sexta-feira, 15 de maio de 2026

ENTRE DOGMA E RAZÃO: O NOME DA ROSA COMO REFLEXÃO SOBRE FÉ, CONHECIMENTO E PODER - ENSAIO CRÍTICO-LITERÁRIO © ALBERTO ARAÚJO


O filme O Nome da Rosa (1986), dirigido por Jean-Jacques Annaud e inspirado no romance homônimo de Umberto Eco, situa-se em 1327, na Baixa Idade Média, período marcado por tensões entre fé e razão, pela ascensão das universidades e pelo início das transformações que culminariam no Renascimento. A narrativa se passa em um mosteiro beneditino no norte da Itália, onde uma série de assassinatos misteriosos de monges desencadeia uma investigação conduzida por Guilherme de Baskerville (Sean Connery) e seu discípulo Adso de Melk (Christian Slater). 

O pano de fundo histórico é essencial: a Igreja Católica detinha o monopólio do saber, mas enfrentava correntes que defendiam maior racionalidade e liberdade intelectual. O filme dramatiza esse embate, mostrando como o conhecimento era visto como perigoso e como o riso, símbolo de liberdade, era reprimido. 

Temas centrais 

Conflito entre fé e razão  

Guilherme representa o espírito racional e investigativo, inspirado em métodos científicos e dedutivos, enquanto Jorge de Burgos encarna a visão dogmática e repressiva da Igreja, que teme o poder libertador do conhecimento. 

O papel do riso  

Um dos pontos mais originais da obra é a discussão sobre o riso. Para Jorge, rir é profanar o sagrado, pois mina o medo que sustenta a fé. Já Guilherme vê o riso como uma forma de questionamento e de resistência à opressão. 

A biblioteca como símbolo  

O labirinto da biblioteca é metáfora do saber oculto e controlado. O acesso restrito aos livros mostra como o conhecimento era guardado como arma de poder. O manuscrito proibido de Aristóteles sobre a comédia é o centro da intriga. 

Violência e poder  

O filme não se limita ao suspense policial: aborda também a violência física e sexual, revelando contradições da vida monástica e a hipocrisia de uma instituição que pregava pureza, mas convivia com abusos. 

Estrutura narrativa e estilo cinematográfico 

Annaud constrói um thriller medieval que combina investigação policial com reflexão filosófica. A fotografia sombria, os cenários claustrofóbicos e a trilha sonora reforçam o clima de mistério. Sean Connery dá vida a um Guilherme carismático e sagaz, enquanto Christian Slater encarna a ingenuidade de Adso, que amadurece ao longo da trama. 

O ritmo alterna momentos de tensão com diálogos densos, permitindo que o espectador reflita sobre os dilemas apresentados. A biblioteca, filmada como um labirinto quase infinito, é um dos grandes triunfos visuais da obra. 

Interpretação filosófica

O filme é uma alegoria sobre o poder do conhecimento e os riscos da intolerância. A disputa em torno do livro de Aristóteles simboliza a luta entre uma visão de mundo aberta ao questionamento e outra baseada na repressão. 

Guilherme defende que o homem pode enfrentar o mundo com ciência e técnica. 

Jorge sustenta que a razão é perversa e que apenas a fé deve guiar os homens. 

Essa tensão ecoa debates que atravessaram séculos e ainda ressoam hoje, sobre liberdade de expressão, censura e o papel da ciência. 

Relevância contemporânea 

Apesar de ambientado na Idade Média, O Nome da Rosa dialoga com questões atuais:

Censura e controle da informação

Intolerância religiosa

Liberdade intelectual 

O filme mostra como o medo pode ser usado para manipular sociedades e como o acesso ao conhecimento é fundamental para a emancipação humana. 

Recepção inicial 

Quando estreou em 1986, o filme foi recebido com entusiasmo pelo público europeu, mas com certa frieza nos Estados Unidos. Muitos críticos americanos consideraram a obra “lenta” e “intelectualizada demais” para o padrão dos thrillers hollywoodianos. Já na Europa, destacou-se como uma produção sofisticada, capaz de unir suspense policial, ambientação histórica e reflexão filosófica.

