Foi numa manhã comum, entre goles de café e conversas leves, que surgiu um tema que atravessa séculos. Minha esposa, lembrando de sua passagem por Portugal, comentou sobre um episódio pouco conhecido: o terremoto de Lisboa de 1755 e o impacto que ele teria tido até mesmo no Brasil.
A princípio, soou como uma curiosidade distante, quase improvável. Mas aquela frase ficou ecoando. Ainda com o gosto do café na boca, mergulhei em pesquisas, cruzando relatos históricos, cartas coloniais e estudos científicos contemporâneos. O que parecia apenas uma conversa revelou-se um capítulo esquecido da nossa história: o raro tsunâmi que atingiu o litoral nordestino brasileiro no século XVIII.
Essa descoberta não foi apenas fruto de arquivos e dados, mas nasceu de uma conversa íntima, de uma memória compartilhada à mesa. E é justamente essa ponte entre o cotidiano e o extraordinário que torna a narrativa ainda mais fascinante.
O resultado dessa investigação, que agora registro no Focus Portal Cultural, é a tentativa de dar voz a um acontecimento que atravessou oceanos e séculos, conectando Lisboa e o Brasil em um mesmo instante de tragédia e transformação.
O TSUNAMI ESQUECIDO QUE TOCOU O BRASIL EM 1755
No dia de Todos os Santos, 1º de novembro de 1755, Lisboa foi sacudida por um dos maiores terremotos já registrados na história da Europa. A cidade, então centro do império português, viu igrejas ruírem durante a missa, palácios desmoronarem e incêndios devastarem bairros inteiros. O tremor, estimado entre magnitude 8,8 e 9,1, não apenas destruiu a capital lusitana: ele desencadeou uma onda gigante que atravessou o Atlântico e deixou marcas também no Brasil.
Poucos brasileiros sabem que o Nordeste foi atingido por um tsunami histórico, capaz de invadir quilômetros de terra firme, arrastar casas simples e provocar mortes. O episódio, por muito tempo relegado às páginas de cartas coloniais e crônicas esquecidas, hoje ganha nova luz graças a pesquisas científicas que unem universidades brasileiras e portuguesas.
Documentos guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa revelam testemunhos preciosos. O arcebispo da Bahia, governadores de Pernambuco e da Paraíba, além de um militar, registraram em cartas o que viram e ouviram: águas que avançaram sobre vilas costeiras, moradores em fuga e a perda de vidas.
Pesquisadores da UERJ, liderados pelo professor Francisco Dourado, em parceria com especialistas da Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa e Instituto Português do Mar e da Atmosfera, decidiram investigar se o Brasil realmente havia sido atingido.
O trabalho de campo percorreu 270 quilômetros de litoral, entre o Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco. Em 22 praias, foram coletadas amostras de sedimentos. O resultado surpreendeu: elementos químicos típicos de águas profundas e microfósseis marinhos foram encontrados em locais onde jamais deveriam estar.
Uma carta datada de maio de 1756 descreve: “As águas transcenderam os seus limites e fizeram fugir os habitantes das praias”. Outra, escrita em março do mesmo ano, relata que em Lucena e Tamandaré a enchente avançou “uma légua terra adentro”, levando casas de palha e ceifando a vida de um rapaz e de uma mulher.
Também quatro cartas escritas à época, e que atualmente encontram-se no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, comprovam o evento, sendo elas escritas pelo então arcebispo da Bahia, pelos governadores de Pernambuco e da Paraíba e por um militar.
Uma outra comprovação do evento que foi encontrada por pesquisadores brasileiros e portugueses foi vestígios de microanimais e de elementos químicos que só poderiam ter sido trazidos a determinadas praias brasileiras por grandes ondas. O primeiro passo foi fazer uma simulação matemática de como teria sido o tsunâmi. Baseado nessa simulação, os pesquisadores foram a campo. Na praia de Pontinhas, na Paraíba, eles identificaram uma camada de areia grossa que teria vestígios do fenômeno.
Ao todo, foram 270 quilômetros de trabalho de campo em 22 praias entre Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco, com quatro pontos de coleta de amostras. Mas a onda gigante atingiu toda a costa nordestina, com relatos de ter chegado também ao Rio de Janeiro, no sudeste do País.
No material coletado, a gente vê elementos químicos que não eram pra ser encontrados ali. Eram pra ser encontrados em regiões com mais profundidade. Ou seja, algo trouxe aqueles elementos até ali. Da mesma forma, há vestígios de microanimais que não deveriam ser encontrados na praia.
