quarta-feira, 27 de maio de 2026

42 - JOÃO GUIMARÃES ROSA: TRAVESSIAS DO DESTINO ENSAIO LITERÁRIO-BIOGRÁFICO DE © ALBERTO ARAÚJO

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Desde cedo, sua vida se desenhou como uma travessia entre mundos: o da ciência médica, o da diplomacia e, sobretudo, o da literatura. Mas havia um fio subterrâneo que costurava sua trajetória, a constante proximidade da morte, como se o destino o testasse repetidas vezes antes de permitir que sua obra florescesse. 

Na madrugada fria de Hamburgo, Rosa desperta com um desejo banal: fumar. Veste o sobretudo sobre o pijama e sai em busca de cigarros. Enquanto caminha, as sirenes anunciam o ataque aéreo. Ele se abriga, espera, sobrevive. Ao retornar pela manhã, encontra o prédio onde morava reduzido a escombros. A vida, que poderia ter terminado ali, se prolonga por causa de um gesto trivial. Mais tarde, ironizaria: “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida.” Esse episódio tornou-se metáfora de sua obra: o encontro entre o gesto mínimo e o destino maior, entre o acaso e a revelação. 

Pouco tempo depois, outro ataque atinge o consulado brasileiro em Hamburgo. O edifício, comprometido, é interditado. Rosa, porém, decide entrar. Recupera documentos confidenciais guardados no cofre e sai. Minutos depois, o prédio desaba. 

Segundo relato de sua filha Vilma em Relembramentos, Rosa interpretava o episódio como sinal divino: “Deus me salvou duas vezes, porque tinha uma missão para mim.” A sobrevivência, para ele, não era acaso: era propósito. 

De volta ao Brasil, já consagrado como escritor, Rosa enfrenta em 1958 um novo confronto com a morte: um infarto aos 50 anos. O corpo, que tantas vezes escapara de bombas e desabamentos, agora se rendia ao próprio tempo. A recuperação foi lenta, mas o episódio reforçou sua consciência de finitude. A partir daí, sua produção literária ganhou ainda mais intensidade, como se cada página fosse escrita contra o relógio. 

Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956, é mais do que um romance: é uma meditação sobre o bem e o mal, sobre o acaso e o destino. Rosa escrevia como quem sabia que viver é frágil, que sobreviver é sempre milagre. O sertão de Riobaldo é também o sertão de Rosa: território onde se decide se há pacto ou não, se há salvação ou perdição. 

Sua experiência pessoal, escapar da morte por minutos de diferença, por um cigarro, por uma resistência física improvável, alimenta a densidade metafísica de sua obra. 

O último capítulo dessa trajetória é talvez o mais simbólico. Rosa havia sido eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas adiou por anos sua posse. Como se soubesse que aquele ato seria definitivo. 

Em 16 de novembro de 1967, finalmente toma posse da Cadeira número 2. Dois dias depois, em 19 de novembro, morre de um novo infarto. O gesto de entrar na ABL parece ter sido sua última missão, o último rito antes da partida. A demora em assumir, seguida pela morte imediata, reforçou a aura de pressentimento que sempre o acompanhou. Rosa parecia saber que sua vida estava escrita em páginas que se fechariam logo após aquele discurso. 

João Guimarães Rosa viveu como quem atravessa um sertão invisível, onde cada curva escondia a morte e cada sobrevivência era uma revelação. Seus encontros com o acaso, o cigarro que o salvou, o consulado que desabou minutos depois de sua saída, o coração que falhou e se recompôs, não foram apenas episódios biográficos: foram capítulos de uma travessia existencial que se refletiria em sua obra. 

Riobaldo é o espelho dessa travessia. O jagunço que interroga o destino, que teme ter feito um pacto, que busca compreender se há sentido na sobrevivência, é também Rosa perguntando à própria vida por que escapou tantas vezes. Ambos caminham lado a lado com a morte, ambos sabem que viver é sempre provisório.

