sábado, 9 de maio de 2026

O SENHOR DAS PALAVRAS: A ODISSEIA DE AURÉLIO E O ALICERCE DA IDENTIDADE BRASILEIRA - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL PELA PASSAGEM DOS 116 ANOS DO NASCIMENTO DE AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA

Dificilmente um brasileiro passará a vida sem pronunciar seu nome. Não como uma invocação a um santo, mas como um pedido de socorro à clareza. "Vá buscar o Aurélio", dizia-se nas salas de aula, nas redações e nas bibliotecas. 

No Brasil, o objeto e o homem se fundiram de tal forma que o sobrenome de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira transmutou a biografia para se tornar um verbete vivo. 

Lançado em 1975, o Dicionário Aurélio não foi apenas um sucesso editorial; foi um evento sísmico na cultura lusófona. Ele organizou o caos de um português brasileiro que fervilhava, dando-lhe rigor sem lhe tirar a alma. 

A história desse monumento impresso começa em 3 de maio de 1910, em Passo de Camaragibe, no litoral de Alagoas. Aurélio nasceu sob o signo da observação. Filho de um farmacêutico, cresceu ouvindo a musicalidade das falas nordestinas, um repertório que mais tarde seria o diferencial de sua obra.

Sua trajetória foi a de um humanista clássico. Iniciou no magistério ainda jovem, mas foi no Rio de Janeiro que sua presença se tornou magnética. Como professor do prestigioso Colégio Pedro II e, posteriormente, como imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Aurélio não era apenas um técnico da gramática. Ele era um entusiasta. 

Para Aurélio, a língua não era um conjunto estático de regras, mas um organismo que respira. Ele possuía uma sensibilidade quase poética para a fonética. Em entrevistas memoráveis, revelava sua faceta de esteta ao eleger as palavras que considerava mais belas: "libélula", pela sua leveza etérea, e "murucututu", pela percussão sonora que carregava a ancestralidade das matas. 

A lexicografia é um trabalho de formiga, mas executado com a paciência de um monge. Antes do "Aurélio" ser o gigante que conhecemos, o autor lapidou seu método colaborando no Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa. Porém, o projeto de sua vida exigia mais. 

O desafio era criar uma obra que fosse, ao mesmo tempo, erudita e acessível. Quando o Novo Dicionário da Língua Portuguesa chegou às livrarias em 75, o impacto foi imediato. Pela primeira vez, o brasileiro sentia que a língua oficial, aquela impressa no papel, finalmente espelhava a língua falada nas ruas, nos sambas e na literatura contemporânea. 

"Um dicionário é um universo em ordem alfabética.",  a máxima se aplicava perfeitamente. Aurélio incluiu termos brasileiros, regionalismos e gírias, validando a identidade nacional dentro da norma culta.

O sucesso comercial foi avassalador. Até o ano de 2003, a obra já havia superado a marca de 15 milhões de exemplares vendidos. Números que, em um país com históricos desafios de alfabetização, são nada menos que milagrosos. O dicionário tornou-se o livro de cabeceira de uma nação em formação. 

Na linguística, ocorre um fenômeno chamado metonímia quando usamos o nome do autor pela obra (como dizer "li Machado" em vez de "li o livro de Machado"). No caso de Aurélio, o fenômeno foi além: ele se tornou um substantivo comum. "O aurélio" (com 'a' minúsculo) passou a ser sinônimo de dicionário em qualquer contexto. 

Essa onipresença transformou o léxico em um padrão de referência. Se estava no Aurélio, existia. Se a definição era dele, era a verdade. Ele se tornou o árbitro das discussões familiares, o juiz das redações escolares e o mentor silencioso de gerações de escritores.

Com a partida de Aurélio em 1989, muitos questionaram se a obra sobreviveria à ausência de seu mestre e à revolução tecnológica que se avizinhava. A resposta veio através da adaptação.