Críticos europeus elogiaram a atmosfera sombria e a fidelidade ao espírito do romance de Umberto Eco. 

Críticos americanos apontaram que o filme exigia do espectador uma atenção incomum, o que dificultava sua popularidade em massa.

Reconhecimento artístico

Sean Connery foi amplamente elogiado por sua atuação como Guilherme de Baskerville, trazendo carisma e inteligência ao personagem. Christian Slater, ainda jovem, recebeu críticas mistas, mas sua performance foi vista como adequada ao papel de aprendiz ingênuo. 

A direção de Jean-Jacques Annaud foi considerada ousada, especialmente pela recriação minuciosa da Idade Média. A fotografia de Tonino Delli Colli e o design de produção foram destacados como elementos que conferiram autenticidade e impacto visual. 

Comparação com o romance 

Umberto Eco, autor do livro, reconheceu que o filme não poderia reproduzir todas as camadas filosóficas da obra literária. Ainda assim, admitiu que Annaud conseguiu captar o “espírito” da narrativa.

O romance é denso, cheio de referências semióticas e debates teológicos. 

O filme simplifica parte disso, mas mantém o núcleo: a luta entre razão e fé, e o poder do conhecimento.

Essa adaptação foi vista como um exemplo de como cinema e literatura podem dialogar sem que um anule o outro. 

Críticas posteriores 

Com o passar dos anos, O Nome da Rosa ganhou status de clássico cult. Hoje é frequentemente citado como um dos melhores filmes históricos dos anos 1980. 

Análises acadêmicas destacam sua relevância para discutir censura, intolerância e liberdade intelectual.

Críticas modernas reconhecem que, embora o ritmo seja mais lento que o padrão atual, isso reforça a atmosfera de mistério e reflexão. 

A recepção crítica de O Nome da Rosa mostra como uma obra pode ser inicialmente vista como “difícil” e, com o tempo, tornar-se referência cultural. Hoje, o filme é valorizado não apenas como adaptação literária, mas como peça cinematográfica que conseguiu unir suspense, filosofia e história.

Atuação de Sean Connery

Sean Connery trouxe ao personagem Guilherme de Baskerville uma combinação rara de carisma, inteligência e serenidade. 

Sua interpretação equilibra o rigor intelectual com humor sutil, tornando Guilherme acessível ao público. 

Connery transmite a ideia de um homem que acredita na razão, mas não perde a humanidade diante das contradições da fé. 

Muitos críticos consideram este papel um dos mais sofisticados de sua carreira, diferente dos personagens de ação que o tornaram famoso. 

A atuação de Connery reforça o contraste entre o investigador racional e o ambiente medieval dominado pelo dogma.

Sean Connery em O Nome da Rosa merece um olhar crítico porque representa um momento singular em sua carreira, marcado pela transição de papéis de ação para personagens mais densos e intelectuais. No papel de Guilherme de Baskerville, Connery constrói uma figura que combina racionalidade investigativa com carisma humano, tornando-se o eixo central da narrativa. Sua performance é frequentemente descrita como a de um “Sherlock Holmes medieval”, já que o personagem utiliza lógica, observação e dedução para desvendar os mistérios do mosteiro.

Connery consegue transmitir a serenidade de um frade franciscano comprometido com a razão, mas também a ironia e o humor sutil que desafiam o dogma religioso. Essa dualidade é fundamental para o filme: de um lado, o investigador que confia na ciência e na lógica; de outro, o homem que reconhece os limites da razão diante da fé e da violência institucional. O ator imprime autoridade sem ser autoritário, conduzindo o espectador pela trama com naturalidade e imponência. 

Críticos destacaram que sua atuação foi decisiva para o sucesso da adaptação. Enquanto o romance de Umberto Eco é denso e filosófico, o filme precisava de uma figura capaz de traduzir essa complexidade em linguagem acessível. Connery cumpre esse papel ao dar vida a um personagem que é ao mesmo tempo sábio, humano e magnético. Sua presença em cena garante que o espectador se mantenha envolvido, mesmo diante de diálogos carregados de reflexão teológica e filosófica. 

