Há um
erro de cálculo na arquitetura do tempo. Uma espécie de ironia fina, desenhada
por um dom que aprecia o contraste, ou por uma física que ainda não soubemos
batizar. O mundo, em sua pressa utilitária, insiste em olhar para as rugas como
quem olha para as ruínas de um prédio antigo. Veem o reboco que cede, a pintura
que descasca, a marcha mais lenta que os passos de ontem. Mas esquecem-se, por
pura distração dos sentidos, de que os templos mais antigos são aqueles que
guardam os fogos mais sagrados.
Fica velho apenas o estojo. A joia, lapidada pelo
atrito dos anos, permanece intocada, brilhando no escuro de uma caixa que o
tempo teima em desgastar.
O espelho é um mentiroso superficial. Pela manhã,
ele me devolve uma geografia que mal reconheço: linhas de expressão que parecem
rios secos, fios de prata que colonizaram a cabeça, e uma gravidade que, aos
poucos, vai cobrando seu imposto sobre a carne. O corpo é esse relógio de
vidro. Ele conta as horas de forma implacável. A pele perde o viço como a folha
de outono perde a clorofila; as articulações protestam contra a umidade; o
fôlego encurta na subida da ladeira.
É o corpo dizendo, em seu dialeto de dores mansas,
que ele é feito de terra. E à terra retorna.
No entanto, basta que eu feche os olhos por dois
segundos para que o milagre da insurreição aconteça. Atrás das pálpebras, não
há rugas. Não há bengalas, não há remédios na mesa de cabeceira, não há a
lentidão dos passos. Ali, na cidadela do pensamento, eu ainda tenho dezessete
anos e corro descalço pela grama úmida. Ali, tenho trinta anos e sinto o
coração acelerar diante do primeiro amor, com a mesma urgência febril de quem
acabou de descobrir o fogo.
A mente não tem rugas. O pensamento não claudica. A
alma, essa substância misteriosa que nos habita, ignora solenemente o
calendário. Ela é uma labareda invisível que arde com a mesma intensidade, quer
o candeeiro seja de bronze novo ou de barro trincado.
O paradoxo da velhice é este: ser um jovem
prisioneiro de uma armadura que enferruja. O espírito permanece ágil, faminto
de novidades, capaz de indignação, de paixão e de poesia. Mas o veículo que o
transporta pede repouso. É como se colocássemos o motor de um jato supersônico
dentro da fuselagem de um biplano da Primeira Guerra. O motor quer voar além da
velocidade do som; as asas de lona e madeira tremem com o esforço.
Se a juventude é a primavera barulhenta, cheia de
flores que ainda não sabem se virarão frutos, cheia de polens que causam alergia
e promessas exageradas, a velhice é o outono mais maduro.
Não há menor beleza na árvore que perde as folhas.
Pelo contrário. É quando as folhas caem que a arquitetura dos galhos se revela.
É possível ver a força do tronco, a direção que as ramificações tomaram para
buscar o sol, as cicatrizes dos invernos passados. A árvore despida mostra sua
verdadeira essência. Ela não precisa mais do artifício da folhagem para ser
majestosa.
A pele envelhecida não é feia; ela é um pergaminho
onde a vida escreveu suas melhores histórias. Cada linha ao redor dos olhos é o
registro de um milhão de sorrisos; cada sulco na testa é o rastro de uma
preocupação superada, de um luto que se transformou em saudade, de uma batalha
que nos deixou mais sábios.
Enquanto a superfície do mar, o corpo, sofre com as
tempestades, as ondas que quebram e a erosão da costa, as profundezas do
oceano, a mente, permanecem em uma calmaria azul e imensa. Lá embaixo, onde a
luz do sol chega filtrada pela experiência, guardam-se os tesouros naufragados,
as pérolas que só o tempo sabe cultivar.
É preciso uma imensa coragem para aceitar que somos
dois seres em um único invólucro. Um que caminha em direção ao poente, e outro
que teima em olhar para o nascer do sol.
Se você quiser saber a verdadeira idade de alguém,
nunca olhe para as mãos, nem para o pescoço, nem para a curvatura das costas.
Olhe nos olhos. Os olhos são a única parte do corpo que o tempo não consegue
colonizar.
