quarta-feira, 8 de abril de 2026

O MILAGRE DA QUARTA-FEIRA - POESIA DE ALBERTO ARAÚJO


 


Não me detenho nos arcos da história,

nem nas coroas que se desfazem em pó.

Os impérios desmoronam em silêncio,

como livros esquecidos em estantes frias.

A espada se rende à ferrugem,

e a métrica de ferro se abre em fenda,

enquanto o sol, impaciente, rasga a cortina

e derrama rios de luz pelo chão da sala.

 

A verdade de viver não é tese,

não repousa nos claustros da filosofia.

Ela vibra no sol doméstico do pão que doura,

na névoa de lembranças que sobe da xícara,

no milagre secreto de acordar e ser chamado à existência.

 

Esqueça o banimento. O exílio real

é não perceber o beijo da luz que insiste.

O amor não é vigília, não é peso,

é pássaro que nos leva em voo exato,

à certeza de que o dia, sim, floresce em nós.

 

O fim não é sombra, é claridade.

O instante é relâmpago, um trovão jubiloso.

Abrir a janela é rasgar o véu do mundo.

E lá fora, a vida, em sua glória simples,

proclama que o jasmim nunca foi tão doce.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





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