Em comparação com seus papéis mais famosos, como James Bond, Connery demonstra aqui uma versatilidade notável. Se nos filmes de espionagem sua força estava na ação e no charme sedutor, em O Nome da Rosa ele revela uma faceta mais intelectual e introspectiva. Essa mudança foi vista como um marco em sua carreira, consolidando-o como ator capaz de transitar entre o entretenimento popular e o cinema de maior densidade cultural. 

Em síntese, a atuação de Sean Connery em O Nome da Rosa pode ser classificada como uma performance crítica e transformadora, que não apenas sustenta o filme, mas também amplia sua relevância filosófica. Ele conseguiu dar profundidade a um personagem que simboliza a luta entre fé e razão, tornando o filme não apenas um suspense medieval, mas uma reflexão sobre o poder do conhecimento e a liberdade intelectual.

Direção de Jean-Jacques Annaud

Jean-Jacques Annaud enfrentou o desafio de adaptar um romance denso e filosófico para o cinema. 

Optou por uma estética sombria, com cenários claustrofóbicos e iluminação que reforça o mistério. 

Construiu a biblioteca como um verdadeiro labirinto visual, símbolo do saber oculto. 

Soube equilibrar suspense policial com reflexões filosóficas, sem perder o ritmo narrativo. 

Sua direção é frequentemente elogiada pela capacidade de transformar um texto complexo em uma experiência cinematográfica envolvente. 

Direção de Jean-Jacques Annaud 

Comparação com o livro de Umberto Eco

O romance de Umberto Eco é uma obra monumental, repleta de referências semióticas, debates teológicos e reflexões sobre linguagem e poder. 

O filme simplifica parte dessa densidade, focando mais na investigação e nos conflitos centrais. 

Eco reconheceu que a adaptação não poderia reproduzir todas as camadas do livro, mas admitiu que Annaud captou o “espírito” da obra.

Enquanto o livro exige leitura atenta e conhecimento histórico, o filme oferece uma porta de entrada mais acessível ao universo de Eco. 

Conclusão 

O Nome da Rosa é mais do que um suspense histórico: é uma reflexão sobre os limites da fé, a importância da razão e o poder libertador do riso. Ao articular investigação policial com crítica cultural, o filme se torna uma obra-prima que transcende seu tempo. 

SOBRE O ROMANCE 

"O Nome da Rosa" é um clássico romance histórico e de mistério escrito pelo italiano Umberto Eco. Ambientado em 1327, a trama acompanha o frade franciscano Guilherme de Baskerville e seu noviço Adso de Melk em uma abadia isolada, investigando uma série de assassinatos bizarros ligados a um livro proibido. 

Aspectos centrais da obra:O Enredo: Os crimes ocorrem enquanto a abadia se prepara para um debate crucial entre líderes franciscanos e enviados do Papa. Os assassinatos parecem seguir o livro do Apocalipse.A Investigação: Ao contrário das explicações sobrenaturais da época, Guilherme utiliza a dedução, a ciência e a razão para desvendar o mistério por trás das mortes.

O Conflito: O cerne da história é a disputa pelo controle do conhecimento. Os monges mais conservadores tentam esconder o segundo volume da Poética de Aristóteles (que trata sobre a comédia e o riso) por considerá-lo perigoso para os dogmas da Igreja. 

Adaptações: O livro foi adaptado para um aclamado filme em 1986, estrelado por Sean Connery no papel principal, além de uma série de televisão lançada em 2019.

REFERÊNCIAS

ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Tradução de Aurora Bernardini e Homero Freitas de Andrade. São Paulo: Editora Record, 1983.

ECO, Umberto. Os Limites da Interpretação. São Paulo: Perspectiva, 1990.

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. São Paulo: Cultrix, 1971.

KRACAUER, Siegfried. Teoria do Cinema: A Redenção da Realidade Física. Rio de Janeiro: Zahar, 1960.

BENJAMIN, Walter. A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica. São Paulo: Brasiliense, 1985.

ANNAUD, Jean-Jacques (Direção). O Nome da Rosa. França/Alemanha/Itália: Constantin Film, 1986. Filme.











(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO FILME COMPLETO)







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