terça-feira, 12 de maio de 2026

33 - A INSURGÊNCIA DA BONDADE O BEM COMO RESISTÊNCIA À INSOLÊNCIA CONTEMPORÂNEA - ENSAIO REFLEXIVO-FILOSÓFICO © ALBERTO ARAÚJO

 

Vivemos em uma era de saturação visual e moral. Entre o brilho das telas e o ruído das opiniões efêmeras, a essência do "fazer o bem" muitas vezes acaba confinada ao sentimentalismo ou ao espaço sagrado dos templos.

No entanto, ao olharmos para as recentes movimentações do pensamento humanista e para as exortações que ecoam da tradição cristã, de Gálatas 6,9 às mensagens pontifícias de 2026, percebemos que a bondade não é um estado passivo. Pelo contrário: ela se revela como um ato de insurgência contra a insolência que marca a modernidade. 

A frase "Nunca se canse de fazer o bem" não é apenas um slogan de conforto ou uma pílula de otimismo para dias difíceis. Sua raiz em Gálatas é, fundamentalmente, um chamado contra a lassidão existencial. No grego original, a expressão sugere um "não desfalecer", um não se deixar abater pelo peso de um mundo que tantas vezes premia o egoísmo e a velocidade em detrimento da profundidade e da empatia. 

O Magistério da Igreja, refletido nas mensagens do Papa Francisco e agora consolidado sob o olhar atento de Leão XIV, recontextualizou essa máxima para o nosso tempo. Não se trata apenas de caridade assistencialista, mas de protagonismo ético. Em uma sociedade onde a insolência gera engajamento e a tragédia é consumida como espetáculo, sustentar a narrativa do bem é um ato de resistência. O bem é a única força capaz de desarmar a arrogância contemporânea. 

O ponto de ruptura que precisamos enfrentar é a falácia da neutralidade. Não basta "não fazer o mal". A ética exige uma postura ativa e, por vezes, confrontadora: 

"Não basta não odiar, é preciso perdoar; não basta não ter rancor, devemos orar pelos inimigos." (Mateus 5,44) 

Essa afirmação desloca o indivíduo da posição de espectador para a de arquiteto social. As grandes crises de solidariedade não nascem de vilões caricatos, mas da indiferença confortável. O bem-estar, quando anestesia, transforma a dor do outro em ruído de fundo. A insolência moderna reside exatamente nessa indiferença dourada. 

Outro desafio é nossa incapacidade crônica de lidar com o tempo. Vivemos sob o despotismo do imediato, desejando que o bem produza frutos na mesma velocidade de uma notificação digital. A exortação cristã, porém, resgata a metáfora agrícola: a recompensa virá "a seu tempo". Fazer o bem aos marginalizados e invisíveis é um exercício de perseverança que não oferece retorno imediato de imagem ou lucro. É um trabalho silencioso, muitas vezes solitário, mas essencial.

Para que o texto da fé se torne texto da vida, é necessária uma conversão do olhar que dialogue com a realidade das ruas. A prática do bem não é um escudo contra as tempestades; é a força que nos impede de naufragar nelas. 

Hoje, insistir no bem é uma ferramenta de sanidade social. Recusar-se ao cansaço moral e à insolência que degrada as relações humanas é interromper o ciclo de ódio que domina o debate público. Fazer o bem se torna, então, o método mais eficaz de manter a lucidez em um mundo em transe. 

Ao final, "nunca se cansar de fazer o bem" é um convite à rebeldia. Em um cenário que nos convida a desistir do próximo ao primeiro sinal de ingratidão, continuar estendendo a mão é o ato mais vanguardista que se pode realizar. 

Fazer o bem sem olhar a quem é a síntese dessa insurgência. Como nos recorda Lucas 6,35: “Amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar nada em troca.” O bem não escolhe destinatário; ele se oferece como graça, mesmo quando não há reciprocidade. É nesse gesto desarmado que reside a verdadeira força da resistência. 

A bondade é um músculo que se fortalece na repetição. Não é um evento isolado; é um hábito de resistência. Que o cansaço, quando vier e ele virá  nos encontre em movimento, porque a inércia é o único pecado que a história e a alma dificilmente perdoam. Em tempos de insolência, ser bom não é apenas uma escolha religiosa; é a nossa última e mais poderosa forma de insurgência. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural











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