quinta-feira, 9 de abril de 2026

O OUTONO DE ÁGUAS CALMAS CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO - UM PRESENTE ESPECIAL A CONCITA CORDEIRO

 

A moldura da vida, em Niterói, costuma ter o contorno de uma folha de amendoeira. Quem caminha pelas areias da cidade, seja nas águas mansas da Baía ou no soco do mar aberto da Região Oceânica, sabe que o tempo não é marcado apenas pelo relógio. O tempo, aqui, é contado na transição cromática das "sete-copas". Quando o verde vibrante, quase insolente, decide que é hora de se entregar ao cobre, ao ocre e ao carmesim, a cidade respira de outro jeito. É o aviso silencioso de que a pressa pode esperar o barco aportar. 

A imagem que Concita Cordeiro nos compartilha extraída do Facebook Fotos de Niterói é um recorte de suspensão. É Niterói em estado de poesia pura, despida daquela urgência do cotidiano.

O primeiro plano nos abraça com a folhagem. As folhas da amendoeira, largas e generosas, funcionam como uma cortina que se abre para um espetáculo cotidiano, mas nunca repetitivo. Há uma transição de cores que parece um degradê pintado à mão pela brisa oceânica. Algumas folhas ainda sustentam o verde da esperança, enquanto outras já ardem no vermelho-fogo, prontas para o desapego. É a lição da natureza: para dar espaço ao novo, é preciso saber mudar de cor e cair com dignidade sobre a areia. 

Em Niterói, a amendoeira é a árvore-mãe da orla. Ela oferece a sombra necessária para o aposentado que lê o jornal, para o pescador que remenda a rede e para o amante que espera. Na foto, ela não apenas emoldura o cenário; ela o protege. Ela filtra a luz do sol, transformando o brilho ofuscante do meio-dia em uma claridade suave, quase filtrada por um celofane dourado. 

Ao fundo, o azul. Mas não é um azul qualquer. É o azul brilhante de Niterói. Um tom que carrega o reflexo da história e o balanço das marés que trazem e levam sonhos. Os barcos estão ali, imóveis, mas carregados de movimento latente. Estão ancorados na mansidão. Um pequeno barco a remo, solitário e escuro, parece flutuar sobre um espelho. Não há ondas agressivas, apenas a leve carícia da água na areia, aquela "marolinha" que faz o som de um segredo sendo contado ao pé do ouvido da praia. 

Olhar para esses barcos é pensar na paciência. O pescador niteroiense entende de um tempo que o morador da metrópole esqueceu. É o tempo da espera. Esperar o peixe, esperar a maré, esperar que o vento mude. No mundo dos algoritmos e da velocidade instantânea, essa imagem é um manifesto de resistência. É o luxo de não fazer nada, apenas ser parte da paisagem. 

A faixa de areia na parte inferior da imagem nos ancora na realidade. É uma areia batida, marcada por pequenos resquícios de conchas e da vida marinha. É o chão onde a gente pisa para lembrar que, por mais que a vista alcance o horizonte, nossos pés pertencem a este lugar. 

Niterói tem essa característica mística: ela é uma cidade que olha para fora, para o Rio, para o mar, para o infinito, mas que se sente completa dentro de si mesma. Quem nasce ou escolhe viver aqui desenvolve um olhar "concitiano", um olhar que busca a beleza no ângulo que ninguém mais viu. Na sombra que a árvore projeta sobre o casco de madeira, no reflexo distorcido de um mastro na água que parece uma pintura impressionista. 

A iluminação dessa fotografia não é apenas física; é emocional. É a luz de um final de tarde, ou de uma manhã muito serena em que tudo parece estar no seu devido lugar. Não há ruído visual. Não há o caos do trânsito da Roberto Silveira, não há a estridência das buzinas. Há apenas o silêncio visual de uma Niterói que se preserva em nichos de paz. 

Quantas vezes passamos por esse local e não vimos o que a Concita viu? A correria nos cega. O celular nos sequestra a atenção. Mas a fotografia tem esse poder de nos dar um "puxão de orelha" carinhoso: "Ei, olha como a sua cidade é bonita. Olha como o outono pintou aquela folha só para você reparar". 

Essa crônica visual nos lembra de que Niterói é feita de recortes. É o MAC de Niemeyer, sim, mas é também o barco de madeira desgastada. É a Ponte, sim, mas é também a amendoeira que insiste em florescer e morrer na beira da praia.

Ao compartilhar essa imagem, Concita não nos deu apenas um registro geográfico. Ela nos deu um estado de espírito. É o convite para sermos como esse pequeno barco: saber quando é hora de ficar parado, sentindo o balanço suave da vida, protegidos pela sombra de uma árvore amiga, enquanto o mundo lá fora insiste em girar rápido demais.

Niterói, capturada assim, entre o verde e o vermelho das folhas, entre o azul e o cinza das águas, não é apenas um lugar no mapa. É um suspiro de alívio. É a certeza de que, enquanto houver uma amendoeira e um barco no mar, haverá poesia para quem tiver olhos de ver. E que sorte a nossa, niteroienses de alma ou de certidão, de termos esse cenário como quintal. 

Crédito da foto: Facebook Fotos de Niterói

© Alberto Araújo





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