sábado, 18 de abril de 2026

ONDE O RIO BEIJA A POEIRA: MEMÓRIAS DA RUA DO FIO - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO - INSPIRADA EM FOTO COMPARTILHADA PELO ESCRITOR LUZILANDENSE JOÃO PINTO

 

A imagem, tingida pelos tons sépia do tempo, é mais que um registro fotográfico; é um portal. Quando meus olhos pousam naquela esquina da Casa Pescadora, em Luzilândia, não vejo apenas paredes de alvenaria e telhas de barro. Vejo o palco da minha existência, o cenário onde a vida se desenrolou entre o mormaço do Piauí e o frescor das águas do Velho Monge. Aquela é a Rua do Fio, a nossa Rua José de Melo, onde o horizonte parecia findar no pé de amêndoa da casa de Dona Olegária e Sr. Turíbio, pais da minha querida amiga de infância, Ana Sávia e onde a eternidade cabia no espaço de um entardecer. 

Na foto, a solidão da rua é visível, quase palpável. João Pinto, com a precisão de quem guarda a alma da cidade no bolso, descreveu o registro: um porco solitário cruzando o leito da via e a silhueta de Dona Bedeta, a avó de José Renato, caminhando talvez em direção à padaria dos Lisboa. Mas, para mim, aquela imagem é povoada por fantasmas barulhentos e queridos. Se eu fechar os olhos, consigo ouvir o som das vozes ecoando dentro daquela casa de nº 496, a umas cinco portas da esquina da Pescadora. 

Ali, sob o teto onde meu pai, Waldemir, e minha mãe, Maria, residiam com uma dignidade que conferia à casa a segurança de uma fortaleza, a vida pulsava em abundância. Era um lar nobre, não de posses, mas de afeto familiar transbordante. Éramos muitos, éramos um. Vejo as sombras de Sônia, Conceição, Adélia, Decy e Mica correndo pelos cômodos, preenchendo o ar com o riso da descoberta. Naquela casa, o nascimento era um rito de renovação; cada irmão que chegava trazia consigo um novo pedaço de esperança. Morávamos colados ao Hotel Santa Teresinha, de Teresinha Rocha, um marco de hospitalidade que emprestava à nossa rua um ar de passagem, de mundo que vinha e voltava, enquanto nós permanecíamos ali, fincados como as raízes da amendoeira. 

O despertar na Rua do Fio trazia consigo o ritmo dos trabalhadores e o movimento dos que buscavam a água barrenta e vital do Parnaíba. Mas a minha jornada de menino tinha outro sabor: o sabor da cana-de-açúcar. Lembro-me das incursões sob o sol a pino, acompanhado por Boinha, Careca e Cláudio, os filhos do saudoso Sr. Antônio Lisboa. 

Não éramos apenas vizinhos; éramos cúmplices na aventura de crescer. Ir cortar cana era um exercício de liberdade. O estalar dos colmos sendo quebrados, o caldo doce escorrendo pelas mãos sujas de terra e a algazarra que fazíamos pelo caminho são memórias que o tempo não consegue apagar. Nessas andanças, forjamos uma amizade que tinha a força do povo luzilandense. O Sr. Antônio, homem bondoso e de alma linda, era o pilar daquela padaria que alimentava o corpo e o espírito da rua. 

Ao seu lado, brilhava Dona Eliza Cordeiro, uma senhora adorável e cheia de alegria. Leitora voraz da Bíblia, ela era o nosso farol espiritual. Com uma paciência divina e um entusiasmo contagiante, ela nos transmitia os saberes sagrados, plantando sementes de fé e ética em nossos corações juvenis. Sua partida, ainda naquela época, deixou uma lacuna irreparável, mas suas palavras continuam a ecoar como um salmo suave em nossas lembranças. 

Caminhar pela Rua do Fio era navegar por uma geografia de laços profundos. A Casa Pescadora, de Durval e José Leite, foi minha segunda escola. Ali trabalhei por muitos anos, atravessando praticamente toda a minha mocidade. Era um tempo de aprendizado, de balcão e de gente. Os amigos daquela época, em sua maioria, já partiram para o "andar de cima", deixando um vazio que só é preenchido pela gratidão de ter partilhado a vida com eles. 

Ao lado, o Hotel Santa Teresinha era o epicentro da vida social. Teresinha, filha da saudosa Dona Socorro, a Dadá, comandava o lugar com maestria. Dali guardo a amizade preciosa com seus filhos, Cristina e Kilson. Com Cristina, dividi os bancos do colegial por muitos anos; uma parceria que nasceu na infância e que continua viva e pulsante até hoje, vencendo as décadas. 

A direção que Dona Bedeta toma na foto, em direção ao pé de figueira, representa o caminho de todos nós. O pé de figueira era o nosso ponto de convergência, a sombra generosa que acolhia as conversas e os segredos da juventude. Era o destino final para quem buscava o pão quente na padaria do Sr. Antônio Lisboa. Aquele aroma de pão, misturando-se ao cheiro da terra molhada pelas primeiras chuvas, é, para mim, o verdadeiro perfume da felicidade. 

Hoje, ao olhar para essa imagem compartilhada por João Pinto, um nobre companheiro da Rua do Fio, em seu perfil no Facebook, percebo que a Rua do Fio não é apenas um endereço; é um estado de espírito. Luzilândia mudou, o asfalto certamente silenciou o som dos passos de outrora, e as vozes de meus pais e de tantos amigos agora ecoam em uma dimensão sagrada. Mas a essência permanece intacta.

A Rua do Fio é o fio que tece a colcha da minha memória. É o lugar onde a inocência se transformou em juventude, onde aprendi o valor da família com Maria e Waldemir, e onde entendi que a vida é feita desses momentos simples: o corte da cana, o pão compartilhado e a amizade serena de uma vizinha ao entardecer. 

Esta crônica é o meu abraço demorado em cada tijolo da casa nº 496 e em cada alma que caminhou comigo. Somos feitos das ruas onde corremos descalços. E eu, com o coração transbordando saudade, sou eternamente um filho da Rua do Fio, guardião de memórias que teimam em não secar, tal como as águas do Parnaíba que continuam a correr, imponentes, em direção ao mar da eternidade. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




Nenhum comentário:

Postar um comentário