quinta-feira, 28 de maio de 2026

46 - LOU PACHECO: ENTRE A MEMÓRIA, A HISTÓRIA E O AFETO UM TRIBUTO “IN MEMORIAM” À TRAJETÓRIA DA SAUDOSA JORNALISTA LOU PACHECO - TEXTO DEDICADO À PROFESSORA DALMA NASCIMENTO E AO JORNALISTA GUADÁ.

A escrita, quando genuína, tem o poder de despertar tempos que julgávamos adormecidos. Recentemente, ao publicar em meu Focus Portal Cultural, no dia 11 de maio de 2026, o ensaio intitulado “LE PETIT PARIS – UM MARCO NA NOITE NITEROIENSE”, fui surpreendido por uma mensagem do colega jornalista Guadá. Ao fazer referência à icônica Lou Pacheco em seu comentário, ele não apenas reagiu ao meu texto, mas abriu uma porta para um passado vibrante da nossa cidade. 

A saudosa jornalista Lou Pacheco conheci também nos anos 90, quando ela era colunista do Jornal LIG e eu fui colunista no Jornal OPINIÃO do saudoso jornalista Carlos Silva, o 'caneta de ouro' de Niterói!” — Guadá.

Ao ler essas palavras, fui transportado para os meus primeiros dias em Niterói. Foi um encontro que guardo com carinho; tenho, inclusive, uma fotografia daquele Natal nos Escritores Ao Ar Livro, um registro que hoje ganha contornos de relíquia. Relembrar Lou Pacheco é, inevitavelmente, reverenciar a própria história da crônica social e política da nossa região. 

A relevância de Lou Pacheco para a memória fluminense foi magistralmente registrada pela professora Dalma Nascimento, minha mestra e guia nesta jornada intelectual. Em seu livro Memórias em Jornais (Editora Tempo Brasileiro, 2014, pp. 231-232), Dalma dedica um ensaio sensível à figura de Lou. É nesse espaço que compreendemos a essência de uma amizade que transcendia o papel e a tinta. Maria de Lourdes de Freitas Pacheco, a nossa Lou, era natural de Campos dos Goytacazes. Filha de Julieta Gallo de Freitas Pacheco e Gastão Meirelles de Freitas Pacheco, cresceu em uma família numerosa e vibrante, ao lado de seus irmãos: Aidée, Célia, Jacy, Lígia, Nellie, Mario, Eli e Luiz Carlos. Essa base familiar forjou o caráter resiliente que a acompanharia por toda a vida. 

A carreira de Lou Pacheco foi tecida entre o compromisso com a verdade e o amor incondicional por Niterói. Ela deu seus primeiros passos no extinto jornal O Estado, trilhando um caminho que passaria pelo Diário de Notícias e pela fundação do Última Hora, onde permaneceu por doze anos. 

Ler hoje o registro da professora Dalma, publicado originalmente em agosto de 2000, é observar como Lou Pacheco, mesmo após sua partida, continuou a ser a "hospedeira de utopias" que Niterói tanto precisou. Segue abaixo a transcrição integral da homenagem feita por Dalma: 

“DOUTORES NA RIBALTA” MAIS UMA VEZ EM NITERÓI 

In memoriam da grande amiga Lou Pacheco.

Niterói viverá, em 18 de agosto próximo, a sétima edição de “Doutores na Ribalta”, um dos mais tradicionais e concorridos espetáculos beneficentes da cidade, idealizados e promovidos pela jornalista Lou (Maria de Lourdes) Pacheco, a carismática guerrilheira das causas humanitárias fluminenses. O evento, que ultrapassa até as fronteiras do Estado, mobiliza, em vários anos, grande público. Os “doutores” são médicos, advogados, economistas, engenheiros, dentistas, educadores, que sobem ao palco, para um show de dança, música e poesia, demonstrando suas “escondidas” aptidões artísticas. O sucesso do projeto tem feito com que o “Doutores na Ribalta” se mantenha como um marco na cultura da cidade desde 1959, quando à porta do Teatro Municipal de Niterói, o então governador do Estado, Roberto Silveira e sua esposa, Ismélia Saad Silveira, inauguraram o espetáculo, em noite de gala, com expressiva assistência e casa lotada. 

