EDITORIAL: Nesta edição, compartilho com vocês uma reflexão que atravessa oceanos e toca o âmago do meu processo criativo. Parto de um encontro visual com o Monument al Llibre, em Barcelona, para abrir as portas do meu próprio refúgio: o meu escritório. Convido-os a mergulhar comigo neste "Pêndulo da Eternidade", um ensaio onde tento decifrar como a resistência do aço de Joan Brossa se funde à melodia das palavras que componho no silêncio do meu gabinete. É mais do que um texto sobre livros; é um convite para que conheçam o meu mundo e a minha forma de habitar o tempo.
APRESENTAÇÃO: O que você encontrará nestas páginas é o resultado de um diálogo que travei entre a arquitetura de Barcelona e a intimidade da minha mesa de trabalho em Niterói. Ao contemplar a resiliência do monumento de Joan Brossa, percebi que o meu escritório não é apenas um cômodo, mas um universo de equilíbrio. Neste ensaio, abro meu gabinete para mostrar como a música, a literatura e a vida acadêmica se entrelaçam na minha escrita. Proponho a você uma reflexão sobre o livro como um "tentetieso", aquele que, mesmo balançado pelas tempestades do mundo, insiste em permanecer de pé. Deixo aqui a minha assinatura e o meu convite: entre e sinta a ressonância das palavras que, como o aço inoxidável, buscam vencer o esquecimento.
_____________________
O PÊNDULO DA ETERNIDADE – ENSAIO SOBRE O GABINETE, A ESCRITA E A RESSONÂNCIA DO SER
I. A Geometria do Equilíbrio: O Monumento como Espelho
No coração pulsante de Barcelona, onde a Gran Via de les Corts Catalanes encontra o Passeig de Gràcia, repousa uma profecia de aço. O Monument al Llibre, de Joan Brossa, não é uma estrutura estática; é um poema visual que desafia a gravidade. O livro, entreaberto sobre uma semiesfera azul, evoca o tentetieso, o brinquedo que, por mais que seja golpeado pelo destino, recusa-se a permanecer caído.
Esta imagem ressoa com uma força telúrica para quem fez da palavra e da cultura o seu ofício. O livro ali exposto é uma metonímia da própria condição humana. A base azul representa o imenso e incerto mar da existência, e o livro, equilibrado em seu centro, é a bússola que nos permite navegar sem naufragar. Para mim, essa escultura não é um ponto turístico em um mapa europeu; é a representação física do que sinto ao cruzar o batente da porta do meu escritório. Ali, o mundo exterior se cala para que o universo interior possa, finalmente, falar.
II. O Gabinete: O Microcosmo da Alquimia
Se em Barcelona o monumento é público e urbano, no silêncio do meu refúgio ele se torna íntimo e sagrado. Meu escritório não é um local de trabalho no sentido burocrático; é um gabinete de curiosidades, um laboratório de alquimia onde a matéria-prima é o pensamento. É o meu "mundo", o território onde sou, simultaneamente, o explorador e a terra descoberta.
Neste espaço, o tempo assume uma cronologia distinta. Ao fechar a porta, o ruído das ruas de Niterói se desvanece. As estantes, carregadas de lombadas que guardam segredos seculares, formam as muralhas de uma fortaleza de papel. É neste microcosmo que componho. E a composição, aqui, é um ato de resistência. Em um mundo que exige pressa e superficialidade, o ato de sentar-se à mesa para tecer um texto ou organizar uma edição do "Focus Portal Cultural" é o meu modo de dizer que o livro, assim como o monumento, sempre volta a se endireitar.
III. A Melodia das Palavras: O Piano Invisível da Escrita
A ampliação deste ensaio exige que falemos da música que habita o silêncio. Como um jornalista que respira a cultura e um apreciador das harmonias clássicas, sei que a escrita é, em sua essência, uma forma de musicar o pensamento. Se o monumento de Brossa tem uma estrutura metálica, a minha escrita busca a estrutura de uma sonata ou a fluidez de um improviso de jazz.
Muitas vezes, enquanto componho minhas crônicas, sinto que as teclas do computador se transformam nas teclas de um piano. Existe um ritmo na frase, uma pausa necessária, o sustenido de uma exclamação, o bemol de uma reticência. Amo os livros porque eles são partituras de vidas alheias que eu aprendo a tocar com os olhos. No meu escritório, a presença da música não é apenas sonora; é estrutural. A harmonia que busco entre as estantes é a mesma que um mestre procura ao sentar-se diante de um Steinway: a nota exata que faz a alma vibrar.
