segunda-feira, 27 de abril de 2026

O ABRAÇO DE FOGO: ENTRE O POST E O ABISMO - CRÔNICA ENSAÍSTA DE © ALBERTO ARAÚJO - A MARINA ZARVOS

 

Nota do Autor: Este texto configura-se como uma réplica literária à postagem de Marina Zarvos. Ao resgatar a carta de Pessoa como eco à efeméride que publiquei, Marina permitiu que este pesquisador mergulhasse mais fundo no "abraço de fogo" que une os poetas e o Criador. 

A era digital possui delicadezas irônicas: verdades eternas costumam surgir em meio ao fluxo de notificações efêmeras. Foi em um desses momentos de "rolagem" distraída que meus olhos pararam em uma postagem de Marina Zarvos, no grupo da Rede Sem Fronteiras. O texto, denso e solene, destoava do imediatismo ruidoso das redes; era Fernando Pessoa debruçado sobre a morte de Mário de Sá-Carneiro. 

A escritora publicou o texto como uma réplica vibrante à efeméride que eu acabara de lançar, marcando os 110 anos do encantamento de Sá-Carneiro, no dia 26 de abril de 2026. A coincidência não foi casual; foi um chamado. Como pesquisador e eterno entusiasta do universo pessoano, senti o impacto familiar daquelas palavras, mas algo me impeliu a ir além do print de tela. 

Fui buscar a fonte original, o rastro de tinta que sobreviveu ao século para entender o peso real daquele tributo publicado na revista Athena, em 1924, oito anos após o fatídico suicídio de Sá-Carneiro em um hotel em Paris. O que Pessoa nos entrega ali não é um mero elogio fúnebre; é uma tese definitiva sobre a maldição de ser excepcional. 

Pessoa abre o texto evocando um preceito da sabedoria antiga: "Morre jovem o que os Deuses amam". Mas ele, o mestre do desdobramento, logo refina essa ideia. Para Pessoa, a morte não é apenas a cessação do pulso, mas o fim do "instinto natural com que se vive". 

Nesta perspectiva, Sá-Carneiro não morreu apenas quando ingeriu o veneno no Hotel Nice; ele já vinha "morrendo a vida" desde que a flor fatal do gênio desabrochou nele. O pesquisador que habita em mim não pode deixar de notar a crueldade desta lógica: os Deuses, ao amarem um homem, tornam-no seu par através da arte. Mas o homem, sendo finito, não suporta o peso da eternidade. O resultado é o que Pessoa chama de "doente da sua ficção". Sá-Carneiro era esse doente. Alguém que "fingia" mundos com tamanha intensidade que o mundo real tornou-se uma roupa apertada, um cenário cinzento e insuportável. 

A crônica de Pessoa estabelece uma hierarquia fascinante sobre como o divino toca o humano. O Herói: Recebe o auxílio dos Deuses por sorte. A luz não está nele, mas sobre ele. 

O Santo: É um cego por misericórdia. Os Deuses o poupam do sofrimento ao não deixarem que ele veja a operação do Destino.

O Gênio: Este é o único que os Deuses verdadeiramente amam. E, por isso, é o único que eles destroem. 

O amor dos Deuses, explica Pessoa, não é humano. Ele se manifesta como um "abraço de fogo". Ao dar ao gênio a sua própria essência, a capacidade de criar, os Deuses condenam o homem a ser um exilado permanente: "par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, exilado ao mesmo tempo em duas terras". 

Ao ler isso, compreendemos a angústia de Sá-Carneiro. Ele não pertencia a Lisboa, não pertencia a Paris, e certamente não pertencia ao cotidiano burocrático dos mortais. Ele habitava o interstício, o vácuo entre a criação e a criatura. 

A parte final do texto de Pessoa, resgatada pela postagem de Marina Zarvos, ganha contornos proféticos se lida em 2026. Pessoa lamenta que, para Sá-Carneiro, além da dor do gênio, houve o peso de ser um inovador. 

