sábado, 16 de maio de 2026

O ALTAR DA MEMÓRIA: MUNDICA PIMENTEL E O CHÃO SAGRADO DE LUZILÂNDIA - CRÔNICA MEMORIALISTA DE © ALBERTO ARAÚJO

A linha do tempo de uma rede social é um fluxo contínuo de efemeridades, mas, de vez em quando, ela se transforma em um portal de alta fidelidade para o passado. Foi exatamente o que aconteceu quando abri a página "Imagens de Luzilândia". O espaço, que o Jailson Nunes administra com uma sensibilidade quase arqueológica, me jogou de assalto diante de um rosto que é patrimônio afetivo da nossa terra: a professora Raimunda Pimentel Ferreira. Para nós, e para a história, simplesmente Dona Mundica Pimentel. 

O impacto foi tão físico que precisei interromper o automatismo do dia para buscar o refúgio do nosso grupo de WhatsApp. Entre o espanto e a comoção, digitei para o Jailson: “Você mexeu com a minha infância novamente”. O "novamente" tinha endereço certo; há poucos dias, ele já havia sacudido minhas estruturas ao resgatar a presença do saudoso Padre Jonas Pinto. Mas a imagem da professora Mundica operou um fenômeno diferente. Não foi um mero exercício de nostalgia; foi uma reconstituição nítida, em alta definição, dos anos 70 e 80. De repente, eu não estava mais diante de uma tela: eu estava respirando o ar do Bairro Caixa D’água. 

A memória da infância tem uma topografia muito clara. Minha mente viajou sem escalas para os dias em que eu cursava o primário no Colégio João Francisco. Ali, a professora Mundica Pimentel já se agigantava como a Diretora da instituição. Ela não ocupava apenas um cargo; ela preenchia o espaço com uma dignidade que emanava naturalidade. 

Fecho os olhos e consigo ouvir o eco dos meus próprios passos, misturados aos de uma trupe de amigos que o tempo guardou em caixinhas de ouro na minha mente. Consigo ver, num filme em alta definição da alma, o Bira Leite com seu riso franco; a delicadeza e elegância da Cristina Rocha; a doçura de Ana Sávia; a vivacidade de Ana Cleide Leão; o Alberto Carvalho e tantos outros companheiros de jornada. Nós éramos a personificação da liberdade infantojuvenil. Corríamos pelos corredores daquele colégio com a urgência de quem sabe que o mundo é grande, mas que aquele pátio era o nosso universo inteiro. 

Que tempo bom! Que tempo feliz! Havia uma pureza naquela correria, uma cumplicidade nas brincadeiras de recreio que nenhuma tecnologia moderna consegue replicar. Éramos ricos de futuro e não sabíamos. E, resguardando toda aquela energia vibrante, havia a moldura da disciplina e do amor ao magistério, sustentada por professoras que se tornaram baluartes para as nossas vidas. Como esquecer a doçura e a firmeza da professora Arlete Uchôa de Meneses? Como não se lembrar da elegância intelectual da professora Yara de Castro Teles, e do carinho indelével da professora Mariá Carvalho? Elas não apenas ensinavam a ler e a somar; elas esculpiam cidadãos na pedra bruta da nossa infância. 

Depois do primário, a caminhada continuou nos anos 70 e 80, cruzando os portões da CNEC (Campanha Nacional de Escolas da Comunidade), na Rua Getúlio Vargas, próximo ao Banco do Brasil, outra instituição de ensino que trazia a marca administrativa e moral da professora Mundica Pimentel como diretora, cuja gestão de excelência foi, posteriormente, continuada com igual brio pela professora Bernadete Leão. 

Falar da professora Mundica Pimentel exige uma mudança de postura na escrita, quase como se precisássemos endireitar a coluna para evocar sua memória. Ela era uma personalidade cercada por uma aura mística de respeito e, simultaneamente, de uma profunda admiração por parte de todos. Havia um ritual que se repetia diariamente e que, hoje, parece pertencer a um país que só existe nos livros de história: quando a professora Mundica entrava na sala de classe, o silêncio se fazia não pelo medo, mas pela reverência. Todos os alunos, num movimento uníssono e automático, levantavam-se para recebê-la. Era o reconhecimento da autoridade legítima, aquela que se impõe pelo saber e pela postura, nunca pela força. 

Suas ordens educacionais e civis eram cumpridas fielmente, desde o primeiro soar do sinal até o último minuto de aula. Havia um civismo pulsante que moldava o nosso caráter. Todos tínhamos de cantar, com os pulmões cheios e o peito estufado de orgulho, o Hino Nacional e o Hino à Bandeira. Não era uma obrigação enfadonha; era um rito de pertencimento. 

As matérias voltadas para a formação do cidadão eram tratadas como o alicerce de tudo, focadas rigidamente num tripé que hoje faz muita falta à sociedade: Patriotismo cívico, o amor e o respeito à terra e aos símbolos nacionais. Ética, a linha reta do comportamento que nos ensinava o valor da honestidade. Moralidade religiosa, o esteio espiritual que nos dava o senso de transcendência, de respeito ao próximo e de temor a Deus. 

