Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes
que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem
importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era
depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia
ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo
esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que
eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro
contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão,
se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à
roda dele.
Não tenho preferências para quando já
não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o
que é.
******
O poema "Quando vier a Primavera" é de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, escrito em 7 de novembro de 1915 e publicado nos Poemas Inconjuntos.
O poema completo reflete sobre a
indiferença da natureza perante a mortalidade humana e a aceitação serena da
realidade, com versos como "Quando vier a Primavera, / Se eu já estiver
morto, / As flores florirão da mesma maneira", concluindo com a aceitação
do ciclo natural e do destino sem preferências ou lamentações ("O que for,
quando for, é que será o que é"). Você pode encontrar a letra completa do
poema na referência.

Nenhum comentário:
Postar um comentário