Ele compara o amigo a Cassandra, a profetisa que dizia verdades que todos tomavam por mentiras. Pessoa escreve sobre a "barbara terra" e sobre como "as plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande". É uma crítica feroz à mediocridade que, já em 1924, engolia o mundo. 

Pessoa diz que a glória, na modernidade, pertence aos "gladiadores e aos mimos". Em tempos de influenciadores e de busca frenética por curtidas, a frase ecoa com uma força assustadora. O circo, diz ele, alargou seus muros até os confins da terra. Para o gênio autêntico, resta apenas o isolamento ou a morte jovem. 

A citação de Catulo que abre a carta,  "Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!" (E para sempre, irmão, saudações e adeus) A famosa citação é o verso final do Carmen 101 do poeta romano Caio Valério Catulo, c. 84–54 a.C.. resume o sentimento de Pessoa. Ele sabia que Sá-Carneiro era o mais brilhante de sua geração, aquele que levou o "fingimento" poético às últimas consequências. 

Ao redigir esta crônica, movido pela provocação de um post em rede social, percebo que a pesquisa do original não foi apenas um exercício acadêmico, mas uma necessidade de resgate. Em um mundo que insiste no barulho, o silêncio de Sá-Carneiro e a análise cirúrgica de Pessoa nos lembram de que a arte não é um entretenimento, mas um "abraço de fogo" que, embora queime, é a única coisa que nos torna verdadeiramente pares dos Deuses.

Sá-Carneiro morreu jovem porque os Deuses o amaram demais. E nós, que ficamos, continuamos a ler seus escombros, tentando entender como alguém pôde ser tanto deus e tanto homem ao mesmo tempo. 

A verdade que Fernando Pessoa nos expele em sua crônica sobre Sá-Carneiro não é uma consolação, mas um diagnóstico implacável. Ao afirmar que o gênio é um "êxul em duas terras", Pessoa define a condição humana de quem se recusa a ser apenas um reflexo do seu tempo. Trazer essa verdade para o presente, para este 2026 onde a imagem precede a essência e o algoritmo dita a relevância, é confrontar o quanto nos tornamos eficientes em ignorar o "abraço de fogo" que Pessoa descreveu. 

Pessoa foi profético ao dizer que o circo romano havia se expandido para os confins da terra. Hoje, vivemos a apoteose dessa previsão. Se em 1924 ele lamentava que a glória pertencia aos "gladiadores e mimos", hoje assistimos à consagração do entretenimento vazio sobre a profundidade do espírito. A "maré morta" das plebes de todas as classes, que Pessoa menciona, manifesta-se agora na homogeneização do pensamento pelas redes sociais. Onde está o espaço para o inovador que, como Sá-Carneiro, traz verdades que todos têm por mentira?

O atual cenário é hostil àquilo que Pessoa chama de "privilégio como castigo". Ser genial, ou mesmo buscar a autenticidade radical, tornou-se um ato de resistência quase suicida. Em um mundo que exige a visibilidade constante, o "instinto natural" com que se vive, aquele que os Deuses tiram dos que amam, foi substituído por uma performance de vida. Morremos a vida não mais por excesso de espírito, como Sá-Carneiro, mas por excesso de fachada. 

A crônica nos ensina que o amor dos Deuses é isolamento. Ao pesquisar a fundo a carta que Marina Zarvos trouxe à tona no grupo da Rede Sem Fronteiras, percebemos que o sofrimento de Sá-Carneiro era a impossibilidade de ser compreendido por uma terra que lhe era "bárbara". 

Trazendo isso para o agora, percebemos uma ironia cruel: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil encontrar ressonância para o que é verdadeiramente profundo. O gênio atual não sofre apenas a indiferença, ele sofre o cancelamento ou o soterramento pelo volume de dados. A maldição de ser "par dos Deuses sendo homem" é, hoje, a angústia de carregar uma verdade eterna em um formato de quinze segundos. 