Na região da praia de Lucena, na
Paraíba, as ondas variaram entre 1,8 e 1,7 m de altura. Na região de Pitimbu,
no mesmo estado, a altura das ondas ficou entre 1,5 e 1,1 m; na região
pernambucana de Tamandaré, variou entre 1,9 e 1,8 m. As ondas não chegaram
muito altas, mas o volume de água foi grande.
As ondas inundaram até 4 quilômetros distantes da linha de costa, principalmente em locais com influência de rios, nas proximidades da Ilha de Itamaracá (PE). Em Tamandaré a inundação foi de até 800 metros. Já em Lucena foi de aproximadamente 300 metros.
Esses relatos, por muito tempo considerados curiosidades históricas, agora se confirmam como evidência de um fenômeno natural de proporções raras.
Esses vestígios confirmam que uma onda gigante trouxe materiais do fundo do oceano até a costa. Em Lucena, na Paraíba, as ondas chegaram a quase 2 metros de altura. Em Tamandaré, Pernambuco, a inundação avançou até 800 metros. Em áreas próximas a rios, como na Ilha de Itamaracá, a água penetrou até 4 quilômetros terra adentro.
O terremoto de Lisboa não foi apenas uma tragédia local. Ele devastou o sul da Espanha e do Marrocos, gerou tsunamis que alcançaram a Irlanda e o Caribe, e deixou entre 20 mil e 100 mil mortos.
O impacto cultural foi imenso: filósofos como Voltaire e Kant refletiram sobre o desastre, que se tornou símbolo da fragilidade humana diante da natureza. Para a ciência, o episódio inaugurou uma nova era nos estudos sismológicos.
No Brasil, porém, a memória do tsunami permaneceu adormecida. Talvez porque o país não esteja em zonas de grandes falhas geológicas, o imaginário coletivo nunca associou nossas praias a ondas gigantes. Mas a história mostra que até aqui, em terras tropicais, o Atlântico pode trazer surpresas.
As comunidades atingidas em 1755 eram pequenas, formadas por pescadores e agricultores. Casas de palha e madeira foram arrastadas, e famílias perderam tudo. O mar avançou sobre áreas que hoje são pontos turísticos, como Lucena e Tamandaré, transformando o cotidiano em caos.
O episódio não deixou marcas monumentais como em Lisboa, mas foi suficiente para entrar na memória oral e nos registros oficiais. Ainda assim, ao longo dos séculos, a narrativa se apagou, até ser resgatada por historiadores como Alberto Veloso, autor de “Tremeu a Europa e o Brasil também”, e pelos cientistas que hoje confirmam a veracidade do fenômeno.
O tsunâmi de 1755 no Brasil é mais que um dado geológico: é parte da nossa cultura esquecida. Ele mostra como o país, mesmo distante dos epicentros sísmicos, não está imune a desastres naturais globais.
A arte da época registrou o terremoto de Lisboa em quadros e gravuras, mas pouco se falou sobre o reflexo no Brasil. Agora, com a ciência trazendo provas físicas, abre-se espaço para que museus, escolas e meios culturais resgatem essa memória.
Recontar essa história é também um ato de prevenção: lembrar que o mar pode ser força destrutiva e que a preparação para desastres deve ser parte da nossa realidade.
O tsunami que atingiu o Brasil em 1755 não é mito, mas fato histórico e científico. Ele atravessou o oceano, invadiu praias nordestinas, destruiu casas e tirou vidas. Por séculos, ficou escondido em cartas e memórias. Hoje, retorna como símbolo da conexão entre continentes e da vulnerabilidade humana diante da natureza.
LINHA DO TEMPO DO TERREMOTO DE LISBOA E O TSUNÂMI NO BRASIL
O terremoto de Lisboa de 1755 não foi apenas um evento sísmico isolado. Ele se transformou em um marco histórico que atravessou fronteiras, oceanos e séculos. Para compreender como o Brasil foi atingido, é preciso olhar para a sequência de acontecimentos que conectam Lisboa às praias nordestinas.
1º de novembro de 1755 – Lisboa treme:
Um terremoto de magnitude próxima a 9 devasta a capital portuguesa. Igrejas desmoronam durante a missa de Dia de Todos os Santos, incêndios se espalham e milhares morrem.