Incansável incentivadora dos autênticos valores, a jornalista Lou Pacheco, certa feita, ao frequentar a Associação Médica Fluminense, notou o elevado número de intelectuais e artistas entre os seus filiados. Eram escritores, instrumentistas, cantores, artistas plásticos e até bailarinos que ali “artistavam” despretensiosamente em busca de companheirismo. 

Percebendo-os afinados artisticamente e colegas de profissão, ela, com generosidade e espírito congregador, elaborou um fichário dos talentos, desde o oftalmologista Paulo Pimentel, poeta e tradutor de Baudelaire, a Hélio Rosa, psiquiatra e psicanalista, que mereceu de Vinícius de Moraes a referência a seu “violão de cauda”. 

Diante de tais descobertas, Lou Pacheco, para divulgar e interpretar o papel da nascente Associação Fluminense de Reabilitação, organizou o primeiro “Doutores na Ribalta”, em 24/4/59, no Teatro Municipal de Niterói, para uma plateia em traje a rigor. Outras reapresentações, sempre com enorme sucesso, ocorreram em 74, 84, 86, 96 e 99, com pausas necessárias, para depois ressurgirem com sempre maior vigor. (...)

O Correio cumprimenta mais esta iniciativa da ilustre jornalista Lou Pacheco, hospedeira de utopias, que, com exemplar personalidade, engrandecesse Niterói. Publicado em O Correio, edição “Aquarela de assuntos”, em 5 de agosto de 2000.

LOU PACHECO: O RECONHECIMENTO DE UMA VIDA PLENA E RESISTENTE 

A trajetória de Lou Pacheco não se encerrou com sua partida; ela se perpetua nos anais da nossa história cultural e política. Em 1992, essa relevância foi consagrada quando Lou recebeu o título de Intelectual do Ano, outorgado pelo Grupo Mônaco de Cultura. A distinção, concedida por Carlos Silvestre Mônaco, proprietário da icônica Livraria Ideal, que por décadas serviu como o grande ponto de encontro da intelectualidade fluminense, foi um reconhecimento justo à sua contribuição inestimável para a vida pública.

O reconhecimento oficial de sua dimensão para Niterói veio de forma contundente em 23 de agosto de 2012. Naquele momento, o Prefeito Municipal de Niterói, Jorge Roberto Silveira, ao decretar luto oficial de três dias pelo seu falecimento, pontuou com precisão os motivos que tornaram Maria de Lourdes de Freitas Pacheco uma presença imortal. O decreto ressaltou que a perda de Lou Pacheco representava um vazio lamentável para o Estado e para a Cidade, considerando os seus "inestimáveis serviços prestados à causa pública, à liberdade de expressão, à democracia e à cultura". 

Mais do que uma profissional exemplar, o poder público reconheceu sua luta e resistência em defesa da liberdade. A sua memória segue sendo cultivada por meio de homenagens que eternizam seu nome, como o projeto de lei para batizar logradouros da cidade, reforçando que sua história de vida e luta pela humanidade não será esquecida.

Ao redigir meu ensaio sobre o Le Petit Paris, percebo que figuras como Lou Pacheco são os verdadeiros pilares da nossa crônica urbana. Homenageá-la é manter viva a chama da imprensa que lutou pela liberdade e pela cultura. Que estas linhas sirvam para que as novas gerações saibam quem foi a mulher que tanto amou, escreveu e lutou por Niterói.

O Focus Portal Cultural, sob a direção de seu editor Alberto Araújo, reverencia e subscreve integralmente a importância dessa trajetória. Cultuar a memória de Lou Pacheco é um ato de resistência contra o esquecimento e um compromisso com os valores democráticos que ela, com tanta coragem, defendeu. Niterói, ao honrar o nome de Lou, honra a sua própria vocação de cidade aberta, culta e, acima de tudo, livre. Sua lembrança, para nós, é uma bússola que continua a guiar a nossa missão editorial. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





 

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