Há velhos de oitenta anos cujo olhar guarda uma
vivacidade infantil, uma faísca de curiosidade que faz tremer os jovens mais
apáticos. São olhos que ainda buscam o espanto. Que se emocionam com o
desabrochar de uma rosa, com o acorde de uma música antiga, com a injustiça do
mundo. E há, infelizmente, jovens de vinte anos cujos olhos já estão cobertos
pela poeira do tédio e do cinismo, velhos antes do tempo porque permitiram que
a mente se aposentasse antes da carne.
Ficar velho é um processo biológico; tornar-se
ancião é uma obra de arte. A mente que não envelhece é aquela que mantém as
janelas abertas. Ela continua acumulando livros que talvez não tenha tempo de
ler; continua fazendo planos para o próximo ano; continua aprendendo uma
palavra nova, um idioma novo, uma forma nova de compreender o vizinho. Ela não
se esconde no "no meu tempo", porque compreende que o único tempo que
existe é o agora. O passado é uma biblioteca de consulta; o futuro é uma
hipótese; o presente é o palco onde a alma continua dançando.
Há dias, no entanto, em que o peso da matéria se
faz notar com mais força. Dias em que a neblina do cansaço físico tenta invadir
a sala da mente. É nesses dias que a memória atua como a melhor das
alquimistas.
Sentado na poltrona que já tem o desenho do meu corpo,
posso viajar sem pagar passagem. Posso caminhar pelas ruas de uma cidade onde
morei há cinquenta anos, sentir o cheiro do café que minha mãe passava na
cozinha da minha infância, ouvir a voz de amigos que o tempo já levou para o
outro lado do mistério. Essas pessoas não morreram; elas habitam o condomínio
fechado da minha memória, onde não há IPTU, nem desgaste, nem esquecimento.
A velhice do corpo nos dá esse superpoder: a
capacidade de viver em várias dimensões simultaneamente. Enquanto mastigo um pedaço
de pão no café da manhã, estou, ao mesmo tempo, jantando em Paris em 1984, e
correndo atrás de uma bola de gude em 1965. Quem tem uma mente ativa nunca está
sozinho, e nunca está preso a um único espaço.
"O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o
rio", já dizia o poeta. Somos a água que passa e a margem que fica. Somos
o fluxo constante de pensamentos que se recusa a congelar, mesmo quando o
inverno do corpo se aproxima.
Há uma dignidade secreta em envelhecer que a
juventude, em sua soberba colorida, não consegue alcançar. A juventude corre
porque não sabe para onde vai; a velhice caminha devagar porque já conhece o
caminho e prefere saborear a paisagem.
Somos como os vinhos finos. O cântaro de barro ou a
garrafa de vidro podem ficar empoeirados na adega. O rótulo pode desbotar, a
rolha pode ressecar e exigir cuidado ao ser extraída. Mas o líquido lá
dentro... ah, o líquido concentrou os açúcares, apurou o aroma, perdeu a
adstringência, a secura da pele agressiva dos primeiros anos e transformou-se
em veludo. É preciso paciência para beber um vinho velho. É preciso silêncio
para escutar o que ele tem a dizer.
O corpo que envelhece é apenas o preço que pagamos
por termos vivido histórias demais. Cada dor na coluna é o eco de um abraço
apertado ou de um fardo que carregamos para salvar alguém. Cada esquecimento
bobo, o nome de um ator, a chave esquecida na porta, é apenas a mente fazendo
uma limpeza no arquivo morto para abrir espaço para as novas sensações que
ainda hão de vir.
Não há o que lamentar. A decadência física é o
tributo inevitável da matéria. Mas o espírito, esse pássaro de fogo que não
conhece gaiolas, continua a bater asas em direção ao infinito.
Quando o meu corpo finalmente decidir que a
caminhada terminou e que é hora de se deitar na terra para virar árvore ou
poeira de estrelas, ele o fará com a certeza de que cumpriu sua missão de
casca. Mas eu, a mente desse cronista que escreveu estas linhas, o ser que riu,
que chorou, que amou sem garantias, estarei alhures, em algum canto do
universo, ainda jovem, ainda imenso, rindo do tempo e de suas vãs tentativas de
me apagar.
Porque o tempo, com toda a sua prepotência, só
consegue tocar naquilo que é poeira. O que é luz, meu adorável amigo, essa
permanece.
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
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