O Dicionário Aurélio soube envelhecer sem mofar. Passou por revisões ortográficas profundas, incorporou neologismos da era da internet e desdobrou-se em formatos: 

Edições de Luxo: Para colecionadores e acadêmicos. 

Minidicionários: Companheiros inseparáveis de milhões de estudantes nas mochilas escolares.

Versões Digitais: Aplicativos e softwares que mantêm a rapidez da consulta no ritmo do século XXI.

A importância de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira não reside apenas na quantidade de palavras que ele catalogou, mas no amor com que o fez. Ele ensinou ao Brasil que a nossa língua portuguesa é um tesouro de sonoridades e significados únicos. 

Hoje, ao abrirmos qualquer versão de sua obra, não estamos apenas buscando o significado de um termo. Estamos acessando o esforço de uma vida inteira dedicada a entender quem somos através do que dizemos. O Aurélio continua vivo porque, enquanto houver uma dúvida sobre um acento, um significado ou uma pronúncia, o mestre alagoano estará lá, pronto para nos guiar pelo labirinto fascinante do idioma. 

Ele provou que as palavras podem voar como libélulas, mas é o dicionário que lhes dá o solo firme para pousar.

AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA foi um dos maiores intelectuais do Brasil, consolidando-se como ensaísta, filólogo e o mais célebre lexicógrafo do país. Nascido em Passo de Camaragibe, Alagoas, em 3 de maio de 1910, passou parte da infância em Porto das Pedras antes de seguir para Maceió, onde iniciou seus estudos. Sua vocação para as letras manifestou-se precocemente: aos 15 anos já ingressava no magistério, desenvolvendo um interesse profundo pela língua e literatura portuguesas que o acompanharia por toda a vida. Embora tenha se diplomado em Direito pela Faculdade do Recife em 1936, sua trajetória foi essencialmente literária e acadêmica. Ainda no Nordeste, integrou um brilhante grupo de intelectuais, incluindo nomes como Graciliano Ramos, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz, que exerceriam uma influência decisiva na cultura brasileira.

Em 1938, Aurélio transferiu-se para o Rio de Janeiro, cidade onde consolidou sua carreira docente em instituições de prestígio, como o Colégio Pedro II, e iniciou uma intensa colaboração na imprensa carioca. Foi secretário da prestigiada Revista do Brasil e começou a se destacar como ficcionista com o livro de contos Dois Mundos (1942), premiado pela Academia Brasileira de Letras. No entanto, foi em 1941 que sua vida tomou o rumo que o tornaria imortal: ao aceitar o convite para colaborar no Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, iniciou a atividade lexicográfica que viria a absorver sua existência. Paralelamente ao trabalho com as palavras, Aurélio destacou-se como tradutor de autores como Baudelaire e, ao lado de Paulo Rónai, organizou a monumental coleção Mar de Histórias, uma antologia do conto mundial que se tornou referência no gênero.

Sua paixão pelas sutilezas do idioma e pelos brasileirismos culminou, após anos de dedicação exaustiva, na publicação do Novo Dicionário da Língua Portuguesa em 1975. A obra, que se tornou popularmente conhecida apenas como "O Aurélio", revolucionou a relação do brasileiro comum com o seu próprio idioma, transformando o dicionário em um objeto de consulta cotidiana e prazerosa. Esse reconhecimento levou-o a ocupar a cadeira 30 da Academia Brasileira de Letras a partir de 1961, além de representar o Brasil em diversos simpósios internacionais e conferências em países como México, Estados Unidos e Romênia.

Membro de diversas academias de letras e institutos históricos, Aurélio Buarque de Holanda dedicou seus últimos anos a palestrar sobre os mistérios da língua que tanto amava. Ele faleceu no Rio de Janeiro, em 28 de fevereiro de 1989, deixando um legado em que seu próprio nome se tornou sinônimo de saber linguístico, imortalizado não apenas nas estantes da Academia, mas na boca e na escrita de milhões de brasileiros. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural













 

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