A professora Mundica entendia que a escola não era um mero depósito de crianças, mas uma oficina onde se forjava o amanhã de Luzilândia. Ela dedicou a maior parte de sua vida ao magistério e à formação de sucessivas gerações de luzilandenses. O impacto de suas ações deixou um marco indelével na pedagogia, no desenvolvimento cultural e no tecido social da nossa cidade. 

A história da educação no Brasil possui capítulos heroicos, e um deles atende pela sigla CNEC. Fundada em 1943 pelo visionário professor Felipe Tiago Gomes, a Companhia Nacional de Escolas da Comunidade tornou-se uma das maiores e mais tradicionais redes educacionais comunitárias do país. Ela nasceu com a missão nobre de interiorizar o ensino, alcançando dezenas de municípios e oferecendo desde a Educação Infantil até o Ensino Superior, passando por cursos técnicos importantes.

Em Luzilândia, a CNEC cumpriu esse papel de forma magistral conduzido por nossa homenageada. O tempo passou, os modelos administrativos mudaram, mas o solo onde a educação fincou suas raízes permaneceu sagrado. Hoje, aquela antiga estrutura situada à Rua São Francisco, no coração do Bairro Caixa D’água, transformou-se na Unidade Escolar Professora Mundica Pimentel. Não haveria nome mais justo, mais perfeito ou mais historicamente coerente para batizar aquela instituição do que o da mulher que doou sua vida àquelas salas de aula.

"Olhar para a Unidade Escolar Mundica Pimentel hoje é testemunhar a materialização de um sonho de dignidade que começou lá atrás, com o giz nas mãos daquela grande educadora."

O presente, felizmente, sabe honrar as sementes plantadas no passado. O trabalho que vem sendo realizado na gestão municipal tem transformado radicalmente a realidade da educação em Luzilândia, e essa escola é o maior símbolo dessa metamorfose. Quem passa pela Rua São Francisco hoje não vê apenas um prédio antigo restaurado; vê um monumento à cidadania.

Com uma obra profunda de reforma e ampliação, o município hoje celebra com muita alegria um avanço significativo. Onde antes havia o calor implacável do clima piauiense superado pelo esforço heroico de professores e alunos, hoje há um ambiente digno, moderno, amplo, seguro. É um local virtuoso para a oferta do ensino, proporcionando aos estudantes e ao corpo docente um ambiente agradável, propício ao verdadeiro aprendizado e ao desenvolvimento integral.

Essa grande conquista traz uma felicidade genuína para todos nós, filhos da terra. Ver que a educação em Luzilândia se tornou prioridade de gestão é a garantia de que as futuras gerações, as crianças que hoje correm pelos mesmos corredores onde eu, o Bira Leite, a Cristina Rocha, Ana Sávia, Ana Cleide Leão, Alberto Carvalho e outros corríamos, terão as ferramentas necessárias para construir um futuro melhor. O aprendizado e o cuidado se uniram para entregar um ensino de qualidade. 

A nova estrutura da escola é, sim, um marco arquitetônico e pedagógico para o município, mas é, acima de tudo, uma homenagem viva. Uma prestação de contas com a história. Cada vez que uma criança entra em uma daquelas salas, o legado da professora Mundica Pimentel se renova. Cada vez que o sino toca, a disciplina, a ética e o amor ao conhecimento que ela pregava continuam vivos.

A imagem da professora Mundica Pimentel não é apenas um registro guardado na gaveta da memória; é um quadro pintado com as cores indeléveis do afeto, cuja nitidez desafia o próprio tempo. Ela permanece viva, com o mesmo olhar firme e acolhedor, não apenas em mim, mas na alma de cada luzilandense que teve o privilégio de partilhar dessa história. Fomos esculpidos por suas mãos firmes, e o tempo, em sua marcha implacável, não tem o poder de apagar o que foi escrito com a tinta da dedicação e do amor ao próximo. 

A Luzilândia da minha infância, com seus corredores cheios de risos infantojuvenis, o eco do Hino Nacional subindo aos céus do Bairro Caixa D’água e a poeira mansa das nossas correrias, já não volta mais no tempo cronológico. O relógio não retrocede, e as calçadas da juventude ganharam a distância dos anos. No entanto, essa cidade mítica, banhada pelas as águas do Velho Monge e pela luz da Padroeira Santa Luzia e da inocência das crianças, reside intacta, sagrada e protegida no relicário do meu peito. Ela sobrevive a salvo das intempéries do mundo exterior porque se tornou parte de quem eu sou.

Saber que o nome daquela que nos ensinou a erguer a cabeça e a olhar para o mundo com os olhos da retidão, da ética e da dignidade hoje brilha na fachada de uma escola moderna, vibrante e cheia de vida, é como ver a justiça poética se materializar diante de nós. O passado não ruiu; ele se transformou em alicerce. Ver a Unidade Escolar Mundica Pimentel vibrando com o futuro de novas crianças me dá a certeza consoladora de uma grande verdade: a história de Luzilândia é bela por causa das sementes que ali foram plantadas, e o seu amanhã está em boas mãos.

Obrigado, Professora Mundica (In memoriam). Obrigado por ter feito da sua existência um brilhante painel de beleza educacional, um fanal de retidão que continua a iluminar os caminhos da nossa cidade e a guiar os passos de todos nós, seus eternos alunos. 

Créditos das fotos:

Facebook de Imagens de Luzilândia e outros sites no Google.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


 








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