O tremor gera ondas gigantes que atingem o litoral europeu, alcançando Espanha, Marrocos e até a Irlanda.
As ondas atravessam o oceano e chegam ao Caribe. No Brasil, relatos coloniais descrevem o mar invadindo vilas costeiras no Nordeste.
Autoridades coloniais enviam correspondências a Lisboa relatando o fenômeno. O arcebispo da Bahia, governadores de Pernambuco e da Paraíba e um militar descrevem casas destruídas e duas mortes.
O episódio permanece esquecido, sem espaço nos livros escolares ou na cultura popular brasileira.
Pesquisadores da UERJ e de universidades portuguesas encontram evidências físicas nas praias nordestinas: sedimentos de águas profundas e microfósseis marinhos. O mito se transforma em fato científico.
O terremoto de Lisboa inspirou reflexões profundas na Europa. Filósofos como Voltaire questionaram a ideia de um mundo ordenado e justo diante da catástrofe. Kant iniciou estudos sobre sismologia, buscando compreender os mecanismos da Terra.
No Brasil, porém, o reflexo cultural foi tímido. O tsunami não entrou no imaginário coletivo, talvez por ter atingido comunidades pequenas e por estar distante dos grandes centros coloniais. Hoje, ao recuperar essa memória, abre-se espaço para novas interpretações sobre nossa relação com o mar e com os desastres naturais.
AS PRAIAS QUE GUARDAM A HISTÓRIA
Lucena (PB): ondas de até 1,8 m,
inundação de 300 m.
Tamandaré (PE): ondas de quase 2 m,
água avançando 800 m.
Itamaracá (PE): inundação de até 4 km,
favorecida pela presença de rios.
Pitimbu (PB): ondas entre 1,1 m e 1,5 m.
Esses locais, hoje destinos turísticos, guardam em suas camadas de areia e sedimentos a memória de um mar que um dia ultrapassou todos os limites.
A linha do tempo do terremoto de Lisboa e do tsunâmi no Brasil mostra como um evento europeu se transformou em uma catástrofe transatlântica. Mais que números e dados, é uma história de conexões culturais, científicas e humanas.
Resgatar esse episódio é dar ao Brasil um capítulo esquecido de sua história natural, lembrando que o Atlântico não apenas nos une a Portugal, mas também pode trazer consigo forças capazes de mudar destinos.
Para o Focus Portal Cultural, contar essa história é dar voz a um capítulo esquecido da nossa trajetória, lembrando que o Brasil também já enfrentou o poder avassalador de um tsunami.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
Erupção do vulcão nas Ilhas Canárias despertou preocupações entre algumas pessoas de um tsunami no Brasil
Distrito de Alfama, em Lisboa, foi o único que escapou do terremoto de 1755, o maior já registrado na Europa.
Praia de Lucena, na Paraíba, foi um
dos lugares atingidos por tsunami em 1755, segundo pesquisadores.
Terremoto de 1755 em Lisboa foi o mais
forte registrado na Europa e gerou tsunami no Brasil, segundo pesquisadores
Registros históricos contam como um
tsunami atingiu o litoral brasileiro em 1755, incluindo a Paraíba — Foto:
Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres (CEPEDES)/UERJ/Divulgação
Tsunami em 1755 atingiu quase toda a costa nordestina. Na Paraíba, as praias de Lucena e Pitimbu sofreram com as ondas gigantes. — Foto: Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres (CEPEDES)/UERJ/Divulgação
Terremoto em Lisboa (1755), pintura de
João Glama (1708-1792). — Foto: Getty Images via BBC
O terremoto de Lisboa: o desastre que mudou a história em 1755. (Clicar na imagem para assistir ao vídeo)
REFERÊNCIAS DE PESQUISA
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Gilda Uzeda disse: História e Geografia caminham juntas. São inseparáveis porque se complementam. O resgate de fatos histórico-geográficos enriquecem a nossa cultura. Parabéns, Alberto, por trazer a útil lembrança de um sério acontecimento que atingiu povos de vários lugares da Terra. Abraço Gilda
Olá, Gilda, suas palavras traduzem com sensibilidade a essência da união entre História e Geografia. De fato, compreender os fatos em seus contextos geográficos amplia nossa visão de mundo e fortalece nossa identidade cultural. Fico feliz que tenha valorizado essa lembrança é no diálogo entre passado e espaço que encontramos caminhos para compreender melhor o presente. Muito obrigado pelo carinho e pela partilha! Abraços do Alberto Araújo
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