IV. A Metamorfose da Matéria: Da Ferrugem à Imortalidade
A história da obra de Brossa nos ensina sobre a vulnerabilidade. Originalmente feito de ferro, o monumento sofreu a corrosão do tempo e do clima marítimo, exigindo uma restauração em aço inoxidável em 2002. Essa transição é uma metáfora poderosa para a trajetória de um escritor e jornalista.
Quantas vezes nossas ideias iniciais são feitas de um ferro bruto, suscetíveis à oxidação das críticas, do cansaço ou da desesperança? No entanto, a convivência diária com a literatura opera em nós uma restauração. O amor pelos livros é o que impede que o espírito oxide. No meu escritório, cercado por obras de Clarice Lispector, Nélida Piñon e tantos outros mestres que considero mentores silenciosos, eu me refaço em "aço". A cultura é o verniz que protege a memória contra o esquecimento. Cada página que leio é uma demão de resistência.
V. A Genealogia do Afeto: Placas na Calçada da Memória
Ao redor do monumento em Barcelona, placas de metal eternizam assinaturas de grandes escritores catalães. No pavimento do meu escritório, as placas são feitas de afeto e memória. Ali estão as presenças invisíveis daqueles que moldaram meu olhar: a erudição acadêmica das instituições que integro, a amizade dos amigos da Academia Fluminense de Letras, e o apoio constante da minha "musa", Shirley, cuja arte e poesia coloram os meus dias.
Amo os livros porque eles são o elo de uma corrente que não se quebra. Quando escrevo sobre a história da música, sobre a beleza da Praia de Icaraí ou sobre a força de um soneto, estou apenas adicionando a minha assinatura ao pé de uma página que começou a ser escrita séculos atrás. O meu escritório é o ponto de encontro entre o meu "eu" mais profundo e o "nós" da cultura universal.
VI. O Tentetieso da Alma
O Monument al Llibre termina onde a minha página em branco começa. Se o livro é um boneco que não cai, a nossa vontade de criar é a força que o empurra de volta para cima. O mundo pode tentar derrubar a cultura, pode tentar banalizar a escrita, mas enquanto houver um homem em seu escritório, cercado por seus livros e movido pela melodia interna das palavras, o equilíbrio será mantido.
Barcelona tem sua praça; eu tenho minha mesa. Barcelona tem o aço de Brossa; eu tenho a tinta da minha alma. E, no fim de cada dia de composição, olho para as minhas estantes e percebo que, como o monumento sobre a esfera azul, eu também me sinto flutuar, ancorado apenas pelo peso sagrado de um livro entreaberto. Porque no meu escritório, que é o meu mundo, o livro nunca cai. Ele apenas aguarda o próximo leitor, o próximo acorde, o próximo sonho.
© Alberto
Araújo
Focus Portal Cultural
_____________________
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
- Fontes sobre o Monumento e
Arte Urbana:
BROSSA,
Joan. Poemas Visuais. Barcelona: Edicions 62, 1994.
GRÊMIO DE
LIVREIROS DE ANTIGUIDADES DA CATALUNHA. História do Monument al Llibre.
Barcelona: Arquivo Histórico de Barcelona, 2026.
GOOGLE. Monument
al Llibre: História e Simbolismo. Pesquisa digital realizada em 2026.
- Influências Literárias e
Estilísticas:
LISPECTOR,
Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1973.
PIÑON,
Nélida. Livro das Horas. Rio de Janeiro: Record, 2012.
SERRANO,
Marne; LUCAS, Lícia. A Genealogia do Piano. Niterói: Edição dos Autores,
2010.
- Filosofia e Crítica
Cultural:
BENJAMIN,
Walter. Desempacotando minha biblioteca. In: Obras Escolhidas.
São Paulo: Brasiliense, 1987.
PORTAL CULTURAL, Focus. Arquivos e Crônicas de Niterói. Edição Dirigida por Alberto Araújo. Niterói, 2025-2026.
Nota do
Autor:¹ ¹ Este
ensaio configura-se como um "Diálogo Intertextual" entre a
arte urbana de Barcelona e a vivência literária fluminense. Através da análise
da obra Monument al Llibre, de Joan Brossa, o texto busca traçar um
paralelo fenomenológico entre a resiliência do objeto físico e a subjetividade
do espaço de criação, unindo a tradição catalã à sensibilidade contemporânea do
Rio de Janeiro.

_01.jpeg)


.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário