Em 1808, quando a corte de D. João III e o Coronel Luís da França organizaram o registro oficial das propriedades da região, a Fazenda do Morro do Cavalão constava como propriedade do Tenente-Coronel Antônio José Cardoso Ramalho.
Ela dividia os limites da região com a Fazenda de Icaraí, que pertencia a Estanislau Teixeira da Mata e as terras dos jesuítas e dos índios Temiminós de Arariboia.
Existem duas versões históricas muito fortes na historiografia de Niterói para o nome "Cavalão":
A versão dos animais de carga: Devido à topografia muito acidentada e às péssimas condições dos caminhos primitivos que ligavam Icaraí a São Francisco, a travessia da encosta só podia ser feita por cavalos muito robustos e fortes, os "cavalões". O termo acabou batizando a fazenda e o morro.
Antigos moradores e geógrafos apontavam que, quando vista de determinados ângulos do mar ou da praia, a silhueta do morro lembrava o dorso ou a cabeça de um grande cavalo deitado.
A antiga Fazenda do Cavalão e a sua mata virgem, aquela mesma que você reparou que estava intacta na foto de 1920, sempre foram um reduto de beleza cênica que atraiu grandes artistas:
No século XIX, o famoso pintor alemão Johann Georg Grimm, fundador do Grupo Grimm e inovador da pintura de paisagem no Brasil mudou-se para Niterói e imortalizou o local na tela "Vista do Morro do Cavalão, Niterói, RJ", fascinado pela luz e pela vegetação do lugar.
Mais tarde, o poeta Vinícius de Moraes visitou o mirante do morro e, tocado pela paisagem e pelo poente, escreveu o poema chamado "Balada do Cavalão", onde canta: “A tarde morre bem tarde / No morro do Cavalão… / Tem um poder de sossego / Dentro do meu coração.”
Com o fim do período colonial e o loteamento das terras no final do século XIX, a fazenda foi desmembrada. A Estrada Leopoldo Fróes abriu caminho contornando a propriedade para ligar os bairros, e as encostas começaram a ser ocupadas no século XX por trabalhadores, transformando a antiga fazenda na comunidade que conhecemos hoje.
Foto antiga: Augusto Malta (Dezembro
de 1920)
Resgate histórico: Memórias de Nictheroy.
Foto atual 2026 e Texto de
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
Georg Grimm - Óleo sobre tela, c.i.d.
81,40 cm x 152,00 cm
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