Há um sussurro que emerge da fibra, um clamor silencioso que transborda da urdidura. Diante da obra de Lina Ponzi, o olhar não apenas pousa; ele é capturado, enredado por uma cartografia de nós, tramas e texturas que parecem pulsar com a própria urgência da vida. A imagem do convite que ora nos convoca um emaranhado visceral de fios rubros entrelaçados a galhos e estruturas rústicas, é um portal para um universo onde o fazer manual se transmuta em ritual sagrado e a matéria bruta se faz poesia pura.
O vermelho de Lina não é uma escolha fortuita; é sangue, é seiva, é a linha do destino que une o visível ao invisível. Ver a obra de Lina Ponzi é aceitar o convite para um mergulho na arqueologia dos afetos. Seus trabalhos anteriores, já consagrados em múltiplas exposições, sempre demonstraram essa capacidade única de transformar o espaço tridimensional em um campo de forças emocionais. Há uma tensão latente entre a delicadeza do fio e a crueza do suporte, uma dança sutil entre a fragilidade e a resistência. O que se vê, em primeira instância, é o testemunho de um corpo que cria, de mãos que fiam o tempo e tecem paisagens que habitam a fronteira entre o orgânico e o abstrato.
Para compreender a densidade de "O que se vê, o que se sabe, o que é", é preciso caminhar pelas trilhas do conhecimento silencioso. O que sabemos sobre a arte contemporânea têxtil é que ela carrega o peso secular do ofício, mas Lina Ponzi a desvincula do mero utilitário para alçá-la ao status de filosofia visual. Saber a trajetória de Lina Ponzi é reconhecer a consistência de uma pesquisa poética que não teme o tempo desacelerado do fazer artístico. Cada ponto, cada amarração é uma tomada de posição política e estética em um mundo hipertecnológico e fugaz.
Nesta exposição, sob o olhar atento e sensível da curadora Desireé Monjardim, e iluminada pelo texto crítico de Edmilson Nunes, a trajetória de Lina ganha um novo e poderoso capítulo. A produção precisa de Alexandre Ponce costura os bastidores dessa experiência imersiva. O que se sabe, portanto, transcende a biografia da artista: sabe-se que a arte, quando legítima, funciona como um espelho coletivo. As tramas de Lina evocam as redes de conexões humanas, os nós que apertam o peito, os laços que nos sustentam e as linhas de fuga que inventamos para continuar respirando. É a sabedoria do entrelaçamento, onde a ancestralidade do tear encontra o grito expressionista da contemporaneidade.
Por fim, despem-se as aparências e os conceitos para que reste apenas a imanência: o que é. A obra de Lina Ponzi é presença. É o impacto tátil que reverbera na retina. É a fusão indissolúvel entre a natureza e o artifício, onde os galhos secos parecem ganhar uma nova circulação sanguínea através dos fios que os envolvem. É uma celebração da imperfeição, do desfiado, do transbordo. A exposição não nos propõe uma resposta fechada, mas um estado de ser e de sentir. É a própria vida em sua complexidade emaranhada, bela e por vezes dolorosa, mas sempre pulsante.
Não haveria solo mais fértil para acolher essa cartografia sensível do que o MADD (Música, Arte, Dança e Design). Desde sua fundação em 2015, encravado na paisagem inspiradora de Pendotiba, em Niterói, o MADD consolidou-se como um verdadeiro organismo vivo da economia criativa fluminense. Mais do que uma galeria, o espaço idealizado como ateliê, escola de artes e palco múltiplo funciona como um pulmão cultural que respira a vanguarda da arte contemporânea.
Ao cruzar os portões do casarão na Estrada Caetano Monteiro, o visitante é convidado a desacelerar e integrar-se a esse ecossistema onde as linguagens artísticas se cruzam e se retroalimentam. A arquitetura acolhedora e a vocação plural do MADD transformam o ato de visitar a exposição em um acontecimento comunitário e sensorial. Aqui, a arte de Lina Ponzi encontra o seu eco perfeito, reverberando nas paredes de um lugar que pulsa criação há mais de uma década.
Convidamos o público, os amantes das artes, os poetas do cotidiano e os caminhantes da sensibilidade para a grande noite de abertura. Permita-se ser capturado pelas linhas de Lina Ponzi e pelo magnetismo de um dos espaços culturais mais dinâmicos de Niterói.
Abertura: 28 de maio de 2026, às 18h
Local: MADD Galeria — Estrada Caetano
Monteiro, 2380 – Vila Progresso, Pendotiba, Niterói - RJ
Visitação Regular: Terças e Quartas: 14h
às 19h
Sábados: 14h às 17h
"O fio que amarra é o mesmo que
liberta. No emaranhado do mundo, a arte de Lina Ponzi nos ensina a encontrar o
prumo. – Alberto Araújo"
Será um absoluto prazer recebê-lo.
Postagem do Focus Portal Cultural
© Alberto Araújo

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