A conclusão definitiva de Pessoa é que Sá-Carneiro morreu porque era amado pelos Deuses, e esse amor se traduz na incapacidade de suportar a feiura e a ignorância universal. No contexto contemporâneo, essa lição serve como um alerta para a nossa saúde espiritual. Estamos sacrificando os nossos "gênios", as nossas capacidades criativas mais puras, no altar da produtividade e da aceitação social. 

O texto de Pessoa, resgatado do passado e jogado na nossa timeline, funciona como um choque de realidade. Ele nos lembra de que a arte não é um luxo, mas uma necessidade orgânica que pode, inclusive, consumir quem a produz. A verdade de Pessoa é que a vida, despida de transcendência, é apenas uma "morte vivida". 

Ao encerrarmos esta crônica, fica a provocação: quantos Sá-Carneiros estamos perdendo hoje para a "maré morta"? Quantas vezes os Deuses abraçam alguém com o seu fogo e nós, por estarmos distraídos com os gladiadores do circo digital, não percebemos a luz que se apaga? A carta de 1924 não é um adeus apenas a um poeta português; é um manifesto eterno contra a banalização da alma. Pessoa e Sá-Carneiro continuam vivos, não porque venceram o Destino, mas porque tiveram a coragem de ser "doentes de sua própria ficção" em um mundo que prefere a saúde anestesiada do senso comum. Que o "ave atque vale" de Pessoa nos inspire a buscar, entre as ruínas do que foi grande, os alicerces do que ainda pode vir a ser. 

Para além da literatura, das análises estéticas e do fado dos poetas, existe uma verdade que não se encerra no papel: a nossa conexão inalienável com o Senhor do Universo. Se Fernando Pessoa via no gênio um exilado entre dois mundos, a fé nos ensina que não precisamos viver como estrangeiros. Quando elevamos nossas reflexões para as "coisas do alto", como nos exorta a sabedoria espiritual, o peso da existência transfigura-se em propósito.

Nós, seres humanos, em nossa busca incessante por sentido, muitas vezes nos perdemos nos labirintos da intelectualidade ou nas dores da incompreensão mundana. Esquecemos que a palavra de Deus é o alicerce que permanece quando todas as outras vozes se calam. Colocar as reflexões sob a luz do Criador é entender que a nossa inteligência e a nossa sensibilidade não são fardos destinados ao sofrimento, mas dons para honrar Aquele que nos deu o sopro da vida. 

O amor a Deus deve ser o centro gravitacional de tudo o que somos. Independentemente da literatura, dos títulos ou das glórias humanas, que Pessoa tão bem descreveu como "fumo passageiro", o que realmente nos define é a capacidade de levar no coração a presença do Senhor. É nesse amor que encontramos o equilíbrio para sermos "par dos homens" sem nos perdermos na mediocridade, e "par do divino" sem sucumbirmos ao orgulho ou ao desespero. 

Ao olharmos para o "encantamento" de Sá-Carneiro e para a lucidez dolorida de Pessoa, compreendemos que o intelecto sozinho pode ser um abismo. Mas, quando ancoramos nossa alma nas promessas do Altíssimo, o abismo dá lugar ao horizonte. Que saibamos, acima de tudo, direcionar o nosso olhar para o alto, reconhecendo que a beleza que buscamos na arte é apenas um pálido reflexo da Glória Eterna. Que o nosso coração esteja sempre preenchido por esse Amor Soberano, pois só Ele é capaz de transformar o "abraço de fogo" da vida em uma luz que guia, acolhe e salva. 

Neste banquete da existência, onde as palavras humanas são o pão, o amor a Deus é o vinho da vida eterna a única força capaz de nos manter íntegros na travessia rumo ao Infinito. 

© Alberto Araújo

 

CRÔNICA DE FERNANDO PESSOA

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO  (1890-1916)

Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!

                                                                   CAT

 

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção. 

Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida. 

No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe estreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da mortalidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras. 

Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.

Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terrafuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.

 

1924

Textos de Crítica e de Intervenção. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1980. -149. 1ª publ. in “Athena”, nº 2. Lisboa: Nov. 1924.


Fernando Pessoa e Mario de Sá-Carneiro



Marina Zarvos






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