Mas é em Diadorim que se revela o mistério maior. Diadorim é o segredo guardado até o fim, a verdade que só se abre no instante da morte. Rosa, como Riobaldo, carregava dentro de si esse enigma: a certeza de que o humano é feito de revelações tardias, de verdades que só se mostram quando já não há retorno. Assim como Riobaldo descobre no último momento quem era Diadorim, Rosa parece ter descoberto no instante de sua morte o sentido de sua própria travessia: sobreviver não era apenas escapar, era escrever. 

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras e morrer dois dias depois, Rosa cumpriu seu último rito. Foi como se a vida tivesse esperado que ele atravessasse aquela soleira para então revelar o segredo final. A Cadeira número 2 tornou-se o marco de sua despedida, o lugar onde o escritor se confundiu com seu personagem, onde Rosa se tornou Riobaldo, e Riobaldo se tornou Rosa. 

Diadorim, Riobaldo, Rosa, três nomes para uma mesma travessia. O autor, o personagem e o enigma se fundem em uma só narrativa: a de um homem que caminhou com a morte, que sobreviveu o bastante para escrever, e que morreu no instante certo para que sua literatura se tornasse eterna. 

No sertão infinito de suas palavras, cada leitor continua a percorrer veredas em busca de sentido. E talvez seja essa a revelação última: Rosa não sobreviveu para si, mas para nós. Sua missão era transformar a morte em literatura, o acaso em destino, o mistério em palavra. E assim permanece, eterno como o sertão que inventou. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. — Fonte íntima e essencial. Relata episódios de sobrevivência na Alemanha, o infarto de 1958 e a visão espiritual de Rosa sobre sua missão. É a obra que humaniza o escritor e revela sua relação pessoal com o destino.         

RÓNAI, Paulo. Rosa: um mestre da linguagem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. — Estudo crítico sobre a linguagem rosiana. Rónai, tradutor e amigo próximo, analisa como a experiência existencial de Rosa se traduz em sua obra, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Fundamental para compreender a densidade estética e filosófica de sua escrita.         

MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1977. — Obra de referência que situa Rosa no contexto da literatura brasileira do século XX. Martins destaca sua importância como renovador da linguagem e figura central da tradição literária nacional.         

BIZZARRI, Eduardo F. João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano. São Paulo: T.A. Queiroz, 1981. — Reúne cartas trocadas entre Rosa e seu tradutor italiano. Revela aspectos da vida diplomática e literária, além de reflexões sobre espiritualidade e missão.         

CALLADO, Antonio. Esqueleto na Lagoa Verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959. — Obra contemporânea que ajuda a compreender o ambiente intelectual da época. Callado oferece um contraponto útil para situar Rosa no panorama cultural brasileiro.        

PACHECO, Fernanda Monique Lopes. Por uma poética do havido: um estudo sobre os Cadernos de João Guimarães Rosa. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2025. — Tese que analisa os cadernos de estudos de Rosa, mostrando sua prática escritural como experiência filosófica e estética. Reforça a imagem de Rosa como arquivista de si mesmo.

TEIXEIRA, Gabriel Silva de Araujo. Os estudos geográficos de João Guimarães Rosa: discursos sobre o sertão. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024. — Dissertação que examina o sertão rosiano sob a ótica da geografia. Analisa como Rosa constrói discursos sobre espaço, território e ideologia geográfica em sua obra.        

HANSEN, Marise. Palíndromo, palavra em movimento: viagem, tempo e história em Guimarães Rosa. Teresa: Revista de Literatura Brasileira, USP, v. 27, 2026. — Artigo que interpreta a tópica da viagem em Rosa, relacionando deslocamentos externos e internos à ideia de tempo circular. Analisa estruturas palindrômicas como metáforas de travessia e história.

©  Alberto Araújo

Focus Portal Cultural
















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